sábado, 21 de agosto de 2010

O país das oportunidades perdidas

Há tantas ideias perdidas, fracassadas, ignoradas, desconhecidas, desdenhadas... Como explicar o estado quase comatoso em que o país se encontra quando temos tanta gente a ter ideias para o futuro do país? É quase um mistério. Numa entrevista concedida ao Público (5/7/2010), o economista Pedro Pita Barros diz que é, sobretudo, uma questão de mentalidade, de valores e de comportamentos que, ao contrário do que muitos pensam, não se deve a 50 anos da nossa história, mas sim a 800 anos: “Os 50 anos não chegam. Essa mentalidade pequenina também fez desaparecer o ouro do Brasil ou a pimenta da Índia. Não estou a menosprezar o peso dos 50 anos, mas havia coisas que vinham de trás. É por isso que acho que o arejamento internacional do país pode ser fundamental. Os jovens podem libertar-se desse peso.” Pita Barros refere-se ao programa de intercâmbio de estudantes do ensino superior – Erasmus – dizendo ainda que ele é uma verdadeira porta aberta para a mudança: “Já toda a gente percebeu que os miúdos que vão estudar lá para fora não vão ganhar em termos de estudo, mas vão ganhar em termos de uma cidadania europeia. E isso torna-se muito claro quando regressam. Nota-se que foram uma coisa e vêm outra. Que ganharam autonomia e que funcionar no espaço europeu já não lhes faz confusão. Perceberam que há outros hábitos e outras formas de trabalhar. Isso vai criar um choque de mudança. Quando essa geração chegar aos postos de decisão e aplicar alguma dessa vivência, alguma coisa pode começar a mudar. Basta que aqueles que já cá estão não se transformem num travão a essa mudança.”

Claro que esta nova geração – que “já não pensa só em português” - é muito diferente da geração “entalada” que cresceu, estudou e começou a trabalhar já depois do 25 de Abril, mas que se distanciou muito da intervenção política e social, e que é também a minha geração. É uma geração egoísta, muito centrada em si própria e que, por isso, não se empenhou muito na vida pública, mas que também não gerou os grandes empresários e líderes da iniciativa privada, como a geração anterior. Pita Barros descreve-a como uma geração que nunca se conseguiu descolar daquele misticismo do 25 de Abril que os nossos pais (e não nós) viveram intensamente. Talvez também por isso não tenhamos no país uma verdadeira elite no sentido de “pessoas que pensem o país” a médio e longo prazo. Continuamos agarrados ao imediatismo um tanto primário de querermos ver resultados e mudanças rápidas em tudo, até mesmo onde essas mudanças não podem fazer-se assim – como é o caso da educação ou da justiça – e por isso tudo acaba por ficar na mesma ou pior ainda.

Nesta sua entrevista Pita Barros desmistifica também uma certa ideia da universidade e da qualificação superior que anda agora aí em certas cabeças mandantes e que me parece muito pertinente: “A ideia de que as universidades são um sítio de elites onde se pode ir buscar salvadores do que quer que seja é completamente errada. Essas coisas têm de ser construídas todos os dias.”

Também concordo com a visão de Pita Barros sobre a nova geração que aí vem, formada num espírito académico quase “ecuménico”. O problema é que estamos a oferecer-lhes apenas a precariedade: estão permanentemente em estágio ou a recibo verde ou com contratos a prazo. No fundo, estamos a empurrá-los lá para fora e muitos até já foram. Ou seja, estamos quase de certeza a comprometer a tal hipótese – se calhar a nossa melhor hipótese – de mudar as mentalidades e os comportamentos de uma forma mais sistemática e sustentada, levando essa mesma mudança por arrastamento a outras áreas sociais, aconómicas e políticas. A este propósito afirma ainda Pita Barros que “Ou a sociedade sente que este é um problemas de todos, que tems de começar a mudar, que vamos ter benefícios mas também custos – e que os custos têm de ser acautelados, mas que no final todos poderemos ficar melhor -, ou então ficamos conformados com a ideia de que a próxima geração vai viver pior do que a dos pais em todos os sentidos – não apenas em termos materiais mas de precariedade, de incerteza.” O problema é que, olhando para o nosso actual elenco governativo (alguns ministros e secretários de estado são, no mínimo, lamentáveis) e para os que se preparam para governar a seguir e em alternância, não se vislumbra grande mudança, nem sequer grande abertura para que essa mudança se possa começar a fazer, com sentido de responsabilidade e com respeito pelas pessoas.

Na verdade, parece-me que é por estas e por outras que somos, cada vez mais, o “país das oportunidades perdidas”. E é uma pena que assim seja.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Deambulações

O gato preto que gosta de paredes brancas - I
Baleal, 19/8/2010


O gato preto que gosta de paredes brancas - II
Baleal, 19/8/2010
O Sol em dia de folga a descansar no molhe, Peniche, 20/82010



Poleiro para Gaivotas, Molhe de Peniche, 20/8/2010

A Gaivota que queria ser pombo, Peniche, 20/8/2010

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Original é o poema, e o poeta também

Poema Original

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.

Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.
Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer

Ary dos Santos, Resumo

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Frida Kahlo: pintar como um modo intenso de aguentar viver

Se fosse possível escreviver

Quando comparo escrever e viver, concluo que escrever me tem sido quase sempre mais fácil. Apenas eu e o rosto branco do papel, frente a frente, sem subterfúgios, sem ilusões nem desilusões. Alguma coisa de limpo e, sobretudo, de verdadeiro. Também por isso, essencial. Já não se passa o mesmo com a conjugação do verbo viver.

Se fosse possível juntar ambos e escreviver, acho que tudo seria mais fácil e menos doloroso. É que, como dizia José Gomes Ferreira, Viver sempre também cansa:

Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
Folhas, frutos e pássaros
Como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe, automóveis de corrida.

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! Se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Não o vou ressuscitar
Por uma bagatela.”

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...

José Gomes Ferreira, Militante, vol. I, 1ª ed. Moraes Ed., 1977

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Burn It blue

Caetano Veloso e Lila Downs cantam assim na banda sonora do filme Frida:

A dor maior

Ao Eugénio de Andrade
pelas palavras que sempre me incendiaram os dias e iluminaram as noites

Dizia o nome dele como se o chamasse a si, na ansiedade de regressar sempre a esse misterioso ritual de pertença e de empatia que começa na proximidade dos espíritos e acaba no emaranhado dos corpos. Depois veio um dia que parecia igual aos outros, mas que ao anoitecer os fechou num estranho círculo de silêncio hostil. E ela virou mais uma vez a cabeça para olhar dentro daqueles olhos, para procurar ainda e sempre a imagem de ambos um no outro. Mas no brilho obstinado daquelas pupilas descobriu apenas uma imagem desfocada e grotesca de si mesma no meio de um campo vazio. E, no mais fundo de si, sentiu-se defraudada. Não se reconheceu a si naquele cenário e menos ainda reconheceu aquele olhar de pedra áspera. Compreendeu que, afinal, vivia uma farsa que ali, naquele instante de revelação, embora envolta nas labaredas da raiva e da incredulidade, exibia toda a sua sarcástica cintilância. E foi também ali, naquele mesmo instante, que alguma coisa dentro dela se quebrou. Quase conseguia ouvir os cacos que resvalavam devagar por dentro de si para se amontoarem por fim lá em baixo, rodeando-lhe os pés.
E não mais conseguiu virar a cabeça para se olhar dentro dos olhos dele, nem voltou a chamá-lo a si ao dizer-lhe o nome. Pronuncia-o, mas já não é um chamamento, apenas uma enunciação como qualquer outra. É que dentro dela já nada pede a água que ele, afinal, nunca teve para lhe dar. E, no mais fundo de si, é essa a dor maior.

domingo, 15 de agosto de 2010

Music Box

de Yolanda Soares, mais uma das vozes novas que anda por aí e que gosto de escutar...

