segunda-feira, 30 de abril de 2012

O homem é o ilimitado do seu caminhar e os limites de tudo o que encontra

"Há no homem, como todos sabemos, o ilimitado da sua procura e o limite de tudo o que encontra. Nenhum sentimento perdura para além da sua realização. Nenhuma verdade se aguenta, se não desistimos de a questionar. Nenhuma crença se nos inflama, se a não reanimarmos. Enquanto se realiza ou vive seja o que for, isso integra-se no homem e assim lhe não tem peso como o não tem o corpo que é seu. O homem é o ilimitado do seu caminhar. E tudo aquilo em que se vai realizando é só expediente para ir abrindo caminho."

Vergílio Ferreira, Pensar, Lx: Bertrand Ed., 1992

Eureka?

Imagem Google
Então e se puséssemos os nossos excelsos governantes a fixar lâmpadas fosfénicas, seguindo a técnica desenvolvida por Francis Lefebure?

De acordo com um dos sítios de divulgação do método, ele "amplifica as capacidades cerebrais" e melhora a inteligência e a consciência (ver aqui). Há até já uma escola portuguesa (ler notícia aqui) que está a usá-lo para tentar ajudar alunos com sérias dificuldades de atenção e concentração.

Julgo que todos os membros do governo deveriam também fazer umas sessões a ver se melhoram as capacidades intelectuais e começam a ter ideias diferentes de "subir taxa"; "aumentar imposto"; "reduzir salário"; "eliminar subsídios sejam eles quais forem"; "reduzir pensões", "cortar regalias básicas", etc.,  aplicadas aos mesmos de sempre. É que só mesmo o  governo é que ainda não percebeu que assim não vamos longe...

Podia ser que, depois de fosfenizados, eles conseguissem encontrar alguma ideia diferente ou, se possível, até melhor. O povo agradecia.

domingo, 29 de abril de 2012

E, de repente, a festa das cores

a acontecer mesmo ali na terracota que ladeia a estrada.
EN 372, algures no ponto médio entre Vila Boim, Vila Fernando e Santo Aleixo; 29/4/2012

Quando o céu se mira no espelho azul da planície


EN 372, algures entre a estridência dos grilos e o trinado nostálgico dos trigueirões; 29/4/2012

Ter-se-á aberto a caixa de pandora?

Por uma vez os bancos portugueses serão forçados a prescindir de uma pequena parte dos seus enormes lucros anuais (apesar da crise) para ajudar os que estão em sérias dificuldades financeiras?
Por uma vez, os bancos portugueses serão chamados a pagar pela política irresponsável de apelo ao consumo e ao crédito que durante anos levaram a cabo?
Por uma vez os bancos portugueses perceberão que há consequências?

Tenho muitas dúvidas.
Apesar disso, já fico satisfeita pelo facto de, ao menos uma vez, a justiça portuguesa (que é cega, como sabemos) não ter decidido cegamente. Ao menos isso.

Ler notícia aqui

The long arm of the money

e do poder que ele compra.

Ler notícia aqui

sexta-feira, 27 de abril de 2012

É 6ª feira

por isso...


pelo meio, bebe-se um copo (ou dois) de Bushmills apenas com um breve golo de água fria para refrescar os aromas e talvez até se cante algo...

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Pobres de espírito

Mas há algo ainda pior que carteiras vazias: as cabeças também vazias dos que se sentam nas bancadas da Assembleia da República para redigir, discutir e aprovar as leis que nos governam e que, mais ano menos ano, se tornarão governantes. Estes, nem o Caco Antibes consegue imitar.
Serão eles já o produto do belo sistema educativo que temos construído nesta última década, sim, aquele da escola "inclusiva" e do sucesso, sucesso e mais sucesso (agora chamam-lhe resultados para estar mais de acordo com o espírito do tempo)? É de ir às lágrimas, de facto: "25 de Abril e o que os deputados (não) sabem".

