domingo, 25 de julho de 2010

A verdadeira crise ainda está para chegar

Agora, quando os meus alunos riscam as mesas novinhas em folha, partem ou entortam as cadeiras ou escangalham os estores, entre outros estragos possíveis, costumo dizer-lhes que estão a estragar aquilo que os netos deles ainda hão-de andar a pagar. Claro que eles ficam a olhar para mim incrédulos e com ar de quem está mas é a pensar que a professora, coitada, passou-se. Mas é mesmo assim. A ParqueEscolar EPE anda a endividar-se à grande na banca para poder fazer obras nas escolas – algumas vezes, como é o caso na minha, a destruir o que tinha sido construído de novo há dois anos -, de tal forma que o estado (via Min. Educação) já teve que lhe passar uma série de edifícios para as mãos para servirem de garantia nos empréstimos bancários (Av. 24 de Julho, Liceus históricos de Lisboa e do Porto, etc.) e sabe-se lá que mais património ainda terá que ser alienado para pagar a modernização faraónica do parque escolar nacional, a qual, segundo tem sido anunciado pelo nosse (des)governo ainda vai só no adro.

Isto mesmo foi confirmado por Álvaro Santos Pereira, actualmente professor de Economia na Simon Fraser University, no Canadá, numa entrevista que deu ao Expresso (17/7/2010): “A nossa situação [relativamente às agências de rating e aos mercados internacionais] é imultaneamente melhor e pior. É melhor porque acho que nem os mercados nem as agências de rating têm levado em consideração o nosso extraordinário sucesso económico no último meio século, nem sequer o facto de que Portugal foi um dos poucos países europeus sem crises bancárias significativas desde a Segunda Guerra Mundial. Mas é pior porque não sei se as agências de rating têm levado em linha de conta a dívida oculta do Estado (isto é, a dívida das empresas públicas, que não entra para as contas públicas), nem os compromissos das parcerias público-privadas. Ora, só a dívida das empresas públicas já ronda os 20% do PIB. E nos pagamentos das parcerias público-privadas vamos gastar quase 30% do PIB nos próximos 30 anos! A partir de 2013, os futuros governos terão uma factura de 1% do PIB todos os anos para pagar as autoestradas, os hospitais, e as restantes grandes obras públicas inauguradas por este Governo. Não tenho dúvidas que este é um dos maiores atentados geracionais de nossa história recente.”

Ora é caso para dizer que façam os cidadãos como eu digo e não como eu faço: gastar agora à grande e pagar depois (nós, claro!). Até porque o nosso (des)governo sabe que daqui a 30 anos já cá não estará (lagarto, lagarto, lagarto) e, quem vier a seguir que (des)governe como puder, que o povo lá há-de arranjar maneira de pagar.

sábado, 24 de julho de 2010

O Mediterrâneo também é uma música assim

Caminho do mercado

De vez em quando, ao sábado, quando a manhã exala ainda os restos da frescura nocturna, saio de casa para ir ao mercado. Percorro de carro, primeiro a longa rua e o bairro de atarracadas e salazarentas casas operárias que fica à minha direita, enquanto à esquerda vou acompanhando a linha de caminho de ferro que agoniza no corredor aberto na terra para a sua passagem. Na parte final deste primeiro percurso encontro do lado direito o 'ground zero' em que se transfomou a escola e, do lado esquerdo, as ruínas de uma velha casa e da bela quinta onde, em tempos, brilhou de apuros.

Depois entro na larga e comprida avenida rasgada na cidade à custa da muralha de pedra que a circundou. Bordejada com árvores de copa exuberante, plantadas em tabuleiros de relva verde, desafia o sol que por ela entra livremente e aquece as vivendas que exibem o seu fausto burguês dos dois lados da avenida. Se fosse a pé teria chegado lá ao fundo ofegante, mas assim, em apenas alguns minutos, chego ao fim da avenida e viro à direita. Vinte metros à frente viro de novo à direita e, logo depois, à esquerda.

Chego à praceta escondida e quase esquecida onde há sempre lugar para deixar o carro. Está cercada pelas traseiras de vários edifícios imponentes – o antigo convento das maltezas, uma das muitas dependências do quartel militar da cidade – e de velhos armazéns caídos em desuso. As paredes descaliçadas, os portões que escorrem uma ferrugem lenta, matizada de vários tons de vermelho, as árvores descoordenadas que sobrevivem sabe-se lá do quê, os carros que apodrecem, ali deixados ao abandono, não enganam: estamos mesmo no centro de uma cidade que definha lentamente, há décadas. Saio do carro e tomo a direcção da rua que, de tão estreita e sinuosa, parece ser abobadada. Aí, à minha esquerda, sucedem-se portas de vários feitios, cores e materiais, pequenos postigos e aberturas rasgadas a custo nas espessas paredes, a imitar janelas. Algumas portas ou meias portas abertas escondem o interior escuro atrás de cortinas garridas, de onde sai um bafo frio de humidade e, de uma ou outra, o som do rádio ou da televisão. Há mesmo um vago cheiro de refogado que se deixa ficar pelo ar parado e bafiento da rua. Um velho tanque de cimento, já muito escalavrado, encosta-se a um canto como se quisesse esconder-se. Logo ao lado há roupa estendida num cordel e vasos feitos de velhas latas e baldes, carregados de verde e de flores. À minha direita apenas uma parede cega, suja e já quase sem cal. São edificações antigas, degradadas, onde vive sobretudo gente idosa e pobre, mas digna. A prová-lo está este cartaz que encontrei pendurado a meio da rua, a lembrar que boa educação e, sobretudo, respeito pelos outros, também é isto:
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(Estremoz, 24/7/2010)


E depois, lá à frente, o grande rossio e o mercado a céu aberto, a festa dos cheiros e das cores. Sobre a praça paira uma nuvem sonora feita de conversas, de risos, de carros que passam vagarosos, como que à procura de alguma coisa (se calhar de um sítio para se arrumarem) e de música roufenha e pimba que sai dos altifalantes estrategicamente posicionados, mas que ninguém escuta. Os velhos e velhas sentados no passeio empedrado vendem ovos, galinhas, pintos e coelhos vivos, mas quase mortos de calor. Há por todo o lado ervas secas cuja utilidade é preciso conhecer ou perguntar ao vendedor, que então as identifica e explica pacientemente aos ignorantes citadinos como é feito o chá e que maleitas cura.

Negociei logo ao início um grande ramo de orégãos. A seguir, levada apenas pela curiosidade, comprei melões amarelos com pinceladas verdes, de intenso perfume, a que o vendedor chamava “marmelinhos”, mas que a mim me lembraram mais os tropicais mamões, tanto pelo formato, como pela cor. Mais à frente, negociei um grande ramo de flores de palha de variadas cores, um molho de trémulas beldroegas crescidas nos canteiros das batatas e, claro, as gulosas ameixas, ou brunhos como se diz por aqui, doces como bombons verdes.

Do outro lado da sebe de buxo que delimita a praça estavam as velharias onde comprei um prato de faiança de sacavém, estampado a preto e branco, como tantas vezes as minhas manhãs de sábado, pensei. E retornei a casa, exactamente pelo mesmo caminho, mas agora no sentido inverso.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Proverbiais e aforísticas, a propósito do programa "Ir é o melhor remédio"

Os tolos vêem o programa na televisão, os espertos fazem o programa para a televisão.

Proverbiais e aforísticas

Em terra de escroques, quem tem olho é director-geral ou presidente do conselho de administração.

Facebook: mil amigos virtuais não valem um, real.

De boa mesa e boa conversa, boa cama (às vezes).