Metáforas (quase) naturais - VII

(Evoramonte, 13/8/2010)

Há apenas uma Vida: esta com que acordamos todos os dias pela manhã. Por isso, na transacção dos dias e em caso de insatisfação do vivente, não há possibilidade de trocas ou devoluções. Por isso, tudo o que dizemos ou fazemos com ela, nela, por ela ou para ela não só conta como, tantas vezes, já não tem remédio. E é também por isso que, quando jogamos com ela a roleta russa e perdemos a jogada, é a própria Vida que falhamos.

sábado, 14 de agosto de 2010

Geração (à) rasca

Aí por meados da década de 90, tentava Manuela Ferreira Leite governar esse mastodonte enlouquecido que é o Ministério da Educação quando decidiu, como todos os que a precederam e lhe sucederam, deixar no lombo da besta a marca do seu ferro pessoal. Neste caso particular foi o estabelecimento de propinas obrigatórias para todos os estudantes que frequentavam o ensino superior. E o estribilho “não pagamos, não pagamos” não tardou a fazer-se ouvir por todo o país em manifestações mais ou menos convincentes que tiveram o seu ponto alto em Lisboa, quando os estudantes usaram literalmente o apelido de família da ministra para exibições públicas que chocaram o país dos brandos costumes que prefere fazer e dizer barbaridades e vulgaridades no recesso do lar, ou de outro sítio qualquer, longe da grande multidão. Vicente Jorge Silva, então director do Público, registou essa indignação num editorial que o tornaria famoso, pois foi lá que surgiu a designação que ficaria para sempre – para o bem e, sobretudo, para o mal – colada aos estudantes que, nas ruas, manifestavam o seu descontentamento: a “geração rasca”. Esta era a geração nascida na segunda metade da década de 70, do pós 25 de abril. André Valentim Almeida, nascido em 77, chama-lhe a “geração sanduíche”: a geração dos que não conheceram nem a ditadura, nem a revolução propriamente dita. E sobre ela diz que “Vemos muitos trabalhos sobre o que foi a ditadura e o que foi a revolução, mas sempre na visão daqueles que a viveram de facto. Julga-se que esta geração, nascida por essa altura, não sofre os efeitos desse acontecimento”, mas considera que essa é uma visão muito redutora.

Decidiu por isso fazer um documentário nos seus tempos livres, usando meios amadores e poucos recursos e foi entrevistar personalidades conhecidas, de diferentes áreas – literatura, música, arte, crítica literária, etc - como Gonçalo M. Tavares, Joana Vasconcelos, JP Simões , valter hugo mãe, Jacinto Lucas Pires, Pedro Mexia e outros. O resultado desse seu trabalho intitula-se Uma na Bravo Outra na Ditadura e pode ser visto online no endereço http://go.to/bravoditadura, onde o seu autor decidiu disponibilizá-lo gratuitamente.

É um belo exercício de descoberta de si e dos outros e de como o 25 de Abril, afinal, teve impacto na vida de todas estas pessoas que, por terem nascido em meados da década de 70, estão como que entre o passado e o futuro. No entanto, nenhum dos seus convidados surge identificado, pois André Almeida achou que “devia tratar a geração como um todo e não a queria personalizar. Queria o que estas pessoas tinham para me dizer, mas não queria o peso que vem com os nomes deles. Mas percebo que isso seja polémico.”

André Almeida encontrou uma geração que “sofre de uma crise de identidade não diagnosticada”, que revela um perturbador distanciamento relativamente à política, e que vive uma nostalgia precoce. Comprova-o Nuno Markl, um dos entrevistados, com a sua Caderneta de Cromos (que passa na Rádio Comercial) e que tem revivido todas as referências culturais, musicais e artísticas dos anos 80, com um sucesso impressionante. É a geração que tinha apenas dois canais de televisão para ver – por isso, “toda a gente sabia o que tinha dado ontem” - e que por isso, cresceu numa espécie de monocultura, na qual a revista alemã Bravo – cujos artigos sobre música e cultura pop ninguém conseguia ler – era a grande referência cultural, tendo funcionado até, para muitos dos entrevistados, como “um verdadeiro símbolo da modernidade”.

O rótulo de “geração rasca” paira sempre, mas André Almeida rejeita-o e declara que há mesmo é “uma incapacidade de nomearmos a nossa geração por falta de identidade”. Arrisca apenas, e à semelhança de muitos dos seus entrevistados, a designação de “«geração sanduíche», porque está presa entre duas fatias: uma de antiguidade e outra de modernidade”.

São ao todo sessenta minutos extraordinários de aproximações múltiplas a uma época e ao seu difuso mal-estar que é, afinal, também um pouco ainda a minha geração. E valem bem a pena:
  


Nota: as citações são da entrevista concedida por André Valentim Almeida, autor do documentário, ao Sol (14/8/2010).

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Metáforas (quase) naturais – VI

(Montemor-O-Novo, Agosto de 2010)

Entre todos os que vão caminhando, empurrados ou inclinados contra a força dos quotidianos ventos adversos, entre todos os que vão ficando com o espírito progressivamente amputado pelas motosserras da vida são poucos, muito poucos, aqueles que têm força suficiente para, mesmo vergados pelo peso, manterem a espinha direita.

Escrever: porquê? para quê?

“Um escritor faz o que pode, não o que quer.
Por outro lado, a piada da escrita é tentar caminhos que suspeitamos não ser capazes de trilhar. (E, já agora, tentar dizer por palavras aquilo que muito provavelmente, não pode ser dito por palavras.) Certo, a maior parate do tempo olho para o meu mundo interior e o que vejo não é lá muito bonito: apenas um pequeno mundo interior. Mas há momentos em que... Bolas, ele há momentos em que! É à caça – à espera – desses momentos que um escritor vive. Tomemos a imagem da pesca: nós apenas estamos com uma cana (uma caneta) à superfície das águas (da página) e cabe aos peixes (às palavras) morderem ou não o isco. O mérito de quem está sentado à espera que as palavras apareçam não é, deste ponto de vista, assim tão grande. Mas é preciso estar lá. Essa é a grande chatice, esse é o grande prazer: é preciso estar lá. A pesca e a escrita têm isso em comum, o serem duas actividades onde o tédio e a emoção são indissociáveis, às vezes quase ao ponto de se confundirem. Como a vida, aliás.”

