quinta-feira, 8 de julho de 2010

Tantas vezes as pequenas palavras

Quantas vezes são as pequenas palavras que mais contam, que mais marcam? Pequenas não pelo número de fonemas alinhados no seu corpo esguio, mas pela forma como se escapam pelos interstícios da consciência e da premeditação. Simplesmente saem e são ditas.

Quase sempre quem as diz não imagina o poder nelas contido, as formas misteriosas como elas eclodirão na alma de quem as ouve. Não percebe como elas enredarão sentimentos tantas vezes contraditórios, como elas convocarão memórias quase até à exaustão. Misturada tantas vezes com outras de que não fica qualquer memória, aquela é, justamente, a pequena palavra ou expressão que nunca mais esqueceremos, como se fosse um marco geodésico erguido na memória. Ainda que, tantas vezes, desejemos muito esquecê-la.

São as pequenas palavras que, tantas vezes, nos desapertam as maiores emoções, desatam as grandes alegrias ou nos abrem as feridas mais profundas no coração. E, tantas vezes, quem as pronuncia não sabe que aquelas pequenas palavras serão tudo o que restará no fim. Tudo o que ficará até para lá do fim de tudo.

Tenho ao longo da vida compilado um extenso glossário de pequenas palavras que me assaltam tantas vezes o pensamento. Demasiadas, talvez. Muitas gostaria de nunca as ter escutado. A algumas gostaria de conseguir esquecê-las. A outras, espero que nunca me abandonem.

... espero nunca me desiludir contigo ....
... sinto-me mal ...
... amiga ...
... pensava que eras inteligente, mas afinal ...
... professorinha ...
... sei que eras capaz de me trair ...
... às vezes não te reconheço ...
... gosto de si ...
... Mãe! ..
...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Ser ou não ser pobre: eis a questão

Em meados de Junho (17, mais precisamente), os líderes da UE assinaram com a usual pompa e circunstância a “Estratégia 2020”, a qual pretende ser um “Ponto de partida para uma nova ordem”, com um muito ambicioso objectivo final: tirar 20 milhões de pessoas da pobreza em 10 anos. Em Portugal estima-se que haja 4 milhões de pobres: destes, dois milhões lá vão navegando à vista, graças aos apoios do Estado ou das mais diversas IPSS, enquanto outros dois milhões já estão mesmo no limiar ou para lá do limiar da pobreza. E com taxas de desemprego a bater recordes europeus, muito mais gente para lá caminha. Isto, só em Portugal. Por essa Europa fora muitos mais milhões haverá. Sim, na Europa supostamente desenvolvida e rica há cada vez mais pobres e a faixa de população em pobreza extrema cresce anualmente a um ritmo assustador.

Mas, se olharmos para o mundo que nos rodeia - África, América Central e do Sul, muitos países da Ásia – onde a guerra permanente e a violência extrema fazem com que a vida humana pouco ou nada valha, a que se deve acrescentar um cortejo infindável de desastres naturais e de catástrofes mais ou menos anunciadas que tudo arrasam periodicamente, vemos mais ainda: gente que morre todos os dias aos milhares e à míngua de tudo.

Como é que se nivela a riqueza quase chocante de uns, de modo a diminuir significativamente a pobreza de outros? De onde virá o dinheiro necessário, não para erradicar a pobreza, o que seria uma utopia, mas para não deixar que ela atinja patamares que comprometam a sobrevivência de largas faixas de população, até mesmo em países desenvolvidos? Quem é que tem a coragem de tomar medidas políticas socialmente mais justas e equitativas para todos, mesmo que em desfavor mínimo dos grandes interesses económicos? Na verdade, como diz o slogan da campanha da Amnistia Internacional contra a pobreza: o problema não são os animais que vivem como pessoas, são as pessoas que vivem como animais. Ou seja, fazemos muitas vezes às pessoas o mesmo que aos animais: olhamos para o lado, fingimos que não vemos nada, assobiamos para o ar, ou então, como é prática corrente nos países mais ricos/desenvolvidos, pronunciamos belos discursos cheios de promessas, que toda a gente sabe que não serão cumpridas, mas pelo menos soam bem e, por isso, sossegam conciências, por natureza pouco inquietas.