Ainda e sempre o (des)acordo ortográfico

Numa das suas últimas Crónicas publicadas no Expresso (“O livro dos rostos” - 17/7/2010), Inês Pedrosa – que faz questão de continuar a escrever “de acordo com a antiga ortografia”, em contraponto directo com o próprio jornal que lhe publica os textos -, a propósito do Facebook, voltou a referir-se ao novo acordo ortográfico da língua portuguesa para dizer que: “...as várias versões do português sempre se entenderam – não é por escreverem actual sem c ou os nomes dos meses com minúsculas que se entenderão melhor. Os brasileiros continuarão a chamar camisola à camisa de dormir e a usar o verbo trepar como sinónimo de transar, um verbo amável que os portugueses não têm. Além das diferenças vocabulares, persistirão as diferenças na gramática e na sintaxe – criativas, inspiradoras diferenças, que impedirão sempre a unificação dos manuais escolares nos países de língua portuguesa, mantendo a música específica de cada versão do português. Expliquem-me, por favor, para que serve o acordo ortográfico – e digam-me quanto desse dinheiro que não gastamos a promover a cultura de língua portuguesa ele nos custou. Quanto custou o tal lince descodificador. Quanto custaram as reuniões dos cérebros que produziram a maravilha? Quantos milhões de livros se deitarão para o lixo por neles estar escrito “afecto” em vez de “afeto”?”

Pois é, questões pertinentes, mas retóricas, certamente. É que nestas coisas das decisões políticas os decisores não querem saber quantos milhões custa, querem é levar as suas ideias/planos por diante. Apenas porque sim e, sobretudo, porque quem manda aqui sou eu e pronto! Se calhar, o que nos vale é estarmos em crise e os tais decisores políticos que nos (des)governam terem que fazer de conta que estão agora muito preocupados e a poupar o nosso dinheiro. É que, se isto estivesse bem, acho que nem no Dubai havia tanta ideia peregrina e mirabolante como por cá. O acordo (des)ortográfico é, claramente uma delas.

"Qual é a tua ó meu?", canção já velhinha (em número de anos apenas) de José Mário Branco mantém intacta, hoje como antes, toda a sua ironia crítica.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Words don't come easily

But you can say baby
Baby can I hold you tonight
Maybe if I told you
the right words
At the right time you'd be mine

Tracy Chapman, Baby Can I Hold You



Factos e farsas sobre a política para o arrefecimento global

As questões de política climática na Europa têm sido ofuscadas pela luta da UE para salvar a Grécia e os restantes países da linha mediterrânica, Portugal incluído, do mais que certo enforcamento económico. Isto apesar de, nestes últimos anos, a mesma UE ter pretendido liderar a resposta mundial às questões e consequências funestas do aquecimento global, com a sua política de 20/20/20, ou seja, reduzir em 20 % as emissões de gases com efeito de estufa (por comparação com os níveis de 1990) e aumentar em 20 % a quota das energias renováveis até 2020.

Sobre estas boas intenções europeias de dar lições aos grandes e poderosos poluidores do mundo e sobre o caminho escolhido para lá chegar, no entanto, pairam algumas dúvidas, muito seriamente levantadas por estudos recentes e muito credíveis.

Um deles é mesmo demolidor: trata-se de uma análise de custo-benefício, realizada pelo economista ambiental Richard Tol. Neste estudo sobre a meta 20/20/20, e sobre a meta ainda mais exigente de 30% que tem vindo a ser defendida pela Comissão Europeia, Tol conclui que, isoladamente, qualquer plano europeu terá um efeito diminuto sobre a redução das emissões de carbono e a consequente subida global da temperatura, quanto mais não seja porque não é na Europa que estão as economias mais competitivas e industrializadas. Para além destes benefícios irrisórios, Richard Tol verificou ainda que os custos totais destas metas também não serão exactamente os que têm sido apregoados pela UE, a qual declarou recentemente fazer esta festa por uns míseros 48 mil milhões de euros por ano. Ora todos os modelos económicos aplicáveis parecem indicar que, afinal, há nos lugares-chave da UE quem não saiba fazer bem as contas, pois os custos da meta de 20/20/20 serão de, pelo menos, 110 mil milhões de euros anuais. Mas estes custos agravam-se mais ainda porque as energias renováveis – solar e eólica -, cuja quota deverá obrigatoriamente subir 20%, são tudo menos baratas.

E é por tudo isto que, afinal, o custo real desta nova política ambiental europeia não será de 48 mil milhões, como a UE anuncia, nem sequer de 110 mil milhões de euros, mas sim de 210 mil milhões de euros anuais, sendo que a Portugal será apresentada uma factura de 3 mil milhões de euros por ano.

Um outro estudo, realizado por Björn Lomborg, director do Copenhagen Consensus Center, revela números a que também deveríamos estar mais atentos. Em vez dos custos simples, Lomborg avaliou a política de 20/20/20, calculando o custo do prejuízo global que ela permitiria evitar. Para isso partiu da estimativa de que uma tonelada de dióxido de carbono pode custar 7 dólares de prejuízo, para concluir que os proveitos reais da política da UE correspondem a apenas 7 mil milhões de euros. Ou seja, por cada euro que custa (e custa, pelo menos 210 mil milhões de euros por ano), a política de 20/20/20 da UE apenas consegue obter 3 cêntimos de proveito. É pouco, demasiado pouco, para justificar um investimento regional (europeu) tão elevado.

Lomborg aplicou ainda um outro modelo económico (RICE) e concluíu que, no fim deste século, esta política da UE apenas reduziria a subida da temperatura em 0,05 graus centígrados. Pouco, tão pouco que nem dá para ser medido com precisão.

Ambos os analistas recomendam, por isso, que a UE mude de rumo e deixe de atirar (o nosso) dinheiro pela janela, investindo milhões sim, mas na investigação e desenvolvimento de energias verdes alternativas. Quando alguém conseguir criá-las o impasse mundial em matéria de mudanças climáticas terá os dias contados. Mas enquanto essa fonte de energia alternativa não for encontrada, será sempre demasiado caro substituir em larga escala o petróleo e os restantes combustíveis fósseis por alternativas verdes como a energia solar e a eólica, as quais, ainda por cima, não têm o mesmo rendimento económico. Como diz Björn Lomborg “Se houvesse fontes de energia que não emitissem carbono e que fossem acessíveis, toda a gente – incluindo a China e a Índia – as compraria e, a longo prazo, as emissões diminuiriam significativamente.” (*)

A UE parece assim estar a percorrer um caminho sem saída e, ainda mais preocupante, é o apelo feito pela Comissão dirigida por Durão Barroso para que essa meta (20/20/20) seja ainda mais exigente, subindo a fasquia da redução das emissões de carbono para os 30% abaixo dos níveis de 1990, iniciativa que, pelos cálculos de Lomborg, custaria aos europeus cerca de 450 mil milhões de euros anuais. O impacto desta política mais severa reduziria as temperaturas globais em apenas mais 1 centésimo de grau centígrado, embora o seu custo fosse duas vezes superior ao da actual política de 20/20/20.

Lomborg conclui ainda que “Planos de redução das emissões de carbono caros e deficientemente concebidos, como o da UE, causarão mais problemas económicos e mais conflitos políticos, contribuindo muito pouco para abrandar o aquecimento global. A Europa tem de mudar de rumo.” (*)

Não há dúvida de que andamos, mesmo, a brincar com o fogo. E, muito provavelmente, lá virá um dia em que ficaremos todos queimados...

(*) In Calmal – Cool It: The Skeptical Enviromentalist's Guide to Global Warming

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Sarjeta falante

Esta humilde sarjeta estremocense e o seu apelo, simultaneamente crítico e irónico, fez-me recordar o satírico diálogo de"Os Relógios Falantes", publicado por D. Francisco Manuel de Melo em 1654. Nele o Relógio da Aldeia e o Relógio da Cidade discorrem sobre os variados males e vilanias do mundo e chegam sempre à mesma conclusão: uns pagam pelos outros, regra geral os mais fracos e os que em nada contribuiram para criar esse mesmo mal.