Rui Zink, O Anibaleitor, Teorema, 2010, pp. 117-118

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Capitalismo e economia: leituras e caminhos cruzados

Logo no início do século XX tanto Max Weber (in A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo), como Walter Benjamin (in O Capitalismo como Religião) estabeleceram de forma clara, embora por vias distintas, a origem teológica do capitalismo e a sua clara relação com o calvinismo e o protestantismo.

Walter Benjamin encara o capitalismo como um fenómeno não apenas de índole religiosa, mas até como uma religião em si mesmo, como como se depreende das suas máximas mais conhecidas (citadas por Max Weber):

“Lembra-te que o tempo é dinheiro, quem pode ganhar com o seu trabalho dez xelins por dia e vai passear metade do dia, ou fica a preguiçar no quarto, não pode, mesmo se despender apenas seis dinheiros, com os seus prazeres, contar apenas esta despesa, pois acabou, na realidade, por gastar, ou melhor, por deitar fora mais cinco xelins.”;

“Lembra-te que o crédito é dinheiro. Se alguém me deixar ficar com o seu dinheiro depois da data em que eu teria de lho pagar, está a oferecer-me os juros ou tudo o que ele me tiver rendido durante este tempo.”;

“Lembra-te que o dinheiro tem uma natureza reprodutiva e fecunda. O dinheiro pode produzir dinheiro, e assim sucessivamente.”;

“Lembra-te que – como diz o ditado – um homem de boas contas é senhor da bolsa alheia. Quem for conhecido por pagar as suas contas pontualmente pode a todo o momento pedir emprestado todos o dinheiro que os amigos possam dispensar.”

É esta verdadeiramente a religião da avareza ou, como diz o próprio Max Weber, “o ideal do homem honrado e digno de crédito; e sobretudo, a ideia do dever do indivíduo para com o interesse no aumento do seu capital, tomado como um objectivo em si (...), uma «ética» particular, cujo não cumprimento é considerado não apenas loucura, mas uma espécie de falta ao dever.” (p. 49). Para Benjamin sãos os que acumulam dinheiro e riqueza os eleitos de Deus, os capazes de alcançar um estado de graça individual, os homens impregnados pela graça divina.

Max Weber contesta esta visão puramente moral de Benjamin Franklin, encarando o capitalismo como uma secularização do ideal religioso, ou como uma entrada da religião no “mercado da vida” (p.175). Mantendo a ideia de que só a acção e o trabalho – e nunca o ócio ou os prazeres – servem a vontade de Deus, considera contudo que, e citando John Wesley, “sempre que a riqueza aumenta, diminui o valor da religião em igual medida. (...) É que a religião produz necessariamente esforço (industry) e sobriedade (frugality) e, estas só podem causar riqueza. Mas quando aumenta a riqueza, aumentam também a vaidade, a paixão e o amor pelo mundo em todas as suas formas.” (p. 193).

Daqui resulta, segundo Weber, que “Com a consciência de estar em estado de graça e com a bênção de Deus, o empresário burguês, no caso de se manter nos limites da correcção formal, de a sua acção ética não revelar manchas e de o uso da riqueza não ser inconveniente, podia (e era obrigado) a prosseguir os seus interesses económicos. (...) E dava-lhe ainda a certeza apaziguadora de que a distribuição desigual dos bens deste mundo era obra da divina Providência e que tanto essa distribuição como a atribuição da graça divina perseguia fins desconhecidos dos homens. [O próprio] Calvino já dissera, frequentemente, que o «povo», isto é, a massa dos trabalhadores e artesãos, só na pobreza continuava obediente a Deus.” (pp.194-195).

Ainda nesta visão do capitalismo segundo Max Weber, “O sucesso capitalista do membro de uma seita [protestante] era, se justo, prova da sua confirmação e capacidade, aumentando o prestígio e as oportunidades de propaganda da seita e sendo, por essa razão, bem aceite...” (p.311).

Estava assim aberta a porta para o fascínio do dinheiro e da especulação financeira enquanto sistema com um único objectivo: “produzir mais lucro e riqueza para um número reduzido de pessoas (...) no mínimo de tempo” (Samuel Weber, In Expresso-Actual, 7/8/2010), isto é, para o capitalismo tal como o conhecemos hoje. E foi Karl Marx quem melhor descreveu esta tendência - ou mesmo ânsia - muito enraizada na mentalidade capitalista, dizendo que, nesse mesmo capitalismo, cada limite é uma fronteira que deve ser transposta, ou seja, se não se cresce continuamente, diminui-se, podendo mesmo vir a perder-se tudo.

O capitalismo é, assim, e voltando novamente a Samuel Weber, uma “reacção secular a um problema que foi posto primeiro num contexto teológico. O tempo tem duas dimensões: a da autorrealização (self-fulfillement) e a da perda, a do caminho para a morte.” (idem, ibidem) Num certo sentido “a acumulação de riqueza sem limites suscita uma resposta defensiva ao medo de que o tempo caminhe para a destruição do indivíduo e não para a autorrealização.” (idem, ibidem)

As teorias de Walter Benjamin, de Max Weber e de Karl Marx sobre o capitalismo distinguem-se ainda na forma como olham para o dinheiro em si e para os processos de criação de riqueza. Para Walter Benjamin ela vem sobretudo do juro (do dinheiro, portanto) mais do que do trabalho; enquanto este é, para Marx, o factor decisivo na criação dessa mesma riqueza. Já Weber, no espírito da ética protestante, concilia de certa forma as duas visões, pois afirma que o trabalho também dignifica o indivíduo. Na opinião de Samuel Weber “A modernidade europeia, ocidental, é o resultado destas duas coisas: por um lado, a esperança de uma graça individual que nasceu com Jesus; por outro, a desconfiança em relação à via universalista.” (à ideia de que todo o indivíduo é salvável se for à missa, se confessar os pecados, etc.). (idem, ibidem)

Quanto à criação de riqueza através da especulação financeira, marca indelével da nossa época, é óbvio que algo se descontrolou e o monstro se tornou maior que o seu criador, o que originou o colapso que todos conhecemos e abriu uma crise financeira e económica sem precedentes que, para Samuel Weber, ultrapassa, e muito, a simples “razão económica”. Segundo este pensador, “os antecedentes desta crise são muito mais culturais, históricos e mesmo tecnológicos. Para a compreendermos, é importante termos uma perspectiva que coloca também questões psicológicas, além das culturais e teológicas...” (idem, ibidem). A este propósito, Samuel Weber recorda até que “a palavra «crise», não devemos esquecer, está no centro da reflexão filosófica no século XX” e que a própria palavra em si “não é de modo algum do domínio económico”. De certa forma, “o dinheiro (...) poderá ser visto como uma maneira de estabelecer uma mediação entre essa expectativa de um certo destino imortal ligado à origem do mundo, no plano bíblico, e a força do dinheiro para compensar a mortalidade que o pecado instaurou.”

