sábado, 5 de junho de 2010

As palavras do candidato

Vi e ouvi as palavras do candidato presidencial Manuel Alegre na entrevista que deu na passada 4ª feira à RTP1. Pronunciou o candidato algumas frases para mim bastante interessantes e esclarecedoras dos seus verdadeiros intuitos e motivações.

Ora diz ele então que: “Não sou um candidato do PS sou um candidato apoiado pelo PS”. Deve estar esquecido que é um dos militantes históricos do PS e que, mesmo na fase de maior dissonância com o partido, nunca deixou de ser militante, nem de ocupar o seu lugar na respectiva bancada parlamentar. Ou seja, segundo ele, basta substituir a preposição 'do' pela preposição 'pelo' para, na sua perspectiva, mudar tudo. Como se o apoio do PS fosse assim uma coisa de somenos, ou como se ele fosse apenas mais um candidato presidencial apoiado pelo PS nestas próximas eleições. Mais à frente, contudo, acabou por acrescentar que “é muito difícil ganhar uma eleição presidencial sem o apoio do PS”. Ora aí está: ficámos esclarecidos.

Depois, falando da demora do actual presidente em anunciar a sua recandidatura, lá veio com o velho papão de que o PSD continua a alimentar o sonho de ter “um governo, uma maioria e um presidente” e que a sua reeleição poderia ser o primeiro passo para o conseguir, uma vez que, ganha a reeleição, poderia vir a destituir o governo, antecipando a realização de eleições legislativas que poderiam conduzir a uma maioria governativa PSD. E o uso dos verbos no condicional é aqui muito relevante porque tudo isto não passa de conjectura. Isto como se a ambição do PS não fosse exactamente igual à do PSD. Isto como se Manuel Alegre, eleito com o apoio do PS, como ele próprio sublinha com tanta satisfação, não constituísse o terceiro vértice deste tão ambicionado triângulo de poder: presidente, governo e maioria parlamentar. Isto quando ele próprio faz questão de sublinhar que não se candidata “para governar nem para derrotar o governo na primeira oportunidade”, numa clara afirmação, perante os descontentes com o apoio que o PS lhe deu, de que podem ficar tranquilos que ele, Manuel Alegre, não irá pôr em causa o tal triângulo dourado do poder que o PS(D) há tanto tempo ambiciona (se o conseguir alcançar, claro!)

Fiquei também a saber que o candidato presidencial Manuel Alegre, lá do alto pedestal do seu auto-convencimento acha que os seus concidadãos são todos estupidos, coitados!

Já admirei o político Manuel Alegre: pretérito perfeito do indicativo.

Admiro ainda o poeta Manuel Alegre: presente do indicativo. Mas é só.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Interrupção voluntária da democracia

Neste blogue não houve uma suspensão temporária da democracia opinativa (que, aliás, também foi aqui uma experiência transitória e condicionada), mas sim uma eliminação nada democrática, não apenas dos escassos comentários existentes, como da possibilidade de alguém os vir a fazer. Lamento Statler's e Waldorf's deste mundo mas, nesta sulidão, prego eu e ponto final. Até porque não é por acaso que este blogue se chama sulidão. Até porque isto é um blogue e não uma rede social.

A desistória do (meu) futuro

Tenho há vários dias em cima da mesa a “Breve História do Futuro” de Jacques Attali mas não me tem apetecido muito iniciar a sua leitura. Talvez porque, no fundo, espero pouco do futuro. Estou mais concentrada em arranjar forças para atravessar o pequeno deserto de cada um dos dias que se vão sucedendo no presente e acumulando numa espécie de desistória de vida, ou vida sem história. É que com as perspectivas de uma carreira profissional mais interessante arrancadas pela raíz há quatro anos atrás sei que o futuro me reserva apenas mais do mesmo, sobretudo agora que a crise veio para ficar de pedra e cal.

Mas um destes dias lá chegarei – à leitura de Attali –, nem que seja por falta de alternativas.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A ponta do icebergue

Agora que tanto se fala da pedofilia na igreja católica e que até já foram pedidas desculpas às vítimas (como se isso bastasse para branquear a memória do mal feito!) é bom lembrar que essa é, infelizmente, apenas a ponta do icebergue. Tem muitas desculpas a pedir a igreja católica, a começar pela brutal desumanidade com que, tantas vezes, tratou seres humanos indefesos à sua guarda. Os exemplos e as histórias - como as infames Magdalene Laundries na Irlanda - aí estão um pouco por toda a parte e nada têm que ver com amar o próximo... o que é o mais lamentável de tudo numa igreja onde se prega que "Deus é amor". Estranho amor este! 
E a pungente canção de Joni Mitchell só acentua o calafrio.

Alguns são mais desiguais que outros

No livro "Hungry Planet: What the World Eats", Peter Menzel e Faith D'Aluisio  fazem um curioso e interessante levantamento fotográfico em diversas zonas do planeta que permite comparar o número de elementos das famílias, a dieta alimentar de cada país, a disponibilidade de alimentos e a despesa com comida, numa semana. Estes são apenas alguns dos muitos exemplos:
Butão: Família Namgay da vila de Shingkhey
Despesa semanal com alimentação: 224.93 ngultrum / $5.03 dólares

Chade: Família Aboubakar do campo de refugiados de Breidjing
Despesa com alimentação por semana: 685 Francos / $1.23 dólares

Estados Unidos da América: Família Revis da Carolina do Norte
Despesa semanal com alimentação: $341.98 dolares

Alemanha: Família Melander de Bargteheide
Despesa com alimentação em 1 semana: 375.39 Euros / $500.07 dólares

Dá mesmo que pensar, mas pelos vistos não incomoda muitas consciências...

