sábado, 23 de janeiro de 2010

Sobre o ensino e a aprendizagem da língua

Em “O que falar quer dizer”, publicado em 1982, Pierre Bourdieu aborda a língua e a linguagem na perspectiva das ciências sociais, isto é, a língua como instrumento de (de)marcação social e de poder. Fala também daquilo que designa como “língua legítima” e que descreve assim: “é uma língua semiartificial que deve ser submetida por um trabalho permanente de correcção, o qual compete simultaneamente a instituições especialmente criadas para esse fim e aos falantes individuais. Por intermédio dos seus gramáticos, que fixam e codificam o uso legítimo, e dos seus mestres, que a impõem e inculcam através de numerosos acções de correcção, o sistema escolar tende, nesta matéria como noutras, a produzir a necessidade dos seus próprios serviços e dos seus próprios produtos, trabalho e instrumentos de correcção.” (p. 46)

Ainda a propósito da escola e da aprendizagem, escreve, na pág. 39, que “O custo de formação não é uma noção simples e socialmente neutra. Engloba – em grau variável segundo as tradições escolares, as épocas e as disciplinas – despesas que podem ultrapassar grandemente o mínimo «tecnicamente» exigível para assegurar a transmissão da competência propriamente dita (se é que é possível dar uma definição estritamente técnica da formação necessária e suficiente para cumprir uma função e da própria função...). Como exemplo de “uma boa medida do custo económico da formação”, o autor refere a duração da escolaridade, a qual “tende a ser valorizada em si mesma e independentemente do resultado que produz”, o que tem levado ao progressivo alongamento da permanência dos alunos na escola. Isto significa que, para nós, “a qualidade social da competência adquirida, que se marca (…) pela maneira de realizar os actos técnicos e de pôr em acção a competência, aparece como sendo indissociável da lentidão da aquisição, sendo os estudos curtos ou acelerados sempre suspeitos de deixar nos seus produtos as marcas da forçagem ou os estigmas da repescagem.”.

Bourdieu conclui o seu raciocínio dizendo que “este consumo ostentatório de aprendizagem (ou seja de tempo)” preenche “as funções sociais de legitimação, entra no valor socialmente atribuído a uma competência socialmente garantida”, ou seja, está implícito na certificação dos alunos no final do percurso escolar. Não é nada difícil transpor este “retrato” para a realidade actual do nosso ensino. Podemos até acrescentar ao “custo técnico” da formação o programa de modernização das escolas, agora em curso, uma vez que estão a ser gastos milhões em obras e equipamentos ultra-modernos: computadores, quadros interactivos, acessos à rede global e criação de redes internas, software didáctico avançado, novos laboratórios e salas de aula mais adequadas, etc.

Contudo, dez páginas à frente, Pierre Bourdieu escreve que “tal como a sociologia da cultura, a sociologia da linguagem é logicamente indissociável de uma sociologia da educação”. Por isso, considera que “o mercado escolar está estritamente dominado pelos produtos linguísticos da classe [social, cultural e politicamente] dominante e tende a sancionar as diferenças de capital preexistentes: o efeito acumulado de um fraco capital cultural e da fraca propensão para o seu aumento através do investimento escolar que lhe é correlativa, condena as classes mais desfavorecidas às sanções negativas do mercado escolar, ou seja, à eliminação ou à auto-eliminação precoce na sequência de um êxito fraco. Os desvios iniciais tendem, portanto, a ser reproduzidos”, já que “(…) os menos dotados e os menos aptos a aceitar e a adoptar a linguagem escolar”, são “também aqueles que menos tempo são expostos a esta linguagem e aos controlos, às correcções e às sanções escolares.” (p. 48)

Ora é justamente aqui que, para mim, continua a estar o grande busílis. Trinta e seis anos depois do 25 de Abril, depois de várias grandes “reformas” do sistema educativo, de tanta obra escrita em bom eduquês com receitas certeiras para resolver os problemas da educação, de tanto decreto alterado, acordado, (re)negociado e até, pasmemo-nos, repristinado, de tanta bordoada nos professores, verifico sem qualquer dificuldade que a “escola inclusiva”, a “escola para todos, a “mais escola e melhor escola”, a “escola de qualidade”, mais não é, afinal, do que demagogia com que entreter o povo à hora do telejornal.

É que, na verdade, lá bem no fundo do que é essencial, tudo continua na mesma, pois não há forma de a escola e os professores atenuarem o fosso social e cultural entre os mais desfavorecidos e os mais bafejados pela riqueza. E não há forma porque não é à escola que compete fazer tal coisa. É aos políticos que andam por aí a fingir que nos governam, enquanto nós fingimos que acreditamos ser governados por eles, que compete essa tarefa. Isso é que nenhum ministro ou ministra, de primeira, quinta, décima quinta ou sem nenhuma categoria, conseguiu fazer até hoje. Contra isso não há quadro interactivo nem software avançado que nos valha. Contra isso, infelizmente, não há professor, por melhor profissional que seja, que possa fazer grande coisa, nem que os alunos fiquem trinta anos na escola.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Posologia das palavras

No final dos anos setenta do século passado, quando eu frequentava o 8º ano de escolaridade, o professor de Físico-Química falou-nos um dia de “uma solução aquosa de ácido sulfúrico”, cuja utilidade já não recordo. Apenas guardei na memória esta designação porque ela gerou um equívoco que sempre considerei como exemplar. Quando, algum tempo depois, a matéria foi testada, um colega de turma respondeu assim à pergunta: “solução asquerosa de ácido sulfúrico”. Claro que o aluno desconhecia o significado das duas palavras e, por isso, tinha sido induzido em erro por uma certa proximidade fonética (aquoso e asqueroso).

Na semana seguinte, quando o teste nos foi entregue, o aluno deparou com um comentário que o professor tinha escrito junto à resposta: “asqueroso é você!!”. Genuinamente surpreendido, não conseguia perceber o porquê daquela expressão que lhe era dirigida, e sentia-se até melindrado com o professor por pressentir que aquilo não era muito abonatório.

Como era um aluno bastante razoável na disciplina, encheu-se de coragem para levantar o braço e perguntar ao professor o que é que queria dizer com aquela expressão. De imediato, a turma rompeu num coro de sonoras gargalhadas. Nem o professor escapou ao contágio. Já não recordo do nome do colega, mas lembro-me bem do rosto ruborizado, de olhos muito brilhantes, zangado à espera que o silêncio voltasse e que alguém lhe explicasse finalmente o que raio se passava. O professor – no intervalo das várias interrupções que ainda teve que fazer para mandar calar os que continuavam na risota - lá explicou então onde é que estava o problema e esclareceu o significado das duas palavras em causa.

Hoje, sem querer, lembrei-me desta pequena história, na aula do oitavo ano, enquanto andava pela sala numa espécie de bailado descoordenado ao som do refrão “ó professora, venha cá” para ajudar os alunos a resolver exercícios sobre as funções sintácticas. A Alice, uma das alunas mais aplicadas da turma, diz-me que não consegue encontrar o predicativo do sujeito numa das frases. Peço-lhe para verificar no caderno a breve lista exemplificativa de verbos copulativos que requerem predicativo do sujeito: ser, estar, parecer, ficar, tornar-se, relevante. Num primeiro momento até eu fiquei confusa, e só quando reli todo o parágrafo é que percebi que tinha confundido revelar-se com relevante e, por isso, algures, algo não batia certo.

