sexta-feira, 6 de abril de 2012

Salmo 139

Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe escrutas as menores intenções,
reconheces a minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
– Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.

Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho‑te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra‑me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.

Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho‑me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer‑se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta
dá‑me o caminho secreto para a tua eternidade.

mudado por Herberto Helder
In Poesia Toda. Lx: Assírio e Alvim, 1996, p. 169‑170

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Sometimes it Snows in April

Os dilemas da (des)governação: addenda em forma de solilóquio

O primeiro-ministro já anunciou que subsídios só lá para depois de 2015, de uma forma que ele ainda não sabe como há de ser, mas que será certamente um “processo gradual”. Nem é preciso esforçar muito os neurónios para ler nas entrelinhas das mais recentes notícias que:

Não há mais subsídios para ninguém. Até 2015, ainda temos muito tempo para pensar como é que isso vai ser comunicado aos portugueses de uma forma mais eufemística. Claro que não vai ser fácil! Mas o governo já tem uma equipa de assessores altamente especializados a delinear a estratégia necessária para a criação de uma espécie de fase transitória e preparatória em que pagaremos ainda um suplemento em géneros. É por isso que estamos já a negociar um acordo de cavalheiros com a indústria farmacêutica – que também precisa de ganhar dinheiro, claro está – no sentido de esta vir a fornecer ao estado os supositórios analgésicos necessários para que os portugueses possam adaptar-se mais facilmente a esta nova etapa da vida nacional. Estou em condições de assegurar a todos os portugueses que o estado garantirá a cada um a sua caixa de supositórios analgésicos antes de anunciar o corte definitvo dos subsídios de férias e de natal. Afinal, temos que cumprir o acordo com a troika, custe o que custar. Mas, como já disse e faço questão de reafirmar, estou em condições garantir a todos os portugueses que com um supositório será bem mais fácil.

E, de qualquer forma, até lá, não há qualquer motivo para preocupação, até porque o pagamento dos ditos subsídios já está suspenso, não é verdade? Portanto, é só mesmo uma questão de formalizarmos esta situação numa lei que será, obviamente, discutida e aprovada em sede parlamentar como é normal em democracia. Repito: os portugueses nada têm a recear, pois todo este processo será, como já referi, indolor. Estamos, aliás, em condições de assegurar isso a todos os portugueses. Claro que, depois de 2015 e depois de aprovada a lei que suprime definitivamente o pagamento dos subsídios de férias e de natal, os portugueses terão então que comprar os supositórios analgésicos de que precisem, pois, como certamente compreenderão, o governo não tem condições financeiras para assegurar o pagamento desse suplemento em géneros durante muito tempo. Será mesmo só na fase inicial, que julgamos será a mais dolorosa, pois estamos convictos de que, lá para 2015, os portugueses já terão o lombo tão calejado que não necessitarão de mais do que uma caixa de supositórios analgésicos para cada um. Apelamos pois ao já conhecido espírito de sacrifício do povo português para, nesta fase difícil que o país está a atravessar, encaixarem mais esta medida imposta pelos nossos parceiros da troika. De preferência com cara alegre pois se, numa das visitas de controlo da troika, eles chegasse cá e vissem toda a gente de cara feia, isso daria uma péssima imagem do país lá fora, coisa que, como é óbvio, queremos evitar a todo o custo.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Cortar ou não cortar, eis a questão

O professor Gaspar tem pela frente mais um dilema: Bruxelas exige agora o corte definitivo dos subsídios de férias e de natal. E, como sabemos, Bruxelas - via troika - é quem mais ordena. Vai daí, a fazer de conta que ainda pode decidir alguma coisa logo o professor Gaspar veio dizer que «nã-o se-nh-or, na-da di-sso», é a-pe-nas um cor-te tem-po-rá-rio» a ver se alguém ainda morde o isco. Mas, claro, como os chefes lhe devem ter logo ligado a  perguntar se estava armar-se em engraçadinho, lá ficou o homem entre a espada e a parede.