"R.C. - (...) Como é o nome de Vossa Mercê?
R.A. - Sou, com perdão, o Relógio da Vila de Belas (...). Tenho feito a minha obrigação nomeando-me; fazei vossa cortesia correspondendo-me. (...)
R.C. - Quem gostareis vós que eu vos saia? Sou esse cansado, esse negro, esse maldito Relógio das Chagas, de Lisboa.
R.A. - Chagado e ferrugento vejo eu V. M., para ser tão grande e tão antigo cortesão, de quem a fama publica mil galantarias.
R.C. - Ó saloio, por bom modo me desonrais de mentiroso!
R.A. - E vós a mim de vilão com bem mau modo!
R.C. - Por isso se diz que não há alfaiate bem vestido. Nunca vereis menos cortesia que na corte. Anda o mundo desconcertado e o peor é que nos põem a nós a culpa.
R.A. - Essa manha sempre ele a teve, e muitas vezes, cá pelas minhas mossas de ferro, hei notado que de contínuo os baixos pagam os encontros dos altos, que é justiça de canhoto ou esuqerda justiça. Opõem-se lá no céu dois planetas, eclipsa-se o sol ou a lua, e nada de tudo aquilo prejudica ao céu. Pagam os campos, as sementeiras e talvez os homens, as paixões que passam as estrelas no seu firmamento e os planetas em suas esferas, como se nós os atiçássemos. (...) Na terra é do mesmo modo; os homens desmancham o mundo, e os relógios têm a culpa."

Estremoz, 21/7/10

Transpondo a situação para este cantinho da cidade poderemos facilmente concluir algo de semelhante para os dias de hoje: os homens fizeram as porcarias e a sarjeta é que paga. Ou não fôssemos nós um povo de "brandos costumes", sobretudo no que ao civismo, e à sua ausência, diz respeito!

Fado: um caso à parte

Lula Pena é, no panorama do fado, um caso à parte. E ainda bem.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Baudelaire: The Rebel Prince

Vá-se lá saber porquê, esta canção de Rufus Wainwright - Rebel Prince - do cd Poses traz-me sempre à memória Baudelaire, para mim, o 'príncipe dos poetas'.

L'Albatros

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnes de voyage,
Le navires glissant sur les gouffres amers.

À peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Commes des avirons traîner à côté d'eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.

In Spleen et Idéal

Verso oculto

Se um verso meu pudesse falar
Contar-te-ia histórias e segredos
Que a alma adivinha e sente
mas nem à caneta sabe revelar…

Fátima Valverde

Nota: salvo de afogamento daquela nossa breve experiência bloguística em dueto.

Escrever: porquê? para quê?

- Quais são os motivos e as paixões que fazem você escrever?

“... Porque tenho necessidade, sou neurótico, quero resolver meus problemas interiores, quero me situar no mundo. Sou vaidoso e exibicionista. Sou tímido e introvertido. Acho que preciso escrever para dar um depoimento de meu tempo, contar da condição humana nos dias em que vivemos. Gosto de escrever porque me diverte, me alegra. Porque é sensual. E porque, escrevendo, sinto qur posso ser amado pelas pessoas. É isso. Sou um carente de amor.”

Ignácio de Loyola Brandão, Para Gostar de Ler, Vol. 8 – Contos, S. Paulo, Ed. Ática, 1987, 3ª ed.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

E se um bando de avestruzes, de repente, lhe desse umas bicadas?

Keith Floyd tornou-se conhecido no mundo inteiro sobretudo através dos programas de televisão que realizou em Inglaterra e em diversos outros países. Mais do que a comida ou a bebida, era a sua personalidade flamejante que captava a atenção dos seus muitos seguidores. Apreciador das coisas boas da vida, da boa comida e, sobretudo, da boa bebida, Floyd não tinha medo de dizer o que pensava e, por diversas vezes, essa atitude lhe trouxe dissabores.

Lembro-me de uma série de programas sobre vinhos franceses (Floyd Uncorked), que realizou em colaboração com um enólogo inglês (JP), nos quais, sempre que o parceiro se alongava nas explicações técnicas, Floyd o interrompia com toda a naturalidade para dizer que estava na hora de provar mas era o vinho e deixar a conversa fiada de lado. Preparava depois alguns pratos da cozinha francesa nos sítios mais improváveis, como no meio de uma vinha, ao sol e com temperaturas próximas dos 40º, ou à beira-mar com uma nortada tal que o obrigava a reacender o gás de dois em dois minutos ou a apanhar continuamente os utensílios que tombavam na/da mesa.

Keith Floyd era também senhor de uma técnica culinária muito própria, atirando os ingredientes para dentro da panela, para já não falar da sua preferência muito pessoal por guisados, os quais preparava substituindo quase sempre a água da cozedura por... vinho. Além disso, enquanto preparava o prato, fazia questão de abrir uma garrafa de bom vinho, de preferência francês, que bebia deliciado, enquanto discorria sobre a paisagem, sobre o próprio prato que estava a preparar ou sobre algum episódio curioso da sua carreira de 'chef'. Não é preciso um grande esforço para adivinhar que, com as peripécias das gravações pelo meio, acabava muitos programas já um tanto alegre e, completamente descoordenado, deixando cair os utensílios, entornando líquidos, ou fazendo mais barulho com os tachos do que o necessário, por exemplo. Digamos que o álcool fazia parte do seu charme muito pessoal, embora tivesse tido alguma responsabilidade na morte um tanto prematura de Floyd no ano passado.

Um dos programas de televisão, e de cozinha, mais divertidos que já vi na minha vida é dele. Acho até que nem os Monty Python conseguiriam fazer melhor. Passou-se o episódio na série de programas que Floyd dedicou à África do Sul onde, além de ter deslumbrado e vencido a relutância das mulheres em aldeias remotas com os seus caldeirões de comida fervilhante, cozinhada no chão em grandes fogueiras, decidiu um dia preparar um belo guisado de avestruz numa quinta de criação das ditas. E não esteve com meias medidas: instalou-se com armas e bagagens, precisamente, no meio de um numeroso grupo das ditas, envergando até um chapéu enfeitado com uma vistosa pena de avestruz. Estas, certamente surpreendidas com a inusitada visita rodearam-no e rondavam, cheias de curiosidade, a bancada de trabalho. Foi apenas uma questão de minutos até uma delas dar a primeira bicada num dos ingredientes expostos em cima da mesa. A partir daí ninguém mais as conseguiu deter, nem à sua fúria devoradora. Mas, com a descontracção que lhe era caraterística, Floyd lá continuou o seu guisado de avestruz com vinho e cogumelos como - que aliás, tinha um ar delicioso - ignorando soberanamente os incómodos bichos, até que não lhe foi mais possível continuar pois todas as avestruzes o cercavam e já bicavam violentamente em tudo o que estava à vista. Nem o tacho do próprio guisado - e respectivo conteúdo - escaparam incólumes, apesar de estarem a ferver, e bem, sobre o lume. E a Floyd ninguém mais o viu, pois claro. Enfim, de rir até às lágrimas.

E vem tudo isto a propósito de uma daquelas reuniões decorativas que me ocupou boa parte da tarde e na qual marcaram presença alguns ilustres representantes da administração educativa regional, muito compenetrados no seu papel de controleiros e durante a qual, ouvindo a forma como esta gente sabe exactamente aquilo que as escolas devem fazer para resolver os problemas com que se debatem há décadas, dei por mim a pensar que bom seria se um bando de avestruzes em fúria entrasse pela sala dentro e começasse às bicadas em tudo e em todos a ver se aquele suplício acabava mais cedo. Mas, claro, não aconteceu nada disso. Nem poderia, quanto mais não fosse porque Keith Floyd é irrepetível.

domingo, 18 de julho de 2010

Pequenas coisas

Se o mundo tivesse dono, fazia dano à mesma

Fui ontem assistir ao mais recente espectáculo do Cendrev - “Se o mundo fosse bom o dono morava nele” - no Largo de S. Mamede. Lotação esgotadíssima em noite amena. Cenografia aparentemente minimalista: um misto de máscara e de luminária parece fixar-nos com olhos arregalados de espanto, de curiosidade por estar ali, diante de nós. Gostei sobretudo do pequeno detalhe dos candeeiros da iluminação pública envolvidos em sacos de plástico preto do lixo: simples, mas eficaz.