Receio bem que, na actual conjuntura político-económica, à muito consensual, noticiada e referida “Estratégia 2020” se possa aplicar o repescado aforismo de Shakespeare - ser ou não ser (pobre), eis a questão - apenas para concluir depois que o melhor, de facto, é não ser, ou não vir a ser, pobre. Mesmo que se viva num país rico.

terça-feira, 6 de julho de 2010

É difícil imaginar quão verdes foram já estes campos

Atravessar a canícula

Inicio a travessia do breve descampado com o sol escarranchado nos ombros. O próprio ar parece estar em chamas. Atravesso-o como se tivesse pressa de chegar a algum sítio. Ainda nem vou a meio e respirar já é tão doloroso como se inalasse lume. Por instantes cruza-me o pensamento a ideia de deixar tudo o que me pesa de forma (in)visível arder por dentro até ao fim, sem chamas, sem fumos e sem cinzas, de vez e para sempre. E a de continuar depois a andar até chegar a um sítio qualquer, alcandorado na frescura verde-onírica do arvoredo, também.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Never give (all) the heart

Never give all the heart, for love
Will hardly seem worth thinking of
To passionate women if it seem
Certain, and they never dream
That it fades out from kiss to kiss;
For everything that's lovely is
But a brief, dreamy, kind delight.
O never give the heart outright,
For they, for all smooth lips can say,
Have given their hearts up to the play.
And who could play it well enough
If deaf and dumb and blind with love?
He that made this knows all the cost,
For he gave all his heart and lost.


W. B. Yeats (1904)

A planície é um brasido

Árvores do Alentejo

Horas mortas… Curvada aos pés do monte
A planície é um brasido… e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A ouro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota d´água!

Florbela Espanca In Charneca em Flor (1930)

Imagem daqui

domingo, 4 de julho de 2010

Navegar à bolina

A Universidade de Coimbra, lugar histórico de uma certa eudição nacional, lançou um portal digital – o Classica Digitalia, cujo endereço é http://bdigital.sib.uc.pt:8080/classicadigitalia/ – onde se pode ter acesso online e em formato pdf a obras ditas clássicas, tanto de autores portugueses, como gregos e latinos, e também a estudos académicos sobre os mesmos autores e/ou obras.

Numa época em que se lê muito, mas sobretudo livros soft ou light, para ninguém maçar demasiado os neurónios, o mínimo que se pode dizer é que num sítio como este navegamos à bolina dos ventos dominantes. O Classica Digitalia transporta-nos para uma época em que o adjectivo 'erudito' ainda não se tinha transformado numa espécie de mania de pedantes e pretensiosos, ou um simples anacronismo incompreensível para muitos. Remete para um tempo em que “obter conhecimento através dos livros” era um privilégio não acessível a todos, em que estudar Latim e Grego no ensino secundário era normal, ou mesmo essencial, para quem pretendia entrar para as chamadas Humanidades, em que a cultura clássica (Latim incluído), não era ela própria a plêiade difusa, distante e um tanto extravagante em que se tem transformado nestes últimos tempos.

Claro está que os eruditos são, pelas suas próprias características intelectuais, pessoas um tanto maníacas, às vezes até intratáveis e de um perfeccionismo exasperante para nós, comuns mortais. A este propósito, José Pacheco Pereira, que é ele próprio senhor de uma erudição espantosa, conta a história de Vasco de Magalhães Vilhena, um dos maiores conhecedores de Sócrates, que costumava escrever notas em grego (língua que dominava perfeitamente) e em russo (era comunista assumido) assim confrontando os seus adversários intelectuais - como António Sérgio, por exemplo - que não dominavam tais conhecimentos e muito se irritavam com esta atitude deliberada.

Também o Classica Digitalia se arrisca a ser uma provocação que vai direita aos defensores e arautos do 'aprender é fácil e divertido', que têm transformado a avaliação num jogo de faz-de-conta para disfarçar o modo como estilhaçaram alegremente currículos e programas. O rol de autores e obras já disponíveis no portal mostra como aprender não é fácil, requer trabalho e só é divertido muito tempo depois, quando as circunstâncias, quase sempre de forma arrevezada, nos permitem tirar algum partido desse percurso. Ou, para utilizar de forma irónica, um dos grandes slogans desse invejável mundo da certificação fácil e rápida (mas não barata, uma vez que consome a maior parte dos milhões que ainda vêm da UE), também designado Novas Oportunidades: 'Aprender compensa'. Claro que compensa é de diferentes maneiras conforme o contexto e os objectivos visados.

sábado, 3 de julho de 2010

Miserabilismo

Desde 2004 que todos os prémios artísticos e literários atribuídos pelo Estado são tributados como se de uma remuneração se tratasse. Significa isto que, para receber o prémio, independentemente do seu valor, o artista contemplado deve cumprir três exigências: preencher uma Nota de Honorários; apresentar certidões comprovativas da sua situação contributiva e tributária; e descontar uma taxa de IRS no valor 10% sobre o valor total do prémio. E só depois de verificada a inexistência de dívidas, tanto à Segurança Social como às Finanças, se efectua a transferência bancária do dinheiro. Contudo, se o prémio for atribuído em resultado de concurso público não há lugar a qualquer tributação.