Embora por vias distintas, o dinheiro continua assim, nos dias que vivemos, a ser “um signo do ser eleito, um signo da graça” (tal como descreveu Max Weber) e, por isso, continua a alimentar “o modelo da especulação ilimitada do capitalismo” que, sendo teológico na sua base e na sua origem tem também “razões psicológicas e antropológicas” (idem, ibidem).

Ou seja, deixemo-nos de fantasias ingénuas e demagógicas: a verdade é que não será nada fácil alterar este satus quo, sobretudo quando estão em causa fundamentos tão complexos como estes.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Imaginar

Por estas longas e penosas tardes de excessivo calor só há uma coisa que se pode fazer: imaginar. Tudo o resto é praticamente impossível. Ainda bem que há quem imagine por nós, poupando-nos até a esse esforço: Claire Diterzi, um certo "Tableau de Chasse" e uma tentadora maçã.

Se hoje pudesse ser "Dia do mar no ar"

Aqui pela sulidão o azul não é sinónimo de fresco. O ar, embora de um azul cintilante, parece sólido. Respirar só é possível depois de um enorme esforço, como se fosse necessário primeiro cortar o ar em fatias de tamanho inspirável. Apenas a memória da frescura líquida desse outro imenso azul que é o mar é ainda capaz de enfrentar o calor que abrasa o corpo quase até ao tutano da alma... Oxalá fosse "Dia do mar no ar", como no poema de Sophia de Mello B. Andresen, lido ao som da música de Rodrigo Leão "Deep Blue":

Dia do mar no ar, construído
Com sombras de cavalos e de plumas

Dia do mar no meu quarto - cubo
Onde os meus gestos deslizam
Entre o animal e a flor como medusas.

Dia do mar no ar, dia alto
Onde os meus gestos são gaivotas que se perdem
Rolando sobre as ondas, sobre as nuvens.

In Coral, 1950

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

All My Little Words

ou uma das 69 Love Songs de Steven Merritt e dos Magnetic Fields

Poema de (des)amor*

Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,
mas as palavras estão prontas sobre os lábios como
segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o verão.
E, se de noite as repito em surdina, no silêncio
do quarto, antes de adormecer, é como se de repente
as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltasses
em busca desses antigos recados levados pelo tempo:

Vamos para casa? O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela
música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;
e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.

Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta
meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias
afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo,
por certo estarei ainda aqui, mas poderei dizer que, pelo
menos uma ou outra vez, já mandei os recados, já da minha
boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes.

Maria do Rosário Pedreira, In 366 poemas que falam de amor,
Org. Vasco Graça Moura, Quetzal, 2003

* Título meu, não do poema

Provérbiaforística, ou talvez nem tanto

Mais do que tirar conclusões – tantas vezes precipitadas - a partir do olhar dirigido preferencialmente para um dos lados do copo, o cheio ou o vazio, importa talvez perceber se o copo está, ele próprio, a ficar vazio ou se, pelo contrário, começa a encher-se. Depois, e só depois, se podem começar a tecer considerações.

domingo, 8 de agosto de 2010

E agora a viagem onírica e musical de Loreena McKennitt

pelas noites mágicas de Alhambra.

Se o leitor não vai ao livro...

O que aconteceu com os livros em algumas décadas é não apenas surpreendente, mas também exemplar para compreender os tempos de mudança acelerada que vivemos, independentemente de quaisquer juízos de valor sobre a qualidade e as consequências dessa mesma mudança.

Até à década de 60 do século passado, até mesmo depois, o livro permitia-se o luxo de se tornar difícil, digamos assim, obrigando o leitor a abrir-lhe as páginas uma a uma se o queria ler. Era sem dúvida o leitor que buscava o livro e este não era, de facto, para todos. Lembro-me de Saramago contar que, quando ainda era pouco mais do que um simples operário, passava os serões numa biblioteca de Lisboa a ler, tendo sido em boa parte assim que adquiriu a bagagem cultural que lhe serviu de suporte à escrita algum tempo depois.

Veio depois um tempo em que ler um livro se tornou, para muitos, uma coisa chata quando comparada com jogos de video, internet, redes sociais e, sobretudo, telemóvel. Inaugurava-se assim a época de ouro da literatura dita light, que tem tido diversas marés temáticas - estamos agora na fase dos vampiros -, e que sobrevive da fama de ser fácil de ler e pouco chata, pois não será preciso utilizar muitos neurónios em simultâneo para lhe decifrar o enredo. Talvez seja por isso que, mesmo no formato tradicional, em papel, têm tanta saída.

Com tudo isto, o livro, enquanto verdadeiro objecto cultural e literário, viu-se obrigado a ir ele ao encontro do leitor. E esta necessidade, não dos livros em si, mas das editoras que os publicam e, se calhar também dos próprios autores dos livros, tem aguçado o engenho e criado verdadeiras maravilhas tecnológicas que quase metem os livros dentro da cabeça do leitor, evitando que ele se esforce muito. Ele são os audiolivros em cd ou em mp3, ele são os e-books disponíveis na internet, ele são os formatos pdf que também estão na net, em bibliotecas virtuais ou em sítios como o Scribd e tantos outros, e ele é, sobretudo, o Kindle Wireless Reading Device da Amazon (Ver aqui) que, embora recente, já vai na segunda geração, para quem tenha dinheiro para o adquirir e manter, claro está.

Ironicamente, o consumismo frenético em que vivemos mergulhados impele à compra destes gadgets electrónicos para se estar in, só que eles custam o dinheiro que muitos já não têm disponível. Voltámos assim, de certo modo e por vias bem distintas, atrás: tal como em meados do século anterior nem todos tinham dinheiro para comprar livros, agora, no início de século XXI e de um novo milénio, também nem todos têm dinheiro para adquirir Kindles. Antes, valia aos livros a vontade que os leitores tinham de os ler. Agora, talvez lhes valha a vontade de muitos em possuir o último gadget da moda. Ou talvez o que  antes era apenas sede de saber e cultura seja agora, para muitos, mera ânsia de status. E claro, os leitores compulsivos não entram aqui porque esses, embora em número reduzido, são de todos os tempos e mantêm-se constantes nos seus hábitos.

Ao terceiro dia

Fui assistir a um dos espectáculos do segundo dia do "Jazz na cidade": noite convidativa e amena, muita gente na rua (e por isso também, muito barulho), música ao vivo em diversos pontos estratégicos do centro histórico, repertório ao estilo "promenade", escorreito e de fácil entrada no ouvido, adequado para tão heterogéneo público. No fundo, receita de sucesso quase garantido numa terra que, em termos culturais, está cada vez mais empobrecida. Mas não deixa de ser, apesar de todas as suas virtudes inegáveis, um tanto morna.