Às vezes penso que, tal como acontece com os medicamentos, também as palavras deviam vir acompanhadas de uma “posologia”, do tipo: usar com precaução e, ao primeiro sintoma de mau entendimento ou de mal-estar, contacte rapidamente o dicionário ou o prontuário mais perto de si.

Proverbiais e aforísticas

Não as vi, mas ouvi hoje as primeiras andorinhas do ano. Porém, como o sol está um tanto envergonhado, é caso para dizer:

Por chegar uma andorinha, não começa (ainda) a Primavera.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Associações

Temos tendência a associar a palavra sonho a uma ideia de leveza e a palavra pesadelo a uma noção de peso que, aliás, integra o próprio vocábulo.

Contudo, não é assim tão literal: perseguir durante toda uma vida os pequenos e grandes sonhos que dão coerência e sentido à própria existência mas que, pelas mais diversas vicissitudes, não conseguimos concretizar, também se pode ser bem pesado. Os sonhos estilhaçados ou não cumpridos que carregamos dentro de nós podem ser mesmo um verdadeiro pesadelo.


Por um fio...

Na agitação dos dias que vou percorrendo a correr (a fugir?), tenho muitas vezes a sensação de que tudo fica "por um fio", no sentido de que tudo está no limite de qualquer coisa que, afinal, não chega a acontecer. Nem sempre é fácil o confronto com esta sucessão de "quase acontecidos" que vão esvaziando a vida de sentido e de objectivos.

É por isso que admiro muito a coragem dos que ousam viver "por um fio", correndo riscos, sem medo de arranhões ou feridas, sempre prontos a partir rumo a qualquer outra coisa, desde que não seja "mais do mesmo". Sei também que este modo de vida não é para mim, falta-me o principal requisito - a coragem - ou, como Laurie Anderson, tão bem sintetiza na canção Life on a String:

Some people know exactly where
they're going
The pilgrims to Mecca
The climbers to the mountaintop
But me I'm looking
For just a single moment
So I can slip through time


Observ. Claro está que aqui, "string" também é a corda do instrumento com que se (en)canta a vida.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Divagações

A propósito da obra de António Feijó escreve Álvaro Manuel Machado que “na sua preocupação constante de bem versejar, com elevado aprumo artístico, cultiva todos os géneros e exprime todos os matizes poéticos (…), sem dissonâncias de maior e com minúcia de hábil joalheiro, a partir de princípios básicos parnasianos”. Já sobre “Sol de Inverno”, verdadeira “obra de síntese”, afirma que, “sem retórica digressiva”, “com um dramatismo mais contido e por vezes irónico”, constitui uma verdadeira “depuração lírica”, “no interior do processo de evolução do parnasianismo e do decandentismo para o imaginário simbólico”:

O Amor e o Tempo (Christopulos)
Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegra companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

- «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento…
- «Porque voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» - Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
- «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo… Adeus! Adeus!
 In Sol de Inverno

Diz depois Álvaro Manuel Machado que Feijó escreveu  “sem a máscara da impassibilidade parnasiana” e, sobretudo, “sem o confessionalismo grandiloquente e vulgar herdado do romantismo na sua fase de degenerescência sentimentalista”. É uma poesia feita de “imagens de subtil sugestão” e, por vezes, de uma ironia quase realista:

É filha dum alfaiate
A melindrosa flor a quem eu hoje adoro!
- Faces vermelhas, cor de tomate,
Cabelos de oiro!
Que importa a profissão se o nosso amor se inflama?

Toda a mulher é flor divina,
Quer ela seja, para quem ama,
Tricana, engomadeira ou tsarina.
Esta minha paixão principiou a arder
Por causa dum colete de ramagens…
Quem sabe onde o diabo as vai tecer
Se mesmo num colete, além de bolsos, há voragens?!”
In Urbana

Na confluência das várias tendências literárias que marcaram o final do séc. XIX – (ultra)-romantismo, parnasianismo, decadentismo e simbolismo –, a poesia de António Feijó não é apenas bela no conteúdo e na forma, mas também “inesperadamente actual” (Álvaro Manuel Machado, in Introdução Bibliográfica a “Sol de Inverno”). Ou ainda, revertendo em favor do próprio poeta as palavras que dirigiu ao amigo Júlio Lemos, se pode dizer que “sem preocupações de modernismos, de escolas ou de mestres, deixe-nos ouvir em boas páginas de prosa a canção da sua alma, como dizia um certo inglês de génio chamado William. A literatura portuguesa apodrece numa estrumeira de versos. Plante nela a tulipa esbelta e azul da sua fantasia (…). Mas lembre-se de que só a Beleza é indestrutível e que a moda passa com a estação…” (excerto de carta datada de “Ursa Maior, 6 de Julho de 1897”, a propósito da publicação de Ilha dos Amores).

O Livro da Vida
Absorto, o Sábio antigo, estranho a tudo, lia…
- Lia o «Livro da Vida» - herança inesperada,
Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
Ao primeiro clarão da primeira alvorada.

Perto dele caminha, em ruidoso tumulto,
Todo o humano tropel num clamor ululando,
Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.
(…)
Cada página abrange um estádio da Vida,
Cujo eterno segredo e alcance transcendente
Ele tenta arrancar da folha percorrida,
Como de mina obscura a pedra refulgente.
(…)
Nesse eterno cismar, nada vê, nada escuta:
Nem o tempo a dobrar os seus anos mais belos,
Nem o humano sofrer, que outras alma enluta,
Nem a neve do Inverno a pratear-lhe os cabelos!

Só depois de voltada a folha derradeira,
Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado,
É que o Sábio entreviu, como numa clareira,
A luz que iluminou todo o caminho andado…

 Juventude, manhãs de Abril, bocas floridas,
Amor, vozes do Lar, estos do Sentimento,
Tudo viu num relance em imagens perdidas,
Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.

Mas então, lamentando o seu estéril zelo,
Quando viu, a essa luz que um instante brilhou,
Como o Livro era bom, como era bom relê-lo,
Sobre ele, para sempre, os seus olhos cerrou... 
In Sol de Inverno

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A modernização empresarial em três andamentos

1º Andamento: cliente iludido

 O pacato cidadão verifica com pesar que não consegue aceder à internet, pois o o seu modem jaz inerte. Carrega em vários botões, liga e desliga fios, confirma a alimentação electrica e nada. Decide ligar para um número dito de “assistência técnica 24 horas por dia” que, no papel, até soa bem. O problema começa logo após a marcação do dito. De imediato, arranca um sistema de atendimento automático que nos dá as boas vindas e começa a debitar opções: para activações prima 2, para facturação prima 3, para... Para mim, o melhor de tudo, é que no fim desta exaustiva lista, ainda nos dão a hipótese de sermos atendidos por um operador que fala inglês. Yesss! Quem for inexperiente nestas andanças julgará que, ao escolher uma destas opções, poderá finalmente desabafar os seus pesares com alguém. Só que não é bem assim. Ainda temos que premir mais umas quantas teclas até que, quando já começamos a duvidar de nós próprios, e quase por milagre, se ouve uma voz humana do outro lado da linha.