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Re-pensar as coisas é preciso

No início do séc. XX (1904-5) Max Weber foi à procura das respostas para uma questão curiosa: por que motivo surgiu o modelo económico do capitalismo em países maioritariamente protestantes como a Inglaterra ou a Alemanha? Concluiu depois, num livro intitulado “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, que o modo de vida e as doutrinas propostas pelas igrejas protestantes dos séc. XVI e XVII, em particular o calvinismo, estabeleceram formas de vivência da religiosidade que criaram as condições necessárias ao aparecimento dos ideais capitalistas. É que os protestantes e calvinistas acreditam na predestinação, ou seja, que todos os homens nascem predestinados à salvação ou à condenação. Só que, como não existe forma de se saber qual é o nosso destino, devemos esforçar-nos para pôr as nossas capacidades ao serviço de Deus e orientar a nossa vida terrena no sentido de procurarmos ser bem sucedidos. Por isso, ter sucesso na vida terrena significa que se está protegido por Deus e isso constitui um bom indicador de que se alcançará a salvação eterna*. Esta ânsia de sucesso é, sobretudo, uma ética do trabalho que impõe uma enorme autodisciplina e um acumular de riqueza que, com o tempo, deram origem ao capitalismo tal como o conhecemos hoje, em que a única ética reconhecida e valorizada é a do lucro sempre crescente, baseado na especulação e em taxas de produtividade e de consumo febris.

É um pouco na continuidade desta linha de análise histórica e de procura de respostas que se insere o livro de um dos grandes especialistas em história contemporânea, Tony Judt, “Ill fares the land”. Claro que, nos dias que vivemos, já há muito que a cultura capitalista moderna deixou para trás os princípios éticos e doutrinários do calvinismo e do protestantismo, tendo evoluído para o puro vazio moral do neoliberalismo. A partir da década de 80 acentuou-se mesmo “a obsessão com a criação de riqueza, o culto da privatização e do sector privado, as crescentes disparidades entre ricos e pobres. E, acima de tudo, a retórica que as acompanha: a admiração acrítica dos mercados livres, o desdém pelo sector público, a ilusão do crescimento eterno”.

“Ill fares the land” é, assumidamente, um manifesto em defesa de um dos grandes ideais políticos da esquerda: uma sociedade diferente e mais justa. O historiador defende a opinião de que, a prazo, este modelo neoliberal em que estamos mergulhados é insustentável por causa das desigualdades que gera e das tensões sociais que provoca: “Do final do séc. XIX até aos anos 70, as sociedades avançadas do Ocidente tornaram-se todas menos desiguais. Graças aos impostos progressivos, aos subsídios do governo aos mais pobres e à provisão de serviços sociais e garantias contra as desgraças imprevistas, as modernas democracias foram apagando os extremos da riqueza e da pobreza”. Porém, “nos últimos trinta anos deitámos tudo isso fora”: em 1968 o salário do CEO da General Motors que, em 1968, levava para casa 66 vezes o valor pago a um operário típico das fábricas da GM; enquanto hoje em dia o CEO da Wal-Mart ganha 900 vezes o salário médio de um dos funcionários desta cadeia de lojas. Ora, estas profundas desigualdades têm contaminado todas as camadas sociais com o vírus da violência e da exclusão. Judt alerta: “Somos muitas vezes cegos a isto, os nossos sentimentos morais foram, de facto, corrompidos. Tornámo-nos insensíveis aos custos humanos de políticas sociais aparentemente racionais.”

Por isso, nesta obra, Judt desenvolve a tese de que a social-democracia e o chamado estado-providência são os melhores modelos de governação política, de sustentação de sociedades mais igualitárias, equlibradas e consensuais, sem prejuízo da tolerância democrática e da liberdade individual. Este verdadeiro manifesto ideológico tem destinatários perfeitamente identificados pelo autor – os cidadãos dos países ocidentais, e em especial os “jovens de ambos os lados do Atlântico”, porque “a divergência e a dissidência são fundamentalmente trabalho dos jovens”, e porque “a última vez que uma geração expressou comparável frustração pelo vazio e a desinspiradora falta de sentido do mundo foi nos anos 20”.

Contudo, não é o muito apontado (nomeadamente pelos nossos desgovernantes) modelo nórdico da social-democracia que Judt defende, por considerar que também ele está crivado de erros graves que ninguém teve a coragem ou a vontade de corrigir e que, ao longo do tempo, se foram agravando: projectos de eugenia impensáveis e inaceitáveis; planeamento urbano desastroso; ausência de resposta do Estado para os socialmente desfavorecidos (bolsas de pobreza, guetos sociais, imigração), direitos que se foram tornando abusos (reformas antecipadas).

Tony Judt considera que a social-democracia não representa o passado nem o futuro ideais “Mas, entre as opções hoje disponíveis para nós, é melhor do que qualquer outra coisa ao nosso alcance”. Assim, face ao perigo dos extremismos à direita e à esquerda, o modelo que nos resta analisar, defender e desenvolver “é o consenso social do pós-guerra que mobilizou a democracia cristã, o conservadorismo britânico e alemão ou a social-democracia nórdica.” pois, apesar de tudo e como lembra Ralph Dahrendorf, “significa o maior progresso a que a História já assistiu. Nunca tantos tinham antes experimentado tantas oportunidades de vida”. Citando Adam Smith - “nenhuma sociedade será florescente e feliz se uma grande parte dos cidadãos for pobre e miserável” -, Judt invectiva os jovens ocidentais a “zangarem-se” e a criticarem quem os governa, erguendo a voz contra a actual degradação social e económica, em nome de uma suposta racionalização dos recursos, e a reclamarem que o Estado “reocupe a posição central da vida colectiva. Não o Estado totalitário dos extremismos do séc. XX, mas o Estado democrático e activista que configurou o “New Deal” e a “Great Society” nos Estados Unidos, ou o mercado social alemão”. As questões sociais continuam a ser fulcrais na agenda política ocidental e, por isso, o autor questiona: “Como devem as massas trabalhadoras ser trazidas para a comunidade – como eleitores, como cidadãos, como participantes – sem sublevação, protesto ou mesmo revolução?”. “As respostas da social-democracia mostraram-se espectacularmente bem sucedidas: não só se evitou a revolução como as massas trabalhadoras foram integradas num admirável grau”.