Ontem, voltei ao "Jazz na cidade". Depois do ambiente musical um tanto frouxo que se viveu no segundo dia do evento (no primeiro não estive e, por isso, não me posso pronunciar), foi ao terceiro dia que, na minha opinião, ele alcançou a sua justa e melhor medida, tanto de público, como de entusiasmo e convicção dos próprios músicos, Às 21.30, a algarvia The Messy Band aqueceu, e bem, o ambiente para a eborense, multinacional, jovem e ainda mais prometedora The Jungle Jazz Orchestra que, às 23.30, com os seus quinze músicos, encerrou da melhor forma o festival no Chão das Covas com toda a gente a oscilar e a bater o pé ao ritmo empolgante do swing. É claro que a noite esplendorosa no seu bafo morno e apetecível foi uma parceira importante nisto tudo e a decadência cultural da cidade também.

Para mim, o "Jazz na cidade" valeu sobretudo pela noite de ontem e pelo esforço que a Associação Cultural Imaginário fez para justificar os apoios financeiros que recebe anualmente da câmara e, sobretudo, para cumprir os objectivos (culturais e comunitários) que realmente  deviam sempre presidir à criação e existência deste tipo de entidades (o que nem sempre acontece, como bem sabemos).

sábado, 7 de agosto de 2010

E porque estamos, de facto, a meio do Verão...



Proverbiais e aforísticas

Mais do que conseguir obter a boa resposta, às vezes, o importante é mesmo ser capaz de formular a pergunta certa.

Uma espécie de sacerdócio

Numa “garage sale”, ou melhor, "arquivo morto sale", que a biblioteca da minha escola realizou este ano como forma de esvaziar os arquivos e abrir espaço para os bulldozers da ParqueEscolar, comprei por cinquenta cêntimos um livro publicado em edição de autor pela Livraria Sá da Costa em 1955, intitulado Introdução à Vida Docente de Francisco Dias Agudo, que era ao tempo reitor do liceu Gil Vicente. Trata-se de um curioso ensaio sobre a profissão de professor que se assume, segundo o próprio autor, como um “Projecto de Estatuto do Professor”. E, claro, a comparação com o actual Estatuto (ECD) é aqui quase inevitável.

Ao longo das suas mais de trezentas páginas o autor discorre e medita, com notório entusiamo pessoal e conhecimento de causa, sobre “as misérias e grandezas do nosso ofício” (p.9), procurando separar “toda a ganga que o confunde [ao profissional do ensino] e deixa[r] livre o caminho que conduz tanto à solução crítica como à norma prática de procedimento pessoal.” (p.9).

Segundo Dias Agudo, a função docente “tem uma particular dignidade”, que logo se transforma em responsabilidade “debaixo da forma de direitura de procedimentos, de recta norma que, para ser definitiva e acabada, e desse modo conduzir a um acto consciente de governo próprio, há-de emergir de uma situação, conquanto transitória e acidental, - viva e real”(pp.9-10). Tem ainda a “singularidade de se multiplicar por divisão, como sucede sempre que se reparte um bem moral.” (p. 10) Sob este ponto de vista – e sempre na perspectiva do autor – o professor é, ou deve ser, sobretudo um “mestre” que “Dando ou concedendo, (…) esquece a origem donde mana a fonte e deve apenas à sede, que ele mata.” (p.11).

Dias Agudo conduz depois o discurso e o raciocínio para a ideia da “dignidade” do professor, começando por esclarecer conceitos que, sendo afins, são também intrinsecamente distintos: os de professor, mestre e preceptor.

Assim, professor é, “no sentido da letra, de actividade própria e devidamente profissional”, aquele que “vive da escola organizada ou faz, ele mesmo, a escola”, mas é também aquele que “professa”, ou seja, que se integra “numa ordem e colhe dela um proveito, um benefício que por sua vez reparte exercendo a sua profissão docente”. Para Dias Agudo “É este carácter frequentativo, de repetição, que está na raiz da sua função.” (p.11). Contudo lembra ainda que “Assim como toda a criação no reino da natureza é uma repetição na diversificação, a que corresponde espécie e indivíduo, assim o é na ordem espiritual a acção docente do professor; em sua raiz está a repetição do que ele aprendeu e revive em sua actualidade a qual, para ser sua, individual e pessoalmente sua, contende necessariamente com criação diversificada.” (pp.12-13)

Logo depois escreve que “Suprimida a criação espontânea e pessoal, o professor não é mais um professor. Por falta de opinião própria, ou por insuficiência de adesão à sua própria actualidade, por míngua de sinceridade ou pela máscara que o cobre, pelo artifício que o condiciona ou pela comédia que representa – é um farsante; se o negócio ou tráfico está na raiz dos seus propósitos é um traficante; se esse tráfico foi previamente concertados, combinado, tratado - mesmo um tratante. (p.13).

Refere-se ainda o autor, neste capítulo inicial da obra, a um conceito que, ainda hoje, aparece de vez em quando nos debates e discussões sobre o ensino, embora nem sempre pelas melhores razões: o de sacerdócio. E esclarece Dias Agudo que esse é um “falso sentido” (p.16) da palavra professor, uma vez que essa designação quase sempre pretende “encobrir que se aquiete o magistério e o Tesouro, e continue o erário sobranceiro e indiferente às necessidades da pessoa ensinante”, mais do que conter em si mesma um “implícito elogio ou excelência de justiça”(p.16).

De certa forma são bem sábias e bem actuais estas palavras, apesar da sua já provecta idade. Na verdade, o que o Menistério da Educação* tem vindo a fazer nestes últimos anos é justamente considerar os professores como “tratantes”, exigir que eles se tornem “farsantes” e actuar ele próprio como um “traficante”. À luz destes três conceitos – tal como Dias Agudo aqui os apresenta – se pode facilmente entender o Modelo de Avaliação do Desempenho Docente (ADD), o Estatuto da Carreira Docente (ECD), o Estatuto do aluno, bem como o novo modelo de gestão das escolas. Apenas um breve exemplo, retirado desse verdadeiro “tratado de desconsideração pela docência” - que dá pela designação de DL 15/07 ou ECD – o qual, logo no texto introdutório faz esta afirmação esclarecedora sobre o pensamento do Menistério* da Educação sobre os professores que para ele trabalham: “... permitiu-se até que as funções de coordenação e supervisão fossem desempenhadas por docentes mais jovens e com menos condições para as exercer. Daqui resultou um sistema que não criou nenhum incentivo, nenhuma motivação para que os docentes aperfeiçoassem as suas práticas pedagógicas ou se empenhassem na vida e organização das escolas.” Ou seja, os professores mais novos – todos com licenciatura na sua formação inicial, muitos com mestrados e pós-graduações especializadas - trabalhavam no duro, com a gestão das escolas incluída neste pacote, enquanto os colegas mais velhos (não todos, claro, mas muitos deles) beneficiavam das reduções e privilégios que a carreira, e o próprio Menistério*, sempre lhes concedeu. Agora, por força de decreto e porque ao Menistério interessa proceder de outro modo, são considerados, assim de repente, como praticamente “incapazes”. Esta afirmação injusta, tendenciosa e mal-intencionada arrumou definitivamente a questão da profissão para mim, transformando-a, com muita pena minha, em mero trabalho que me garante o sustento de todos os dias. Apenas posso lamentar o facto de ter escolhido, por vocação, um ganha-pão bem duro e desgastante.