Tratando-se de situações de excepção cujo objectivo é reconhecer e premiar o mérito de um trabalho artístico ou literário esta norma é de uma mesquinhez preocupante. Pior, miserabilista, uma vez que o número de prémios artísticos e literários atribuídos anualmente pelo Estado é restrito e nem é preciso ser muito inteligente para perceber que não é de certeza por aqui que os cofres públicos se poderão encher. Atitude miserabilista num país que se dá ao luxo de pagar prémios milionários aos gestores das empresas e institutos do Estado, gente cuja competência profissional é tantas vezes duvidosa, já que muitos desses cargos são ocupados quase sempre por ex qualquer coisa, e são sobretudo uma recompensa pelos bons serviços prestados na vasta galáxia governamental.

Atitude miserabilista de um país onde se gastam milhões com o futebol – quanto custaram os dez estádios construídos de propósito para e Euro 2004 e que agora estão às moscas?; quanto custam as mordomias da selecção nacional de futebol e dos dirigentes da Federação e da Liga e de mais não sei quantas coisas do género? - e com projectos que não passam disso mesmo – quantos milhões têm custado ao Estado os sucessivos estudos e consultorias de todo o género acerca da loalização do novo aeroporto de Lisboa e do TGV? quantos desses estudos serão realmente úteis e necessarios?

Paulo Nozolino recusou esta semana o prémio 2009 para as Artes Visuais, atribuído pela Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA), no valor de dez mil euros. Sobre este valor teria, claro está, que descontar IRS e cumprir as formalidades burocráticas já referidas. Nozolino teve a coragem de recusar o prémio e pediu mesmo que o seu nome não constasse no historial dos premiados. Fê-lo, segundo declarou no comunicado que fez à imprensa, em repúdio pelo “comportamento de má-fé do Estado português” e também porque, como já antes tinha afirmado «A minha história, ou sou eu que a faço ou ninguém a fará.»

Tendo em conta o valor irrisório em causa, e tratando-se sobretudo de um prémio, ou seja, de um reconhecimento ou de um agradecimento simbólico pela obra de um artista, apenas posso dizer que admiro a atitude frontal de Paulo Nozolino e que, perante notícias como esta, sinto cada vez mais vergonha - não deste país-território em que nasci e vivo -, mas cada vez mais desta gente que, para melhor nos (des)governar, nos tenta aborregar todos os dias, de todas as maneiras possíveis.

Nota: ver belíssimo texto sobre vida e obra de Paulo Nozolino aqui.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Aprendizagem

Na escola nunca aprendi a não sentir falta das pessoas que me fazem falta. Talvez porque sempre fui rebelde e teimosa, talvez porque tal aprendizagem não fizesse parte do currículo naquele tempo, ou até talvez não tivesse a inteligência necessária para perceber que essa era uma aprendizagem essencial e a fazer quanto mais cedo melhor. Na verdade, não sei bem explicar porquê.

Sei é que a Vida, apesar de tudo, nunca desistiu de mim e todos os dias tem reservado algum do seu muito atarefado tempo para me ensinar como é.

Não tem sido fácil pois, nesta matéria em particular, nunca fui boa aluna, mas começo agora a sentir-me mais preparada. Qualquer dia até já posso fazer o exame nacional. Penso que será um verdadeiro sucesso, pelos menos estatisticamente, uma vez que sempre tive boa memória.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Uma palavra em exposição: povo

A palavra “povo”, entendida como uma espécie de caixa de Pandora, da qual saem as mais diversas visões, interpretações e manipulações é o desafio que a exposição multidisciplinar (pintura, escultura, vídeo, fotografia, documentação) “Povopeople” propõe aos visitantes (o título é assim um tanto kitsch, mas adiante).

A palavra povo, do latim “populu”, significou primeiro «povoamento», «população» e foi ganhando corpo, à medida que embebia no seu sentido original aspectos sociais, políticos, culturais e económicos, até desaguar no moderno conceito de “cidadania”. Povo é hoje uma palavra de sentido verdadeiramente plural, tanto, que às vezes se torna até ambígua. Assim uma espécie de “mot-valise” construído a partir dos seus múltiplos significados.