Judt conclui então com um apelo claro: “Temos agora de nos libertar da noção [de que] o Estado é a pior opção disponível”. Para que isso possa acontecer, os mais jovens têm de aprender com as lições do passado (“os perigos de um Estado activista”), e também aprender “a pensar o Estado de novo”

A tese de Tony Judt é também uma utopia no seu melhor sentido: o sonho de transformar o mundo através da vontade colectiva. É pena que, nestes tempos cinzentos e áridos, seja sobretudo uma voz dissonante que clama no deserto de ideias e de ideais em que estamos megulhados. É pena que tenhamos de bater mesmo no fundo para então, e só então, nos vermos forçados a começar a repensar o rumo das coisas.


*Para os católicos, pelo contrário, o acesso à vida eterna está garantido através da absolvição dos pecados confessados, pois Deus é infinitamente bom e perdoa todos os que demonstrem arrependimento sincero em relação aos seus erros e más acções. Digamos assim: é um bom princípio, mas que leva às más práticas e vidas que todos conhecemos sobejamente, até no seio da própria igreja.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Proverbiais e aforísticas

Quem tem medo das palavras compra um dicionário de sinónimos.

Descobri, por acaso, que o medo das palavras também integra a longa lista de possíveis fobias e chama-se verbofobia. E a este propósito Juan de Dios Martínez comentava que o melhor então era ficar calado, ao que Elvira Campos contrapunha: “É um pouco mais complicado do que isso, porque as palavras estão em toda a parte, inclusivamente no silêncio, que nunca é um silêncio total”. (Roberto Bolaño, In 2666)

Sinfonia do mês de Junho


Claude Monet

É extraordinário o começo de Junho!
Há vento e vento.
Um vento manso que brisa e me percorre num afago;
E me diz: vou e venho, canto e falo.

Há Sol e Sol.
Um Sol quente e fecundo que me queima e aquece;
E que, de ver-me triste, também se entristece.

Há Céu e Céu.
Um Céu azul, lindo, cintilante e infinito.
Sempre abraçado à Terra, enleado, bendito.

Há verde e verde.
Verde dos pinhais,
Esbatido no contraste da serra,
E a trazer-me ainda mais
Saudades da minha terra.

Há terra e terra.
Uma terra cheia, ébria, a rebentar, a parir
Botões de rosa e frutos: Vida a nascer e a sorrir.

Há grilos que cantam!
Flores amarelas!
Maravilhas que encantam
Só de vê-las.

E cores, muitas cores!
Pétalas brancas, brancas.
Roxas, azuis, violetas!
Vermelhas papoilas, tantas,
E um baile de borboletas.

Esta a sinfonia do mês de Junho!
Poema da Terra, do Vento e do Sol,
Poema do Céu no abraço de Tudo,
Que tão bem interpretas, rouxinol.

Dílio Beirão, In II Antologia de Poesia Contemporânea

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Algo de interessante aqui pela sulidão também é um festival de música assim

Um país à beira-mar (mal) urbanizado

Duas Linhas é a designação de um interessante projecto dos arquitectos Pedro Costa e Nuno Louro. Consistiu no registo fotográfico da realidade urbanística do país, realizado ao longo de duas linhas paralelas traçadas de norte a sul. Duas Linhas é também um livro que conta com a análise crítica de vários especialistas portugueses e uma exposição itinerante.

Ao arrepio de algumas ideias feitas os dois autores concluiram que “Nem sempre a costa é mais densa e o interior menos ocupado” e que, muitas vezes, o grande problema reside sobretudo na dispersão urbanística, já que é mais rentável construir na periferia das cidades do que reabilitar os edifícios no perímetro urbano.

As origens históricas deste problema situam-se, segundo Vasco Mantas (Univ. Coimbra), na época romana, tendo-se criado “uma dinâmica que vai ser difícil de contrariar” e cuja principal desvantagem são os custos acrescidos que implica “a manutenção de um conjunto de actividades e serviços caros para servir uma população reduzida” num interior desertificado.

Jorge Gaspar (Univ. Lisboa) explica que a dispersão urbanística é um fenómeno multifacetado que resulta “de uma alteração nos estilos de vida e de urbanização das pessoas”, associado primeiro à necessidade de garantir habitação para “uma mão-de-obra industrial, agrícola (esta mais sazonal) de uma determinada região”, ou ainda para assegurar o vasto sector dos serviços na capital e, nas últimas décadas, associado também a uma especulação imobiliária que levou à primazia do direito de propriedade sobre a aptidão dos terrenos.

Já a realidade urbanística do norte do país, em particular do vale do Ave, é descrita por Vincenzo Riso (Univ. Minho) como “original” pois, ao longo do tempo, as actividades agrícolas, os núcleos habitacionais e as fábricas desenvolveram entre si estreitas ligações”. As recomendações e conclusões a que chega relativamente a esta zona do país são, quanto a mim, válidas para outras zonas do território: “além da indispensável atenção para zonas específicas a salvaguardar (…), (a paisagem como valor social)”, “em termos económicos a dispersão das construções viabiliza actividades flexíveis e de pequena dimensão, mas implica uma grande extensão das redes infra-estruturais, cujos custos acrescentados acabam por incidir sobre a colectividade”.