2º Andamento: cliente aturdido

 Ouvimos então, a um ritmo de verdadeira rajada verbal, algo como “bomdia,estáafalarcom .... emquepodemosajudá-lo”. E aqui, claro, voltamos a cair no logro da nossa boa fé, ao julgarmos que alguém da empresa de comunicações está realmente interessado em resolver o nosso problema o mais breve possível. Começamos a contar as nossas desventuras tecnológicas com detalhe, pensando que todos os pormenores podem ser relevantes e somos, de imediato, interrompidos por uma pergunta seca do tipo “pode dizer-me o seu nome, por favor?”. A partir daí somos sempre tratados muito formalmente por “Sra. Y”. Claro está que a inesperada interrupção nos deixa um tanto atordoados e perdemos o rumo às ideias e a sequência da dramática história. E é neste preciso instante que a situação se torna ainda pior, pois tem início um longo interrogatório que começa mais ou menos assim: “diga-me por favor, Sra. Y, se as luzes do modem estão ligadas e ou intermitentes, ou se estão a piscar a verde ou a laranja.”. (O problema é que, eu tinha começado logo por informar que o modem estava como morto.) E lá continua: “Já reiniciou?” (Ora eu tinha dito logo a seguir que nem sequer iniciava, como é que podia reiniciar?) Logo depois: “dê-me só uns minutos para verificar se tem ligação adsl a funcionar, por favor, não desligue o telefone”. Passados alguns minutos, que mais parecem uma eternidade (ainda por cima com uma música pirosa a escavacar-me os ouvidos): “obrigada, Sra. Y por ter aguardado enquanto fizemos o teste à sua linha, de facto, está activa.” E por aí fora, até que, esgotadas todas as hipótese do manual, a operadora reconhece que também não consegue resolver a situação e informa que vai passar a chamada a um colega da 'equipa técnica'. É então que voltamos ao princípio. Temos que repetir tudo de novo, excepto o nosso nome, o qual parece ser a única informação que o sistema de triagem foi capaz de registar. Chegados a este ponto, o cliente já se sente um tanto ou quanto estúpido e começa a questionar-se sobre a utilidade prática de tão alongado telefonema.

3º Andamento: cliente despachado

 O segndo operador, depois de ouvir toda a história pacientemente recontada (mais uma vez) e de fazer todos os testes que a colega anterior já fizera conclui que, afinal, também ele não é capaz de identificar a natureza do problema. E informa-nos, num tom algo agastado, que vai passar a chamada a um terceiro colega que, claro está, do nosso probema, só sabe que nos chamamos “Sra. Y” e, por isso, é preciso repetir pela terceira vez todos os passos do nosso drama tecnológico. Depois de fazer novamente todos os testes já realizados pelos seus antecessores e de chegar a idêntico resultado o técnico sugere-me que experimente o equipamento numa outra linha ou, em alternativa, experimente outro equipamento na linha. Embora ofuscada pelo brilho fulgurante desta ideia, atrevi-me ainda a perguntar onde é que ele sugeria que eu fosse arranjar idêntico equipamento, ou a tal outra linha para fazer a experiência. Segue-se uma pausa na conversa e ouço um suspiro, como de quem, já com as forças esgotadas por tão longa batalha, está prestes a capitular. Neste preciso instante, faz-se luz na minha cabeça: na loja, claro! O que resolveria o meu problema, e de vez, era um novo modem adquirido numa loja da especialidade!
 
Resolução dos problemas técnicos à parte, a grande lição a retirar desta história é outra e bem distinta. Percebi finalmente o que é, e como funciona uma “empresa moderna”: é a que, por todos os meios necessários, consegue convencer os seus clientes de que a única solução para qualquer avaria ou problema técnico é... adquirir um novo equipamento. Evitam-se chatices, contribui-se para aumentar as taxas de consumo interno e melhorar os indicadores económicos. É a que, com tal estratégia, promove também a permanente actualização tecnológica dos ditos clientes e garante ainda um excelente nível de satisfação pelos serviços técnicos prestados (afinal, com um equipamento novinho em folha, as hipóteses de haver avarias são bem menores). Por outro lado, como são empresas sem rosto - não falamos verdadeiramente com ninguém, e muito menos com alguém credível enquanto interlocutor – se ao cliente insatisfeito ou frustrado lhe apetecer ir reclamar de alguma também não pode, nem sabe como. A empresa tem sede num sítio e atende os sempre problemáticos clientes em call centers que ninguém sabe muito bem onde ficam. Poupa-se assim muito dinheiro à empresa, claro está. E, a julgar pelo número de empresas que, no nosso país, vai seguindo por esta via, acho que a modernização e a racionalização do tecido empresarial devem estar a dar passos largos. Só não percebi ainda é em direcção exactamente a quê? (e não sei se gostarei da resposta).

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O secreto diálogo do desejo

Na dança, como na vida, quando o corpo envolvido no outro corpo já não permite distinguir quem é o fio e quem é o fuso pode então iniciar-se o secreto diálogo do desejo.


Foto do bailarino Joaquin Cortés
(autoria desconhecida) 

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Segredo, Maria Teresa Horta

Proverbiais e aforísticas

Quem tem dentro de si a poesia, dispensa até a ortografia.


domingo, 17 de janeiro de 2010

Prelecção de São Valentim(?) para aviso dos incautos e diversão dos demais

Já perto do meu destino, as obras na estrada forçam-me a parar. Olho de forma casual para a direita e vejo sentada junto à fonte dita “do Imperador” uma figura de ar cansado e gasto, vestida com estranhas roupas, que falava sozinha em tom muito alto e solene, como se pregasse a uma multidão que, por ocultas razões, permanecesse invisível a todos os olhos menos aos seus. Personagem e cena eram simultaneamente familiares e anacrónicas. Intrigada, baixo o vidro do carro e tento ouvir o que diz:

Duas coisas há nas lides do amor e da paixão causadoras de grandes males e tristezas no coração das gentes. A primeira dá-se quando as relações entre as pessoas se assemelham à clara e à gema dentro da casca do ovo. Assim juntas, confinadas num espaço comum, às vezes por toda uma vida, podem-se cozer, podem-se escalfar, podem-se estrelar, podem-se mesmo fritar mas, qualquer que seja a preparação, bem distintas serão sempre aquela clara e aquela gema: cores diferentes, texturas distintas e sabores bem diversos apresentam ambas. Assim são, muitas vezes, as relações amorosas e grande sofrimento resulta disto, para os próprios e para os que com eles têm a sina de partilhar a caminhada da vida. “Omnia vincit amor”, dizia Virgílio nas suas Bucólicas mas, para isso, há que misturar a gema com a clara e fazer o que se costuma designar por mexidos. Só que este é um preparado com requisitos muito especiais. Para resultar bem exige generosidade, cumplicidade, confiança em si e no outro e, sobretudo, que se goste muito, muito, muito, mas mesmo muito, todos os dias. Requer que se saiba apreciar os dias de sol, aceitar os dias de penumbra e iluminar os momentos mais sombrios. Logo por aqui se vê que é prato que nem todos sabem, querem ou podem fazer. Sobretudo, porque não se trata de a gema ou de a clara abdicarem da sua verdadeira natureza e individualidade em favor do outro, mas, sim, de se unirem para criar um manjar novo, mais complexo e, por isso também, mais saboroso e digno de apreciação.