Já sobre a questão da extinção dos chumbos de que a Senhora Menistra* falou recentemente, e que tanta polémica tem levantado por aí, só posso dizer que não sei o que será melhor: se ouvir um apelo da direcção da escola para que os professores usem de “bom senso” e não reprovem os alunos porque as estatísticas são um caso sério e a escola tem pergaminhos a defender, se ouvir uma colega da escola, mas actualmente a desempenhar funções na administração educativa regional, dizer numa reunião para a qual foram convocados todos os docente do terceiro ciclo, que um professor ganha 14 ordenados por ano – apontou até o valor financeiro que um professor a meio da carreira ganha e quanto isso dá ao final do ano – para nos questionar depois como é que nós, professores, que representamos um tal encargo anual para o estado, vamos dar contas do nosso trabalho em termos de (in)sucesso quando sobre isso formos questionados pelo tal Menistério-patrão* que nos paga o dito ordenado. Pelo menos assim acabava-se a fantochada que vivemos na escola à conta das taxas de (in)sucesso a assumíamos de uma vez que ser professor é, de facto e cada vez mais, um sacerdócio (e não uma profissão), exactamente no sentido crítico e pejorativo que Dias Agudo há já tantos anos apontou. Talvez este aquietamento entre o orçamento de estado e o magistério acabasse em definitivo com este clima de “guerra de baixa intensidade” que se vive no ensino há já vários anos, sem que se lhe consiga adivinhar o fim. Era pelo menos mais honesto assumir oficialmente que não se podem chumbar os meninos e, só por isso, já valeria provavelmente a pena.

Mas retomando o texto de Dias Agudo - que é aqui o que mais importa - naquilo que pode hoje ser até mais interessante para os seus eventuais leitores: quais são então as características e/ou capacidades que um professor deve ter? (Aquilo que hoje se designa como “conteúdo funcional da carreira). Dentro do espírito do tempo, o autor chama-lhes “virtudes magistrais” e aponta um número bastante superior aos das virtudes teologais: ao todo sete (como os pecados mortais, curiosamente), a saber: paciência, humildade, prudência, liberalidade, justiça, coerência e esperança.

Este seria portanto – caso os seus fundamentos e princípios tivessem vingado - um Estatuto profissional de carácter sobretudo ético e deontológico – justamente a dimensão mais ausente do actual ECD – e muito associado, também dentro do espirito característico da época, à noção de dever. Mas apesar dos anacronismos, não deixa de ser uma proposta interessante, sobretudo pela sólida e erudita argumentação do autor, acompanhada de uma consistência vocabular e sintáctica, hoje já caída em desuso e que por vezes, faz lembrar a oratória vieirina. Eis algumas das belas metáforas a que recorre Dias Agudo:

Paciência - “serena e contínua decantação”; “lenta e demorada edificação da pessoa do discípulo” (p.83);

Humildade - “Assina o pintor o seu quadro, o compositor a snfonia, o estatuário a estátua e o poeta os versos que compõe. (…) Mas o professor não assina a obra que faz. Ele não pode documentar-se pois esse presumível e fugidio documento que é o discípulo não tem suficiente força probatória se o mestre o deixa aos 10 anos; e também a não tem daí por diante porque se não pode saber a quem pertence o merecimento de um homem feito, tantas são as influências que este recebe para bem opu para mal.” (pp. 89-90);

Prudência - “A prudência é, com efeito, uma virtude verdadeiramente ligada à terra, enquanto a humildade fecunda o conceito de vida eterna. Prudência é norma de relação, de comunicação, de convívio ou conhecimento das coisas; a humildade, porém, vive da intimidade de si mesma e radica-se na profundidade da alma. O santo é humilde; o sábio é prudente.” (p. 98) “... o prudente, com a sua ante-visão, com a sua clarividência, a sua sagacidade e o seu saber não se obriga, pelo contrário, - obriga, e é desse modo dominante e vencedor das dificuldades possíveis.” (p.99);

Liberalidade - “Ora, assim como é generoso o fruto para a semente, assim também a prudência é liberal na magistratura do ensino.” “A prudência vive na pessoa do mestre com esse valor de comunicação incontida: é generosa, é liberal e, porque faz o trânsito do saber individual ao saber social, é transitiva.” (p.105) “A liberalidade e o magistério vivem de um presente, não discutem um futuro pessoal e próprio, e é no desenvolvimento desse presente que floresce a sua inclinação generosa.” (p.108)

Justiça - “A justiça é na pessoa do mestre, como duplo de juiz e de réu que ele é, summun jus, ou não é nada o que aqui quer dizer que ao professor não basta ter razão, mas que só lhe chega ter a razão toda; nenhuma, a parte contrária.”. “Não pode nesta causa bem julgar o juiz que se não assente no banco do réu. Essa é a cátedra única e verdadeira donde pode proferir-se sentença sem apelo e sem agravo.”(p.116)

Coerência - “Praticou o santo toda a vida santidade? Santo Agostinho responde. Fez o Poeta só poesia deleitável? Sabe-se que uma exegese adequada põe a descoberto versos artisticamente pobres.” (p.137) “Há uma reversibilidade possível entre inteligência e in-inteligência executória; entre pecado e santidade. Não a há entre justiça e incoerência, pois que esta conduz à descontinuidade e a justiça em sobressaltos é justiça envilecida. Por isso, o professor que julga, assumindo o papel de juiz obriga-se a ser coerente consigo mesmo, igual a si próprio, executivo de critério unívoco, pois que a justiça equívoca é justiça degradada, imoral.” (p.137-138)

Esperança - “Tal como a seara, a vida é cíclica, contínua, - contínua em esperança. Continua-se por sobreposições sucessivas, - o que vem, sobre o que foi – pois um só homem sem futuro e sem passado poderia viver o só momento presente destacado de toda a eternidade. A vida feita só dessas singularidades momentâneas perderia o carácter dinâmico que flui e enlaça e, por isso mesmo, ama. (…) Porque o passado não pode afeiçoar-se ao nosso desejo, é imodificável (…), está como que precipitado no caos e não pode ser recriado; diferente é o futuro, susceptível (…) da nossa íntima esperança.” (p.145) “O mestre crê no seu discípulo pela necessidade primitiva de crer em si mesmo; - por imperativo moral. Porém, essa esperança, como tudo quanto nele vive profissionalmente, é espontaneamente transitiva para a pessoa do discípulo: para que este espere de si mesmo e a si mesmo se promova confiante, construtivo, exaltado.” (p. 151)

E é mesmo assim, de facto: só nos resta a esperança, ainda que a reconheçamos como cada vez mais distante e improvável.