Para Riso o mais importante é perceber que “o território é um bem limitado e não renovável e, no longo prazo, a urbanização difusa vai acabar por tornar-se insustentável”. Esta ideia é corroborada por João Alveirinho Dias (Univ. Algarve) para quem a concentração urbanística no litoral não constitui em si mesma um problema desde que “a construção respeite o funcionamento natural dos sistemas”, nomeadamente as chamadas “zonas de risco” junto ao litoral, onde não deveria existir qualquer construção. Aponta como exemplos a Ria Formosa, o cordão dunar da lagoa de Aveiro e as arribas escarpadas do Algarve, zonas onde “as pressões imobiliária e turística” estão já a criar grandes problemas à preservação dos ecossistemas, podendo a situação vir a tornar-se irreversível.

Vasco Mantas (Univ. Coimbra) é mais radical pois considera que o Algarve já “está perdido”. Parece-lhe, todavia, que o litoral alentejano ainda pode ser devidamente salvaguardado, desde que se evite a criação de “uma Saint-Tropez de quarta categoria, que induz um tipo de turismo em que não vale a pena apostar”.

A dúvida que se me levanta agora é saber se, face às promessas de tantos milhões de investimento e de outros tantos de lucro fácil, associados a umas quantas centenas de empregos (ainda que transitórios, pois quando estiver estragado, os investidores voltarão costas e irão procurar outra zona ainda intacta), terão os autarcas do litoral alentejano a força suficiente para dizer “não”? Duvido muito.

Terão os nossos (des)governantes, na actual situação de profunda crise económica, a coragem de impor regras aos especuladores que estão a construir futuras cidades-fantasma no litoral do país? Duvido ainda mais.

E quanto aos 'grandes projectos' que se anunciam aí um pouco por toda a parte – o turismo, a qualidade de vida, as grandes apostas nisto e naquilo, blá, blá, blá - pouco mais são do que demagogia pura para assegurar votos, não o futuro a médio e longo prazo dos que têm a coragem, a vontade ou a impossibilidade de fazer outra coisa a não ser ficar aqui pelo interior sul do país. Resta saber até quando conseguiremos ter forças e meios para nos aguentarmos como uma espécie de derradeiro hdique contra o deserto. Como somos cada vez menos e estamos cada vez mais velhos, pode bem ser só uma questão de tempo até a barreira ceder.

domingo, 30 de maio de 2010

Uma visita ao museu

Prolegómenos
Às vezes não é fácil ocupar de modo produtivo e minimamente interessante os tempos vazios destas férias antecipadas que o serviço nacional de saúde me concedeu. Assim um destes dias, aproveitando a vinda de uma amiga que há quase um ano combate um cancro e, por isso, tem que fazer juntas médicas regularmente, decidimos aproveitar a manhã para pôr a conversa em dia, enquanto nos ocupávamos a fazer alguma coisa de que ambas gostássemos.

E o que mais gostamos de fazer quando nos juntamos é visitar exposições, museus ou algum sítio que nos interesse em particular, enquanto conversamos sobre quase tudo, e fazemos tempo para uma agradável refeição em algum sítio escolhido por ser novo, por ser diferente ou por servir boa comida.

Ora eu já tinha tentado visitar o renovado Museu do Artesanato mas fazia-o quando eu e toda a gente que trabalha tem tempo disponível e, não sei bem porquê, encontrei sempre a porta fechada (coisa que, aliás, sempre foi uma marca distintiva da cidade património mundial!). Por isso foi essa a proposta que fiz para ocuparmos o final da manhã. À entrada cobraram dois euros a cada uma e lá iniciámos a visita, com a sala literalmente por nossa conta, pois éramos as únicas visitantes e durante a hora que lá permanecemos também mais ninguém entrou.

 
Breve analepse
Visitei por diversas vezes o Museu do Artesanato, uma das quais na agradável e sábia companhia de Túlio Espanca que explicava como só ele sabia, não apenas a história do belo edifício em que está instalado, mas também das peças que constituíam o seu acervo. Desconheço as razões que levaram ao seu encerramento durante largos anos e sei menos ainda das justificações para a sua reabertura. Apenas tenho lido nos blogues locais e recebido no mail sucessivos apelos no sentido de assinar uma petição para que não volte a ser encerrado. Tinha, pois, um redobrado interesse em ir lá: para ver como estava depois de tantos anos e para o visitar uma última vez antes de fechar de novo e, se calhar, de modo definitivo. Confesso que ia, de facto, com alguma curiosidade e expectativa e que levava na memória as imagens que o tempo não tinha apagado. Era uma única sala com imponentes colunas de granito e um belo tecto em que se procurava reconstituir com objectos genuínos a vida quotidiana dos montes alentejanos. Lembro-me da reconstituição do quarto de dormir com a cama de ferro, o lavatório em ferro, a colcha de chita, etc., ou da sala de jantar com os tradicionais móveis pintados. Recordo também uma profusão de peças, em materiais diversos, algumas de grande beleza e criatividade artística, que enchiam a vasta sala.

In media res
A sala continua a ser a mesma, mas agora realçada por painéis coloridos e com um jogo de luzes que sublinham de modo harmonioso, não apenas as peças expostas, mas também a bela arquitectura da sala. Há um relativamente reduzido número de peças em exposição, algumas em modernos suportes de metal e acrílico, num conceito que é agora muito habitual em museologia. E que me parece bem num museu municipal ou nacional onde se expõem sobretudo peças de arte – quadros, esculturas, jóias, ourivesaria, etc. - que valem por si mesmas e exigem espaço à sua volta para se poderem apreciar devidamente e sem interferência de outras peças idênticas, e que têm força suficiente para caracterizar o contexto histórico-artístico em que foram criadas. Mas estas são peças de natureza bem distinta: muitas delas eram de uso quotidiano e doméstico, dão testemunho de vivências que pertencem irremediavelmente ao passado, são memórias de tempos e modos de vida hoje extintos e, para serem significativas e compreendidas, necessitam desse contexto específico em que eram criadas e utilizadas. Assim isoladas, expostas em vitrines, acompanhadas de um seco rótulo que apenas indica a data e a quem pertence(ra)m, estão como que “despidas” de sentido e, sobretudo, desprovidas de interesse para os citadinos que visitam o museu e que não possuem nem os conhecimentos, nem as vivências e muito menos as memórias que lhes permitam contextualizá-las ou sequer apreciá-las.