Neste preciso momento apercebo-me de que os carros à minha frente começam a andar, pois o sinaleiro agitava já o sinal verde. Num impulso, abro o pisca e encosto à berma para continuar a ouvir...

A segunda coisa que tantas vezes ensombra os corações envolvidos numa relação é haver uma pessoa que encara a outra como se de uma folha de papel se tratasse. Arranja-se uma folha em branco e nela se vai escrevendo, escrevendo e, quando já está totalmente preenchida, logo deixa de ter interesse ou utilidade. Seja por comodismo, por preguiça, por simples hábito ou por nenhuma razão em especial, deixa-se ficar em cima da mesa durante um certo tempo. Julga a folha de si para si que, afinal, talvez contenha alguma coisa que valha a pena guardar ou que, talvez, ainda tenha alguma misteriosa utilidade. E depois, um belo dia, vê-se violentamente agarrada, num acesso de raiva, amarfanhada nas mãos e lançada para o cesto dos papéis. Percebe-se então que a folha, embora tivesse permanecido durante todo aquele tempo em cima da mesa, na prática, era como se já estivesse há muito a encher o cesto dos papéis: só faltava o acto derradeiro. Mais fulgurante que a anterior é esta segunda causa de ensombramento dos corações humanos, embora menos duradoura. Por isso, atentai: um amor grande que acalente a alma e aqueça os olhos até os deixar brilhantes é dado a muito poucos e só em raras ocasiões! Para perceberdes quando tão raro caso está na vossa frente é imprescindível ter os olhos do coração bem abertos e, para conseguir agarrá-lo antes que se escape, é imperativo ter os olhos do espírito muito sagazes. Exige ainda que se tenha a coragem de viver todos os dias, e não apenas de vez em quando...

Embora a figura continuasse a sua prelecção, para mim, era tempo de partir pois tinha que ir dar uma aula ao 8º A, turma que, pegando nas palavras do orador, é capaz de fazer omoletes sem um único ovo. Fiz então o resto do percurso a pensar na identidade daquela personagem: tinha estranhas parecenças com São Valentim, mas, no mês de janeiro? Seria esta a razão da sensação de anacronismo que me tinha invadido desde o início? Certo é que, durante o resto do dia, a desconhecida figura e as palavras que lhe ouvi não me sairam da cabeça.

Inquietações

Suponho que, em certos momentos, tudo é mais fácil para quem conseguiu manter intacta a Fé. Há coisas que se explicam de uma outra forma, que se encaram com um olhar diferente e, sobretudo, que se aceitam mais facilmente. Para quem, em águas agitadas não pode lançar mão a este tronco e manter-se à tona, restam poucas alternativas. Uma delas, seria acreditar no Homem e no seu Humanismo. Porém, olhando a sociedade humana à nossa volta, como acreditar em tal utopia?

Para esta questão ando eu à procura de resposta, mas já só consigo acreditar em alguns (poucos, cada vez menos) seres individuais, homens e mulheres, iguais a todos nós, com virtudes e defeitos. Contudo, diferentes, porque arranjam forças e coragem para tentar, através daquilo que fazem,  mudar a mentalidade das pessoas ou aliviar por alguns momentos o sofrimento de uns quantos desafortunados, não se limitando apenas a bonitas, sentidas e vãs palavras,. Provavelmente é mais à Fé do que ao espírito humanista que muitos deles vão buscar o que é necessário para conseguirem fazer isso e, para mim, não deixa de haver aqui uma certa ironia.

Em muitos dos outros, dos que já não têm Fé, nem conseguem acreditar no Homem, verifico que lhes resta apenas a desconfiança, a inveja, o julgamento ligeiro que rotula tudo e todos indiscriminadamente. São os que, por palavras, acções e sentimentos, incensam diariamente a Mesquinhez, essa grande deusa dos tempos que vivemos, e não conseguem perceber depois por que razão, afinal, se sentem sós.

Tentando juntar tudo isto: não sendo pela Fé, nem pelo Humanismo, só posso esperar que seja pela via da lucidez que eu consiga discernir o exacto momento em que, se nada fizer, é também já a Mesquinhez que estarei a idolatrar e que, depois, tenha ainda em mim as forças necessárias para poder arrepiar caminho.

E se Deus fosse, afinal, one of us
Just a slob like one of us
Just a stranger on the bus
Trying to make his way home
Back up to heaven all alone
Nobody calling on the phone
Except for the pope maybe in rome...
tal como na canção de Joan Osborne?

Seríamos melhores pessoas se soubéssemos que só podíamos contar connosco e com os que são como nós?


sábado, 16 de janeiro de 2010

Improvável blogodiálogo

Neste espaço de todos os possíveis, assim como quem está sentado numa esplanada de verão à conversa com amigos, alguém pergunta para que servem a poesia e os livros. Interrogação quase tão antiga como a própria escrita, já respondida milhares de vezes, mas sempre em renovada inquietação.

De imediato, Julián Carax reproduz uma frase que tinha lido há pouco tempo no livro A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón e que nunca mais esquecera: “Os livros são espelhos: só se vê neles o que a pessoa tem dentro.”.

Logo depois, Mario Jiménez, que tinha conhecido e convivido com Pablo Neruda, quando diariamente lhe entregava o correio na Ilha Negra, contou que, numa das suas muitas conversas sobre o que era e como se fazia poesia, o chileno lhe havia dito uma coisa que ele também nunca mais tinha esquecido: “A poesia não é de quem a escreve, mas de quem a usa.”

José Fanha, que bebia sossegadamente o seu café, diz então que, para ele, a poesia é fundamental, porque “agarrados a um verso podemos sobreviver às intempéries da vida”. Acha até que a melhor prenda que se pode dar a alguém é um verso que possa confortar, como um amigo verdadeiro.

É agora a minha vez de falar e faltam-me as palavras exactas. Contudo, digo que, para mim, o mais fascinante é a capacidade que os poetas têm de dizer exactamente aquilo que eu também já senti, mas que sou incapaz de traduzir em palavras. Acrescento que, como leitora, sinto sempre uma grande emoção quando encontro pedaços de mim nos textos e nos livros que vou lendo. É por isso que me aproprio tantas vezes das palavras alheias e as faço também minhas. São elas que me ajudam a suportar e a superar muitos dias difíceis.

Carax sugere logo ali que brindemos à poesia e aos livros por onde os pedaços da nossa alma andam dispersos, mas não perdidos, na esperança de que um dia sejamos sábios o suficiente para conseguir refazer o puzzle do nosso ser. Essa será a mais inesquecível de todas as histórias, o mais belo de todos os poemas.