A exposição procura então explorar as várias dimensões da palavra plasmadas em frases ou expressões associadas à ideia de “povo” ou a acontecimentos marcantes da nossa história: assim o verso de Zeca Afonso “O Povo é quem mais ordena” é o mote para a sua dimensão política; tal como a citação bíblica “Ganharás o pão com o suor do teu rosto” serviu de lema à dimensão laboral do conceito de povo. Em paralelo, mostram-se igualmente as visões que os diferentes movimentos artísticos, que se sucederam ou foram convivendo ao longo do séc. XX, nos deram desse mesmo conceito: os modernistas, os neo-realistas, os surrealistas, o Estado Novo ou o pós 25 de Abril. O modo como a poesia se apropriou da palavra também está presente. Diversos artistas contemporâneos foram ainda convidados a participar com obras que reflectissem, de alguma forma, sobre esta ideia de povo: Joana Vasconcelos, Rui Sanches, Manuel Botelho, etc.

José Manuel Santos, um dos responsáveis por este projecto, sintetiza-o ao dizer “Começámos pelo princípio: o fundamento da República e da democracia é a ideia de povo. E fomos perguntar: O que significa esta palavra? Qual é a história dela? Que memória transporta quando falamos dela? E como foi ela representada artisticamente?” (in Ipsilon, 25/6/2010).

Ao que parece, pretende-se que cada um dos visitantes encontre a sua própria definição de povo nas respostas, propostas e até provocações que a exposição oferece. E depois de ter visto o Câmara Clara que lhe foi dedicado ainda antes da inauguração e de ter lido o artigo do Ipsilon, escrito já pós-abertura ao público, estou mesmo decidida a rumar um dia destes à “capital do reino” (que é sempre, mas sempre, onde todas estas coisas assim mais interessantes acontecem, já que tudo o resto continua a ser paisagem, sobretudo no que à cultura diz respeito). Quero ir ver com os meus próprios olhos o que é, afinal, isto de ser povo em exposição.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Uma voz que refresca como um banho de mar

Premonições

Ontem, no seu Bartoon diário (Público, 29/6/10), Luís Afonso, com o humor crítico e inteligente que lhe é peculiar, antevia já o previsível resultado do jogo de ontem:
E agora que o coro das vuvuzelas felizmente já se calou (de vez, espero bem) muito eu gostaria de saber quanto é que esta expedição africana dos nossos golden boys da bola e do seu respectivo e numeroso séquito de servidores e acompanhantes nos custou a todos.

Ou será que isto da contenção salarial e da despesa pública é só para alguns e o futebol é, ou melhor, continua a ser, um mundo à parte, por se ter tornado oficialmente a anestesia mental do povo?

terça-feira, 29 de junho de 2010

Aventuras culinário-radicais

Deliciei-me ontem ao fim da tarde, na Sic radical, com mais um episódio de "No reservations" de Anthony Bourdain, desta vez sobre a cozinha da Creta. O seu guia local era uma espécie de sósia do nosso grande gastrónomo alentejano Alfredo Saramago. Para além da belíssima e agreste paisagem de uma terra ainda relativamente a salvo do turismo de massas (e em alguns aspectos semelhante ao nosso Alentejo), descobri similitudes muito curiosas com as nossa tradições culinárias: é que os cretenses consomem, tal como nós, um grande número de plantas selvagens que vão colhendo nos campos de acordo com a generosidade das estações.

Anthony Bourdain é um chef americano que ganhou notoriedade com a publicação do livro "Cozinha Confidencial", o qual, se não lhe granjeou inimigos, garantiu-lhe certamente muitas inimizades, ou não tivesse como subtítulo "Aventuras no submundo da restauração". Nele, para além de muitas verdades inconvenientes sobre o mundo da restauração e da alta cozinha, como esta, por exemplo: “A área de preparação tinha sempre três gigantescas chaleiras cheias de um caldo concentrado escuro e polivalente, a fervilhar interminavelmente sob uma “jangada” de carne moída, restos de carne, ossos de galinha, carcassas de peru, pontas de legumes, peles de cenoura e cascas de ovo. Quando havia falta de comida, os cozinheiros chegavam a passar a concha por este composto a flutuar na superfície, misturavam-no com um pouco de molho de tomate e massa falecida e serviam-no a um pessoal inexplicavelmente agradecido.” (p.125).  Nele Bourdain revela-se sobretudo uma pessoa frontal, sem medo de assumir as suas fraquezas e vícios:

Quando começou a fazer programas sobre cozinha na televisão levou com ele essa atitude e aprofundou ainda mais o lado explosivo, arrogante, exigente e, muitas vezes, antipático da sua personalidade, até chegar a verdadeiro pica-miolos da produção exigindo só do bom e do melhor. Come, e bebe, com um prazer próximo da lúxuria e sem medo de cair no politicamente pouco correcto em televisão. Esse apetite voraz pela aventura culinária, já estava, aliás, bem presente no livro. Como ele próprio escreveu: “Boa comida e comer bem é uma coisa que envolve algum risco. Por exemplo, de vez em quando aparece uma ostra que me dá um desarranjo de estômago. Quer isto dizer que devo deixar de comer ostras? Nem pensar. Quanto mais exótico é o manjar mais aventuroso é o verdadeiro gourmet e maior a probabilidade de algum incómodo posterior. Não me vou negar aos prazeres de uma morcela, ou de um sashimi, ou mesmo de uma ropa vieja na tasca cubana, só porque às vezes não me sinto muito bem algumas horas depois.” (p. 75). Quando gosta é a sério e afirma-o de modo exuberante e sem subterfúgios. Quando não gosta também. Aliás, não é por acaso que o programa é antecedido e interrompido várias vezes pelo aviso de que "contém imagens que podem chocar os espectadores sensíveis". Decididamente "No Reservations" não é um formato televisivo convencional, daqueles tipo verbo de encher grelha de programação da tarde e vale bem o tempo que consumimos a vê-lo.

Ora Bourdain até já passou por Portugal numa fase inicial da sua carreira televisiva, quando ainda não tinha aprofundado tanto os dotes de ironia, cinismo e voracidade que tornam cada um destes seus "No Reservations" numa verdadeira aventura radical. Mas ficou-se pelo norte e centro do país, à conta das origens do amigo português radicado nos Estados Unidos que o guiou nesta viagem por terras lusas. Comeu do bom e bebeu do melhor, sobretudo bacalhau e vinho do Porto e, por isso, o programa foi intitulado "Cod Crazy" (pode ser visto nestas hiperligações: parte 1 e 2).

No entanto, depois de ver o programa de ontem sobre Creta e de ouvir os comentários de Bourdain acerca da comida cretense não posso deixar de imaginar qual seria a sua reacção e os seus comentários se alguém o convidasse a vir ao Alentejo para comer, entre tantas possibilidades,  uma  açorda perfumada com poejos colhidos num ribeiro, a provar umas superlativas migas de espargos bravos, a devorar uma aromática sopa de tomate com todos os seus matadores (figos incluídos), a degustar um belo cozido de grão com cardos e a fazer um tour aí por umas tascas semeadas na planície para comer uns petiscos preparados na hora, regados com uns copos de tinto, à mistura com uma sessão de espontâneo cante alentejano ao balcão. É pena que, no âmbito cultural e turístico, os municípios alentejanos se esqueçam tantas vezes de ousar pensar nestes novos meios de divulgação, tão poderosos e com retorno garantido. Ainda por cima sem terem que gastar milhões em campanhas publicitárias. Sim, que eu ontem só não fiz logo ali as malas e abalei para Creta porque sou uma pelintra, mas há por aí muita gente que até o poderia fazer se lhe apetecesse.

Mas, caro chef Bourdain, mesmo assim, quando quiser, estou disponível para lhe dar a provar os extraordinários e genuínos segredos culinários da nossa sulidão. Atrevo-me a pensar que não ficará desiludido.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Atravessar o deserto também é uma música assim...

...ou, pelo menos, quem dera que fosse.



Nota de rodapé: há um ano atrás tive o prazer de assistir ao concerto de Rabih Abou-Khalil na Arena de Évora, acompanhado pela poderosa voz do fadista Ricardo Ribeiro, que anda agora aí nos ouvidos de toda a gente com a sua "Porta do Coração". E valeu bem a pena, apesar da péssima acústica do recinto que em muito prejudicou o concerto.

Com as vírgulas não se brinca

Recebi via mail um texto muito engraçado, relativo à celebração dos 100 anos da ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Intitula-se "Sobre a Vírgula"


Vírgula pode ser uma pausa... ou não.
Não, espere.
Não espere..

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.

Pode criar heróis..
Isso só, ele resolve.
Isso, só ele resolve.

Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.

A vírgula pode condenar ou salvar.
Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!

Uma vírgula muda tudo.

ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.