A máscara, depois de empurrada para o lado, revela dois músicos (também actores) que acompanham o espectáculo e deixa-nos perceber que, afinal, o cenário tem mais que se lhe diga, pois é preciso dominar bem a técnica de movimentar tantas vezes, e de forma tão coordenada, três tábuas colocadas na vertical. O cenário é partilhado, à vez e em simultâneo, por actores e por fantoches. As cenas vão-se sucedendo sem pausas, sempre acompanhadas pela música que também desempenha um papel importante, funcionando como uma espécie de fio de ariane que liga as cenas (aparentemente) descosidas. Os próprios ajustamentos do cenário foram integrados no espectáculo, acentuando a ideia de teatro de rua e assim marcando a transição entre as cenas, numa clara subversão da regra habitual.

A representação inicia e termina com os actores a cantarem ao estilo "revista à portuguesa". Pelo meio há uma viúva alegre que ainda mal pensou em “dançar” e já está a ser levada para o inferno pelo próprio Satanás; um compadre armado em conquistador que mede forças com Satanás; dois compadres, um aparentemente simplório e outro declaradamente espertalhaço e vingativo; um Padre que benzia tudo menos cachorros mas que, tratando-se do cachorro do todo-poderoso coronel lá da terra, abre uma excepção, concluindo que, afinal, “não tem nada de mais”; para terminar com uma vicentina conversa de (des)enganos entre Todo-o-Mundo e Ninguém, atentamente seguida por duas “lâmpadas” dos infernos que tudo iluminam por dentro.

Claro que o público riu e muito perante as (des)aventuras da viúva quase-alegre que, de tão feliz por se ter livrado do traste do marido, se diz capaz de dançar até com Satanás, e do atrevido compadre que a quer conquistar, ou seja, levar para a cama, sempre contadas com sotaque alentejano. Também os dois compadres – o que quer enganar e o que já enganou, pondo, como se diz à boa maneira lusitana, os cornos ao padeiro levantam gargalhadas, bem como o canónico e submisso padre, que obedece que nem cachorro à vontade dos poderosos lá do sítio.

O problema para mim é que tudo isto, por muito bem representado que seja, por mais interessante que seja a cenografia e harmoniosa a música, não passam de chavões e preconceitos batidos e gastos de uma certa cultura popular que persiste, aleivosa, nos espírito de muitos: as mulheres são todas umas desavergonhadas, merecedoras, por isso, dos piores castigos, os homens são todos, ou tontinhos que não alinhavam dois pontos certos, ou ressabiados com desejos de vingança que, claro está, acaba por recair sobre o próprio (depois de enganar o padre, a informação de que o coronel se aproxima e o pânico que isso gera nos dois compadres é sintomático disso mesmo). Mas o público ri, claro. Ri sobretudo das brejeirices, mais por hábito, do que por compreensão da crítica e da ironia subjacentes ao texto. E isso é de lamentar. Como é de lamentar que, para chegar ao público, o Cendrev caia neste facilitismo um tanto bacoco e de riso fácil.

A complicar tudo ainda mais está o salto linguístico que o público é obrigado a fazer do português popularucho e brejeiro (alentejano no seu melhor estilo) para o medieval e subtilmente irónio do excerto do Auto da Lusitânia (1531) de Gil Vicente que constitui a cena final: Todo-o-Mundo e Ninguém. E assim, a parte da peça, que se pretendia que funcionasse como moralidade e que poderia fazer perceber como, afinal, as cenas iniciais têm um pouco mais do que brejeirice pura e dura, fica comprometida. Porquê? Simplesmente porque o público não entende. Não entende o vocabulário (o discurso é claramente erudito) e muito menos a sintaxe medieval, ainda por cima sendo o texto dito pelos actores num ritmo, quanto a mim, demasiado rápido.

Não foi por acaso que, no fim, ouvi um espectador que ficou sentado atrás de mim a comentar com a esposa: “a partir duma certa altura, não percebi muito bem o que eles estavam a dizer”. Ora é isto mesmo: representar Gil Vicente, hoje, para um público que não tem hábitos de leitura, ou que se limita a ler os best-sellers da literatura dita light, é como falar chinês ou algo assim. E mesmo para os jovens que ainda têm o “Auto da Índia” nos seus programas escolares, esta compreensão linguística não está mais facilitada, até porque, para concluirem o 9º ano de escolaridade, não precisam de saber coisa alguma sobre Gil Vicente. É lamentável, mas é verdade.

Por isso, o espectáculo que vi ontem deixou-me assim um gosto amargo: gostei e não gostei. Acho que é, sobretudo, uma boa possibilidade e uma boa amostra da arte de representar com poucos meios para conseguir arrancar umas risadas do público. Pena é que não consiga ser mais do que isso.

sábado, 17 de julho de 2010

O meu Deus é cada vez mais o das pequenas coisas objectivas e naturais

(…) Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(…)
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar,
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
(…)
Alberto Caeiro, In O Guardador de Rebanhos (excertos)

Ou, como lê Arundhati Roy: "Para amar. Para ser amada. Para nunca esquecer a minha própria insignificância. Para nunca me acostumar à violência indescritível e à disparidade vulgar da vida à minha volta. Para buscar alegria nos sítios mais tristes. Para buscar a beleza no seu esconderijo. Para nunca simplificar o que é complicado, ou complicar o que é simples. Para respeitar a força, mas nunca o poder. Acima de tudo, para observar. Para tentar entender. Para não desviar o olhar. E nunca, nunca esquecer." (trad. pessoal) 

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Agora já sei o que pode acontecer quando os artistas gráficos estão entediados...

mas acrescento: ainda bem que eles não têm conhecimentos suficientes para manipular o código genético, senão...

Seguir no caminho

Antes o coração batia descompassado e arrítmico perante a mesma imagem que, agora, muitos quilómetros depois, nem sequer lhe acelera o passo, quanto mais fazê-lo tropeçar... e prossegue a sua viagem sem sequer ter vontade de olhar para trás.
Apenas se limita a verificar que percorre o mesmo caminho de sempre, mas agora segue em frente, decidido, nos rumos que traçou ou que a vida lhe (des)proporcionou. Para já, isso lhe basta.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Canção para embalar a noite

Nova, Nova, Nova, Nova

Na entrada do dia 19/12/1940 do seu diário Susan Sontag escreveu que “A poesia tem de ser: exacta, intensa, concreta, significativa, ritmica, formal, complexa.” (In Renascer – Diários e Apontamentos, 1947-1963, Quetzal). E é assim, exactamente assim, a poesia de Irene Lisboa.


Nova, Nova, Nova, Nova

Não era a minha alma que eu queria ter.
Esta alma já feita, com seu toque de sofrimento
E de resignação, sem pureza nem afoiteza.
Queria ter uma alma nova.
Decidida, capaz de tudo ousar.
Nunca esta que tanto conheço, compassiva, torturada, de trazer por casa.
A alma que eu queria e devia ter...
Era uma alma asselvajada, impoluta, nova, nova, nova, nova!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Solar do quê? Só se for da barata!

Ontem foi dia do nosso já habitual jantar de fim de ciclo anual. Estavam ao todo nove pessoas, todas mulheres, pois os dois únicos homens que integram o Núcleo da AI tinham mais que fazer. A nossa líder-presidente há já vários anos que marca mesa em restaurante que fica a jeito e que tem uma boa relação qualidade/preço chamado, muito a despropósito, “Solar do Leão”. E digo isto porque, tratando-se de uma cave sombria e com uma decoração de fugir (como se pode verificar na ilustração abaixo), situada nas traseiras de um prédio, seria talvez mais adequado chamar-lhe covil ou algo assim.