No centro da mesa os copos tilintam em uníssono e, por alguns instantes, cada um fica a sós com os seus pensamentos…

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Metaforização

Sobre as mulheres Herberto Helder diz que
“...têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.
Ela sobe dos pés e atravessa
a carne quebrada.
Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus –
e mistura-se nas águas,
no sonho da cabeça.
As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho para espinho,
param de nó em nó.
As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.(...)”
In Lugar/III


Sobre mim digo que cumpri hoje mais uma etapa – a derradeira - de preparação do canteiro. Agora só falta chegar o jardineiro e, com o bisturi, podar a assombrada roseira fria espalhada no ventre. Assim, quando a onda dolorosa e ardente das semanas me tiver passado por cima, espero poder cobrir-me novamente de folhas verdes.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Uma pergunta, duas respostas

O Amor é cego, porquê?

 
Imagem retirada de Barros de Estremoz
de Joaquim Vermelho

 A resposta literal dirá que O Amor é cego é um dos bonecos mais curiosos da barrística popular de Estremoz. Não é mais do que a representação simbólica da figura mitológica de Eros ou Cupido: porte garboso, com a aljava das setas incendiárias junto ao peito (curiosamente em forma de coração para reforçar a ideia de que simboliza o enamoramento) e de olhos vendados para melhor acertar no alvo (ou talvez não).

Uma outra resposta, bem mais dramática e subtil, poderia ser esta Fábula Antiga de António Feijó:

No princípio do mundo o Amor não era cego;
Via mesmo através da escuridão cerrada
Com pupilas de Lince em olhos de Morcego.

Mas um dia, brincando, a Demência, irritada,
Num ímpeto de fúria os seus olhos vazou;
Foi a Demência logo às feras condenada,

Mas Júpiter, sorrindo, a pena comutou.
A Demência ficou apenas obrigada
A acompanhar o Amor, visto que ela o cegou,

Como um pobre que leva um cego pela estrada.
Unidos desde então por invisíveis laços,
Quando o Amor empreende a mais simples jornada,
Vai a Demência adiante a conduzir-lhe os passos.

in Sol de Inverno, 1922

Proverbiais e aforísticas

Das notícias que fazem a abertura dos telejornais por estes dias...


O que é natural e fica bem é cada um poder amar como mais lhe convém.

Quando à Terra apetece sacudir o dorso, enterra milhares sem qualquer remorso.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Quem sabe para onde vai o tempo?

Em 1969, Sandy Denny e os Fairport Convention gravavam uma das mais extraordinárias canções de sempre, intitulada Who knows where the time goes?



Vem isto a propósito das muitas vezes que ouço dizer a pessoas de gerações diferentes que o tempo “passa cada vez mais depressa”. Dias, semanas, meses e anos sucedem-se agora a um ritmo muito mais rápido do que há algum tempo atrás. Às vezes parece mesmo que andamos a correr atrás de um tempo que nos escapa sempre e chegamos ao fim do dia cansados e insatisfeitos porque, apesar da correria constante, não fizemos nem metade do que pretendíamos. É uma simples percepção do senso comum mas que, curiosamente, até os mais jovens referem com alguma frequência.

Ora, numa dessas mensagens de e-mail que circulam aí por meio mundo, recebi uma explicação para este fenómeno. Ignoro se terá fundamentos científicos sólidos ou se é apenas verosímil. Achei-a sobretudo curiosa porque encaixa nesta percepção tão generalizada de que o tempo está a passar mais depressa que o habitual.

Chama-se “teoria de Schumann” e diz que, em 1952, o físico alemão que lhe deu o nome verificou que a Terra está cercada por um campo electromagnético situado a cerca de cem quilómetros da superfície do planeta, o qual possui uma frequência mais ou menos constante de 7,83 hertz (pulsações por segundo) e funciona como um verdadeiro metrónomo da biosfera. Concluiu ainda Schumann que todos os seres vivos e sistemas ecológicos funcionam nesta frequência biológica - espécie de biorritmo natural - incluindo o nosso próprio cérebro. Ao que parece, as viagens espaciais comprovaram esta teoria, pois quando os astronautas ficavam fora do seu alcance adoeciam e, quando submetidos à acção de um simulador desta mesma frequência electromagnética recuperavam a saúde.

Parece também que, desde a década de 80 do século passado, que os valores desta frequência de Schumann têm vindo a subir e já estão agora perto dos 13 hertz. Segundo esta teoria é como se a frequência cardíaca da Terra estivesse demasiado alta, provocando assim os desequilíbrios ecológicos que temos vindo a sentir nos últimos anos: maior actividade sísmica e vulcânica, aumento das tensões e conflitos no mundo, maior frequência de comportamentos desviantes nas pessoas e nos próprios animais. Com esta aceleração do ritmo da frequência de Schumann, as 24 horas do dia acabam por representar apenas 16 horas de tempo útil. A tal sensação generalizada de que o tempo está a passar demasiado rápido ficaria assim explicada.

Teorias mais ou menos científicas à parte, certo é que o superorganismo vivo que é a Terra está desequilibrado e doente. Se ela vai reencontrar ou não o equilíbrio perdido, se o vai fazer com a nossa ajuda ou sem ela, é ainda cedo para se saber. Por isso, a poética interrogação de Sandy Denny, feita há já quarenta anos, mantém toda a sua pertinência e beleza:

And I am not alone
While my love is near me.
I know it will be so,
Until it's time to go.
So come the storms of winter
And then the birds in spring again,
I have no fear of time,
For who knows how my love grows?
And who knows where the time goes?

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Há rir e rir

Em O Riso, publicado em 1900, Henri Bergson explicava o que entendia pela clássica expressão ridendo castigat mores: “O riso é, antes de tudo uma correcção. Feito para humilhar, deve é dar à pessoa que é objecto dele uma impressão penosa. (...) Não atingiria o seu fim se trouxesse a marca da simpatia ou da bondade. (...) O riso castiga certos excessos, apanhando inocentes, poupando culpados, a cada caso individual (...)”. Mais à frente, o filósofo completa esta ideia ao acrescentar que “Assim acontece em tudo o que se realiza por vias naturais em lugar de se realizar por reflexão consciente. Uma média de justiça poderá surgir no resultado de conjunto mas não no pormenor dos casos particulares. Nesse sentido, o riso não pode ser absolutamente justo. E repetimos, também não pode conter bondade. Ele tem uma função, intimidar, humilhando.”

No início do séc. XX Bergson acreditava, de facto, na capacidade evolutiva do intelecto humano e, por isso, achava que “... a sociedade, à medida que se vai aperfeiçoando, obtém dos seus membros uma capacidade de adaptação cada vez maior que tende a equilibrar-se cada vez melhor...”, ou seja, que os homens seriam capazes de substituir um riso meramente humilhante e castigador, puro rebaixamento da condição humana, por uma forma superior de expressão crítica que se manifestaria através do humor, do sarcasmo e da ironia. Ou como Lídia Jorge escreveu num artigo publicado há muito no Jornal de Letras (9/3/93), à medida que a humanidade fosse evoluindo  “A velha fórmula de rindo, castigam-se os costumes, teria sido substituída por alguma coisa aproximada dum rindo, conquista-se a inteligência.

Passado mais de um século sobre as palavras de Bergson verifica-se contudo que  os avanços da nossa cada vez mais tecnológica sociedade  são proporcionais, em muitos aspectos, à regressão da sua humanidade e inteligência. Talvez seja por isso que temos também cada vez menos verdadeiro sentido de humor e caímos com frequência em atitudes antagónicas: por um lado o riso imbecil, bacoco e vulgar que nada tem a ver com a verdadeira alegria e, por outro, a incompreensão ou a rejeição do lúdico e do riso, ainda que inteligentes. A ambas falta, contudo, o essencial: a carnavalização, a ruptura e a desordem que geram novos e saudáveis equilíbrios.
 