Ainda a propósito de vírgulas, podemos sempre recordar aquela velha afirmação de que "a língua portuguesa é muito traiçoeira" e acrescentar "e a vírgula também". Que o digam os senhores deputados envolvidos no famoso "caso da vírgula" no Artigo 30.º do Código Penal, que muita tinta fez correr lá pelos idos de 98 («O disposto no número anterior não abrange os crimes praticados contra bens eminentemente pessoais, salvo tratando-se da mesma vítima»)!

domingo, 27 de junho de 2010

A crise e o seu cortejo de misérias

O DN de hoje traz um artigo sobre prostituição de rua. Uma das entrevistadas queixa-se a certa altura de que, por causa da crise, há menos homens/clientes e os que aparecem discutem muito mais o preço pedido. O regateio termina com frequência em chantagem: muitos clientes só aceitam pagar o preço pedido se o sexo for feito sem preservativo. E muitas vezes, pressionadas por necessidades financeiras de vária natureza, as mulheres acabam por aceitar esta espécie de roleta russa, na qual mais do que o dinheiro (segundo o jornal as verbas pagas variam entre 15 e 30 euros), está em jogo a sua própria vida.

Perante tal informação, eu diria que  estamos aqui confrontados, não com um dos aspectos da crise, mas sim com uma das muitas faces da miséria humana, tornada mais visível e despudorada pela crise que estamos a atravessar. Estamos bem longe das fantasias erótico-fílmicas que povoam por aí muita página de internet e muita cabeça leviana (ou mesmo oca), e a pisar o pavimento escorregadio da infâmia e da sordidez humanas, a que também se costuma chamar realidade: por um lado, a das mulheres que, por dinheiro, são forçadas, cada vez em maior número (o próprio DN traz diariamente várias páginas de anúncios dedicadas a isto mesmo), a vender o corpo para sobreviver;uma das prostitutas entrevistadas diz mesmo à jornalista: “São nojentos, todos. Há novos e velhos. Advogados, juízes, polícias e militares”; por outro lado, a dos homens que acham que podem comprar sexo a preço baixo (como quem compra um pacote de leite no supermercado, comparando os preços das várias marcas) e com um bónus suplementar: o de que a SIDA e afins "só acontecem aos outros".

Claro que, no fim, seremos todos nós, enquanto sociedade, a pagar – e de muitas maneiras, algumas até bastante subtis - os elevados custos das consequências desta clara degradação humana e sócio-económica.

sábado, 26 de junho de 2010

Da estupidez e do poder

Carlo Maria Cipolla escreveu, na década de 70, um pequeno ensaio “espirituoso”, como o próprio autor o designa, intitulado “As leis fundamentais da estupidez humana” que publicou e distribuiu apenas pelos amigos mais próximos. Mas o interesse suscitado pelo texto forçou o autor a considerar a sua publicação a uma escala mais alargada (Editora Texto & Grafia, 2008).

Nele Cipolla distribui os seres humanos por quatro categorias fundamentais: os ingénuos, os inteligentes, os bandidos e os estúpidos (p. 69). Mas como podemos distinguir uns dos outros? Pela forma como está exposto até parece fácil:
 “Se Fulano realiza uma acção e sofre uma perda e, ao mesmo tempo, proporciona uma vantagem a Sicrano (…): Fulano agiu como ingénuo” (p. 69).
Se Fulano “realiza uma acção da qual obtém uma vantagem e, ao mesmo tempo, também proporciona uma vantagem a Sicrano (…): Fulano agiu inteligentemente” (p. 69).
“Se Fulano realiza uma acção da qual retira uma vantagem causando uma perda a Sicrano (…): agiu como um bandido” (p. 69).
Mas se Fulano realiza uma acção da qual não retira proveito e com a qual, ainda por cima, provoca “prejuízos, frustrações e dificuldades” (p. 71) a Sicrano, sem que ninguém seja capaz de explicar racionalmente as razões que levaram Fulano a fazer essa mesma acção, então estamos perante um estúpido.

Até aqui a coisa ainda é mais ou menos consensual, apesar de haver certamente várias hipóteses de subverter a “quadratura” deste esquema, até porque a coerência não é, decididamente, a mais forte qualidade humana. As más notícias, contudo, começam a chegar logo depois.

Para Cipolla a ideia muito ocidental de que os homens são por natureza iguais e de que a existência de uns mais iguais que outros se fica a dever apenas à educação ou ao ambiente social é completamente errada. A existência de estúpidos é tão certa e inevitável como o grupo sanguíneo e deve-se apenas aos insondáveis caprichos da Mãe Natureza. Para Carlo Cipolla a experiência demonstra que, em todos as épocas e sociedades, a percentagem de estúpidos no total da população se mantém constante, da mesma forma que se mantêm constantes certos fenómenos naturais. Por isso, a estupidez é também uma prerrogativa indiscriminada de todo e qualquer grupo humano” (p. 62), imune às influências de “tempo, espaço, raça, classe ou outra qualquer variável histórica ou sociocultural” (p. 87). O autor desmistifica ainda a ideia de que o número de estúpidos numa sociedade decadente seja maior do que numa sociedade em ascensão. Ele considera que o seu número é idêntico em ambas, senda distinta a reacção social à sua existência: a sociedade decadente permite que “os membros estúpidos sejam mais activos” (p. 88), enquanto a sociedade em ascensão apresenta “também uma percentagem insolitamente elevada de indivíduos inteligentes que se esforçam por manter sob controlo” (idem) os estúpidos.

E como se estas não fossem já ideias suficientemente perturbadoras, Cipolla ainda atribui aos sexto e sétimo capítulos do seu ensaio os títulos de “Estupidez e Poder” e “O Poder da Estupidez”, respectivamente. No primeiro afirma que os danos potenciais que os estúpidos podem causar tanto nos outros indivíduos, como na comunidade ou até na própria sociedade varia em função de aspectos distintos: por um lado, o maior ou menor peso do factor genético pode fazer com que determinados indivíduos pertençam, “desde que nascem, à elite do seu grupo” (p. 77); por outro, também a própria posição de poder e autoridade que ocupam na sociedade pode potenciar os efeitos dos seus actos, uma vez que “Entre burocratas, generais, políticos, chefes de Estado e homens da Igreja” (p. 77), encontramos uma percentagem de estúpidos idêntica à dos outros estratos sociais.

A interrogação que se impõe neste ponto do texto é a de saber como é que pessoas “fundamentalmente estúpidas” (p. 77) conseguem chegar a posições de poder e de autoridade. Cipolla responde de modo muito simples: na época pré-industrial, “As origens de classe ou de casta (laicas ou eclesiásticas) foram os ingredientes sociais que permitiram um afluxo constante de pessoas estúpidas a posições de poder” (p. 78); na época industrial moderna, o papel da classe e da casta foi assumido pelos partidos políticos, pela burocracia e até pela democracia. O ensaísta afirma mesmo que “No interior de um sistema democrático, as eleições gerais são um instrumento de grande eficácia para assegurar a manutenção estável da fracção σ [símbolo usado por Cipolla para indicar o número provável de pessoas estúpidas no seio de uma população]”, até porque não podemos esquecer que uma certa percentagem dos votantes é também ela constituída por estúpidos.

E os estúpidos com “poder político, económico ou burocrático” (p. 79) tornam-se sobretudo perigosos “porque as pessoas razoáveis têm dificuldade em imaginar e compreender um comportamento estúpido” (idem). Segundo Cipolla é mais fácil perceber a lógica de um bandido (que é, grosso modo, um indivíduo que obtém um “mais” na sua conta bancária provocando um “menos” na conta do próximo), pois ela é linear e previsível, do que a de um indivíduo estúpido, pois “Não temos nenhum meio racional de prever se, quando, como e por que motivo uma pessoa estúpida vai levar por diante o seu ataque. Perante um indivíduo estúpido, estamos por completo à sua mercê.” (p. 80) Ainda com uma outra agravante: “a pessoa inteligente sabe que é inteligente; o bandido tem consciência de que é bandido; o ingénuo está penosamente compenetrado da sua falta de prevenção. Ao contrário de todas estas personagens, o estúpido não sabe que é estúpido: e isso contribui para dar maior força, incidência e eficácia à sua acção devastadora” (pp. 80-81)

Um outro aspecto que potencia ainda mais os perigos desta situação é o facto de, surpreeendentemente, até mesmo as pessoas inteligentes e os próprios bandidos terem dificuldade em “reconhecer o poder devastador e destrutivo da estupidez, sendo extremamente difícil de explicar porque é que isto acontece” (p. 83). Cipolla avança algumas hipóteses: porque se entregam a sentimentos de complacência ou de desprezo, ou porque são levados a “crer que uma pessoa estúpida só faz mal a si própria” (p. 83).

Aplicando o raciocínio do autor à realidade social obtemos mais ou menos isto: “Se todos os membros de uma sociedade fossem bandidos perfeitos, a sociedade permaneceria em condições de estagnação, mas não se verificariam grandes desastres”; “Mas quando os estúpidos metem mãos à obra, a história é outra (…) e daí resulta que toda a sociedade empobrece” (p. 83); enquanto que numa sociedade em ascensão os indivíduos inteligentes conseguem manter sob controlo os estúpidos, ao mesmo tempo que “produzem para si próprios e para os restantes membros da comunidade benefícios suficientes para fazer do progresso uma certeza” (p. 88).

E Carlo Cipolla conclui o seu ensaio definindo o que considera ser, à luz desta sua teoria, um “país em declínio”: aquele em que “a percentagem de estúpidos é sempre igual a σ; todavia, na restante população nota-se, especialmente entre os indivíduos que se encontram no poder, uma alarmante proliferação de bandidos com uma alta percentagem de estupidez (…) e, entre aqueles que não estão no poder, um aumento igualmente alarmante do número dos ingénuos (…). Uma tal mudança na composição da população dos não estúpidos reforça inevitavelmente o poder destrutivo da fracção σ dos estúpidos e leva o País à ruína.” (p. 89).

Mas o mais confrangedor é verificar diariamente como, em alguns aspectos fundamentais - governação, política, economia, finança -  apresentamos, de facto, muitas das características de uma “sociedade em decadência” no sentido que Carlo Cipolla, com tanta argúcia, atribui ao conceito. E claro que em muitas coisas, demasiadas, também me reconheço no grupo dos ingénuos.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Árvores e pássaros

Nas grandes laranjeiras perfiladas frente às janelas da escola, a chegada do verão significa o início de um ritual diariamente repetido e que se prolonga por toda a estação: à medida que o sol vai desaparecendo no horizonte, centenas de pardais chegam e aprestam-se para passar a noite no abrigo seguro que as árvores proporcionam.

São de tal modo numerosos que a generosa copa das velhas laranjeiras depressa se torna exígua para tantos hóspedes. E é então que começa a algazarra: esvoaçam continuamente, piam sem parar, lutam entre si de forma agressiva para conquistar ou assegurar lugar no ramos. Depois de várias horas, quando a noite já se instalou e parece impossível que as árvores possam acolher mais aves, começam a acalmar-se mas, de repente, a chegada aflita de um retardatário, provoca o pânico e, durante breves instantes, todos esvoaçam em simultâneo, roçando-se nas folhas verdes e soltando pios aflitos. Quando as janelas do gabinete estão abertas o ruído é quase ensurdecedor. Mas tudo termina tão repentinamente como começou e volta um silêncio que, nos instantes iniciais, quase parece estranho. A meio do serão, a paz nocturna apenas é interrompida aqui ou ali por alguns pios mais ténues, que lembram uma queixa, como se algumas aves se lamentassem por não conseguirem adormecer ou, quem sabe, da má vizinhança (talvez alguns dos pardais ressonem, perturbando o sono dos vizinhos mais próximos).

Sempre que, pela janela aberta, observo as vibrações ruidosas da folhagem escura das laranjeiras lembro-me do poema de Ruy Belo:

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de frutos dão pássaros
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores

In Obra Poética

E também de uma certa curta metragem da Pixar: For the birds

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Arqueologia das Palavras

Junho 1871

“Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este singular estado:

Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente possuem o poder, perdem o poder, reconquistam o poder... O poder não sai de uns certos grupos, como uma péla que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, num rumor de risos.

Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder, esses homens são, segundo a opinião, e os dizeres de todos os outros que lá não estão – os corruptos, os esbanjadores da fazenda, a ruína do País!

Os outros, os que não estão no poder, são, segundo, a sua própria opinião e os seus jornais – os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, e os interesses do País.

Mas, coisa notável! – os cinco que estão no poder fazem tudo o que podem para continuar a ser os esbanjadores da fazenda e a ruína do País, durante o maior tempo possível! E os que não estão no poder movem-se, conspiram, cansam-se, para deixar de ser o mais depressa que puderem – os verdadeiros liberais e os interesses do País!

Até que enfim caem os cinco do poder, e os outros, os verdadeiros liberais, entram triunfantemente na designação herdada de esbanjadores da fazenda e ruína do País; entanto que os que caíram do poder se resignam, cheios de fel e de tédio – a vir a ser os verdadeiros liberais e os interesses do País.”

Eça de Queirós In Uma Campanha Alegre

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Post-it

Há muitos anos, certo bibliotecário com veia poética entregou-me o livro que lhe solicitei com um post-it na capa onde havia escrito, apenas pelo puro prazer de surpreender os leitores habituais que frequentavam a biblioteca e ao correr do que a inspiração lhe ditava no momento, esta frase de carácter aforístico: “A ternura é o primeiro momento do amor”.

Hoje, se tivesse que agradecer este gesto de uma delicadeza pouco habitual, em vez das palavras que disse na altura (e que, de tão banais, já nem recordo, claro), devolver-lhe-ia o livro com um post-it-réplica onde escreveria: “A ternura é o único momento do amor”.