* Grafia intencional.

Bells for her



sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Agosto: a 'silly season'

A ideia de inventar uma receita mágica capaz de, seguindo determinados preceitos e passos, mudar radicalmente as coisas, em nós ou à nossa volta, deve ser uma utopia tão antiga como o próprio homem. Mas nestes tempos complexos e difíceis que vivemos, essa busca tomou contornos que, por vezes, fazem lembrar uma tentativa desesperada, em contagem decrescente, para evitar um qualquer cataclismo final. Mas ela é, sobretudo, a busca de algo que, supostamente, seria capaz de transformar o nosso quotidiano de forma permanente e continuada: sucesso, dinheiro, amor e, para os mais ambiciosos, essa autêntica “pedra filosofal” que é a felicidade. Esta ânsia de encontrar “a” receita para todas estas coisas é hoje um verdadeiro filão, tanto editorial, como comunicacional e há muita gente que – sob a designação de “guru” - vive (e bem) disso mesmo.

É o caso do israelita Tal Ben-Shahar que, para além de ser um orador com capacidades discursivas invulgares – condição sine qua non para quem se queira tornar um verdadeiro “guru” - é autor de diversos best-sellers - Aprenda a ser feliz, Em busca da perfeição e Even Happier, já traduzidos e publicados em Portugal, com grande sucesso de vendas. É ainda o mentor de um curso de Psicologia Positiva na prestigiada Universidade de Harvard em Cambridge (Massachussetts), o qual é, actualmente, um dos mais procurados da instituição. Ou seja, Ben-Shahar é um especialista nisto das “receitas para...” e foi nessa condição que deu uma entrevista à revista Happy de Julho onde, entre outras coisas, disse que a tendência da maioria das pessoas, em especial das que têm já algum (ou muito) dinheiro, é para continuar “a «perseguir» a próxima promoção, o próximo aumento, como se fosse um vício incurável por este tipo de adrenalina temporária que se parece com felicidade. O constante desejo de aumentar os «zeros» na conta bancária esmorece a procura do prazer e de um sentido para a vida, e é assim que, muitas vezes, o dinheiro atrapalha a busca e o encontro da felicidade”, contrariando deste modo aquele velho chavão de que o dinheiro não compra a felicidade, mas ajuda muito.

Quanto à carreira, declara que “É essencial que sinta prazer no seu trabalho, mas também que encontre um sentido para ele, como a progressão na carreira, o ordenado ou o estatuto (combinação prazer/significado)."

Questionado depois sobre a antítese optimismo/negativismo declarou que “Muitas pessoas acham que tudo tem uma razão para acontecer. Eu não acredito. Mas mesmo que muitas coisas aconteçam pelo melhor, há quem consiga fazer o melhor daquilo que lhes acontece. A ideia de que as coisas acontecem pelo melhor é passiva; a segunda é activa. (…) Winston Churchill disse uma vez que “Um pessimista vê a dificuldade em cada oportunidade; um optimista vê a oportunidade em cada dificuldade. É um dos princípios da Psicologia Positiva que nos pode ajudar a superar um trauma.”

Perante esta afirmação, a entrevistadora formula então a seguinte questão: “Para sermos mais felizes, temos de erradicar totalmente o pessimismo das nossas vidas e cultivar sempre o optimismo?” Ao que o guru responde: “Não. Isso é impossível! É preciso dar-se permissão para ser humana. Aceite os sentimentos de tristeza, de infelicidade, medo... só assim abrirá espaço para as emoções positivas.”

No fim da leitura, eu, que nunca na vida acreditei em receitas que não fossem as de cozinha – e mesmo essas foram sempre objecto de alguma adptação ou modificação, segundo os meus humores e inspirações do momento -, eu, que sempre fui céptica e irónica em relação a estes manuais de como conseguir alguma coisa em x passos, ou em y dias, vi-me obrigada a concordar com o homem e a achar que estas são afirmações, não apenas sensatas, mas até sábias. Ainda por cima feitas numa daquelas revistas ditas femininas!

Aliás, o poder de argumentação de Ben-Shahar é tão bom que considerei mesmo a hipotética ideia de um dia, quem sabe, me vir a inscrever nesse tal curso de Harvard – a ver se começava a olhar à minha volta de modo diferente, ou a ver outras cores para além deste cinzentismo pardacento que parece dominar tudo, atémesmo o rosto e o espírito das pessoas. Começo a estar cansada de me permitir ser tão “humana” e de não conseguir “fazer o melhor” daquilo que me vai acontecendo. E, enquanto professora, estou sobretudo cansada de já não encontrar sequer um sentido para o meu trabalho, - “como a progressão na carreira, o ordenado ou o estatuto (combinação prazer/significado)” -, quanto mais ‘sentir prazer’ ao fazê-lo. Já agora, alguns dos nossos políticos também podiam – se calhar até deviam - fazer talvez um curso intensivo ou algo assim (quem sabe se nas Novas Oportunidades?) para ver se nos conseguiam convencer melhor de que isto, afinal, não está assim tão mau como nos parece, quando andamos aí pela rua e ouvimos e falamos com as pessoas.

Mas depois pensei: estamos em Agosto, em plena silly season anual. E esta mistura contraditória dos pensamentos ficou mais clara... Só espero é que Tal Ben-Shahar não resolva dedicar-se à política, pois parece-me que era bem capaz de vender areia (e muita) aos próprios beduínos. E desses políticos já nós cá temos até demais. Não precisamos de mais nenhum.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O silêncio também é um grito assim

"...Years go by
Will I still be waiting
For somebody else to understand
Years go by
If I'm stripped of my beauty
And the orange clouds
Raining in my head
Years go by
Will I choke on my tears
Till finally there is nothing left
One more casualty
You know we're too easy Easy Easy..."

Tori Amos, Silent all these years


Metáforas (quase) naturais – V

(Evoramonte, 30/7/2010)

Há em nós um vazio cheio de Nada, provocado pela erosão que as pequenas infâmias e rejeições do quotidiano vão escavando. E o que tantas vezes impede a maré cheia de Nada de transbordar os limites desse vazio e inundar todo o espaço à volta, não é mais do que uma ténue barreira, feita sobretudo de tenacidade e de medo. É que, perante tão poderosa força, nenhum lugar em nós – por mais secreto que seja - está a salvo de ser engolido pelo Nada que habita nesse mesmo abismo.

Porém esta barragem é frágil, toda ela equilíbrio e balanço entre as forças brutas em presença. Talvez por isso nem sempre consiga impedir uma certa osmose através das paredes do vazio que tenta sempre e por todos os meios alargar-se um pouco mais a cada dia que passa.