Sentadas numa mesa ao fundo da sala, escolhidos os pratos, iniciávamos já as entradas quando, de repente, uma das comensais, sentada de frente para a parede nos diz que comunica, com toda a calma e sangue-frio que há uma barata a subir a parede. Perante tal informação quase saltei na cadeira, pois baratas são bichos que, por todas as razões, abomino, mais ainda quando estou à mesa. Virei-me e, de facto, lá estava ela na parede. E que barata. Na verdade foi a maior que já vi até hoje embora, para dizer a verdade, não tenha visto assim tantas, felizmente!.

Fiquei pasmada pois quando há bichos daquela corpulência a passear assim, em plena luz do dia, é melhor nem começar a imaginar o que andará por lá escondido quando não há ninguém na sala. O corpulento insecto também deve ter percebido que estava a dar muito nas vistas e resolveu apressar-se parede acima à procura de um abrigo que encontrou atrás de um prato que lá estava pendurado. E eu, encolhida na minha cadeira a seguir-lhe os movimentos com muita atenção, não resolvesse o bicho saltar e calhar-me a mim ser pista de aterragem (é que estas coisas têm tendência para acontecer comigo). Por esta altura, nas outras mesas, os restantes clientes também já tinham visto a barata mas, como a maioria eram homens e, na nossa mesa, só havia mulheres, as reacções tomaram um rumo assim um tanto jocoso, com uns risos escarninhos,até mesmo parvinhos, à mistura. Claro que se fosse na mesa deles outro galo cantaria (ou será que não?).

Com o alvoroço a subir de tom o proprietário que circulava sereno e seráfico por entre as mesas como se nada daquilo lhe dissesse respeito, não teve outro remédio senão ir à cozinha e regressar de lá de vassoura em punho para resolver a situação. Deu um toque no prato para fazer sair a barata do esconderijo improvisado e começou a persegui-la pela parede marcando o ritmo com fortes com fortes vassouradas. Mas a barata, já velha e sabida, avançava sem hesitações, de asas em riste, mais parecendo uma leoa enfurecida (e deve ser daqui que vem o nome dado ao restaurante) dando saltos, meio a esvoaçar. Por fim lá lhe acertou e, quando o bicho caiu atordoado no chão, deu-lhe o golpe de misericórdia com uma tremenda pisadela. Depois, com a desenvoltura de quem já leva longa prática, pegou num guardanapo de papel de uma das mesas postas, mas ainda não ocupadas, apanhou os despojos do chão e disse com um sorriso triunfante a iluminar-lhe o rosto: “esta já foi!”. Eu, estarrecida com aquele autêntico filme de horror ali mesmo, à minha frente, só me apetecia levantar e sair a correr, mas porque sim e porque também, acabei por ficar.

Não será preciso dizer que a comida – carapaus fritos com arroz de tomate, um dos meus pratos preferidos – ficou quase toda no prato, embora aspecto e sabor fossem óptimos, simplesmente não passava. E a pouca que com esforço engoli não me calhou lá muito bem. No fim, dispensei a sobremesa porque receei francamente encontrar alguma coisa estranha na mousse de manga, que é a especialidade da casa, e rematei com um café. Tão depressa quanto consegui, sugeri às minhas companheiras que pedíssemos a conta e avisei a cara presidente do Núcleo que comigo, ali naquele covil infestado de baratas, não contasse mais.

Paguei, não reclamei (e raios me partam pela passividade!) e fui-me embora para não mais voltar a pôr lá os pés! Acho incrível que coisas destas continuem a acontecer na nossa 'desenvolvida pátria' que tem no turismo e, consequentemente, na hotelaria e na restauração, a sua saída económica mais viável! Parece-me que os proprietários preferem perder os clientes a gastarem o dinheiro necessário (nem será assim tanto) para desinfestar os restaurantes. Ao menos eduquem os bichos para eles não aparecerem assim feitos abelhudos na mesa dos clientes, pois como diz o sábio povo "olhos que não vêem, coração que não sente"...

E depois admiram-se de ter que fechar as portas por falta de clientes, ou ainda têm a desfaçatez de dizer que a culpa é da crise... Pois sim!! E já agora por onde andarão os senhores inspectores da Asae?... Estarão de férias?...

terça-feira, 13 de julho de 2010

A simplicidade das coisas belas também é uma música assim

O silêncio

O silêncio pode ser uma imposição, mas é quase sempre uma escolha, mais ou menos consciente. Algumas vezes é impotência face ao que nos transcende. Outras vezes reduz-se a simples preguiça e comodismo.

Mas vezes há, muitas, demasiadas até, em que o silêncio não passa de uma mera abstenção por cobardia, de uma forma prática e simples de acomodar a consciência ou os sentimentos numa espécie de vazio forrado de algodão. Este é, contudo, um silêncio podre na sua imobilidade e, por isso mesmo, mortal: pouco ou nada sobrevive de nós e em nós num silêncio assim. Tem, ainda, a grande (des)vantagem de ser uma morte lenta, que nos deixa saborear longamente os frutos do que fomos plantando.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Pianos na noite

 noite

"Estamos no mesmo sítio"

Sobre as fotografias que escolheu, para figurarem na exposição que está patente, por estes dias, em Lisboa, Alfredo Cunha diz que “Passados 40 anos, quando mudou tanta coisa, estamos outra vez desesperados e num impasse. Temos mais auto-estradas, mas se eu quiser fazer as mesmas fotografias que fiz no início da minha carreira profissional, consigo fazê-lo.” Por isso escolhe para título desta exposição antológica Estamos no mesmo sítio (1970-2010).

Integra fotografias como esta, impressionante como um quadro hiper-realista, em que a personagem,  no esforço quase desumano da subida, parece estar prestes a atravessar a própria imagem para prosseguir a sua penosa caminhada. A boca entreaberta, o corpo molhado de suor deixam perceber que está exausto mas, ao mesmo tempo, os olhos arregalados pelo esforço revelam uma pertinaz força de vontade, capaz de o levar assim, carregado, até ao fim do mundo.
Alfredo Cunha, Vindimas no Douro, 1997

Esta imagem poderosa de um quase-Sísifo manifestamente pobre e desprezado pelos deuses que, sozinho, carrega (quase) o mundo sobre as costas, mantendo intacta a sua dignidade e o seu orgulho, mais do que uma metáfora, é uma autêntica metonímia de uma certa forma de ser português. Mais do que título, a expressão – Estamos no mesmo sítio – é uma verificação dolorosa e irónica do estado das coisas por cá. Basta-me olhar à volta nos sítios deste Alentejo onde vivo e trabalho para perceber que assim é. Apenas se substituiram as carroças por automóveis e as samarras e chapéu de aba larga por vestuário mais globalizante. E se o visível pouco ou nada mudou nestes últimos quarenta anos, menos ainda mudou o que não está visível a olho nu (mas captado, tantas vezes, com  facilidade e perspicácia desconcertantes pela objectiva da máquina fotográfica), nem sequer com a euforia que se seguiu à revolução de 74: as mentalidades tantas vezes tacanhas e mesquinhas de todos nós.