Carteira de pobre

ou a realidade portuguesa antevista por Caco Antibes...

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Lembra-me um sonho lindo

O(s) velho(s) abutre(s)










O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas

Sophia de Mello Breyner Andresen, In "Grades" - Livro VI,
Lx: Morais Edª,1962.

Nada perdeu da sua acutilância esta metáfora do abutre como símbolo da podridão e da degradação política. Pois que outra coisa poderemos chamar a estas figuras sinistras que são as verdadeiras fundadoras e responsáveis pelo buraco económico e social em que agora nos encontramos? Não foram eles que, com o beneplácito do agora presidente da república (então primeiro-ministro), se banquetearam ao longo de duas décadas às nossa custas? E, pelos vistos, de tal modo farto era o banquete que, como se viu nos últimos anos, nem o PS resistiu à tentação. Zeca Afonso deu-lhes um outro nome que também lhes assenta bem: "Vampiros".

terça-feira, 24 de abril de 2012

24 de abril: panorama

Alto da Serra d'Ossa, imagem Google




















Pátria vista da fraga onde nasci.
Que infinito silêncio circular!
De cada ponto cardeal assoma
A mesma expressão muda.
É de agora ou de sempre esta paisagem
Sem palavras
Sem gritos,
Sem o eco sequer de uma praga incontida?
Ah! Portugal calado!
Ah! povo amordaçado
Por não sei que mordaça consentida!

Miguel Torga
S. Martinho de Anta; 28 de Setembro de 1966

segunda-feira, 23 de abril de 2012

The Flying Books. Fantastic!

"Poderia contar mil histórias, (...) mas eram todas falsas, não existia nunca história alguma"



Pintura de João Vieira,
publicada na Obscena, #13 / 14 de Junho/Julho de 2008
Imagem daqui

Segunda, dezasseis.
"As palavras como redes em que ela tentava prender o universo - as malhas mal apertadas, ela esforçava-se tanto por ligá-las, mas havia sempre um ponto em que a rede rebentava e o universo caía,
     a dificuldade de ligar as coisas, o pé e a relva, o telhado e o muro, o sol e a casa, o autocarro e a árvore, a máquina e a sombra, o homem e o cão, qual era a relação entre as coisas que olhava, e por que razão fariam parte de um conjunto? Nada era um conjunto, era ela que se afadigava, correndo atrás das coisas, atando-as com fios em volta, dando-lhes sentidos que não tinham - e que elas de novo deixavam cair, recusavam sempre.
     Temos portanto o vento, o inverno, a árvore, o muro, contou. Temos portanto o sol, a janela aberta, a casa aberta, intacta e sem pessoas - as pessoas tinham-se ido embora, com as suas malas e os seus casacos, os seus sapatos e os seus livros, as suas escovas e os seus problemas, e ela não tinha o menor desejo de segui-las, de olhá-las, de netendê-las, ficava antes assim um longo momento quieta entre os objetos, que de repente eram fascinanates e perfeitos, entregues a si mesmos e sem ligação com nada.
     Poderia contar mil histórias, inventar mil histórias, pensou estendendo-se na relva, mas eram todas falsas, não existia nunca história alguma."
Teolinda Gersão, Os guarda-chuvas cintilantes - Diário (excerto). Lx: O Jornal, 1984, 1ª ed.

Este é (usando a já estafada expressão) um dos livros da minha vida. Tenho a primeira edição, que comprei logo em 84 e que ainda não deixou de me fascinar. A ele regresso muitas vezes, até porque a sua forma diarística permite uma leitura descontínua que acaba por também ser muito apelativa. 