Apenas podemos esperar que a vida vá preenchendo sempre o espaço à volta com mais e mais coisas capazes de nos surpreender e capazes, sobretudo, de apanhar de surpresa esse Nada que existe em nós, obrigando-o a recuar para o fundo do seu insondável abismo e mantendo-o lá mais mais algum tempo. Nem que seja apenas por mais um dia.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Utopia

A "hortografia"

Uma amiga e colega e profissão enviou-me uma daquelas brincadeiras que circulam por aí de mail em mail, criando rendimentos acrescidos para as empresas fornecedoras de internet.

Neste caso trata-se de mais uma versão (contra)prontuário da língua portuguesa, a brincar com os sentidos das palavras que usamos mais frequentemente e também com a sua grafia, está bom de ver. Intitulava-se “A cor do horto gráfico” e uma das entradas era, precisamente, “Ortografia” aqui definida como sendo “Horta feita com letras”.

Foi então que me lembrei deste verdadeiro canteiro, ou leira se preferirem, de palavras e respectivas possibilidades gráficas e semânticas:

Telegramando

Préternura Paraternura Stop
Proternura Práternura Stop
Interternura Sóternura Stop
Viternura Stop Cooternura Stop
Conternura Meternura Stop
Posternura Desternura Stop
Reternura Reter nu urra Stop
Ter nu

António Aragão,
In Antologia da Poesia Concreta em Portugal 2,
Assírio&Alvim, 1973, p. 50

Do (eterno) antagonismo dos pontos de vista

O ponto de vista de quem está fora (e faz questão disso):

A televisão, amigo Daniel, é o Anticristo, e digo-lhe que bastarão três ou quatro gerações para que as pessoas não saibam nem dar peidos por sua conta e o ser humano regresse às cavernas, à barbárie medieval e a estados de imbecilidade que a lesma já ultrapassou lá para o pleistoceno. Este mundo não morrerá de uma bomba atómica, como dizem os jornais, morrerá de riso, de banalidade, fazendo uma piada de tudo, e aliás uma piada sem graça.”
Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, Publ. D.Quixote, 2007, 10ª ed.pp. 118-119

Nota: Tendo em conta que a acção do romance decorre na época da Guerra Civil de Espanha, o mais provável é que já sejamos mesmo assim e ainda não nos tenhamos dado conta disso.

O ponto de vista de quem está dentro (e está muito feliz por isso):

“- Estás a tornar-te produtivista!
- Penso que não. O trabalho constante cria uma dinâmica exaltante, quanto mais se trabalha mais apetece trabalhar, trabalhar em mais sítios, em mais zonas...
- Que horror!
- Não é nada. Gosto da produção industrial que há na televisão, obriga-nos a ultrapassar sentimentos mornos, condescendências...
- E a qualidade? E o desgaste?
- O fazer muito é excitante.
- Como uma droga?
- Não. As grandes pausas levam a grandes dúvidas, e as grandes dúvidas levam a grandes inibições.”
João Perry, “Os caminhos cruzados de João Perry”, entrevista de Fernando Dacosta para o Público Magazine, nº 234, 28/8/1994.

O ponto de vista do tédio quotidiano (e que é mais o de todos nós):

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Frutos

Pêssegos, pêras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão,melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

Eugénio de Andrade,
in Aquela Nuvem e Outras,
Porto, Ed. Asa, 1986.












Natureza Morta de Jean-Baptiste Chardin,
c. 1759

A (des)propósito

Todos os frutos têm o seu tempo certo para serem colhidos e saboreados. É nesse ponto exacto da sua maturação, e em nenhum outro, que revelam as suas melhores qualidades – aroma, doçura, sabor, textura – e que proporcionam maior prazer a quem deles desfruta.

São também assim os frutos da paixão, quando colhidos apressadamente, ou quando saboreados já demasiado maduros: não sabem bem e deixam ficar depois um rasto desagradável na memória sensorial. Não apetecem, sequer.

Tal como os frutos da natureza têm a época certa de acontecer e o momento oportuno de serem melhor apetecidos e saboreados, também os frutos da paixão sabem ainda melhor quando conseguem esperar pela feliz, mas pouco provável conjunção que junta o momento mais adequado (e que nada tem que ver com a ideia de uma “idade certa” para fazer as coisas), com as pessoas certas e no ponto exacto do desejo.

Nota: não será por acaso que a palavra paixão integra o nome de alguns frutos em diversas línguas. Por exemplo, no francês, a expressão “fruit de la passion” é usada para nomear o maracujá fruto da passiflora edulis.

domingo, 1 de agosto de 2010

Metáforas (quase) naturais - IV

(Evoramonte, 30/7/2010)

Vida e Morte co-existem em nós. No primeiro de todos os dias da nossa biografia é a Vida que faz prevalecer a sua vontade, mas no último é sempre a Morte que vence o combate. Pelo meio, o quotidiano braço-de-ferro entre as duas forças opostas, porém equivalentes em vontade e em teimosia, que determina a nossa (in)existência.

Compulsões...

Escrever também integra a lista das variadas compulsões que nos podem afectar ao longo da vida e tomar várias formas (e suponho que escrever sem parar num blogue também já consta certamente nessa mesma lista).

Na sua “lição” intitulada The Secret Life of the Love Song, Nick Cave fala de uma certa obsessão pessoal pela escrita de canções de amor e conta o caso de um grande amigo seu que tinha a pulsão de escrever cartas de amor. Nesse mesmo texto de que já falei aqui numa postagem há alguns meses – e de que, provavelmente, voltarei a falar a propósito de muitas outras coisas, pois a música e as palavras de Cave são uma das minhas mais antigas velha obsessões – Nick Cave aproveita para, comparando a escrita de cartas de amor com a de canções do mesmo teor, definir, de modo superlativo, a natureza intrínseca da canção de amor:

“The reasons why I feel compelled to sit down and write love songs are legion. Some of these came clearer to me when I sat down with a friend of mine, who for the sake of his anonymity I will refer to as J.J. and I admitted to each other that we both suffered from psychological disorder that the medical profession call erotographomania. Erotographomania is the obsessive desire to write love letters. My friend shared that he had written and sent, over the last five years, more than seven thousand love letters to his wife. My friend looked exhausted and his shame was almost palpable. I suffer from the same disease but happily have yet to reach such an advanced stage as my poor friend J. We discussed the power of the love letter and found that it was, not surprisingly, very similar to the love song. Both served as extended meditations on ones beloved. Both served to shorten the distance between the writer and the recipient. Both held within them a permanence and power that the spoken word did not. Both were erotic exercises, in themselves. Both had the potential to reinvent, through words, like Pygmalion with his self-created lover of stone, one's beloved. Alas, the most endearing form of correspondence, the love letter, like the love song has suffered at the hands of the cold speed of technology, at the carelessness and soullessness of our age.”

E a sua bela canção “Love Letter” tem tudo a ver com isto: