Mais do que conseguir obter a boa resposta, às vezes, o importante é mesmo ser capaz de formular a pergunta certa.
sábado, 7 de agosto de 2010
Uma espécie de sacerdócio
Numa “garage sale”, ou melhor, "arquivo morto sale", que a biblioteca da minha escola realizou este ano como forma de esvaziar os arquivos e abrir espaço para os bulldozers da ParqueEscolar, comprei por cinquenta cêntimos um livro publicado em edição de autor pela Livraria Sá da Costa em 1955, intitulado Introdução à Vida Docente de Francisco Dias Agudo, que era ao tempo reitor do liceu Gil Vicente. Trata-se de um curioso ensaio sobre a profissão de professor que se assume, segundo o próprio autor, como um “Projecto de Estatuto do Professor”. E, claro, a comparação com o actual Estatuto (ECD) é aqui quase inevitável.
Ao longo das suas mais de trezentas páginas o autor discorre e medita, com notório entusiamo pessoal e conhecimento de causa, sobre “as misérias e grandezas do nosso ofício” (p.9), procurando separar “toda a ganga que o confunde [ao profissional do ensino] e deixa[r] livre o caminho que conduz tanto à solução crítica como à norma prática de procedimento pessoal.” (p.9).
Segundo Dias Agudo, a função docente “tem uma particular dignidade”, que logo se transforma em responsabilidade “debaixo da forma de direitura de procedimentos, de recta norma que, para ser definitiva e acabada, e desse modo conduzir a um acto consciente de governo próprio, há-de emergir de uma situação, conquanto transitória e acidental, - viva e real”(pp.9-10). Tem ainda a “singularidade de se multiplicar por divisão, como sucede sempre que se reparte um bem moral.” (p. 10) Sob este ponto de vista – e sempre na perspectiva do autor – o professor é, ou deve ser, sobretudo um “mestre” que “Dando ou concedendo, (…) esquece a origem donde mana a fonte e deve apenas à sede, que ele mata.” (p.11).
Dias Agudo conduz depois o discurso e o raciocínio para a ideia da “dignidade” do professor, começando por esclarecer conceitos que, sendo afins, são também intrinsecamente distintos: os de professor, mestre e preceptor.
Assim, professor é, “no sentido da letra, de actividade própria e devidamente profissional”, aquele que “vive da escola organizada ou faz, ele mesmo, a escola”, mas é também aquele que “professa”, ou seja, que se integra “numa ordem e colhe dela um proveito, um benefício que por sua vez reparte exercendo a sua profissão docente”. Para Dias Agudo “É este carácter frequentativo, de repetição, que está na raiz da sua função.” (p.11). Contudo lembra ainda que “Assim como toda a criação no reino da natureza é uma repetição na diversificação, a que corresponde espécie e indivíduo, assim o é na ordem espiritual a acção docente do professor; em sua raiz está a repetição do que ele aprendeu e revive em sua actualidade a qual, para ser sua, individual e pessoalmente sua, contende necessariamente com criação diversificada.” (pp.12-13)
Logo depois escreve que “Suprimida a criação espontânea e pessoal, o professor não é mais um professor. Por falta de opinião própria, ou por insuficiência de adesão à sua própria actualidade, por míngua de sinceridade ou pela máscara que o cobre, pelo artifício que o condiciona ou pela comédia que representa – é um farsante; se o negócio ou tráfico está na raiz dos seus propósitos é um traficante; se esse tráfico foi previamente concertados, combinado, tratado - mesmo um tratante. (p.13).
Refere-se ainda o autor, neste capítulo inicial da obra, a um conceito que, ainda hoje, aparece de vez em quando nos debates e discussões sobre o ensino, embora nem sempre pelas melhores razões: o de sacerdócio. E esclarece Dias Agudo que esse é um “falso sentido” (p.16) da palavra professor, uma vez que essa designação quase sempre pretende “encobrir que se aquiete o magistério e o Tesouro, e continue o erário sobranceiro e indiferente às necessidades da pessoa ensinante”, mais do que conter em si mesma um “implícito elogio ou excelência de justiça”(p.16).
De certa forma são bem sábias e bem actuais estas palavras, apesar da sua já provecta idade. Na verdade, o que o Menistério da Educação* tem vindo a fazer nestes últimos anos é justamente considerar os professores como “tratantes”, exigir que eles se tornem “farsantes” e actuar ele próprio como um “traficante”. À luz destes três conceitos – tal como Dias Agudo aqui os apresenta – se pode facilmente entender o Modelo de Avaliação do Desempenho Docente (ADD), o Estatuto da Carreira Docente (ECD), o Estatuto do aluno, bem como o novo modelo de gestão das escolas. Apenas um breve exemplo, retirado desse verdadeiro “tratado de desconsideração pela docência” - que dá pela designação de DL 15/07 ou ECD – o qual, logo no texto introdutório faz esta afirmação esclarecedora sobre o pensamento do Menistério* da Educação sobre os professores que para ele trabalham: “... permitiu-se até que as funções de coordenação e supervisão fossem desempenhadas por docentes mais jovens e com menos condições para as exercer. Daqui resultou um sistema que não criou nenhum incentivo, nenhuma motivação para que os docentes aperfeiçoassem as suas práticas pedagógicas ou se empenhassem na vida e organização das escolas.” Ou seja, os professores mais novos – todos com licenciatura na sua formação inicial, muitos com mestrados e pós-graduações especializadas - trabalhavam no duro, com a gestão das escolas incluída neste pacote, enquanto os colegas mais velhos (não todos, claro, mas muitos deles) beneficiavam das reduções e privilégios que a carreira, e o próprio Menistério*, sempre lhes concedeu. Agora, por força de decreto e porque ao Menistério interessa proceder de outro modo, são considerados, assim de repente, como praticamente “incapazes”. Esta afirmação injusta, tendenciosa e mal-intencionada arrumou definitivamente a questão da profissão para mim, transformando-a, com muita pena minha, em mero trabalho que me garante o sustento de todos os dias. Apenas posso lamentar o facto de ter escolhido, por vocação, um ganha-pão bem duro e desgastante.