Sem demora, logo o primeiro-(des)governante da távola rectangular nos veio salvar a todos do mortal pecado do incumprimento, com a fórmula mágica para agradar a lusos e troikanos: os subsídios voltarão a ser pagos mas ... só lá para 2015 e vamos com calma. Ou seja, já não em 2014 como estava previsto no acordo de resgate inicial. Ou seja: nim, vamos (re)cortar os subsídios e enfeitar com muitos folhinhos que é a melhor forma de ganhar tempo a ver como é que a gente lhes vai dizer que não voltam a ter subsídio, sem que haja um levantamento de rancho. Sim, que temos de manter o povo sereno, pois não queremos cá confusão e barulho nas ruas.

O homem lá conseguiu respirar de alívio. Tão aliviado que até recuperou o sentido de humor e deu uma espécie de risada, hoje, em pleno parlamento ... mas nós é que, mais uma vez, ficámos todos a miar...

terça-feira, 3 de abril de 2012

I Talk to the Wind

A (in)certeza da vida

Plantei hoje, pela primeira vez na vida, uma árvore (e não, a estafada trilogia livro-filho-árvore nada me diz): uma singela amendoeira trazida do Algarve por mãos amigas. Escolhi-a por causa do sabor delicado e doce dos frutos, pela resistência às esperezas do clima continental e, sobretudo, pela beleza das delicadas flores de laivos rosados com que se cobre na primavera.

Évora, 3/4/2012

No final, ergui-me a contemplá-la e várias pessoas me cruzaram o pensamento por alguns instantes. É sempre em pessoas que penso quando contemplo árvores pois, para mim, também elas são, de certa forma, gente. E gente boa. Pensei na mãe da minha melhor amiga - que tanto gostava de flores – e que partiu há poucos dias, no grande vazio que ficou e que nada nem ninguém poderá preencher. Pensei nos meus pais, no seu sofrimento físico e, sobretudo, emocional. Também em mim, que sofro com e por eles, sobretudo pela impotência de nada poder remediar ou alterar nas suas vidas.

E enquanto lhe olhava as tenras folhas verdes lembrei-me ainda dos versos velhos de séculos e, afinal, tão "novos":

A incerteza da vida

Homem que plantaste a árvore,
Porventura sabes se a vida consente
Que sejas tu a colher a maçã?
Terás a certeza de poder olhar
A folhagem verde a vestir os ramos
E os rebentos viçosos amadurarem?

Detém-te e pensa, um só momento,
Que perdes a vida e não serás tu
A ver o esplendor do pomar em flor.
E tu lhe deste a água da sua sede
E uma estaca para se amparar.
Assim é o mundo onde vivemos!

Ainda que venhas a ter na mão
O fruto maduro da adulta árvore,
Nunca te iludas meu bom amigo.
Nada te diz que possas gozar
O sabor do fruto que veio da flor
Que enfeita a árvore do teu jardim.

A morte é senhora de todas as dúvidas!
E não é prudente e de bom aviso
Que o dono legítimo do belo jardim
Seja o vigia do crescimento
Da macieira mimosa e frágil
E esqueça os cuidados que lhe pede a alma.

Giolla Brighde O'Heoghusa (final do séc. XVI),
In A Perfeita Harmonia – Poemas Celtas da Natureza,
Lx: Assírio e Alvim, 2004 (Trad. José Domingos Morais)

A transitoriedade de tudo é a grande, talvez mesmo a única verdade que possuímos. Mas não importa se chegarei a saborear a doçura das suas amêndoas, ou não. O importante foi ter-lhe enterrado as raízes e, com as minhas próprias mãos ter-lhe composto a terra macia em volta, como quem ajeita os cobertores a uma criança à hora de dormir. Tudo isto numa absoluta tranquilidade interior, com o pensamento vazio de tudo o que não fosse o verde em volta e naquelas folhas. E, claro, sempre acompanhada pelo melro alvoroçado que deve ter ninho nas proximidades e anda alarmado com a minha inusitada presença. Cuidarei dela enquanto puder, esperando que cresça saudável e frondosa. Quanto às amêndoas depois se verá.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Do silêncio, da noite, da chuva mansa, de tudo