Dada a natureza deste museu acho que, antes, fazia mais sentido, com as peças integradas nos diversos ambientes domésticos e rurais recriados. Dou como exemplo o vaso de noite, alto, com duas asas, em barro vidrado e decorado com belos tons de verde, colocado ao lado de diversas talhas e cântaros em barro que se destinavam a refrescar a água. É no mínimo uma associação estranha e a indicação a seco contida no rótulo da peça - “vaso de noite” - não dirá muito à maioria dos visitantes. Suponho que alguns até poderão pensar que se trata de uma espécie de copo XXL para água ou algo assim do género. Achei também estranha a mistura anacrónica de peças – como é o caso das vitrines com peças em cortiça - sem que se consiga entender qual é o critério lógico subjacente a esta opção.

Uma grande parte do espaço útil da sala está destinado a exposições temporárias e, por isso, o número de peças expostas é bastante reduzido, eu diria até que é redutor face à riqueza do espólio que conhecia. No final, aparece-nos isolada e em destaque sobre uma mesa uma peça de olaria contemporânea de grandes dimensões - “a polaroid do casamento” da Oficina da Terra - a qual, assim desgarrada - não existe nenhuma outra peça deste género em toda a sala - não deixa perceber o motivo da sua presença ali já que se integra num tipo totalmente distinto de artesanato: urbano e conceptual, até com um certo carácter irónico ou mesmo caricatural, que não faz, na minha opinião, muito sentido naquele espaço.

Epílogo
A visita valeu pela qualidade e interesse de algumas das peças expostas e, sobretudo, porque agora sei do que se fala, quando se fala do Museu de Artesanato. Considero que o preço da entrada é elevado face ao que o museu tem para oferecer aos visitantes (quantidade e qualidade da exposição, não das peças em si), embora compreenda que as suas despesas de funcionamento e manutenção são de certeza bastante elevadas. Fica-se é com a infeliz ideia de que o artesanato é uma coisa assim um tanto pobrezinha e acho que isso é o mais lamentável de tudo, quando se conhece a riqueza e a diversidade, tanto do artesanato, como dos artesãos alentejanos.

Falta ali, claramente, um “golpe de asa” qualquer.

sábado, 29 de maio de 2010

Uma (im)provável conjugação de diferenças também é uma música assim

A brasileira Cibelle e o britânico Devendra Banhart cantam bossa nova em inglês, com visual vitoriano/Mary Poppins, uma canção de Caetano Veloso.

Blogodiálogo improvável: a minha Intifada

Cinco palavras Cinco Pedras
Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
e em parte resume o que penso da vida
passado o dia oito em cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
e delas vem a música precisa
para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolaçao desânimo
Antigamente quando os deuses eram grandes
eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas

Ruy Belo, Obra Poética, Vol. 1

Antigamente importava-me muito com algumas pessoas e situações. Hoje tenho apenas quatro palavras para escrever neste post. São elas: distanciamento, desconfiança, mágoa e sarcasmo. E ainda me esquecia de uma: indiferença. Ocorreu-me agora mesmo, e em parte resume o que penso cada vez mais sobre algumas situações e pessoas.

Só a ingenuidade, a necessidade de pertença, a grande carência de proximidade podem explicar a forma como às vezes somos capazes de acreditar na farsa de sentimentos e/ou relações que nada têm de nobres.

Recapitulo: distanciamento, desconfiança, mágoa, sarcasmo e indiferença. Cinco palavras. Cinco pedras. A minha intifada  pessoal contra todos os resquícios de des-ilusão que, teimosamente, ainda persistem em mim.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Causas e/ou consequências?

Hoje já não há heróis. Somos gente sem futuro, o futuro acabou há 40 anos. Até aí vivíamos um tempo de promessas, agora vivemos um tempo de paixões tristes. Onde está a cura do cancro, onde está a maravilha em que o mundo se iria transformar com o início do novo milénio?”
Romana Petri (a propósito de O Fabuloso Destino de Dagoberto Babilónio,
In Público, 28/5/2010)

Depois começou a falar das coisas que antes eram úteis, sobre as quais havia consenso, e que agora inspiravam até mais desconfiança, como os sorrisos, na década de cinquenta, por exemplo, disse ele, um sorriso abria-nos portas. Eu não sei se nos podia abrir caminhos, mas não havia dúvida que nos abria portas. Agora um sorriso inspira desconfiança. (…) Agora sabemos que por detrás de um sorriso pode ocultar-se o nosso pior inimigo. Ou, dizendo de outro modo, já não confiamos em ninguém, começando pelos que sorriem, pois sabemos que estes tentam conseguir alguma coisa de nós. No entanto, a televisão americana está cheia de sorrisos e de dentaduras cada vez mais perfeitas. Querem que depositemos a nossa confiança neles? Não. Querem fazer-nos crer que são boas pessoas, incapazes de fazer mal a alguém? Também não. Na realidade, nada querem de nós. Só querem mostrar-nos as suas dentaduras, os seus sorrisos, sem nos pedir nada em troca a não ser a nossa admiração. Admiração. Querem que olhemos para eles, é só isso. As suas dentaduras perfeitas, os seus corpos perfeitos, os seus modos perfeitos, como se eles estivessem permanentemente a desprender-se do Sol e fossem bocados de fogo, pedaços de Inferno ardente, cuja presença neste planeta obedece unicamente à necessidade de reverência.”
Roberto Bolaño, In “A Parte de Fate”, 2666, p.297