Tudo isto fez-me pensar nos Monthy Python que, em meados do século passado, faziam humor com os ingredientes certos: inteligência, ironia e sentido crítico. Esta “piada mais engraçada do mundo” é paradigmática, até porque, ironicamente, pelos efeitos letais que provoca, também pode ser considerada “a pior piada do mundo”.


Quando dizer é pensar ou fazer

O poder simultaneamente factitivo e performativo que as palavras têm sobre nós é algo de fascinante e assustador: uma única palavra consegue às vezes tocar-nos tão fundo que abala as nossas convicções, desconstrói-nos o raciocínio e desfaz os pré-conceitos mais enraizados. É o sentido bíblico do verbo/palavra como poder criador: "E no princípio era o Verbo". Por elas somos  levados a fazer e a dizer coisas impensadas, ou até aí impensáveis, capazes de mudar o rumo da nossa vida para sempre, tanto no bom, como no mau sentido.

As palavras do campo semântico de amor têm quase todas esta dupla face. São mesmo das mais poderosas e perigosas do dicionário. Devem, por isso, ser usadas com muita precaução para evitar acidentes. É também o que nos conta esta breve, mas muito intensa, história de Quino.

 
In Sim... Meu Amor!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Coincidências

Decidi aproveitar o curto intervalo antes da aula da tarde para verificar o e-mail num dos computadores da sala de professores. Costumam estar em modo de suspensão e, por isso, carreguei ao acaso numa tecla. De imediato, o monitor se iluminou revelando uma página de internet previamente aberta pelo utilizador anterior. Tratava-se de um sítio de citações que nem sequer conhecia: http://www.pensador.info/.

A meio da página, rodeada de anúncios da Google, apenas esta citação de Luiz Fernando Veríssimo:
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando, porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Surpreendida, fiquei sem pestanejar durante uns momentos, diante do computador. Então não é que, sem querer, tinha acertado em pleno? Assim em jeito de mensagem do além... mar, ali estava, mesmo a meio do monitor, um pequeno raio de optimismo, bem necessário nestes dias em que mais apetece hibernar, enroscada num sítio quente e confortável, até que a tempestade passe. Há coincidências curiosas, de facto.

E bem haja Luiz Fernando Veríssimo por, com as suas palavras certeiras, me ter sacudido do pensamento a monotonia cinzenta desta tarde.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Os direitos do blogger

Sendo o espaço deste blogue, clara e assumidamente, uma espécie de Reino da Minha Vontade e aqui se vivendo em regime autocrático, embora virtual, pareceu-me fazer sentido inventar os 'direitos do blogger', à revelia de tudo o que a legislação em vigor possa dizer sobre este assunto. Entenda-se, claro está, os meus direitos de blogger, à semelhança dos muito conhecidos “dez direitos do leitor” que Daniel Pennac estabeleceu no início dos anos 90, em Como um Romance.

1º - O direito de fazer do seu blogue tudo aquilo que a vontade, a capacidade ou a imaginação ditarem.
2º - O direito de postar apenas quando lhe apetece ou sente necessidade disso.
3º - O direito de reescrever, acrescentar ou eliminar as postagens a seu bel-prazer.
4º - O direito de espreitar os blogues alheios.
5º - O direito de saltar postagens.
6º - O direito de (re)visitar os blogues de que mais gosta
7º - O direito de não regressar aos blogues de que não gosta.
8º - O direito de saltar de blogue em blogue à descoberta de coisas interessantes.
9º - O direito de não comentar o que se leu.
10º - O direito de não querer ser comentado.
11º - O direito de não ser julgado precipitadamente pelo conteúdo das postagens que faz.
12º - O direito à liberdade de decidir e fazer o contrário de (quase) tudo o que ficou consagrado nos direitos anteriores, sempre que disso houver vontade.

Mrs. Robinson

O caso dos (des)amores de Mrs. Robinson tomou de assalto jornais e noticiários europeus e fez-me lembrar, desde logo, a Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade:

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Claro que os favores financeiros ao jovem empresário são a única e grande vergonha pública deste episódio, uma vez que a deslealdade para com o marido é assunto privado e de consciência individual a resolver noutro contexto. Goste-se ou não, Mrs. Robinson mostrou sobretudo que, aos 60 anos, está bem viva e dotada de um espírito aberto, o que não é fácil de engolir, seja na Irlanda, seja em qualquer outro país, até no nosso. Contudo, os media ainda não estão saciados e escavam agora afincadamente o passado da senhora, à procura de outros episódios suculentos, naquilo que deve ser o equivalente moderno mais próximo de ser queimada viva ou apedrejada em praça pública.

E se tudo isto tivesse acontecido exactamente assim, mas com Mr. Robinson e uma jovem modelo de 19 anos, também seria descrito neste tom vexatório e classificado de “vergonhoso para baixo" em todos os jornais? Tenho algumas dúvidas...

sábado, 9 de janeiro de 2010

Vozes

Nas noites em que o frio parece amplificar mais ainda o silêncio da casa, costuma ficar à escuta das múltiplas vozes que lhe habitam o espírito para fazer de conta que não está só: a voz da tristeza, a voz da amargura, a voz da dor, a voz da raiva, a voz do sonho, a voz do dever, a voz da ternura... Umas vezes apenas ouve sussurros, noutras, o barulho é quase ensurdecedor, pois todas falam ao mesmo tempo num tom zangado. Nesses momentos, a amargura dá voz às pequenas cobardias e indignidades quotidianas, enquanto a raiva resmoneia a meia voz, como se receasse alguém ou alguma coisa. A voz do dever faz muita questão de cortar a palavra à voz do sonho e, por isso, esta última já quase não fala. A voz da dor às vezes chora baixinho durante muito tempo, mas as outras estão demasiado ocupadas consigo próprias para se aperceberem disso. Talvez seja essa distracção que abre espaço aos fugazes rasgos de audácia, alegria ou entusiasmo com que a voz da ternura apanha toda a gente desprevenida. Mas, no fim, é sempre a tristeza que, com a sua voz grave, silencia as companheiras e se faz ouvir durante longas horas.

Sente-se frágil e desgastada pelas desilusões amargas que teve de enfrentar nos últimos tempos e, por isso, tenta manter-se alerta, a fim de não permitir que alguma das vozes assuma o comando do seu espírito, pois tudo se tornaria ainda mais difícil. Talvez seja essa maior percepção de si própria que a leva, certa noite, a reparar numa outra voz, de natureza bem distinta, e a que nunca antes tinha prestado atenção: imóvel, afastada das outras vozes, quase encolhida no canto mais sombrio, de olhar fixo e no mais absoluto mutismo.