Ecos de um lugar ameno


Nicolas Poussin: "Et in Arcadia ego"
(Trad: "Até na Arcádia existo", referindo-se à morte) 
ou "Os pastores da Arcádia", cerca de 1650




















SUB

REPTÍCIO
merso
consciente
liminar
marginal
desenvolvido
dividido
alterno
serviente
vencionado
delegado
versivo
lunar
tegmine fagi*

Carlos Drummond de Andrade
in Poesia e Prosa

* Debaixo de uma frondosa faia - é uma referência directa à Primeira Bucólica  de Virgílio, constituída pelo diálogo entre Melibeus e Títiro, dois pastores dos arredores de Mântua, terra natal do poeta, sendo que os dois primeiros versos estão entre os mais famosos e conhecidos versos de Virgílio. Nestes versos  iniciais do poema Melibeus lamenta que as suas terras tenham sido confiscadas e sente inveja de Títiro, que tinha conseguido conservar as suas devido a um beneplácito do imperador. Assim, Melibeus diz a Títiro:

Tityre, tu patulae recubans sub tegmine fagi
Silvestrem tenui musam meditaris avena.
Nos patriae fines et dulcia linquimus arva,
Nos patriam fugimus. Tu, Tityre, lentus in umbra
Formosam resonare doces Amaryllida silvas.
(vv. 1-5)
 “Títiro, vejo-te assim deitado (recubans) sob a copa de uma frondosa faia, tocando, na flauta, um canção campestre. Eu fui expulso de minhas terras e tive que abandonar meus agradáveis campos, mas tu, Títiro, ocioso, à sombra, fazes ecoar, pelo arvoredo, o nome da tua formosa amada Amaryllis.”

As Bucólicas de Virgílio são, na verdade, desafios poéticos de carácter repentista entre pastores que assim ocupam o tempo enquanto apascentam o gado. Não só, mas também são elas a minha leitura por estes dias em que tenho também dedicado algum do meu tempo às "coisas da terra": de sacho na mão, a ouvir o canto alvoroçado de um melro que me espreita e segue a esvoaçar de ramo em ramo pela horta afora, enquanto contemplo as ameixeiras cobertas de belas flores rosadas, os delicados buquês formados pelas flores e folhas ainda tenras do marmeleiro, os primeiros figos que despontam já nos ramos da grande figueira, rego a hortelã ou a aspiro o aroma dos viçosos óregãos, longe de tudo e de todos. Tão longe de tudo e de todos como se estivesse, justamente, na bucólica Arcádia dos poetas-pastores e não nos caminhos da sulidão.

domingo, 1 de abril de 2012

E porque não um novo feriado?

A mentira tem hoje o seu dia oficial. Como se não nos bastassem já todas as mentiras que ouvimos/vemos diariamente nos (tele)jornais:
Muitos e bons exemplos se poderiam ainda acrescentar mas acho que nem vale a pena. O que para mim é surpreendente é a forma como nós, cidadãos, mandatamos com o nosso voto toda esta gente que nos (des)governa os dias, mesmo sabendo que nos estão descarada e deliberadamente a mentir e a enganar, só para conseguir votos.

Assim, não faria mais sentido arranjar um "dia da verdade", nem que fosse apenas para desenjoar? Provavelmente não. Estamos tão saturados da feia verdade diante dos nossos olhos que preferimos a mentira piedosa, ou então estamos tão anestesiados com as mentiras que já não somos capazes de reconhecer a verdade, nem que ela se sente à nossa frente. O mais provável é que ainda venha a ser feriado nacional. Seria até mais um motivo  de contentamento para o povo e temos tão poucos atualmente. Celebremos, pois, o 1 de abril e a mentira sob todas as suas formas...
Imagem daqui

sábado, 31 de março de 2012

O Homem da Câmara de Filmar

Realizado em 1929 por Dziga Vertov este filme-documentário do quotidiano russo, lembra-nos que a câmara (de filmar ou fotográfica) não mudou o mundo mas mudou, e muito, a nossa maneira de ver e de pensar esse mesmo mundo. O "olho da câmara" é, afinal, o olho do homem que observa a realidade e os outros à sua volta.