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Um Alegre Campeonato

O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já se não crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos aos acaso. Perfeita, absoluta indiferença de cima a abixo! Todo o viver espiritual, intelectual, parado. O tédio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretárias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce... O comércio definha. A indústria enfraquece. O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora o aluguel. A agiotagem explora o juro.
De resto a ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. (…) A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do País. (…)
Não é uma existência, é uma expiação.
E a certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: “o País está perdido!” (…)
Assim todas as consciências certificam a podridão; mas todos os temperamentos se dão bem na podridão!
Junho de 1871
Eça de Queirós, Uma Campanha Alegre (excerto)

E mais, meu caro Eça, noticiam-se diariamente cortes orçamentais em tudo, desde a educação à saúde, passando pela cultura e afins. Há, contudo, excepções: os excelsos deputados da nação viram o seu orçamento para viagens, ajudas de custo, assessorias técnicas e outras despesas (vasto universo onde cabe quase tudo, desde flores a presentes, almoços, etc.) substancialmente aumentado. Até faz sentido, se pensarmos bem: a boa vida (vá-se lá saber porquê) sempre custou mais dinheiro do que a outra.

Também ainda não ouvi dizer que cortes irão ser feitos no orçamento milionário da federação portuguesa de futebol e, claro, na nossa estrelática selecção. A julgar pelas imagens largamente divulgadas sobre as instalações onde decorre o estágio e, sobretudo, as que já foram divulgadas sobre as que os esperam na África do Sul, dinheiro é o que não falta. Quem diria que estamos em crise!?

Mais curioso ainda é tanta gente na televisão a falar grosso sobre a excessiva despesa do estado com praticamente tudo, e nem uma palavrinha sobre este assunto. Como se aquele dinheiro não saísse também dos nossos bolsos! Só que o povo, coitado, para ver onze mânfios a dar pontapés numa bola, a cuspir para a relva, a chamar palavrões aos árbitros ou a tapar as partes pudendas com as mãos sempre que alguém tenta marcar um golo a cem metros de distância, até nem se importa nada de pagar e muito. Por isso mesmo, paga e cala-se, pois o que interessa é que vai haver futebol, muito futebol, futebol a todas as horas, futebol e mais futebol. É fartar vilanagem e o povo feliz, feliz!

A julgar pelo que aconteceu no passado 13 de Maio, quando estava tudo embevecido a acenar com lencinhos brancos ao Papa, até me arrepio só de pensar no que poderá o (des)governo maquinar neste longo período de futebol, futebol e mais futebol. É bem possível que, antes do fim do campeonato, o mundo volte a dar várias (revira)voltas.

Avizinha-se, meu caro Eça, um alegre campeonato.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

"Il speciale"

Quando vivia em Portugal era conhecido apenas como “Mourinho”. Trabalhou, obteve resultados e ganhou a notoriedade que lhe permitiu virar as costas a isto tudo. Em Inglaterra tornou-se conhecido como “the special one”. Seguiu depois para Itália onde começou por ser “il speciale”, mas depressa viria a tornar-se “il geniale”. Espanha é o seu próximo desafio e as teorias do desenvolvimento cognitivo explicam claramente a importância do conceito “desafio” para o crescimento e desenvolvimento de alguém que pretende continuar a ser o melhor.

Eu acho que José Mourinho é acima de tudo “um profissional” que sabe o que faz e o que quer e, sobretudo, sabe como, quando e o que deve fazer para conseguir alcançar os objectivos a que se propõe. Tem a sorte de poder trabalhar lá fora, em países que sabem reconhecer, apreciar, desafiar e valorizar o bom trabalho e quem o realiza.

Por cá, sempre que ouvimos falar de produtividade, de eficácia e de eficiência ficamos com a impressão de que isto é tudo uma cambada de malandros e de incompetentes. Ora não é bem assim: há em todos os sectores de actividade bons profissionais, responsáveis e cumpridores. Só que são sistematicamente menorizados, subalternizados, dispensados e desvalorizados. E em favor de quê? De oportunistas cuja máxima habilitação é o cartão do partido e a rede de conhecimentos e influências mesquinhas que lhe está associada, de escroques ao serviço de interesses espúrios e duvidosos, de gente sem escrúpulos que se serve a si mesma e se borrifa para o bem comum e para a “coisa pública”, pois quando isto rebentar tèm o (nosso) dinheiro a salvo em off-shores.

Além disso, também não convém dar visibilidade aos bons profissionais, pois assim torna-se mais óbvia a mediocridade desta gente que, quase sempre, ocupa lugares de chefia, o que implica tomar decisões importantes e com consequências (tantas vezes bem negativas para a vida de muitos de nós), nomeadamente a própria avaliação e promoção nas carreiras de quem é mais competente do que eles próprios (e aqui nem vale a pena dizer muita coisa sobre o que costuma acontecer).

Vivemos hoje num país em que o reconhecimento profissional só se consegue por duas vias: a filiação no partido do poder ou a emigração. José Mourinho escolheu a segunda. Tem a minha admiração pessoal por isso, pois não são muitos os que têm essa coragem.

Bem podem vir painéis de especialistas explicar até cairmos todos de exaustão que é preciso fazer mais isto e mais daquilo, cortar aqui e racionalizar além. Não passam de palavras vãs, sem qualquer efeito prático. è que, no essencial, ninguém quer mexer, ou seja, na mediocridade, pois essa é que garante aos incompetentes os bons lugares que ocupam e, enquanto isso não mudar, pouco mais se poderá fazer.