Intrigada, conclui que o isolamento silencioso daquela voz talvez se deva a uma excessiva reserva, ou até ao facto de ser demasiado individualista. Porém, numa análise mais detalhada, apercebe-se de que o coro dissonante das outras vozes lhe é, afinal, totalmente indiferente. Percebe ainda que, qualquer que seja a direcção para onde vire o olhar se depara agora com o silêncio acusador da voz encolhida no escuro. Compreende então que, de todas as vozes que lhe povoam o espírito, aquela é a mais perigosa, por ser também a mais implacável e começa a sentir medo do brilho cada vez mais ameaçador dos olhos sempre cravados nos seus.

Pouco a pouco, vai tomando consciência da forma como o mutismo impiedoso daquela voz a compeliu a ficar em silêncio e imóvel nas piores situações que viveu ao longo dos últimos anos, em que era imperativo gritar, barafustar, partir a louça, esmurrar sorrisos cínicos, esmagar palavras sarcásticas ou hipócritas, escavacar portas, sair sem olhar para trás e, afinal, nada disse. Talvez distraída pelo coro estridente das outras vozes, nem se tinha apercebido de como aquela voz soturna, pouco a pouco, se apoderara de forma despótica do seu pensamento e da sua (re)acção, até quase chegar ao ponto de aniquilamento.

Com o arrepio que lhe sacode o corpo vem a súbita compreensão de que a permanência da voz silenciosa e acusadora no seu espírito é incompatível com a lucidez e de que terá de enfrentá-la antes que seja demasiado tarde. É então que arranja forças para elevar a sua própria voz interior e gritar bem alto à voz silenciosa e quieta no canto escuro que ela mesma se acusa de todas as vezes que, em silêncio, se tem limitado a engolir a humilhação, e que o faz sem precisar de se cruzar com o seu olhar feroz. Todavia, convencida de que no fim sairá vencedora, a voz limita-se a sorrir e, mais uma vez, nada diz.

As duas lutam agora todos os dias, sem tréguas, quase corpo a corpo, confinadas pelas cordas de um ringue a que convencionaram chamar blogue. Apostou consigo mesma que a voz silenciosa será a primeira a gritar de dor e que a vai desalojar do canto escuro onde vive barricada de mutismo. Para poder lutar em pé de igualdade com adversária tão temível, pediu à voz do sofrimento que a ensine a ser também mais implacável. Diz-se até disposta a recorrer a golpes baixos pois, afinal, é a sobrevivência do seu próprio ser que está em causa. O coro das vozes dissonantes limita-se a observar, na expectativa de um desfecho por enquanto ainda incerto.


sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Hibernação cultural

Aqui pelo interior sul parece que o frio fez hibernar até a própria cultura, pois as agendas culturais estão mais despidas que plátanos de avenida no mês de janeiro. Decidi por isso aproveitar as vantagens e facilidades do mundo virtual e (re)criar o meu próprio momento cultural do fim de semana pois, com as temperaturas anunciadas para os próximos tempos, não será tão depressa que os responsáveis pela organização destas coisas acordarão do sono letárgico que os afecta há já muito tempo...

O passado dia 13 de Novembro de 2009 reservava uma bela surpresa aos clientes habituais do Mercado Central de Valência, aqui mesmo ao lado, em Espanha. Enquanto circulavam por entre frutas e legumes, foram brindados com árias de "La Traviata" de Giuseppe Verdi cantadas ali mesmo, ao vivo. O espanto origina entre os desprevenidos clientes as mais diversas reacções e emoções e prova que a música, mais ou menos erudita, pode ser ouvida e apreciada em qualquer sítio, desde que as pessoas estejam predispostas para tal.



Fait-divers

O acaso das leituras trouxe-me hoje notícias de um interessante estudo realizado por um psicólogo da Universidade de Chicago, John Cacioppo de seu nome, sobre a solidão. Depois de ter acompanhado cinco mil pessoas ao longo de vários anos, através de inquéritos que avaliavam os níveis de solidão e de depressão de cada um, Cacioppo concluiu que a solidão é nada menos do que... contagiosa e se propaga entre as pessoas da mesma forma que um vírus. Assim, quando alguém se torna soltário, há sérias possibilidades de que alguns à sua volta lhe sigam as pisadas, podendo esta propagação atingir até mesmo os amigos dos amigos. Verificou ainda o psicólogo que, talvez por um instinto básico de sobrevivência, o grupo tenta evitar que o solitário se auto-isole completamente criticando-o e procurando integrá-lo. Confesso que esta parte da solidariedade grupal me deixa algumas dúvidas, mas enfim...

Claro está que, se este fosse um blogue muito frequentado e com um número significativo de leitores, como tantos na blogosfera, sentir-me-ia na obrigação ética de fazer desde já um aviso de alerta à navegação pois, se a solidão é contagiosa, esta Sulidão deve ser, no mínimo, perigosa. Mas, tratando-se apenas de uma espécie de moleskine online, limito-me a registar a informação na categoria de fait-divers e a deixar o resto ao livre arbítrio dos poucos que por aqui se aventuram.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A ironia é um líquido que se deve beber puro

Um quase mar interior chamado Alqueva, aqui mesmo, em frente de um mar de gente desesperada por não ter uma gota de água nas torneiras.

Palavras e música


Sulidão povoada de palavras e de música

Num dos Papéis do Gabiru, datado de 20 de Novembro, encontro a descrição perfeita destes dias duros de Inverno: Chove um dia, outro dia, sempre. Amanhece um dia nublado, outro dia alvorece áspero e negro. O vento abala a pedra sobre que é construído o casebre. O Inverno tem a sua voz própria, a sua cor, o seu vestido em farrapos com que agasalha os montes deixando-lhes os ossos de fora. Mas o Inverno é sonho. Só agora o compreendo. É sonho concentrado: sob esta casca ressequida está uma Primavera intacta.
in Húmus, Raul Brandão


terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O amor também é uma canção assim

Cabelos brancos

De vez em quando alguém me pergunta por que razão não pinto os cabelos: se pintasses o cabelo parecias logo quatro ou cinco anos mais nova... dizem-me. Sempre tenho achado curiosa a forma como as mulheres que me cercam ficam incomodadas com os  meus, agora já praticamente grisalhos, cabelos.  Para algumas delas é difícil entender o facto de eu não estar interessada em parecer nem mais nova nem mais velha, ou melhor, não querer ser outra coisa que não eu mesma. Para mim, é peculiar a forma como a maior parte delas, e também alguns homens que conheço, esconde os cabelos brancos debaixo das cores mais variadas, numa tentativa às vezes bastante desajeitada de iludir o calendário e a natureza.

É que os cabelos brancos nunca me angustiaram e também nunca me passou pela cabeça a ideia de os disfarçar. Nunca me senti em desvantagem por causa de os ter e, até hoje, nunca deixei de fazer fosse o que fosse por causa disso. Posso mesmo dizer que alguns dos melhores momentos da minha vida foram vividos junto de pessoas com muitas rugas e cabelos brancos, de bem com a vida e que, por isso mesmo, me fizeram sentir bem ao seu lado. O que verdadeiramente me angustia é pensar que talvez não saiba, ou não consiga envelhecer bem, pois é o que vejo acontecer à minha volta cada vez com mais frequência. De forma paradoxal, as sociedades ocidentais com populações muito envelhecidas, são também as que mais preconceitos têm em relação ao envelhecimento e as que mais rejeitam os velhos. Basta ver como, a (des)propósito de tudo, somos permanentemente bombardeados com imagens de rostos e corpos não apenas jovens e belos, mas também perfeitos e... fabricados nas salas de operações ou nos programas de edição de imagem dos computadores. Envelhecer tornou-se para muitos um drama e há quem gaste fortunas (quem o pode fazer) para construir uma espécie de máscara de cera, muito lisa e esticada, só para fazer de conta que o tempo não passou. Duvido é que, por causa disso, seja mais feliz.