Nunca mais deixei de acompanhar o que a autora foi publicando ao longo dos anos e quase todos os seus livros me tocaram também: "Paisagem com mulher e mar ao fundo", "O Silêncio", "Os Teclados"... Mas estes "guarda-chuvas cintilantes" continuam a ser especiais. Amanhã, Teolinda Gersão virá à escola para falar connosco sobre os seus livros. E eu, que até sou avessa às maquinais sessões de autógrafos nos lançamentos de livros, faço questão de lhe pedir que me assine este - muito manuseado, com o papel amarelecido, com a chancela de uma editora há muito desaparecida - que tem sido meu livro-companheiro ao longo dos anos. Às vezes, a vida proporciona-nos estas oportunidades "cintilantes", e é o que nos vai valendo.

domingo, 22 de abril de 2012

Terras e montados do sul

Não deixa de ser curioso e fascinante descobrir a paisagem que nos rodeia pelos olhos e palavras dos outros.


É por tudo isto que eu (para grande irritação do 1º governante e seus acólitos) não penso emigrar, nem que tenha de ir colher bolotas para comer.

Que a Terra tenha hoje o seu dia oficial...

... deve ser mesmo a melhor prova da nossa hipocrisia e do nosso cinismo, porque a realidade nada tem de celebratório.

sábado, 21 de abril de 2012

Mantra audiovisual contra os medos




F.L.O.W. de Moses Pendleton (Part III)
Bailarina: Diana Vishneva

Os lobos da alma

 Lobo-ibérico (Canis lupus signatus); imagem daqui

“As copas das árvores pareciam talhadas de pedra de tão quietas, de tão paradas. (…) Agora já nem a meia dúzia de rãs se ouviam: era um silêncio tão tamanho que dava a impressão de que se podia agarrar com as mãos. Nisto, começam os lobos a uivar. Lá da fundura do mato, depois daquela herdade e da outra e da outra. (…) Pairava qualquer coisa de mágico, de irreal em tudo que nos cercava: as árvores pareciam de pedra, o céu parecia parecia um grande e côncavo prato azul e até o matagal que tínhamos à nossa frente era como se fosse composto de pequenos braços e pernas, pequenos rostos com corpos de madeira.
- É estranho, disse eu com voz tão sumida que nem o luar me ouviria.
(…)
Insisti:
- Tenho medo, vamos para o monte.
(…)
António dos Olhos Tristes, mãos de aloendro no rosto da lua, respondeu sem se mexer:
- Estes lobos não fazem mal. São bichos criados na frescura dos matos, nas escarpas dos brejos, nas cumeadas da serra. São bichos que vivem a vida que é a vida deles. O medo que eles fazem nas pessoas é que lhes lembram, no meio dos silêncios, os lobos que as pessoas criam dentro de si mesmas, dentro do coração. É desses lobos que elas próprias criaram que as pessoas arreceiam: são os lobos da alma.”

(Destes lobos é que eu tenho medo. Dos que uivam à noite nos montes distantes não.)

Eduardo Olímpio, António dos Olhos Tristes. Lx: Ed. Caminho; 1989

E talvez fugir para uma ilha assim...

(ou ao menos imaginar que seria possível a fuga)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Carro de pobre

Pronto, estou convencida e declaro que a autêntica lavagem cerebral que o governo, em bloco, nos resolveu fazer nestes últimos tempos - "estamos em crise", "não há dinheiro", "estamos mal", "o país não pode", incluindo aqui já a enfática declaração de que "o país está na bancarrota", que a ministra da justiça fez hoje em Guimarães (ler notícia aqui) - surtiu o efeito desejado. Por uma vez, acredito no que o governo diz: estamos pobres, sim. E estamos pobres nós, os que nunca sequer chegámos a ser ricos, nem ao menos no tempo das chamadas "vacas gordas". Aos ricos é que esse mal não chega, antes pelo contrário, o que faz desta "crise económica generalizada" algo de muito sui generis.

É pois chegado o tempo de voltarmos a relembrar o que é isto de ser "pobre". E para explicar como é não há como o Caco Antibes (que saudades do "Sai de Baixo"). Se conseguirmos ser pobres e, ainda por cima rir disso mesmo, talvez não esteja tudo perdido. Talvez...