quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

À beira de água

Salvador Dali: Personagem à janela
 1925, óleo sobre tela


























Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.

Eugénio de Andrade, In Os Sulcos da Sede, 5ª ed.
Quasi e Fund. Eugénio de Andrade, 2007

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

These days

Declinação sobre guarda-chuvas

ou melhor, uma espécie de exorcismo a ver se o raio da chuva começa finalmente a cair sobre as nossas cabeças. Isto tudo, claro, para ir mantendo intacta a nossa fé na chuva que há de vir (como Cristas) e um certo espírito de poupança, como convém.

Carelman, In Catalogue d'objets introuvables, Le livre de Poche, 1989, p. 175
Carelman, In Catalogue d'objets introuvables, Le livre de Poche, 1989, p. 171


Carelman, In Catalogue d'objets introuvables, Le livre de Poche, 1989, p. 174
E este que, apenas por mero acaso, não foi inventado por Carelman mas mantém claramente o mesmo espírito.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Artur Cruzeiro-Seixas; Sem título; 2001
Que memórias vestirei hoje? A camisa transparente sem cheiro nem sapatos, o casaco de pedra sem veios nem veias, fechando a imensidão que as garças sobrevoam? Ou o frágil e semi-esquecido capote de cera derretendo ao frio de um dia com fronteiras? Quem inventa os meus sonhos? Quem lhes retoca a lógica que não pára de mudar? Porque são só meus? Os cegos sonham sons com os dedos? Serão verdadeiras as memórias? Mais que os sonhos penetrando nas fendas da realidade?

Há dias que começam nos pés, na biqueira das botas, mais propriamente, depois sobem até à cintura e aí se quedam esuqecidos das mãos. Outros começam lá bem alto e desfazem-se em poeira polvilhando o chão com a sua morte, outros vestem-se de relva e passam o dia sentados, sem nada por dentro nem fora, outros trespassam-nos, nem reparam que existimos, de luz total nem o vento nos sente e esquecemos todas as mentiras. Há fatos de lodo para sair à noite, redes podres agitando-se à passagem de fantasmas, há dias sorridentes a que só apetece arrancar os dentes, dias vestidos de noite, contaminados com caspa de estrelas, dias de pedra com nomes de pessoas inexistentes gravados no âmago, dias com chapéu entre pinheiros, demasiado ocupados para existir. Dias sem dor, cor, sabor ou penteado, dias cabados com um fato por estrear, dias intermitentes, sem botões, impossíveis de despir e noites que inventam histórias, memórias ainda por cumprir.

Zé Gandaia, 2009 (texto-performance realizada na Galeria Lobo-Mau em Arraiolos, em 10 de Junho de 2009)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Ficou um pouco surpreendido, disse ele

hoje sobre os números do desemprego em Portugal. (Ler notícia aqui) Se agora ficou assim, quando descobrir então que estamos mesmo em recessão, vai-lhe cair o queixo com certeza.

Pelos vistos, a era do Estado laico já lá vai

Primeiro foi a ministra da Agricultura a manifestar a sua "fé" em que a chuva venha depressa. Provavelmente, a senhora reza todos os dias antes de adormecer pedindo ao pai do céu para que tal aconteça e a livre assim de mais um grande problema para resolver... Só que, de acordo com os boletins meteorológicos que vou ouvindo esporadicamente, está-me cá a parecer que ainda vamos assistir a missa e procissão lá para os lados de S. Bento...


Imagem daqui
Hoje foi a vez do líder da JSD vir dizer que, na sua opinião, o combate ao desemprego é uma "questão de fé".
Imagem daqui
Ora, parece-me a mim que, quando os dirigentes da coligação governamental consideram que os principais problemas do país já só se resolvem pela "fé" e nem se questionam duas vezes antes de proferir tão ridícula opinião, estamos mas é bem tramados. Ou talvez nos tenhamos equivocado quando fomos votar, pois parece que mandatámos os dirigentes errados para conduzir/governar o país. Devíamos era ter ido todos a Fátima, assim numa espécie de peregrinação nacional, rezar e acender umas velinhas... Talvez assim, o céu se compadecesse da nossas angústias e nos enviasse mais um milagre: chuva e empregos a cair do céu sobre as cabeças dos peregrinos extasiados...

Rezemos, pois, a ver se o milagre acontece. Afinal, é tudo uma questão de fé, dizem os nossos governantes. E eles, certamente, sabem do que falam.

Uma canção decente



Utopia: passado e presente

Em 1516 Thomas More escreveu De Optimo Reipublicae Statu deque Nova Insula Utopia, algo como Sobre o melhor estado de uma república e sobre a nova ilha Utopia, mais conhecido como apenas Utopia. Todos os que vivem nesta ilha imaginada trabalham para o bem comum. O luxo supérfluo foi banido do quotidiano de Utopia, cujos habitantes prezam a justiça sob todas as formas. Um lugar assim, tão perfeito e justo, nunca existiu, nem poderá vir a existir. Por isso, o neologismo "utopia" criado por More acabou por designar "lugar considerado irreal", tornando-se sinónimo de "fantasia" e de "projecto irrealizável". 


Várias, e muito distintas entre si, foram as "utopias" criadas ao longo do tempo. Propunham sociedades justas em que os homens - todos - seriam melhores pessoas. Durante muito tempo, houve gente que acreditou ser possível chegar mais perto desse mundo melhor, porque mais justo, onde todos seriam mais "iguais" embora diferentes.

Contudo, a globalização pôs fim às ilusões e hoje já ninguém acredita num mundo melhor, nem sequer mais justo. Os dias que vivemos, aliás, demonstram que estamos a caminhar, precisamente, na direcção oposta.

A "utopia" é hoje uma palavra que desvanece num muro em escombros, rodeada por silvas que a vão asfixiando lentamente. De uma certa forma, assim estamos nós também.

EN 18, 23/2/2012

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Eutopia

Zeca Afonso conciliou a música tradicional com a força do protesto. Essa harmonia sem peias - nem sequer políticas - foi o seu legado pessoal (agora nosso também). Mais do que uma utopia, construiu uma verdadeira eutopia na aridez musical portuguesa. Devemos-lhe essa coragem de querer outra coisa e o não ter medo de dizer isso mesmo a cantar.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Noite transfigurada

Ao que nós chegámos!

Compreendo perfeitamente quando os artistas se indignam porque, no decorrer dos seus espectáculos, há telemóveis que tocam, há gente que recebe e envia sms, há até gente que atende o telemóvel de forma pouco discreta e se está nas tintas para os outros. Há no Youtube inúmeros registos dessa situação absurda que mais não é do que uma total falta de respeito pelos artistas que estão a actuar e pelos espectadores que pagaram bilhete e têm direito a fruir o espectáculo sem tais interrupções e ruídos parasitas. Lukas Kmit ou Fiona Pears são disso exemplo. Nem a própria Orquestra Filarmónica de Nova Iorque escapou! Alguns conseguiram mesmo ter a presença de espírito necessária para tentar fazer humor com a situação. Pois, que remédio!





Por cá, ganhámos agora a variante que faltava neste tipo de situações: ser o próprio artista a interromper a sua actuação para atender o telemóvel!? Sim, é verdade. Aconteceu na passada sexta-feira, no Centro Cultural de Paredes de Coura, com um veterano da música portuguesa. Paulo de Carvalho interrompeu a música que estava a cantar para atender o telemóvel em pleno palco! Tentou justificar depois o estranho gesto dizendo que a chamada era de... Eusébio. Aliás, ainda mais extraordinário: quem decidiu levar-lhe o telemóvel ao palco achou que isso não só era possível, como até fazia todo o sentido!

Claro que os espectadores manifestaram o seu desagrado, mas ao que sei ninguém exigiu a devolução do dinheiro pago pelos bilhetes. Tudo não passou de uma indignaçãozinha momentânea. Afinal, quantos deles não teriam já atendido o telemóvel ou enviado sms aos amigos durante o espectáculo?

Certo é que se abriu um precedente grave e, a partir de agora, quando adquirirmos um bilhete para um espectáculo ou uma peça de teatro, já sabemos que, a qualquer momento, pode haver no palco alguém que tenha de atender o telemóvel a um qualquer eusébio desta vida. Quanto ao público, chamado à atenção, pode agora alegar, e com razão, que se os artistas podem, porque é que eles não hão-de poder também?

Ler notícia aqui

O novo acordo europeu de ajuda à Grécia...

analisado por DSK, agora mais conhecido como le coquin, grande especialista também em... economia e finanças. (ler notícias aqui e aqui)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Sinestesia

The cave of forgotten dreams

Filme-documentário de luz e de sombras realizado por Werner Herzog  na gruta de Chauvet-Pont-d'Arc em França. A luz dos projetores desvenda-nos o registo pictórico de um passado longínquo e misterioso, feito de imagens fulgurantes, de uma beleza poderosa e ao mesmo tempo inquietante. Tão vívidas que quase parecem reais. O 3d amplia a sensação estranha de que tudo aquilo, afinal, não foi assim há tempo. Os artistas que usaram as paredes calcárias da gruta como uma tela são, num certo sentido, nossos contemporâneos. Filme de imagens enfeitiçadas e poderosas.