A Primavera


Clude Monet: The Bodmer Oak (Fontainebleau), 1865, óleo s/ tela




















Oh Primavera do meu país,
Tempo de encanto sereno e límpido
Que dás ao campo as cores do verde
O verde puríssimo da erva nova.
És tu que trazes, oh Primavera,
A força indomável dos ramos jovens
O viço e o verde da fresca folhagem
Da velha tília no arroio debruçada.

És tu que fazes, oh Primavera,
Pular aa truta na água do rio
O javali fugir na funda ravina
Pelos caminhos da desolação
O veado erguer-se altivo e só
Na penha mais nobre das fragas altíssimas
Olhando as crias de fulva pelagem
Correr e saltar no prado macio.

És tu que fazes, oh Primavera,
Crescer as bagas na ramaria
Pender os frutos nas árvores frondosas
Cintilar os peixes na água do lago.
Bela é a cor, oh Primavera,
Do lírio branco que fazes nascer
E suave o múrmúrio, oh Primavera,
Do regato de prata a correr no vale.

Autor desconhecido (séc. XII), in A Perfeita Harmonia – Poemas celtas da natureza,
Trad. José Domingos Morais, Lx: Assírio e Alvim, 2004

sexta-feira, 30 de março de 2012

quinta-feira, 29 de março de 2012

Ménage à trois

Epílogo

Algures lá pelo final de vários anos de relação é que percebeu que não tinha propriamente um parceiro, mas sim o usufruto de uma espécie de fração de condóminas.
Terminou tudo no mesmo instante pois sempre detestara reuniões de condomínio. Procura agora uma moradia isolada, em sítio tranquilo.

É preciso com-bater as notícias

"menos positivas", dizem eles... E, a julgar pelas imagens de todos conhecidas, eu diria que tal com-bate está a correr bastante bem...

Ler notícia aqui

quarta-feira, 28 de março de 2012

Poema matemático

"Pílulas"

de e para Millôr Fernandes

O dinheiro não é só facilmente dobrável como dobra facilmente qualquer um.

O pior não é morrer. É não poder espantar as moscas.

A gente só morre uma vez. Mas é para sempre.

Bem-aventurados os filhos dos ricos porque eles herdarão o reino dos seus.

O pior das dificuldades económicas é acontecerem exactamente quando a gente está sem dinheiro.

O pior é que essa gente toda já está com rigidez cadavérica antes de morrer.

Sim, irmão, nas relações entre o homem e a mulher, o que mais conta é o que não se pode contar.

É mais fácil um rico entrar no reino do céu do que um pobre entrar na casa de um rico.

A melhor maneira de manter a linha é ser gordo de nascença.

O sol acorda sempre bem disposto porque não faz vida nocturna.

Todo o dia de manhã a gente se levanta e sai de casa. Até chegar o dia em que a gente sai de casa sem se levantar.

E se o sono eterno for a insónia eterna?

A prova de que a vida moderna é muito mais saudável do que a que levavam os nossos antepassados é esta: nós estamos aqui, vivinhos, e eles já morreram todos.

Sim, do mundo nada se leva. Mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus.

In, Pif-Paf, Lx: Edição de "O Independente", 2004

Novos provérbios portugueses

Quando mal, sempre pior. 
(Por isto, isto e também por isto.)

terça-feira, 27 de março de 2012

O justo equilíbrio

Entre muros
    tijolos vermelhos, tijolos vermelhos
espalmado
Fresta longínqua
    oblíqua
Regatos, regatos
    entre campos
    labirinto
O azul do céu encandeia
O azul do céu encandeia
e o amarelo das flores aflige
    realidade naïve
    perspectivas deformadas
    formas incontroladas
    tudo parece fora do sítio
    a despropósito
Orgia de cores
    obcecante
    irritante
Desespero
    de não encontrar o justo equílibrio

Adolfo Luxúria Canibal, In Estilhaços e Cesariny,
Assírio e Alvim - Fundação Cupertino de Miranda, 2011

11 mil metros de profundidade

Um mergulho longo, uma descida empolgante, decerto. Mas não deixa de ser irónico que as grandes odisseias que restam no planeta sejam todas em direção ao fundo...