José Mourinho é, lá fora, a excepção que, infelizmente para todos nós, confirma a regra cá dentro: trabalha bem e  tem, por isso, o justo e merecido reconhecimento.

terça-feira, 25 de maio de 2010

A perenidade de uma voz também é uma música assim

Interpoetalidades: a efemeridade

É um dia, um dia só, a vida humana. O Homem
o que é? O que não é? Sombra num sonho
É o Homem. Mas se o deus nos ilumina
na terra brilha a vida
e é doce como o mel.”
Píndaro, excerto da Oitava Ode Pítica
(Trad. de Jorge de Sena)
Quais folhas criadas pela estação florida da primavera,
quando de súbito crescem sob os raios do sol,
assim somos nós: por um tempo de nada, nos deleita
a flor da juventude, sem conhecermos o mal ou o bem que vêm
dos deuses. Ao nosso lado estão as Keres tenebrosas,
uma, detentora da velhice medonha,
a outra, da morte. Pouco dura o fruto da juventude
- o tempo de o sol derramar a sua luz sobre a terra.”
Mimnermo, excerto (Trad. de Mª Helena da Rocha Pereira)

Imagem Google
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave
João de Deus, Campo de Flores (excerto)
“Leve, breve, suave,
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
O dia.
Escuto, e passou...
Parece que foi só porque escutei
Que parou.”
Fernando Pessoa (excerto)

"Nada existe duradoiro no mundo,
dizia; e por isto se rege a
nossa vida terrena, a dinastia
e as crenças que julgamos favoráveis
à verdade de sempre.
Porque
cada dia que passa vai trazendo
coisas novas e mostra a minha
necessidade no dia passado. E
a maior inquietação transforma-
-se na tranquilidade."
João Miguel Fernandes Jorge

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Andar num táxi em fúria é mesmo perigoso

Agora que tenho a carta de condução medicamente apreendida por algum tempo, fui forçada a procurar meios alternativos de transporte para a minha deslocação diária. Assim, optei pelo que me pareceu mais óbvio: o táxi. Tudo correu bem até à passada 6ª feira quando, ao fim da manhã, apanhei um junto ao hospital. O motorista tinha já alguma idade e, assim à primeira vista, pareceu-me ser ma pessoa pacífica. Só que umas dezenas de metros à frente comecei a perceber que tinha tirado conclusões precipitadas.

Forçado a seguir atrás de um veículo conduzido a uma velocidade que me pareceu adequada à sinuosidade da ruas do centro histórico, o taxista começou repentinamente a vociferar: “penteiam-se, falam ao telemóvel e os outros que se aguentem!”. Às tantas, de tão concentrado que ia a tentar fuzilar com o olhar o condutor da frente, o taxista descuidou-se e, como a rua era muitíssimo estreita, bateu com o espelho lateral no poste da sinalização rodoviária. Por sorte, dobrou, mas não quebrou. Foi neste preciso momento que comecei a ficar deveras alarmada com a expressão quase assassina no rosto do homem: o dia não devia estar a correr-lhe nada bem, ou talvez até a vida toda não lhe tivesse corrido da melhor forma. A tal ponto que achei melhor manter o silêncio, não fosse o homem ter um acesso de raiva ainda maior, agora contra a minha pessoa.

Uma vez saído da rotunda, o taxista furou o trânsito pela faixa esquerda e carregou a fundo no pedal pela via de circunvalação fora. Em escassos dois minutos, ou talvez nem isso, já estava a travar a fundo para fazer a rotunda seguinte. Colada ao banco, agarrei-me com todas as forças à pega da porta para tentar não ser projectada para fora do veículo pelo impulso da rápida desaceleração e pelo verdadeiro turbilhão de ar que entrava pelas janelas, todas completamente abertas. No troço seguinte, a situação repetiu-se e, como a extensão a percorrer era ligeiramente maior, a carro atingiu uma velocidade ainda superior. E eu já só me lembrava do anúncio do Nuno Markl para a TMN: vou usar o meu acesso de internet móvel para ficar amigo de um taxista durante a viagem, com direito a ouvir música experimental da República Checa e oferta de uma pizza, entre outros mimos. Ao princípio, quando começou a passar na televisão, eu não percebi lá muito bem a ideia. E agora, numa fracção de segundos, tinha-se feito luz no meu espírito: o objectivo era amansar a fera e salvar a vidinha, claro está! Mas, para minha aflição, não tinha comigo nem acesso de internet, nem pc, nem sequer mão disponível para fazer uma simples chamada de telemóvel a pedir socorro, pois tinha ambas engalfinhadas na tentativa de me segurar e manter dentro do carro. Felizmente, a terceira parte do trajecto, depois de contornar mais uma rotunda, era mais curta e tinha fila de trânsito, o que forçou a feroz criatura a reduzir a velocidade. Contornada a última rotunda, o homem começou então a subir a Rua da Lagoa e, logo ali, o meu destino final. Uff!! Paguei a viagem e respirei de alívio por estar sã e salva, embora com um penteado um tanto estranho!

Enquanto me dirigia a casa lá voltei ao anúncio da tmn, no qual o Nuno Markl, apesar do esforço e dos artefactos tic, acaba por não conseguir concretizar os seus objectivos. E concluí que, se nem ele conseguiu “ficar amigo do taxista em fúria” é porque esta é mesmo uma missão impossível. E, no meu caso, até muito dispensável. Por isso nos tempos mais próximos, taxis, nem para fazer anúncios da tmn (da qual, ainda por cima, não sou cliente). Converti-me logo ali ao autocarro azul: não sei se polui menos, não sei se é mais cómodo mas é, de certeza, menos assustador e bem mais barato. E aconselho o Nuno Markl a fazer o mesmo quanto antes.

domingo, 23 de maio de 2010

Os estertores do extremo mais ocidental da europa

Em 2007 Miguel Real publicou um interessante ensaio intitulado “A Morte de Portugal” no qual assume e desenvolve a tese de que temos vivido desde o séc. XVI, mais propriamente desde 1578-1580, quando nos afundámos como nação em Alcácer Quibir, enquadrados por quatro grandes complexos que nos transformaram, ao longo do tempo, naquilo que somos hoje: um país que “atingiu o seu limite de esgotamento” (p. 11). Segundo o autor, não tanto por causa do evidente decadentismo político em que estamos mergulhados, como por efeito da “aceleradíssima descristianização e desumanização ética da sociedade e de uma rapidíssima submersão social numa tecnocracia científica anónima que nivela as nações, metamorfoseando-as em regiões singulares de uma futura supranacionalidade europeia, comandada por títeres janotas que transfiguram a nobre arte da política numa cinzenta cadeia técnica de raciocínios causais...” (p. 11).