Estamos no mesmo sítio”, de facto, em muitos aspectos e, cada vez mais, em todos os sentidos.

domingo, 11 de julho de 2010

Conversar também é uma música assim

Trabalhar com palavras

Uma das características mais interessantes (para mim) do trabalho criativo da artista plástica Ana Vidigal é a forma como integra palavras, frases ou pequenos textos nas suas telas: A frase, a palavra encantam-me. Penso muitas vezes: “Como gostaria de ter scrito isto.”, “Como esta pessoa disse isto tão bem”. Uma palavra pode ser muito concreta. E há um jogo, uma subtileza que a palavra proporciona. Pode ser uma contradição entre os termos: o texto que insiro e o que está lá pintado. Sendo artista plástica e tendo um discurso não figurativo, o espectador pode interpretar aquilo como entender. Não resisto a recortar essas palavras e a jogar com elas, com as formas, ao que é possível fazer formalmente com elas.”
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"Gosto da escrita como caligrafia também, e utilizo tanto frases de Baudelaire como a seguir vou aos meus dois volumes do “Simplesmente Maria” em fotonovela, todo encadernado, que se tu tirares as frases do contexto, tem coisas absolutamente maravilhosas. E costumo misturar, tanto coloco uma frase minha, como a seguir uma da Clarice Lispector, e depois a seguir uma do “Simplesmente Maria” e depois outra minha.
Muitas vezes quando estou num impasse, resolvo vindo procurar frases. E depois encontro alguma coisa óptima mas que nem é para o trabalho que estou a fazer. Depois não sei se descansei a cabeça, se passei para outra situação, sei que depois quando vou pegar outra vez no trabalho geralmente é mais fácil continuar. É melhor parar, ir à outra sala ver umas coisas e depois continuar. Não é uma coisa que faça para ir remediar um trabalho, geralmente só ponho as frases no fim, as frases não fazem parte da composição, elas são integradas na composição que já está. Eu nunca começo um trabalho a pensar – “tenho esta frase”.
Ana Vidigal; Excertos de entrevistas a Anabela Mota Ribeiro e a Susana Pomba

Ver trabalho da artista plástica aqui.

Palavras e mais palavras

(…)
Palavras e mais palavras!
Palavras que não ouvi que não disse
Palavras de que tenho medo palavras que receio
Palavras que não escuto palavras que invento
Palavras conjugadas no passado...
Presente e futuro
Palavras e mais palavras
Num mundo
cada vez mais silencioso de afectos
onde não há tempo
Nem para uma palavra!

Paula Pinto, In Marés de Poesia (excerto) Temas Originais, 2009

sábado, 10 de julho de 2010

Ecopilhagem

O projecto de criação de uma Ecopista na linha de caminho de ferro desactivada é, sem dúvida, uma aposta ganha pelo município eborense. Ganha sobretudo porque as pessoas, de facto, aderiram à ideia e usufruem do espaço. O sucesso é tal que, em certos dias, se pode até falar de hora de ponta e de congestionamento do tráfego de pessoas, bicicletas, cães, etc.

Até aqui tudo bem. O problema começa quando o passeio higiénico desperta nesta boa gente o ancestral instinto de recolectores. É que a Ecopista está ainda bordejada de inúmeros hortejos – refiro-me aqui, especificamente ao percurso que atravessa a zona do Bacelo - e cujas frutas e legumas aviva, ao que parece, a voracidade dos atletas: alhos arrancados da própria terra, mogangos pousados na borda do tanque de rega, cebolas a secar sobre a erva, temperos, etc. O dono da horta ao lado dizia-me hoje que, esta primavera, poucas laranjas comeu porque alguém pulou a vedação e lhas levou quase todas. Numa manhã do verão passado fui dar com uma ameixeira com a copa estropiada de um dos maiores ramos, não cortado, mas arrancado para colher certamente não mais do que uma meia dúzia de frutos maduros. Os restantes, ainda verdes ficaram a secar, juntamente com o ramo na valeta que ladeia a Ecopista. Há uma semana atrás fui examinar a grande figueira para saber do ponto de maturação dos figos. Do lado de fora da vedação, dois velhotes (não sei se apenas frequentadores da Ecopista, se frequentadores da mesma e moradores no próprio bairro), que não me podiam ver por causa da sebe de roseiras que complementa a vedação, comentavam que «ainda não estavam bem maduros, mas com mais uns dias já se podiam começar a apanhar» como se a árvore fosse deles ou estivesse num espaço público com o seguinte letreiro pregado no tronco: quem primeiro chegar, primeiro se avia. Quando decidi que já tinha ouvido o suficiente e revelei a minha presença aos dois indivíduos, viraram costas e pernas para que te quero. Hoje, voltei lá para colher os primeiros figos do ano. E claro, já uma enorme pernada da figueira havia sido destroncada com violência e jazia quase seca na valeta. Estava carregada de frutos que não chegaram a amadurecer.

Que apanhem os frutos dos ramos que tombam sobre a Ecopista, não é lá muito correcto, mais ainda vá. Agora que estropiem as árvores para o fazer é que, para mim, é inaceitável. Uma coisa também é colher fruta num terreno ao abandono. Outra, bem distinta, é colhê-la em sítios que têm dono, que estão ocupados e, por isso estão vedados.

Lembrei-me de uma conversa que tive há poucos dias com a dona de uma loja de roupas e bijuterias perto da Praça do Giraldo, na qual a senhora me contou que desde há seis meses não consegue controlar os furtos de pequenas peças no interior da loja, a tal ponto que já foi forçada a mudar a arrumação das peças para tentar minorar o problema.

Tudo isto me levanta várias interrogações: será que a crise é já assim tão grande, ou estará ela a revelar a falta de civismo e de carácter de muito boa gente? Ou será ainda que anda por aí muito boa gente que, com a desculpa da crise, ou até sem precisar de desculpa alguma (o que é ainda mais provável), aproveita para esbulhar os outros de tudo o que pode?

A Ecopista de Évora é um sucesso evidente. Mas, face ao que estou a verificar no meu próprio terreno e ouvindo as queixas dos vizinhos, só espero é que esse sucesso não seja, para alguns, sobretudo uma forma de prospecção para a pilhagem das hortas e quintais que a ladeiam, a coberto da noite e, sobretudo, da falta de vergonha de quem faz estas coisas por saber que sai impune.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

E por falar em conhecimento x velocidade...

Mentes digitais

Don Tapscott é professor universitário e investigador na área das novas tecnologias. Tem vários livros publicados sobre o impacto da internet nos jovens e nas sociedade em que se integram. A sua mais recente investigação envolveu onze mil jovens de dez países e custou vários milhões de dólares. Numa entrevista concedida ao Público (P2, 7/7/10) Tapscott falou sobre a geração que cresceu com a net e os impactos que ela tem tido na nossa sociedade. E disse coisas de facto muito relevantes:

Acredito que boa parte do impacto da revolução digital na forma como pensamos, colaboramos e trabalhamos ainda é desconhecido. Mas não concordo, em geral, [com quem defende que as novas tecnologias estão a criar cérebros preguiçosos, a diminuir a capacidade de atenção e de sociabilização].
(…)
Cada um de nós está a criar uma versão virtual de si próprio. E este eu virtual sabe mais sobre nós do que nós próprios, porque nós não nos lembramos do que dissemos há anos. Isto cria uma situação em que a informação pode ser usada contra a pessoa, nomeadamente pelo Estado. Nós não temos problemas, porque temos governos democráticos. Mas ainda sou do tempo em que não havia um governo democrático em Portugal.
(…)
Nos anos 1960 havia um fosso geracional. Havia grandes diferenças entre os estilos de vida, valores, música e ideias dos filhos e dos pais. (…) [Mas hoje] “O meu Ipod e o Ipod dos meus filhos têm muitas canções em comum. Já os meus pais nem sequer gostavam dos Beatles.Mas há potencial para um conflito de gerações. Há potencial para que uma geração expluda de uma forma que fará com que os anos 60 pareçam um piquenique. (…) É a geração mais esperta de sempre, é globalizada, tem ferramentas fabulosas. Se não tiver como ganhar a vida [40% de desemprego em Espanha], vai começar a questionar o funcionamento da sociedade.
(…)
“Temos um modelo de democracia com 100 anos: (…) O cidadão vota, o político governa. Isso está bem para a minha geração. Cresci a ver televisão 24 horas por semana, como todos os baby boomers. As escolas transmitiam-me informações e eu era um receptor passivo. (…) Cresci num modelo de família onde a comunicação funcionava num só sentido: dos pais para os filhos. Mas estes jovens estão a crescer de forma interactiva, habituados a colaborar e a serem activos.
(…)
O tempo que os jovens passam on-line (…) é roubado, sobretudo, à televisão. (…) Mas estão a ver menos e estão a ver de forma diferente. Têm o computador ligado e a televisão é música ambiente, ao fundo.
(...)
Quem passa 24 horas por semana a ser um receptor passivo de televisão tem um determinado tipo de cérebro. Quem passa esse tempo a ser um utilizador activo de informação, tem outro tipo de cérebro, que é um cérebro melhor, mais apropriado ao século XXI."

Ou seja, navegar na net, desde que sem os excessos que criam o perigo de alienação, é bom para o cérebro. E dotados de um melhor cérebro, seremos capazes de criar uma melhor sociedade?
Teremos que esperar para ver.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Tantas vezes as pequenas palavras

Quantas vezes são as pequenas palavras que mais contam, que mais marcam? Pequenas não pelo número de fonemas alinhados no seu corpo esguio, mas pela forma como se escapam pelos interstícios da consciência e da premeditação. Simplesmente saem e são ditas.

Quase sempre quem as diz não imagina o poder nelas contido, as formas misteriosas como elas eclodirão na alma de quem as ouve. Não percebe como elas enredarão sentimentos tantas vezes contraditórios, como elas convocarão memórias quase até à exaustão. Misturada tantas vezes com outras de que não fica qualquer memória, aquela é, justamente, a pequena palavra ou expressão que nunca mais esqueceremos, como se fosse um marco geodésico erguido na memória. Ainda que, tantas vezes, desejemos muito esquecê-la.

São as pequenas palavras que, tantas vezes, nos desapertam as maiores emoções, desatam as grandes alegrias ou nos abrem as feridas mais profundas no coração. E, tantas vezes, quem as pronuncia não sabe que aquelas pequenas palavras serão tudo o que restará no fim. Tudo o que ficará até para lá do fim de tudo.

Tenho ao longo da vida compilado um extenso glossário de pequenas palavras que me assaltam tantas vezes o pensamento. Demasiadas, talvez. Muitas gostaria de nunca as ter escutado. A algumas gostaria de conseguir esquecê-las. A outras, espero que nunca me abandonem.

... espero nunca me desiludir contigo ....
... sinto-me mal ...
... amiga ...
... pensava que eras inteligente, mas afinal ...
... professorinha ...
... sei que eras capaz de me trair ...
... às vezes não te reconheço ...
... gosto de si ...
... Mãe! ..
...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Ser ou não ser pobre: eis a questão

Em meados de Junho (17, mais precisamente), os líderes da UE assinaram com a usual pompa e circunstância a “Estratégia 2020”, a qual pretende ser um “Ponto de partida para uma nova ordem”, com um muito ambicioso objectivo final: tirar 20 milhões de pessoas da pobreza em 10 anos. Em Portugal estima-se que haja 4 milhões de pobres: destes, dois milhões lá vão navegando à vista, graças aos apoios do Estado ou das mais diversas IPSS, enquanto outros dois milhões já estão mesmo no limiar ou para lá do limiar da pobreza. E com taxas de desemprego a bater recordes europeus, muito mais gente para lá caminha. Isto, só em Portugal. Por essa Europa fora muitos mais milhões haverá. Sim, na Europa supostamente desenvolvida e rica há cada vez mais pobres e a faixa de população em pobreza extrema cresce anualmente a um ritmo assustador.

Mas, se olharmos para o mundo que nos rodeia - África, América Central e do Sul, muitos países da Ásia – onde a guerra permanente e a violência extrema fazem com que a vida humana pouco ou nada valha, a que se deve acrescentar um cortejo infindável de desastres naturais e de catástrofes mais ou menos anunciadas que tudo arrasam periodicamente, vemos mais ainda: gente que morre todos os dias aos milhares e à míngua de tudo.

Como é que se nivela a riqueza quase chocante de uns, de modo a diminuir significativamente a pobreza de outros? De onde virá o dinheiro necessário, não para erradicar a pobreza, o que seria uma utopia, mas para não deixar que ela atinja patamares que comprometam a sobrevivência de largas faixas de população, até mesmo em países desenvolvidos? Quem é que tem a coragem de tomar medidas políticas socialmente mais justas e equitativas para todos, mesmo que em desfavor mínimo dos grandes interesses económicos? Na verdade, como diz o slogan da campanha da Amnistia Internacional contra a pobreza: o problema não são os animais que vivem como pessoas, são as pessoas que vivem como animais. Ou seja, fazemos muitas vezes às pessoas o mesmo que aos animais: olhamos para o lado, fingimos que não vemos nada, assobiamos para o ar, ou então, como é prática corrente nos países mais ricos/desenvolvidos, pronunciamos belos discursos cheios de promessas, que toda a gente sabe que não serão cumpridas, mas pelo menos soam bem e, por isso, sossegam conciências, por natureza pouco inquietas.

Receio bem que, na actual conjuntura político-económica, à muito consensual, noticiada e referida “Estratégia 2020” se possa aplicar o repescado aforismo de Shakespeare - ser ou não ser (pobre), eis a questão - apenas para concluir depois que o melhor, de facto, é não ser, ou não vir a ser, pobre. Mesmo que se viva num país rico.

terça-feira, 6 de julho de 2010

É difícil imaginar quão verdes foram já estes campos

Atravessar a canícula

Inicio a travessia do breve descampado com o sol escarranchado nos ombros. O próprio ar parece estar em chamas. Atravesso-o como se tivesse pressa de chegar a algum sítio. Ainda nem vou a meio e respirar já é tão doloroso como se inalasse lume. Por instantes cruza-me o pensamento a ideia de deixar tudo o que me pesa de forma (in)visível arder por dentro até ao fim, sem chamas, sem fumos e sem cinzas, de vez e para sempre. E a de continuar depois a andar até chegar a um sítio qualquer, alcandorado na frescura verde-onírica do arvoredo, também.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Never give (all) the heart

Never give all the heart, for love
Will hardly seem worth thinking of
To passionate women if it seem
Certain, and they never dream
That it fades out from kiss to kiss;
For everything that's lovely is
But a brief, dreamy, kind delight.
O never give the heart outright,
For they, for all smooth lips can say,
Have given their hearts up to the play.
And who could play it well enough
If deaf and dumb and blind with love?
He that made this knows all the cost,
For he gave all his heart and lost.


W. B. Yeats (1904)

A planície é um brasido

Árvores do Alentejo

Horas mortas… Curvada aos pés do monte
A planície é um brasido… e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A ouro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota d´água!

Florbela Espanca In Charneca em Flor (1930)

Imagem daqui

domingo, 4 de julho de 2010

Navegar à bolina

A Universidade de Coimbra, lugar histórico de uma certa eudição nacional, lançou um portal digital – o Classica Digitalia, cujo endereço é http://bdigital.sib.uc.pt:8080/classicadigitalia/ – onde se pode ter acesso online e em formato pdf a obras ditas clássicas, tanto de autores portugueses, como gregos e latinos, e também a estudos académicos sobre os mesmos autores e/ou obras.

Numa época em que se lê muito, mas sobretudo livros soft ou light, para ninguém maçar demasiado os neurónios, o mínimo que se pode dizer é que num sítio como este navegamos à bolina dos ventos dominantes. O Classica Digitalia transporta-nos para uma época em que o adjectivo 'erudito' ainda não se tinha transformado numa espécie de mania de pedantes e pretensiosos, ou um simples anacronismo incompreensível para muitos. Remete para um tempo em que “obter conhecimento através dos livros” era um privilégio não acessível a todos, em que estudar Latim e Grego no ensino secundário era normal, ou mesmo essencial, para quem pretendia entrar para as chamadas Humanidades, em que a cultura clássica (Latim incluído), não era ela própria a plêiade difusa, distante e um tanto extravagante em que se tem transformado nestes últimos tempos.