Já sobre a questão da extinção dos chumbos de que a Senhora Menistra* falou recentemente, e que tanta polémica tem levantado por aí, só posso dizer que não sei o que será melhor: se ouvir um apelo da direcção da escola para que os professores usem de “bom senso” e não reprovem os alunos porque as estatísticas são um caso sério e a escola tem pergaminhos a defender, se ouvir uma colega da escola, mas actualmente a desempenhar funções na administração educativa regional, dizer numa reunião para a qual foram convocados todos os docente do terceiro ciclo, que um professor ganha 14 ordenados por ano – apontou até o valor financeiro que um professor a meio da carreira ganha e quanto isso dá ao final do ano – para nos questionar depois como é que nós, professores, que representamos um tal encargo anual para o estado, vamos dar contas do nosso trabalho em termos de (in)sucesso quando sobre isso formos questionados pelo tal Menistério-patrão* que nos paga o dito ordenado. Pelo menos assim acabava-se a fantochada que vivemos na escola à conta das taxas de (in)sucesso a assumíamos de uma vez que ser professor é, de facto e cada vez mais, um sacerdócio (e não uma profissão), exactamente no sentido crítico e pejorativo que Dias Agudo há já tantos anos apontou. Talvez este aquietamento entre o orçamento de estado e o magistério acabasse em definitivo com este clima de “guerra de baixa intensidade” que se vive no ensino há já vários anos, sem que se lhe consiga adivinhar o fim. Era pelo menos mais honesto assumir oficialmente que não se podem chumbar os meninos e, só por isso, já valeria provavelmente a pena.
Mas retomando o texto de Dias Agudo - que é aqui o que mais importa - naquilo que pode hoje ser até mais interessante para os seus eventuais leitores: quais são então as características e/ou capacidades que um professor deve ter? (Aquilo que hoje se designa como “conteúdo funcional da carreira). Dentro do espírito do tempo, o autor chama-lhes “virtudes magistrais” e aponta um número bastante superior aos das virtudes teologais: ao todo sete (como os pecados mortais, curiosamente), a saber: paciência, humildade, prudência, liberalidade, justiça, coerência e esperança.
Este seria portanto – caso os seus fundamentos e princípios tivessem vingado - um Estatuto profissional de carácter sobretudo ético e deontológico – justamente a dimensão mais ausente do actual ECD – e muito associado, também dentro do espirito característico da época, à noção de dever. Mas apesar dos anacronismos, não deixa de ser uma proposta interessante, sobretudo pela sólida e erudita argumentação do autor, acompanhada de uma consistência vocabular e sintáctica, hoje já caída em desuso e que por vezes, faz lembrar a oratória vieirina. Eis algumas das belas metáforas a que recorre Dias Agudo:
Paciência - “serena e contínua decantação”; “lenta e demorada edificação da pessoa do discípulo” (p.83);
Humildade - “Assina o pintor o seu quadro, o compositor a snfonia, o estatuário a estátua e o poeta os versos que compõe. (…) Mas o professor não assina a obra que faz. Ele não pode documentar-se pois esse presumível e fugidio documento que é o discípulo não tem suficiente força probatória se o mestre o deixa aos 10 anos; e também a não tem daí por diante porque se não pode saber a quem pertence o merecimento de um homem feito, tantas são as influências que este recebe para bem opu para mal.” (pp. 89-90);
Prudência - “A prudência é, com efeito, uma virtude verdadeiramente ligada à terra, enquanto a humildade fecunda o conceito de vida eterna. Prudência é norma de relação, de comunicação, de convívio ou conhecimento das coisas; a humildade, porém, vive da intimidade de si mesma e radica-se na profundidade da alma. O santo é humilde; o sábio é prudente.” (p. 98) “... o prudente, com a sua ante-visão, com a sua clarividência, a sua sagacidade e o seu saber não se obriga, pelo contrário, - obriga, e é desse modo dominante e vencedor das dificuldades possíveis.” (p.99);
Liberalidade - “Ora, assim como é generoso o fruto para a semente, assim também a prudência é liberal na magistratura do ensino.” “A prudência vive na pessoa do mestre com esse valor de comunicação incontida: é generosa, é liberal e, porque faz o trânsito do saber individual ao saber social, é transitiva.” (p.105) “A liberalidade e o magistério vivem de um presente, não discutem um futuro pessoal e próprio, e é no desenvolvimento desse presente que floresce a sua inclinação generosa.” (p.108)
Justiça - “A justiça é na pessoa do mestre, como duplo de juiz e de réu que ele é, summun jus, ou não é nada o que aqui quer dizer que ao professor não basta ter razão, mas que só lhe chega ter a razão toda; nenhuma, a parte contrária.”. “Não pode nesta causa bem julgar o juiz que se não assente no banco do réu. Essa é a cátedra única e verdadeira donde pode proferir-se sentença sem apelo e sem agravo.”(p.116)
Coerência - “Praticou o santo toda a vida santidade? Santo Agostinho responde. Fez o Poeta só poesia deleitável? Sabe-se que uma exegese adequada põe a descoberto versos artisticamente pobres.” (p.137) “Há uma reversibilidade possível entre inteligência e in-inteligência executória; entre pecado e santidade. Não a há entre justiça e incoerência, pois que esta conduz à descontinuidade e a justiça em sobressaltos é justiça envilecida. Por isso, o professor que julga, assumindo o papel de juiz obriga-se a ser coerente consigo mesmo, igual a si próprio, executivo de critério unívoco, pois que a justiça equívoca é justiça degradada, imoral.” (p.137-138)
Esperança - “Tal como a seara, a vida é cíclica, contínua, - contínua em esperança. Continua-se por sobreposições sucessivas, - o que vem, sobre o que foi – pois um só homem sem futuro e sem passado poderia viver o só momento presente destacado de toda a eternidade. A vida feita só dessas singularidades momentâneas perderia o carácter dinâmico que flui e enlaça e, por isso mesmo, ama. (…) Porque o passado não pode afeiçoar-se ao nosso desejo, é imodificável (…), está como que precipitado no caos e não pode ser recriado; diferente é o futuro, susceptível (…) da nossa íntima esperança.” (p.145) “O mestre crê no seu discípulo pela necessidade primitiva de crer em si mesmo; - por imperativo moral. Porém, essa esperança, como tudo quanto nele vive profissionalmente, é espontaneamente transitiva para a pessoa do discípulo: para que este espere de si mesmo e a si mesmo se promova confiante, construtivo, exaltado.” (p. 151)
E é mesmo assim, de facto: só nos resta a esperança, ainda que a reconheçamos como cada vez mais distante e improvável.
* Grafia intencional.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Agosto: a 'silly season'
A ideia de inventar uma receita mágica capaz de, seguindo determinados preceitos e passos, mudar radicalmente as coisas, em nós ou à nossa volta, deve ser uma utopia tão antiga como o próprio homem. Mas nestes tempos complexos e difíceis que vivemos, essa busca tomou contornos que, por vezes, fazem lembrar uma tentativa desesperada, em contagem decrescente, para evitar um qualquer cataclismo final. Mas ela é, sobretudo, a busca de algo que, supostamente, seria capaz de transformar o nosso quotidiano de forma permanente e continuada: sucesso, dinheiro, amor e, para os mais ambiciosos, essa autêntica “pedra filosofal” que é a felicidade. Esta ânsia de encontrar “a” receita para todas estas coisas é hoje um verdadeiro filão, tanto editorial, como comunicacional e há muita gente que – sob a designação de “guru” - vive (e bem) disso mesmo.
É o caso do israelita Tal Ben-Shahar que, para além de ser um orador com capacidades discursivas invulgares – condição sine qua non para quem se queira tornar um verdadeiro “guru” - é autor de diversos best-sellers - Aprenda a ser feliz, Em busca da perfeição e Even Happier, já traduzidos e publicados em Portugal, com grande sucesso de vendas. É ainda o mentor de um curso de Psicologia Positiva na prestigiada Universidade de Harvard em Cambridge (Massachussetts), o qual é, actualmente, um dos mais procurados da instituição. Ou seja, Ben-Shahar é um especialista nisto das “receitas para...” e foi nessa condição que deu uma entrevista à revista Happy de Julho onde, entre outras coisas, disse que a tendência da maioria das pessoas, em especial das que têm já algum (ou muito) dinheiro, é para continuar “a «perseguir» a próxima promoção, o próximo aumento, como se fosse um vício incurável por este tipo de adrenalina temporária que se parece com felicidade. O constante desejo de aumentar os «zeros» na conta bancária esmorece a procura do prazer e de um sentido para a vida, e é assim que, muitas vezes, o dinheiro atrapalha a busca e o encontro da felicidade”, contrariando deste modo aquele velho chavão de que o dinheiro não compra a felicidade, mas ajuda muito.
Quanto à carreira, declara que “É essencial que sinta prazer no seu trabalho, mas também que encontre um sentido para ele, como a progressão na carreira, o ordenado ou o estatuto (combinação prazer/significado)."
Questionado depois sobre a antítese optimismo/negativismo declarou que “Muitas pessoas acham que tudo tem uma razão para acontecer. Eu não acredito. Mas mesmo que muitas coisas aconteçam pelo melhor, há quem consiga fazer o melhor daquilo que lhes acontece. A ideia de que as coisas acontecem pelo melhor é passiva; a segunda é activa. (…) Winston Churchill disse uma vez que “Um pessimista vê a dificuldade em cada oportunidade; um optimista vê a oportunidade em cada dificuldade. É um dos princípios da Psicologia Positiva que nos pode ajudar a superar um trauma.”
Perante esta afirmação, a entrevistadora formula então a seguinte questão: “Para sermos mais felizes, temos de erradicar totalmente o pessimismo das nossas vidas e cultivar sempre o optimismo?” Ao que o guru responde: “Não. Isso é impossível! É preciso dar-se permissão para ser humana. Aceite os sentimentos de tristeza, de infelicidade, medo... só assim abrirá espaço para as emoções positivas.”
No fim da leitura, eu, que nunca na vida acreditei em receitas que não fossem as de cozinha – e mesmo essas foram sempre objecto de alguma adptação ou modificação, segundo os meus humores e inspirações do momento -, eu, que sempre fui céptica e irónica em relação a estes manuais de como conseguir alguma coisa em x passos, ou em y dias, vi-me obrigada a concordar com o homem e a achar que estas são afirmações, não apenas sensatas, mas até sábias. Ainda por cima feitas numa daquelas revistas ditas femininas!
Aliás, o poder de argumentação de Ben-Shahar é tão bom que considerei mesmo a hipotética ideia de um dia, quem sabe, me vir a inscrever nesse tal curso de Harvard – a ver se começava a olhar à minha volta de modo diferente, ou a ver outras cores para além deste cinzentismo pardacento que parece dominar tudo, atémesmo o rosto e o espírito das pessoas. Começo a estar cansada de me permitir ser tão “humana” e de não conseguir “fazer o melhor” daquilo que me vai acontecendo. E, enquanto professora, estou sobretudo cansada de já não encontrar sequer um sentido para o meu trabalho, - “como a progressão na carreira, o ordenado ou o estatuto (combinação prazer/significado)” -, quanto mais ‘sentir prazer’ ao fazê-lo. Já agora, alguns dos nossos políticos também podiam – se calhar até deviam - fazer talvez um curso intensivo ou algo assim (quem sabe se nas Novas Oportunidades?) para ver se nos conseguiam convencer melhor de que isto, afinal, não está assim tão mau como nos parece, quando andamos aí pela rua e ouvimos e falamos com as pessoas.
Mas depois pensei: estamos em Agosto, em plena silly season anual. E esta mistura contraditória dos pensamentos ficou mais clara... Só espero é que Tal Ben-Shahar não resolva dedicar-se à política, pois parece-me que era bem capaz de vender areia (e muita) aos próprios beduínos. E desses políticos já nós cá temos até demais. Não precisamos de mais nenhum.
É o caso do israelita Tal Ben-Shahar que, para além de ser um orador com capacidades discursivas invulgares – condição sine qua non para quem se queira tornar um verdadeiro “guru” - é autor de diversos best-sellers - Aprenda a ser feliz, Em busca da perfeição e Even Happier, já traduzidos e publicados em Portugal, com grande sucesso de vendas. É ainda o mentor de um curso de Psicologia Positiva na prestigiada Universidade de Harvard em Cambridge (Massachussetts), o qual é, actualmente, um dos mais procurados da instituição. Ou seja, Ben-Shahar é um especialista nisto das “receitas para...” e foi nessa condição que deu uma entrevista à revista Happy de Julho onde, entre outras coisas, disse que a tendência da maioria das pessoas, em especial das que têm já algum (ou muito) dinheiro, é para continuar “a «perseguir» a próxima promoção, o próximo aumento, como se fosse um vício incurável por este tipo de adrenalina temporária que se parece com felicidade. O constante desejo de aumentar os «zeros» na conta bancária esmorece a procura do prazer e de um sentido para a vida, e é assim que, muitas vezes, o dinheiro atrapalha a busca e o encontro da felicidade”, contrariando deste modo aquele velho chavão de que o dinheiro não compra a felicidade, mas ajuda muito.
Quanto à carreira, declara que “É essencial que sinta prazer no seu trabalho, mas também que encontre um sentido para ele, como a progressão na carreira, o ordenado ou o estatuto (combinação prazer/significado)."
Questionado depois sobre a antítese optimismo/negativismo declarou que “Muitas pessoas acham que tudo tem uma razão para acontecer. Eu não acredito. Mas mesmo que muitas coisas aconteçam pelo melhor, há quem consiga fazer o melhor daquilo que lhes acontece. A ideia de que as coisas acontecem pelo melhor é passiva; a segunda é activa. (…) Winston Churchill disse uma vez que “Um pessimista vê a dificuldade em cada oportunidade; um optimista vê a oportunidade em cada dificuldade. É um dos princípios da Psicologia Positiva que nos pode ajudar a superar um trauma.”
Perante esta afirmação, a entrevistadora formula então a seguinte questão: “Para sermos mais felizes, temos de erradicar totalmente o pessimismo das nossas vidas e cultivar sempre o optimismo?” Ao que o guru responde: “Não. Isso é impossível! É preciso dar-se permissão para ser humana. Aceite os sentimentos de tristeza, de infelicidade, medo... só assim abrirá espaço para as emoções positivas.”
No fim da leitura, eu, que nunca na vida acreditei em receitas que não fossem as de cozinha – e mesmo essas foram sempre objecto de alguma adptação ou modificação, segundo os meus humores e inspirações do momento -, eu, que sempre fui céptica e irónica em relação a estes manuais de como conseguir alguma coisa em x passos, ou em y dias, vi-me obrigada a concordar com o homem e a achar que estas são afirmações, não apenas sensatas, mas até sábias. Ainda por cima feitas numa daquelas revistas ditas femininas!
Aliás, o poder de argumentação de Ben-Shahar é tão bom que considerei mesmo a hipotética ideia de um dia, quem sabe, me vir a inscrever nesse tal curso de Harvard – a ver se começava a olhar à minha volta de modo diferente, ou a ver outras cores para além deste cinzentismo pardacento que parece dominar tudo, atémesmo o rosto e o espírito das pessoas. Começo a estar cansada de me permitir ser tão “humana” e de não conseguir “fazer o melhor” daquilo que me vai acontecendo. E, enquanto professora, estou sobretudo cansada de já não encontrar sequer um sentido para o meu trabalho, - “como a progressão na carreira, o ordenado ou o estatuto (combinação prazer/significado)” -, quanto mais ‘sentir prazer’ ao fazê-lo. Já agora, alguns dos nossos políticos também podiam – se calhar até deviam - fazer talvez um curso intensivo ou algo assim (quem sabe se nas Novas Oportunidades?) para ver se nos conseguiam convencer melhor de que isto, afinal, não está assim tão mau como nos parece, quando andamos aí pela rua e ouvimos e falamos com as pessoas.
Mas depois pensei: estamos em Agosto, em plena silly season anual. E esta mistura contraditória dos pensamentos ficou mais clara... Só espero é que Tal Ben-Shahar não resolva dedicar-se à política, pois parece-me que era bem capaz de vender areia (e muita) aos próprios beduínos. E desses políticos já nós cá temos até demais. Não precisamos de mais nenhum.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
O silêncio também é um grito assim
"...Years go by
Will I still be waiting
For somebody else to understand
Years go by
If I'm stripped of my beauty
And the orange clouds
Raining in my head
Years go by
Will I choke on my tears
Till finally there is nothing left
One more casualty
You know we're too easy Easy Easy..."
Tori Amos, Silent all these years
Will I still be waiting
For somebody else to understand
Years go by
If I'm stripped of my beauty
And the orange clouds
Raining in my head
Years go by
Will I choke on my tears
Till finally there is nothing left
One more casualty
You know we're too easy Easy Easy..."
Tori Amos, Silent all these years
Metáforas (quase) naturais – V
(Evoramonte, 30/7/2010)
Há em nós um vazio cheio de Nada, provocado pela erosão que as pequenas infâmias e rejeições do quotidiano vão escavando. E o que tantas vezes impede a maré cheia de Nada de transbordar os limites desse vazio e inundar todo o espaço à volta, não é mais do que uma ténue barreira, feita sobretudo de tenacidade e de medo. É que, perante tão poderosa força, nenhum lugar em nós – por mais secreto que seja - está a salvo de ser engolido pelo Nada que habita nesse mesmo abismo.
Porém esta barragem é frágil, toda ela equilíbrio e balanço entre as forças brutas em presença. Talvez por isso nem sempre consiga impedir uma certa osmose através das paredes do vazio que tenta sempre e por todos os meios alargar-se um pouco mais a cada dia que passa.
Apenas podemos esperar que a vida vá preenchendo sempre o espaço à volta com mais e mais coisas capazes de nos surpreender e capazes, sobretudo, de apanhar de surpresa esse Nada que existe em nós, obrigando-o a recuar para o fundo do seu insondável abismo e mantendo-o lá mais mais algum tempo. Nem que seja apenas por mais um dia.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
A "hortografia"
Uma amiga e colega e profissão enviou-me uma daquelas brincadeiras que circulam por aí de mail em mail, criando rendimentos acrescidos para as empresas fornecedoras de internet.
Neste caso trata-se de mais uma versão (contra)prontuário da língua portuguesa, a brincar com os sentidos das palavras que usamos mais frequentemente e também com a sua grafia, está bom de ver. Intitulava-se “A cor do horto gráfico” e uma das entradas era, precisamente, “Ortografia” aqui definida como sendo “Horta feita com letras”.
Foi então que me lembrei deste verdadeiro canteiro, ou leira se preferirem, de palavras e respectivas possibilidades gráficas e semânticas:
Telegramando
Préternura Paraternura Stop
Proternura Práternura Stop
Interternura Sóternura Stop
Viternura Stop Cooternura Stop
Conternura Meternura Stop
Posternura Desternura Stop
Reternura Reter nu urra Stop
Ter nu
António Aragão,
In Antologia da Poesia Concreta em Portugal 2,
Assírio&Alvim, 1973, p. 50
Do (eterno) antagonismo dos pontos de vista
O ponto de vista de quem está fora (e faz questão disso):
“A televisão, amigo Daniel, é o Anticristo, e digo-lhe que bastarão três ou quatro gerações para que as pessoas não saibam nem dar peidos por sua conta e o ser humano regresse às cavernas, à barbárie medieval e a estados de imbecilidade que a lesma já ultrapassou lá para o pleistoceno. Este mundo não morrerá de uma bomba atómica, como dizem os jornais, morrerá de riso, de banalidade, fazendo uma piada de tudo, e aliás uma piada sem graça.”
Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, Publ. D.Quixote, 2007, 10ª ed.pp. 118-119
Nota: Tendo em conta que a acção do romance decorre na época da Guerra Civil de Espanha, o mais provável é que já sejamos mesmo assim e ainda não nos tenhamos dado conta disso.
O ponto de vista de quem está dentro (e está muito feliz por isso):
“- Estás a tornar-te produtivista!
- Penso que não. O trabalho constante cria uma dinâmica exaltante, quanto mais se trabalha mais apetece trabalhar, trabalhar em mais sítios, em mais zonas...
- Que horror!
- Não é nada. Gosto da produção industrial que há na televisão, obriga-nos a ultrapassar sentimentos mornos, condescendências...
- E a qualidade? E o desgaste?
- O fazer muito é excitante.
- Como uma droga?
- Não. As grandes pausas levam a grandes dúvidas, e as grandes dúvidas levam a grandes inibições.”
João Perry, “Os caminhos cruzados de João Perry”, entrevista de Fernando Dacosta para o Público Magazine, nº 234, 28/8/1994.
O ponto de vista do tédio quotidiano (e que é mais o de todos nós):
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Frutos
Pêssegos, pêras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão,melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.
Eugénio de Andrade,
in Aquela Nuvem e Outras,
Porto, Ed. Asa, 1986.
Natureza Morta de Jean-Baptiste Chardin,
c. 1759
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão,melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.
Eugénio de Andrade,
in Aquela Nuvem e Outras,
Porto, Ed. Asa, 1986.
Natureza Morta de Jean-Baptiste Chardin,
c. 1759
A (des)propósito
Todos os frutos têm o seu tempo certo para serem colhidos e saboreados. É nesse ponto exacto da sua maturação, e em nenhum outro, que revelam as suas melhores qualidades – aroma, doçura, sabor, textura – e que proporcionam maior prazer a quem deles desfruta.
São também assim os frutos da paixão, quando colhidos apressadamente, ou quando saboreados já demasiado maduros: não sabem bem e deixam ficar depois um rasto desagradável na memória sensorial. Não apetecem, sequer.
Tal como os frutos da natureza têm a época certa de acontecer e o momento oportuno de serem melhor apetecidos e saboreados, também os frutos da paixão sabem ainda melhor quando conseguem esperar pela feliz, mas pouco provável conjunção que junta o momento mais adequado (e que nada tem que ver com a ideia de uma “idade certa” para fazer as coisas), com as pessoas certas e no ponto exacto do desejo.
Nota: não será por acaso que a palavra paixão integra o nome de alguns frutos em diversas línguas. Por exemplo, no francês, a expressão “fruit de la passion” é usada para nomear o maracujá fruto da passiflora edulis.
domingo, 1 de agosto de 2010
Metáforas (quase) naturais - IV
(Evoramonte, 30/7/2010)
Vida e Morte co-existem em nós. No primeiro de todos os dias da nossa biografia é a Vida que faz prevalecer a sua vontade, mas no último é sempre a Morte que vence o combate. Pelo meio, o quotidiano braço-de-ferro entre as duas forças opostas, porém equivalentes em vontade e em teimosia, que determina a nossa (in)existência.
Compulsões...
Escrever também integra a lista das variadas compulsões que nos podem afectar ao longo da vida e tomar várias formas (e suponho que escrever sem parar num blogue também já consta certamente nessa mesma lista).
Na sua “lição” intitulada The Secret Life of the Love Song, Nick Cave fala de uma certa obsessão pessoal pela escrita de canções de amor e conta o caso de um grande amigo seu que tinha a pulsão de escrever cartas de amor. Nesse mesmo texto de que já falei aqui numa postagem há alguns meses – e de que, provavelmente, voltarei a falar a propósito de muitas outras coisas, pois a música e as palavras de Cave são uma das minhas mais antigas velha obsessões – Nick Cave aproveita para, comparando a escrita de cartas de amor com a de canções do mesmo teor, definir, de modo superlativo, a natureza intrínseca da canção de amor:
Na sua “lição” intitulada The Secret Life of the Love Song, Nick Cave fala de uma certa obsessão pessoal pela escrita de canções de amor e conta o caso de um grande amigo seu que tinha a pulsão de escrever cartas de amor. Nesse mesmo texto de que já falei aqui numa postagem há alguns meses – e de que, provavelmente, voltarei a falar a propósito de muitas outras coisas, pois a música e as palavras de Cave são uma das minhas mais antigas velha obsessões – Nick Cave aproveita para, comparando a escrita de cartas de amor com a de canções do mesmo teor, definir, de modo superlativo, a natureza intrínseca da canção de amor:
“The reasons why I feel compelled to sit down and write love songs are legion. Some of these came clearer to me when I sat down with a friend of mine, who for the sake of his anonymity I will refer to as J.J. and I admitted to each other that we both suffered from psychological disorder that the medical profession call erotographomania. Erotographomania is the obsessive desire to write love letters. My friend shared that he had written and sent, over the last five years, more than seven thousand love letters to his wife. My friend looked exhausted and his shame was almost palpable. I suffer from the same disease but happily have yet to reach such an advanced stage as my poor friend J. We discussed the power of the love letter and found that it was, not surprisingly, very similar to the love song. Both served as extended meditations on ones beloved. Both served to shorten the distance between the writer and the recipient. Both held within them a permanence and power that the spoken word did not. Both were erotic exercises, in themselves. Both had the potential to reinvent, through words, like Pygmalion with his self-created lover of stone, one's beloved. Alas, the most endearing form of correspondence, the love letter, like the love song has suffered at the hands of the cold speed of technology, at the carelessness and soullessness of our age.”
E a sua bela canção “Love Letter” tem tudo a ver com isto:
sábado, 31 de julho de 2010
FPMM - Festival Pessoal de Músicas do Mundo
Agora que todos parecem apostados em estragar de vez o FMM de Sines, querendo a todo o custo transformar aquilo em qualquer outra coisa que é, também aqui, mais do mesmo - para mim, a world music é exactamente o oposto das grandes multidões ululantes, características dos festivais de rock - decidi fazer o meu próprio festival pessoal de músicas do mundo. E porquê? Porque posso e me apetece, ora!
Da Argentina Juana Molina e da Luisiana (USA) a incrível música cajun na interpretação brilhante de JJ Cale. São estes, mas até poderiam ser tantos e tantos outros: ficam para outras edições do meu FPMM.
Uma espécie de retrato com números
Vivemos, para o melhor e para o pior, rodeados de números por todo o lado. Os números são bons porque nos mostram uma outra visão da realidade, para lá das máscaras da propaganda e da demagogia com que, tantas vezes, nos ofuscam o entendimento. Os números são maus porque, como tudo na vida, estão sujeitos a interpretações, manipulações e outros -ões que, tantas vezes, nos confundem. E há, de facto, números para tudo, até mesmo para o que nunca imaginámos que pudesse vir a interessar a alguém. E estão todos na http://www.pordata.pt/, ou Pordata, que é uma base de dados sobre o Portugal Contemporâneo, organizada e financiada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos – a mesma que está a publicar agora a colecção “Ensaios da Fundação” sobre temas pertinentes da actualidade, escritos por especialistas -, sob a orientação da socióloga Maria João Valente Rosa. A sua origem é, claro está, o INE e várias outras instituições congéneres.
A Pordata, através dos números e das informações sobre coisas que, por fazerem já parte integrante do nosso quotidiano, ao ponto de nem quase darmos por elas ou de as termos como um dado adquirido, ou como se, desde sempre, tivessem feito parte das nossas vidas, permite ver bem a vertiginosa evolução do país nas duas últimas décadas, pois os números aqui não mentem. Assim, em 1990:
- não havia ainda internet (pois mais absurdo que isso nos possa parecer nos dias de hoje ,em que vivemos mergulhados na chamada info-cloud);
- mais absurdo ainda, os telemóveis eram autênticos tijolos transportados nos automóveis e eram tão caros que só meia dúzia de excêntricos os podia adquirir;
- não havia TVI, nem SIC, nem televisão por cabo;
- havia no país 821 terminais de Multibanco, tão poucos que a lista de locais onde se encontravam era publicada pela SIBS em alguns dos principais jornais diários; em finais de 2008 existiam 13 391 e hoje já serão muitos mais;
- Lisboa e Porto ainda não estavam sequer ligados por auto-estrada;
- a palavra hipermercado ainda não fazia parte do nosso vocabulário habitual;
- ninguém imaginava sequer que, um dia, as lojas dos chineses ocupassem os espaços deixados vagos pelo comércio tradicional;
- pagávamos as contas em escudos e vivíamos com uma taxa de inflação de 13,4%, enquanto que em 2009, por exemplo essa mesma taxa foi negativa e pagamos agora tudo com euros e cêntimos.
E mesmo assim quando olhamos hoje para os nossos parceiros da Europa, sobretudo, para os da zona Euro ficamos e sentimo-nos mal na fotografia, pois em muitos outros e bem mais relevantes aspectos não evoluímos assim tanto, antes pelo contrário.
- ninguém imaginava sequer que, um dia, as lojas dos chineses ocupassem os espaços deixados vagos pelo comércio tradicional;
- pagávamos as contas em escudos e vivíamos com uma taxa de inflação de 13,4%, enquanto que em 2009, por exemplo essa mesma taxa foi negativa e pagamos agora tudo com euros e cêntimos.
E mesmo assim quando olhamos hoje para os nossos parceiros da Europa, sobretudo, para os da zona Euro ficamos e sentimo-nos mal na fotografia, pois em muitos outros e bem mais relevantes aspectos não evoluímos assim tanto, antes pelo contrário.
Em 1990, a taxa de desemprego era de 4,7% e estava em decréscimo, mas em 2010 é mais do dobro: 10,5%. E o pior é que o desemprego afecta hoje, sobretudo, os mais qualificados (está a subir entre os licenciados), os mais jovens e durante mais tempo (às vezes anos). Para além de se ter agravado, e muito, entre os que, sendo pouco qualificados, são considerados demasiado velhos para um novo emprego mas demasiado novos ainda para a reforma.
Um outro aspecto em que também ficámos a pedalar no vazio é o da riqueza por habitante. Em 1990 o PIB per capita era de 9125 €; em 2000 subiu 31%, para os 11 957 €, mas em 2009, situou-se nos 12 421€, ou seja, apenas mais 3,9%. Como estamos a viver uma fase de clara recessão económica, o mais provável é que, em 2010, essa taxa se volte a situar nos valores de 2000. Semelhante involução se verifica com os valores médios dos rendimentos dos agregados familiares: de 11 500€ em 1990, para 16 800 € em 2001 e 14 600€ em 2008.
A complicar tudo isto um envelhecimento quase brutal da população: em 1990, a taxa de população com menos de 15 anos de idade era de 19,9% e hoje é de apenas 15,3%, ou seja, menos 23,12%. A população com mais de 65 anos era, em 1990, de 13,6%, enquanto hoje é de 17,5%, o que representa uma subida de nada menos que 29%. Consequentemente, a percentagem de idosos por cada cem pessoas em idade activa também disparou: era de 20,3% em 1990 e é de 26,1% hoje, o que representa uma subida de 28,57%. Não só, mas também por isto, as despesas da Segurança Social subiram dos 7,9% do PIB em 1990, para os actuais 16,1% do PIB. Ou seja, os encargos com os mais idosos começam, verdadeiramente, a sentir-se em vários aspectos. E, com a esperança de vida a aumentar – era de 74,1 anos em 1990, mas já tinha subido 6,21% em 2007 para os 78,7 anos –, o problema vai agravar-se sobretudo se o crescimento económico e a criação de empregos não aumentarem significativamente nos tempos mais próximos. Tanto mais que vivemos num país onde tudo acontece apenas a dois níveis: o do Estado (gerando muitas vezes a subsídiodependência) e o dos indivíduos nas suas famílias: quem tiver dinheiro ou manha safa-se, os outros ficarão a penar, pois as estruturas comunitárias de apoio social são ainda escassas e não têm mãos a medir.
Só que as perspectivas que se avizinham não são, de todo, animadoras, pois o índice de fecundidade, que era de 1,57 desceu, em vinte anos, para 1,37, o que representa uma diminuição de 12,74%. Mesmo assim, a população do país cresceu ao longo destes últimos vinte anos: dos 9,9 milhões de habitantes em 1990, passámos para os 10,6 milhões, o que representa uma subida de 6,59% conseguida, em muito boa parte, à custa dos residentes estrangeiros. Aliás, a composição demográfica do país, com a presença de imigrantes vindos sobretudo de África, Brasil e Europa de Leste é outra das grande alterações nestas últimas duas décadas. Em 1990 a população não-portuguesa era de apenas 1,1% do total da população, mas em 2008 ultrapassava já os 4,1%. O impacto social desta nova população ainda está por conhecer. Do ponto de vista económico é que, se calhar, não é tão importante como deveria, uma vez que o desenvolvimento do país, neste capítulo, entrou em estagnação.
Já os números relativos à educação revelam-se algo contraditórios ao longo destas duas décadas. O número de analfabetos embora tenha decrescido ao longo de duas décadas - passou de 13% para 11,8%é ainda bastante elevado. Contudo, o número de licenciados subiu de 4% (1990) para 11,5% (2008).
No ensino básico – o tal que é obrigatório para já, até ao 9º ano e, muito em breve, até ao 12º ano de escolaridade -, o número de alunos tem vindo sempre a decrescer (o que não é nada de espantar face ao decréscimo da população jovem). Passou de 1,5 milhões de alunos em 1990 para apenas 1,2 milhões em 2008. Algo de semelhante aconteceu no ensino secundário, como não poderia deixar de ser: dos 310 mil alunos de 1990, subiu para 477 mil em 1996 (fruto da grande massificação deste ciclo de estudos ocorrida em meados da década de 90), mas tem vindo sempre a descer, sendo de 349 mil em 2008. Contudo, a despesa do Estado com a educação não tem diminuído proporcionalmente ao número de alunos, bem pelo contrário: passou dos 3,9% do PIB em 1990 para os 4,4% em 2008. O que é muito natural se considerarmos que os métodos de ensino, os próprios currículos, e as funções sociais que a escola é chamada a cumprir são hoje bem diferentes e de bem maior complexidade do que em 1990.
Estamos portanto perante o retrato de um país que entrou mal no terceiro milénio e que, depois de várias décadas de crescimento acelerado em muitos aspectos - devido sobretudo à entrada generosa de dinheiro vindo da UE e a uma situação global mais favorável -, não tem conseguido, no plano político, encontrar as soluções económicas que nos assegurem o futuro. Ou seja, temos aplicado mal os dinheiros que nos foram dados tão generosamente e, agora, quando os cordões da bolsa começam a fechar-se estamos já a sentir os primeiros efeitos disso mesmo. Temos políticos claramente subservientes a certos interesses económicos, que prejudicam o país e a todos nós com negócios ruinosos, mas falta-nos claramente também o “capital social”, cívico e de cidadania que os ponha – aos políticos - no seu devido lugar. Por isso estamos confrontados há duas décadas com mais do mesmo no que às políticas, e aos políticos, diz respeito. Basta verificar à luz de meia dúzia destes números que a Pordata apresenta a qualquer cidadão que consulte o sítio, as grandes opções de investimento que os actuais (des)governantes estão a tomar, para percebermos que nada daquilo faz sentido face à situação de estagnação que estamos a viver. É que os tais grandes investimentos de que eles tanto falam, no fundo, também são mais do mesmo, mascarado de modernidade e blá-blá-blá.
Enquanto, como sociedade, não evoluirmos o sentido de uma maior consciência de tudo o que está em jogo – e é muita coisa -, enquanto não evoluirmos no sentido de uma maior exigência e responsabilização pelas decisões tomadas (dez estádios de futebol no valor de milhões e milhões, câmaras municipais endividadas até às orelhas durante os próximos trinta anos, por exemplo) enquanto não exigirmos ser governados por gente realmente capaz e, sobretudo, competente, dificilmente sairemos da estagnação em que estamos mergulhados. Enquanto não conseguirmos começar a pensar de uma outra maneira estaremos sempre confrontados com mais do mesmo a todos os níveis. Enquanto não estivermos conscientes de que interessa ao poder político, tal como o conhecemos hoje, que tudo se mantenha na mesma e não tomarmos nós próprios, cidadãos, a iniciativa de mudar a nossa forma de pensar e de agir, então teremos sempre mais do mesmo. Isso é mais do que certo.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Dos noticiários quotidianos
A forma como o horror é capaz de (con)viver connosco, durante anos e anos, incógnito sob a máscara da mais absoluta e pacata normalidade não cessa de me espantar e, sobretudo, de me angustiar.
Metáforas (quase) naturais – III
(Montemor-O-Novo, 26/7/2010)
Castiçal do vento a que o sopro do tempo foi apagando, uma a uma, as breves chamas tremeluzentes e verdes que penumbravam as tardes quentes.
E sempre a música de Leonard Cohen...
... espécie de banda sonora da minha sulidão: Democracy, do álbum The Future.
E também porque a postagem anterior, mesmo que não pareça, tem tudo a ver com o que Cohen canta aqui com tanta ironia.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Metáforas (quase) naturais – II
(Montemor-O-Novo, 26/7/2010)
Memorial da (in)consciência contemporânea, epitáfio abreviado da civilização industrializada ou, quem sabe até, um requiem antecipado pelo mundo tal como o conhecemos hoje.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Quando os sonhos vão caindo como as árvores
When dreams come crashing down like trees
I dont't Know what love can do
When life is hanging int he breeze
I don't Know what love can do
Neil Young and Crazy Horse, in My Heart, do álbum Sleeps with Angels
I dont't Know what love can do
When life is hanging int he breeze
I don't Know what love can do
Neil Young and Crazy Horse, in My Heart, do álbum Sleeps with Angels
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