Como escreveu Vergílio Ferreira "Ser jovem ou ser velho não tem apenas que ver com a idade mas também com uma condição (...). Por orgulho ao menos, ou respeito que nos mereçamos, importa que a nossa idade seja a idade que é nossa no vigor ou decadência que nos deixa ou nos visita."

De quando em vez, (re)leio o poema Cabelos Brancos, de António Feijó para me lembrar que, de facto, não são os anos que nos fazem velhos, são certas horas más da vida. Essas é que, a partir de dentro, nos vão corroendo lentamente até que um dia os estragos se tornam visíveis por fora. Os cabelos brancos nada têm que ver com isso ou, quando muito, poderão ser uma das consequências disso.

Não repares na cor dos meus cabelos
Sem ler primeiro Anacreonte;
Verás que os sonhos juvenis, mais belos,
Também se evolam de enrugada fronte.

O espírito do Poeta é sempre moço;
O Coração nunca envelhece...
Basta um sorriso, um nada, um alvoroço,
E tudo nele se ilumina e aquece.

Deusas de eterna graça adolescente,
Jamais as Musas desdenharam
Da luz que treme incendiando o poente,
Dos rouxinóis que ao pôr do Sol cantaram.

Fina e frágil vergôntea melindrosa,
Que foi na ceifa abandonada,
Ruth, apesar de moça e de formosa,
Nos braços de Booz dorme encantada.

Quantas flores de inédita fragância
Em mãos provectas vão abrindo...
Abisag, ao sair quase da infância,
No leito de David entrou sorrindo.

E desse beijo, Inverno e Primavera,
Desse conúbio, ó maravilha!
Como se a ruína fecundasse a hera,
Veio à luz uma estrela que ainda brilha.

Esculturais patrícias, de olhos ledos,
Quem as lembrara, se deixassem
Que mãos obscuras, mercenários dedos,
A velhice de Horácio engrinaldassem?

Quantos nomes ilustres! quantos casos!
Mas que direi mais eloquente?
Não há dias tão pálidos, e ocasos
Como explosões duma cratera ardente?

Não repares na cor dos meus cabelos;
A branda luz que neles arde,
Como o poente, das nuvens faz castelos,
Tinge de alva o crepúsculo da tarde...

Muita vez os cabelos enbranquecem
Na dor de horríveis sofrimentos...
Não são os anos que nos envelhecem;
São certas horas más, certos momentos...

in Sol de Inverno

domingo, 3 de janeiro de 2010

Este fim de tarde é uma música assim


Dia de limpeza


Graffiti de Banksy

Hoje é dia de varrer cacos e lixo para debaixo do tapete, de modo a que tudo esteja apresentável para os convidados que irão chegar amanhã, logo às oito e meia. O que me vale é que, para estes convidados, não é preciso ser, basta parecer.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Do bom selvagem à selvajaria

Rousseau, no seu Discurso sobre a Origem da Desigualdade, descreveu o que ficou conhecido como o "mito do bom selvagem”: “Enquanto os homens se contentaram com as suas cabanas simples, enquanto se limitaram, servindo-se de espinhos de plantas e de espinhas, a coser o próprio vestuário de peles, a ornamentar-se com penas e conchas, a pintar o corpo de diversas cores, a aperfeiçoar ou a embelezar os seus próprios arcos e flechas, a talhar com pedras cortantes algumas canoas de pesca ou grosseiros instrumentos de música; numa palavra, enquanto não se aplicaram senão a actividades que um isoladamente podia fazer e a artes que não necessitavam da colaboração de várias pessoas, viveram felizes, saudáveis, bons e felizes, tanto quanto podiam sê-lo por sua natureza e continuaram a gozar entre si das doçuras de um convívio independente; porém, desde o momento em que um homem teve necessidade da colaboração dos outros, a partir do instante em que se descobriu que a um só era vantajoso possuir provisões para dois, a igualdade desapareceu, introduziu-se a propriedade, o trabalho passou a ser tomado como necessário e as vastas florestas transformaram-se em agradáveis campos que foi necessário regar com o suor humano e nos quais se viu, de imediato, a escravatura e a miséria germinar e crescer de braço dado com as searas.”.

Nos dias que hoje vivemos, precisamos de começar a reescrever Rousseau porque os homens vivem mais do que em sociedade, empilham-se em grandes, desumanizadas e caóticas metrópoles, onde impera a lei do mais forte, o carácter dispensável dos mais fracos e o que faz carreira é o oportunismo mais descarado. Hoje, o homem já não trabalha para sobreviver, nem sequer para o bem comum, mas para manter o sistema. E como o sistema está tomado de uma voracidade insaciável, nada é suficiente: quanto mais trabalhamos, mais precisamos trabalhar e cada vez até mais tarde na vida. Ou seja, do mito do "bom selvagem" passámos à selvajaria quase total.

Mesmo assim, e apesar de o Governo anunciar cortes orçamentais anuais para quase tudo, o país gasta sempre mais do que consegue produzir e o défice das contas públicas é agora uma espécie de buraco negro com um diâmetro de proporções preocupantes que ameaça engolir tudo.

Queiramos ou não, com exageros ou sem eles, as imagens avassaladoras de Metropolis, de Fritz Lang, fazem cada vez mais sentido e, tal como em 1927, parecem prenunciar um futuro muito pouco risonho para a humanidade, ou melhor, parecem prenunciar que a própria humanidade, a continuar nesta via, não tem é grande futuro.

Thea von Harbou escreve na abertura: "This film is not of today or for the future. It tells of no place. It serves no tendency, party or class. It has a moral that grows on the pillar of understanding: "the mediator between brain and muscle must be the heart.". Talvez seja por isso mesmo que se tornou num filme de todos os tempos e lugares, com um argumento cada vez mais verosímil.


E depois, claro, há ainda o nosso inenarrável Presidente que, na mensagem de Ano Novo, vem dizer-nos para não termos medo. Medo de quê, exactamente? Do Lobo Mau? Do Capuchinho Vermelho? Ou da Bruxa Má?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Telejornal

Por vezes, as águas que tudo lavam distraem-se e levam tudo... menos a miséria.

Só para contrariar

Meu caro Fernando, lamento discordar mas, na vida, mesmo quando a alma não é pequena, nem tudo vale a pena.  E passar além do Bojador não implica passar além da dor. Não sei se já reparaste mas, em Bojador, está contida a palavra dor, ou melhor, escondida à espera dos incautos.

Contraponto

Os meus versos o que são?
Devem ser, se não me confundo,
pedaços do coração
que deixo cá neste mundo.
          António Aleixo

As minha postagens o que são? Devem ser, se não me confundo, pedras irregulares, corroídas pela ilusão, encontradas na poeira e atiradas ao lodo dos dias parados onde, lentamente, se afundam.