Claro está que os eruditos são, pelas suas próprias características intelectuais, pessoas um tanto maníacas, às vezes até intratáveis e de um perfeccionismo exasperante para nós, comuns mortais. A este propósito, José Pacheco Pereira, que é ele próprio senhor de uma erudição espantosa, conta a história de Vasco de Magalhães Vilhena, um dos maiores conhecedores de Sócrates, que costumava escrever notas em grego (língua que dominava perfeitamente) e em russo (era comunista assumido) assim confrontando os seus adversários intelectuais - como António Sérgio, por exemplo - que não dominavam tais conhecimentos e muito se irritavam com esta atitude deliberada.

Também o Classica Digitalia se arrisca a ser uma provocação que vai direita aos defensores e arautos do 'aprender é fácil e divertido', que têm transformado a avaliação num jogo de faz-de-conta para disfarçar o modo como estilhaçaram alegremente currículos e programas. O rol de autores e obras já disponíveis no portal mostra como aprender não é fácil, requer trabalho e só é divertido muito tempo depois, quando as circunstâncias, quase sempre de forma arrevezada, nos permitem tirar algum partido desse percurso. Ou, para utilizar de forma irónica, um dos grandes slogans desse invejável mundo da certificação fácil e rápida (mas não barata, uma vez que consome a maior parte dos milhões que ainda vêm da UE), também designado Novas Oportunidades: 'Aprender compensa'. Claro que compensa é de diferentes maneiras conforme o contexto e os objectivos visados.

sábado, 3 de julho de 2010

Miserabilismo

Desde 2004 que todos os prémios artísticos e literários atribuídos pelo Estado são tributados como se de uma remuneração se tratasse. Significa isto que, para receber o prémio, independentemente do seu valor, o artista contemplado deve cumprir três exigências: preencher uma Nota de Honorários; apresentar certidões comprovativas da sua situação contributiva e tributária; e descontar uma taxa de IRS no valor 10% sobre o valor total do prémio. E só depois de verificada a inexistência de dívidas, tanto à Segurança Social como às Finanças, se efectua a transferência bancária do dinheiro. Contudo, se o prémio for atribuído em resultado de concurso público não há lugar a qualquer tributação.

Tratando-se de situações de excepção cujo objectivo é reconhecer e premiar o mérito de um trabalho artístico ou literário esta norma é de uma mesquinhez preocupante. Pior, miserabilista, uma vez que o número de prémios artísticos e literários atribuídos anualmente pelo Estado é restrito e nem é preciso ser muito inteligente para perceber que não é de certeza por aqui que os cofres públicos se poderão encher. Atitude miserabilista num país que se dá ao luxo de pagar prémios milionários aos gestores das empresas e institutos do Estado, gente cuja competência profissional é tantas vezes duvidosa, já que muitos desses cargos são ocupados quase sempre por ex qualquer coisa, e são sobretudo uma recompensa pelos bons serviços prestados na vasta galáxia governamental.

Atitude miserabilista de um país onde se gastam milhões com o futebol – quanto custaram os dez estádios construídos de propósito para e Euro 2004 e que agora estão às moscas?; quanto custam as mordomias da selecção nacional de futebol e dos dirigentes da Federação e da Liga e de mais não sei quantas coisas do género? - e com projectos que não passam disso mesmo – quantos milhões têm custado ao Estado os sucessivos estudos e consultorias de todo o género acerca da loalização do novo aeroporto de Lisboa e do TGV? quantos desses estudos serão realmente úteis e necessarios?

Paulo Nozolino recusou esta semana o prémio 2009 para as Artes Visuais, atribuído pela Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA), no valor de dez mil euros. Sobre este valor teria, claro está, que descontar IRS e cumprir as formalidades burocráticas já referidas. Nozolino teve a coragem de recusar o prémio e pediu mesmo que o seu nome não constasse no historial dos premiados. Fê-lo, segundo declarou no comunicado que fez à imprensa, em repúdio pelo “comportamento de má-fé do Estado português” e também porque, como já antes tinha afirmado «A minha história, ou sou eu que a faço ou ninguém a fará.»

Tendo em conta o valor irrisório em causa, e tratando-se sobretudo de um prémio, ou seja, de um reconhecimento ou de um agradecimento simbólico pela obra de um artista, apenas posso dizer que admiro a atitude frontal de Paulo Nozolino e que, perante notícias como esta, sinto cada vez mais vergonha - não deste país-território em que nasci e vivo -, mas cada vez mais desta gente que, para melhor nos (des)governar, nos tenta aborregar todos os dias, de todas as maneiras possíveis.

Nota: ver belíssimo texto sobre vida e obra de Paulo Nozolino aqui.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Aprendizagem

Na escola nunca aprendi a não sentir falta das pessoas que me fazem falta. Talvez porque sempre fui rebelde e teimosa, talvez porque tal aprendizagem não fizesse parte do currículo naquele tempo, ou até talvez não tivesse a inteligência necessária para perceber que essa era uma aprendizagem essencial e a fazer quanto mais cedo melhor. Na verdade, não sei bem explicar porquê.

Sei é que a Vida, apesar de tudo, nunca desistiu de mim e todos os dias tem reservado algum do seu muito atarefado tempo para me ensinar como é.

Não tem sido fácil pois, nesta matéria em particular, nunca fui boa aluna, mas começo agora a sentir-me mais preparada. Qualquer dia até já posso fazer o exame nacional. Penso que será um verdadeiro sucesso, pelos menos estatisticamente, uma vez que sempre tive boa memória.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Uma palavra em exposição: povo

A palavra “povo”, entendida como uma espécie de caixa de Pandora, da qual saem as mais diversas visões, interpretações e manipulações é o desafio que a exposição multidisciplinar (pintura, escultura, vídeo, fotografia, documentação) “Povopeople” propõe aos visitantes (o título é assim um tanto kitsch, mas adiante).

A palavra povo, do latim “populu”, significou primeiro «povoamento», «população» e foi ganhando corpo, à medida que embebia no seu sentido original aspectos sociais, políticos, culturais e económicos, até desaguar no moderno conceito de “cidadania”. Povo é hoje uma palavra de sentido verdadeiramente plural, tanto, que às vezes se torna até ambígua. Assim uma espécie de “mot-valise” construído a partir dos seus múltiplos significados.

A exposição procura então explorar as várias dimensões da palavra plasmadas em frases ou expressões associadas à ideia de “povo” ou a acontecimentos marcantes da nossa história: assim o verso de Zeca Afonso “O Povo é quem mais ordena” é o mote para a sua dimensão política; tal como a citação bíblica “Ganharás o pão com o suor do teu rosto” serviu de lema à dimensão laboral do conceito de povo. Em paralelo, mostram-se igualmente as visões que os diferentes movimentos artísticos, que se sucederam ou foram convivendo ao longo do séc. XX, nos deram desse mesmo conceito: os modernistas, os neo-realistas, os surrealistas, o Estado Novo ou o pós 25 de Abril. O modo como a poesia se apropriou da palavra também está presente. Diversos artistas contemporâneos foram ainda convidados a participar com obras que reflectissem, de alguma forma, sobre esta ideia de povo: Joana Vasconcelos, Rui Sanches, Manuel Botelho, etc.

José Manuel Santos, um dos responsáveis por este projecto, sintetiza-o ao dizer “Começámos pelo princípio: o fundamento da República e da democracia é a ideia de povo. E fomos perguntar: O que significa esta palavra? Qual é a história dela? Que memória transporta quando falamos dela? E como foi ela representada artisticamente?” (in Ipsilon, 25/6/2010).

Ao que parece, pretende-se que cada um dos visitantes encontre a sua própria definição de povo nas respostas, propostas e até provocações que a exposição oferece. E depois de ter visto o Câmara Clara que lhe foi dedicado ainda antes da inauguração e de ter lido o artigo do Ipsilon, escrito já pós-abertura ao público, estou mesmo decidida a rumar um dia destes à “capital do reino” (que é sempre, mas sempre, onde todas estas coisas assim mais interessantes acontecem, já que tudo o resto continua a ser paisagem, sobretudo no que à cultura diz respeito). Quero ir ver com os meus próprios olhos o que é, afinal, isto de ser povo em exposição.