quinta-feira, 1 de novembro de 2012

entardecer na casa dos que já não são









































a casa dos mortos não tem telhado,
apenas muros e, todos os dias, ao anoitecer,
é o último vivo a sair  quem fecha a porta

às vezes recebe visitas que trazem flores
a sua garridice mancha de cores desordenadas, 
violentas, o mármore das lápides
perturbando a branca e alinhada geometria da pedra
por alguns dias

entardece agora
e um grande silêncio, muito sereno, paira sobre tudo
- até os gestos que compõem as jarras parecem mais lentos

a pressa não faz aqui sentido
pois o tempo dos mortos é a eternidade
e o silêncio a sua linguagem secreta

morrer não é ter de ficar calado para sempre
é, pelo contrário, já não ter que responder
a nada, nem a ninguém

2 comentários:

platero disse...

Bom poema

gosto muito

FM disse...

Obrigada, Platero.