O primeiro deles é o chamado complexo viriatino ou da “origem exemplar” de Portugal configurada desde a segunda metade do séc. XVI na figura de Viriato, “herói impoluto, puro, virtuoso, soldado modelo, chefe guerreiro íntegro, homem simples, pastor humilde que se revolta contra a prepotência do ocupante estrangeiro, conduzindo os lusitanos a vitórias sucessivas” (p.12) sobre as vastas e poderosas legiões romanas. Daqui resulta uma visão em que o português “se sente diminuído face à riqueza económica, ao grau cultural, ao nível científico e ao patamar cívico dos povos europeus do Norte, mas logo transforma a fraqueza em força e se afirma viriatinamente como eivado de uma pureza e humildade vitoriosas relativamente ao luxo decadentista europeu e americano e como penhor de valores tradicionais humanistas e íntegros que os países mais avançados, existencialmente desorientados, já perderam” (.p 17).

O segundo complexo surgiu no séc. XVII: é o vieirino ou da “nação superior”, materializado sobretudo na ideia do Quinto Império que, para nos resgatar do “assombro de nos sentirmos insignificantes [perda da independência] depois de nos termos sabido gigantes na descoberta da totalidade do mundo” (p. 13), nos tem deixado “sebastianisticamente em permanente estado inquieto de vigília, aguardando o «despertar», a «Hora» pessoana...” (p.13). São “teorias específicas de grandiosidade” (p.17) como o Saudosismo de Teixeira de Pascoaes, a Idade do Espírito Santo de Agostinho da Silva ou ainda o “génio da raça” de António Sardinha e Oliveira Salazar, entre outras similares. Com este complexo Portugal postula-se “como nação superior às demais, facto desmentido no presente, mas provado no passado e anunciado providencialmente pela narrativa do seu futuro” (p.17).

O terceiro é o complexo pombalino, ou da “nação inferior” (p. 14), em “estado catastrófico” que levou o Marquês de Pombal, no séc. XVIII, a uma acção enérgica em todos os domínios da vida política, económica e social e à primeira grande aproximação do país relativamente à Europa. Das comparações feitas com outros países e povos Portugal sai claramente humilhado, obrigado a penitenciar-se, embora “desagradado de Deus ou de injustas leis históricas” (p.17), configurando-se apenas como “nação inferior, bárbara, rústica, arcaica” (idem).

O últimos destes complexos é o canibalista ou do “canibalismo cultural”. É o que, segundo o autor, tem marcado de forma mais duradoura a cultura portuguesa de 1580 (perda da independência) a 1980 (data do acordo de pré-adesão à então CEE), “passando simbolicamente pelo ano de 1890 – data do Ultimatum britânico a Portugal” (p. 15). Portugal, aqui dominado por uma “pulsão desmedida, um vigor absolutista de reconversão do outro, apostrofando as ideias deste, condenando-as como heréticas, heterodoxas, abjectas” (idem) acaba por sugá-lo e eliminá-lo. Foi o que, desde sempre, fizeram a Inquisição, a polícia de Pina Manique, os jacobinos da I República, bem como o Estado Novo e a Igreja Católica.

Como acrescenta Miguel Real, “Por efeito do ambiente educacional e social, cada português percorre na sua vida, recorrente e ciclicamente, estas quatro figurações da história e cultura pátrias” (p.16).

O autor esclarece depois o título que escolheu para este ensaio: “Assim, a «morte de Portugal» não significa que Portugal desapareça (…), mas, sim, que o Portugal que as gerações nascidas atè à década de 1960 conheceram, animado por aqueles quatro complexos, se encontra em vias de desaparecimento, transfigurado em mais uma das inúmeras regiões da Europa, governado por técnicos medíocres que, lentamente, em nome da segurança internacional, da carência de recursos naturais, ou outra justificação, preparam uma futura ditadura tecnocrática. (…) No futuro, (…) Portugal transformar-se-á em mais uma das inúmeras regiões singulares da Europa, culturalmente tão importante e exótico como a Alsácia ou a Andaluzia, guardando dentro de si, nos seus museus regionais ou nacionais, o retrato de uma velha cultura de 800 anos morta às mãos de um grupo de engenheiros e economistas sem espírito histórico, de uma tecnocracia sem rosto nem alma, para quem conta só, primeiro, a contabilidade das estatísticas e, segundo, o sentido europeu das estatísticas.

As últimas semanas, as tais que mudaram o mundo como afirma o nosso primeiro ministro para justificar o injustificável, marcadas ainda por variados e polifónicos dislates vindos de todos os quadrantes políticos e sociais, pelo assumir de posições e acções contraditórias e sempre (convenientemente) ambíguas (para deixarem em aberto a possibilidade de múltiplas interpretações e acções) demonstram que esta análise de Miguel Real acerta em cheio. A tal ponto que até me parece que o futuro enunciado nesta reflexão como possível/provável no início do próximo século, pode até estar mais próximo do que imaginamos. Digo-o assim mesmo, sem pudor nem medo e, sobretudo, sem falsos catastrofismos ou pessimismo, acreditando ainda que, de facto "Hay un paraiso" aqui na sulidão, mesmo que seja apenas por via da música: