sexta-feira, 20 de abril de 2012

Carro de pobre

Pronto, estou convencida e declaro que a autêntica lavagem cerebral que o governo, em bloco, nos resolveu fazer nestes últimos tempos - "estamos em crise", "não há dinheiro", "estamos mal", "o país não pode", incluindo aqui já a enfática declaração de que "o país está na bancarrota", que a ministra da justiça fez hoje em Guimarães (ler notícia aqui) - surtiu o efeito desejado. Por uma vez, acredito no que o governo diz: estamos pobres, sim. E estamos pobres nós, os que nunca sequer chegámos a ser ricos, nem ao menos no tempo das chamadas "vacas gordas". Aos ricos é que esse mal não chega, antes pelo contrário, o que faz desta "crise económica generalizada" algo de muito sui generis.

É pois chegado o tempo de voltarmos a relembrar o que é isto de ser "pobre". E para explicar como é não há como o Caco Antibes (que saudades do "Sai de Baixo"). Se conseguirmos ser pobres e, ainda por cima rir disso mesmo, talvez não esteja tudo perdido. Talvez...

Apelo ao harakiri nacional


Confesso que as expressões "as pessoas  estão completamente dispostas a sacrificar-se", "esforço repartido de forma justa" (será uma referência irónica ao poema de Sophia?), "cuidado" e, sobretudo, a repetição da palavra "sucesso" me deixaram particularmente agoniada, para além de estupefacta. Mas percebi: o sucesso do "programa de ajustamento" está dependente de uma espécie de harakiri nacional que está a ser levado a cabo pelo excelso governo. E quantos mais forem sacrificados, mais sucesso ele terá.

Só é de lamentar que, em matéria de "sacrifícios", como aliás em tantas outras, o exemplo nunca venha de cima. Para variar. Ah, e já agora, é com esta espada, sr. ministro...

quinta-feira, 19 de abril de 2012

The Thoughts Of Mary Jane

Por acaso, o ocaso

Apeteceu-me hoje ler Álvaro de Campos. Há anos que não lia a "Ode Triunfal", até porque sempre preferi a outra, a "Marítima". Mas não sei porquê foi justamente por aquela que iniciei a leitura. Às tantas, deparei-me com estes versos já esquecidos e quase dei um salto na cadeira.

(...)
Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruídos, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!
(...)

Álvaro de Campos, Ode Triunfal (excerto),
In Fernando Pessoa - Poesias de Álvaro de Campos,
Lx: Ática, 1944 (imp. 1993)

O engenheiro naval é que sabia disto! Talvez por isso tenha acabado os seus dias a desistir de tudo. (E decididamente o Pessoa às vezes é assustador!)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Canção

Pierre Bonnard: La fenêtre ouverte, 1921



























Sol nulo dos dias vãos,
Cheios de lida e de calma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!

Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe,
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!

Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!

Fernando Pessoa, In Poesias. Fernando Pessoa.
Lx: Ática, 1942 (15ª ed. 1995)

Mountains Are Far Away

segunda-feira, 16 de abril de 2012

"L'heure exquise" des belles voix

Este é o bom governo de Portugal

(Quem diria que foi escrito em 1713?)

Um Reino de tal valor
e de povo tão honrado
é justo seja louvado
desde o vassalo ao Snr.
ainda que fraco orador
a verdade hei de dizer,
e cada qual recolher
pode aquilo que lhe toca
ainda que digna o provoca
uma imitação Real
Este é o bom governo de Portugal.

Um rei menino inocente
sem compaixão nem piedade
inimigo da verdade
com adulação contente
em uma sombra aparente
tanto se enleva este Rei
faltando do Reino a lei
seguindo somente os vícios
e com torpes exercícios
o chegou a extremo tal
Este é o bom governo de Portugal.

Para os povos bem reger
Deus o pôs neste lugar
não para o desgovernar,
nem para o Reino perder;
mas creio lhe fazem crer
que é já virtude o pecar
e o que deve, não pagar
ter ambição, e avareza
perseguindo a pobreza
com tributo desigual
Este é o bom governo de Portugal.

Pois um infante inumano
insolente matador
que sem ter de Deus temor
vive bruto, e corre insano
é o mais cruel tirano
que neste Reino se há visto
e que conhecendo isto
o tolinho do irmão
lhe não dê uma prisão
para evitar tanto mal
Este é o bom governo de Portugal.

Um neto de um carreiro
hoje Príncipe da Igreja
que alcança quanto deseja
adulando lisonjeiro
sanguessuga do dinheiro
que se rouba da pobreza
e que cheguem a tal grandeza
quem ontem morrendo a fome
sem ser visto nem ter nome
hoje está já Cardeal
Este é o bom governo de Portugal.

Que haja um Conselho de Estado
para mil resoluções
e que em todas as ocasiões
é sempre desacertado
o parecer sempre errado
foi de seus desacertos
obrar com desconcertos
e só para os bons intentos
lhe segua os entendimentos
o grão Demônio Infernal
Este é o bom governo de Portugal.

Também o seu Secretário
Dioguinho de Mendonça
que anda por geringonça
no espácio imaginário
sempre aberto o candelário
tem de mentiras, e enganos
e que com caras de Janos
vieram assolando o mundo
eu juro que me confundo
vendo o que um magano val
Este é o bom governo de Portugal.

O Mercia das Mercês
feito mosca atordoada
que El-Rei não despacha nada
diz a todo o português:
todos conhecem que fez
em breve tempo o palácio
porque estuda mui de espácio
na sua conveniência
tendo piadosa aparência
por exercício usual
Este é o bom governo de Portugal.

E que no Conselho de Guerra
os pobres dos pretendentes
andam feitos pacientes
rapando com os pés a terra
e vendo que se desterra
daqui o merecimento
pelo injusto provimento
dos postos que estes salvagens
dão a Muchilas e Pajens
dizem deste tribunal
Este é o bom governo de Portugal.

A junta dos três estados
que as rendas reais despende
dando todo o que pertende
vai pagar os meus pecados
depois de ter bem curado
os ossos na pertensão
com uma e outra informação
o mandam a um tesoureiro
que lhe diz não tem dinheiro
porque é lagarto fatal
Este é o bom governo de Portugal.

Anexa a contadoria
donde o Máximo é rezisto
porque na junta o que é visto
se remete a esta via:
se falta aqui a valia
para a boa informação
acha-se uma dilação
e uma dúvida no cabo
que té o mesmo Diabo
dirá por regra geral
Este é o bom governo de Portugal.

O Conselho da Fazenda
com dúvidas e demoras
passam anos, dias e horas;
os pobres nesta contenda
em dilação estupenda
três anos aqui andei
que na verdade não sei
como o posso referir
não houve que deferir
foi o despacho final
Este é o bom governo de Portugal.

Um Desembargo do Paço
composto de uns chinchilas
que com roupas, e golilhas
governam o Reino do espaço
os corações têm de aço
estes soberbos vilões
pois de seus maus corações
o mal a todos se espalha
e preside a tal canalha
o Duque de Cadaval
Este é o bom governo de Portugal.

O Conselho de Ultramar
donde preside um Diabo
que assim lhe vai dado o cabo
vendendo o que se há de dar:
e espera de se salvar
este assolador de gente
tão soberbo e insolente
que o Rio de Janeiro
todos dizem que por dinheiro
vendera este irracional
Este é o bom governo de Portugal.

(...)

A Mesa da Consciência
que consciência não tem
donde todo o que ali vem
faz perder a paciência
com uma e outra diligência
em qualquer inquirição
traz arrastado um cristão
que quer pôr a cruz de Cristo
e se as cruzes não tem visto
não se acha o avô paternal
Este é o bom governo de Portugal.

Chegamos à Relação
donde um Bispo é Regedor
deixa de ser bom pastor
para ser um mau ladrão:
depois que empunhou o bastão
com presunções de letrado
tem muita gente enforcado
atropelando os povos
lhe quer dar costumes novos
por seu destino brutal
este é o bom governo de Portugal.

Armazéns e consulado
que estão regendo o Fronteira
com rezões de Borracheira
responde a todo o honrado
porque foi tão grão soldado
no choque de Badajós
nesta ocupação o pôs
por seus serviços El-Rei
e se há decreto, ordem, ou lei
o repugna este animal
Este é o bom governo de Portugal.

A junta que não tem pêlo
do comércio, porque calva
a deixou o Marialva
por lhe arrancar o cabelo
custou a vida ao Reselo,
porque dizem nesta terra
que para as casas do Serra
dava dinheiro sem conto
porque o queria ter pronto
para o pecado carnal
Este é o bom governo de Portugal.

Pois da Alfândega a descarga
donde o provedor gentil
todo o que vem do Brasil
quer despenda com mão larga
e se o não faz lhe alarga
a descarga do Navio
e os anos atrás no Rio
carregados se perderam
que como não concorreram
concorreu-lhes o temporal
Este é o bom governo de Portugal.

O estanque do Tabaco
onde preside o Minas
de ordenados e propinas
mui bem se enche o velhaco
ia-lhe chegando ao caco
com um bastão estrangeiro
e o fo. o bom cavaleiro
deteve a cavalaria
quando o inimigo fregia
de xevara no asinal
Este é o bom governo de Portugal.

A casa da Índia e coutos
com todas as vedorias
tesoureiros, chancelarias
mui bem lhe vejo os pespontos
eu lhe conheço estes pontos
sem ter passado ao Norte
que se governara a corte
eu lhes vagara as enchentes
pois destas vias correntes
só eu lhe sei o canal
Este é o bom governo de Portugal.

Da Câmara, e Senado
que em obras, taxas, licenças
deve com toda a presteza
ter particular cuidado
o governo é de estado
e são as ruas da cidade
monturos e porquidade
e o que tem que vender
o vende pelo que quer
por ter seguro o costal
Este é o bom governo de Portugal.

Os Ministros de justiça
que nunca a fizeram direita
porque a valia respeita
pela puta, ou por cobiça
o Demônio assim lhe atiça
este fogo em seus ardores
juíz e corregedores
letrados e escrivães
alcaides, e tabeliães
todos vestem de um saial
Este é o bom governo de Portugal.

Os Ministros da Igreja
fradaria, e clerezia
em todos há simonia
tudo ambição, tudo inveja
não há nenhum que não seja
um perverso amancebado:
outro para ser prelado
a Roma manda dinheiro
lhe venha um voto papal
Este é o bom governo de Portugal.

(...)

Os assentistas sem lei
do Reino distribuidores
que o trigo aos lavradores
tomam com poder de El-Rei
não lho paguando, eu o sei,
para o tornar a vender
deixando a fome morrer
de El-Rei a cavalaria
e a pobre infantaria
e sofra isto um general
Este é o bom governo de Portugal.

Quem as conquistas governa
manda para desabonos
uns pataratas fanchonos
sem para nada prestar
e que se hão de aumentar
uns redicolhos sujeitos
sem obras, ações nem feitos
e se há fatal ocasião
de ter a espada na mão
a fuga lhe é cordial
Este é o bom governo de Portugal.

(...)

Que venha todo o estrangeiro
e cada um negociando
o ouro e prata vão levando
deixando-nos sem dinheiro
e não há já conselheiro
que seja homem de talento
que apurado o entendimento
algum remédio lhe aplique
para que o Reino não fique
exausto deste metal
Este é o bom governo de Portugal.

Que andem por esta cidade
roubando vários maraus
e que estes vaganaus
tenham a favor e amizade;
sem ter honra, nem verdade
furtando uma, e outra vez,
achando o Conde, ou Marquês
que dizem se presos vão
que são de sua obrigação
ao ministro principal
Este é o bom governo de Portugal.

(...)

Toda a mais canalha vil
mercadores vendilhões
que estão ganhando milhões
com empregar um ceitil
tem toda a traça gentil
para poderem roubar,
podendo-se isto emendar
com uns açoutes, ou galés
porque assim em que lhe pes
tenham menos cabedal
Este é o bom governo de Portugal.

Os mais que aqui não refiro
fiquem à eleição dos leitores
que de tão graves oradores
muito pouco me admiro:
corra a fortuna seu giro
com mil voltas e rodeios
pois, que por tão vários meios
vivem neste Reino insano
o bom, e o mau, alto, e malo
e como quer cada qual
Este é o bom governo de Portugal.

Já não temos que esperar
neste governo insolente
mais que perecer a gente
sem o bem nunca alcançar;
só para Deus apelar
pode o povo português
e pedir-lhe desta vez
que nos dê governo novo
para que com ele o povo
sigua no seu natural
Este é o bom governo de Portugal.
(...)

Tomás Pinto Brandão (excertos)

domingo, 15 de abril de 2012

"Answering the door" (the phone, the mail)

30? E porque não 300? Ou mesmo 330?

Se é uma questão de "economia da educação" e se estudos assim tão "rigorosos" comprovam que o número de alunos por turma não importa para a qualidade final das aprendizagens, então sr. ministro o melhor é instalar nas salas um mobiliário tipo beliche, com vários níveis, e pôr logo 300 em cada sala de aula. Está a ver que a poupança ainda seria maior e evitaria ter que dar continuidade às obras de requalificação do parque escolar. Meia dúzia de escolas - e de professores, claro - seriam perfeitamente suficientes para garantir um ensino público de qualidade.

Quanto ao método de ensino a usar pelos professores nessas mesmas turmas, talvez o Pestalozzi (em versão simplificada, para ficar ainda mais económico) fosse o mais adequado pois também ele não implica grandes recursos materiais, uma vez que se baseia sobretudo na afetividade e na espiritualidade. Perfeito para um ensino público de qualidade.
Ler notícia aqui

Tiro e queda

Alguns dirão que, quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga, mas cá para mim a Natureza fez justiça por vias bem irónicas... Pena foi o cadáver do elefante não ter tombado sobre os dois valentões enquanto posavam de arma em punho como dois cromos de triste figura...
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Lembrete pessoal

Filmes a ver logo que possível, embora por razões distintas.
Este, claro.


E também este.

sábado, 14 de abril de 2012

Escuto, e passou...

Georges de La Tour: La Madeleine à la veilleuse
(pormenor), 1640-1645



























“É um dia, um dia só, a vida humana. O Homem
o que é? O que não é? Sombra num sonho
é o Homem. Mas se o deus nos ilumina
na terra, brilha vida
e é doce como o mel.”
Píndaro, excerto da Oitava Ode Pítica
(Trad. de Jorge de Sena)

“Quais folhas criadas pela estação florida da primavera,
quando de súbito crescem sob os raios do sol,
assim somos nós: por um tempo de nada, nos deleita
a flor da juventude, sem conhecermos o mal ou o bem que vêm
dos deuses. Ao nosso lado estão as Keres tenebrosas,
uma, detentora da velhice medonha,
a outra, da morte. Pouco dura o fruto da juventude
- o tempo de o sol derramar a sua luz sobre a terra.”
Mimnermo, excerto (Trad. de Mª Helena da Rocha Pereira)

“A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave.”
João de Deus, Campo de Flores (excerto)

"Leve, breve, suave,
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
O dia.
Escuto, e passou...
Parece que foi só porque escutei
Que parou.”
Fernando Pessoa (excerto)

O (de)crescimento económico

Há pelo menos uma área em que a nossa economia está a crescer e muito: o desemprego. Deve ser por isso que o tal de "Álvaro" anda sempre tão sorridente...
E garantem eles a torto e a direito que, em 2013, começará a ficar tudo bem melhor... Até tenho medo de me pôr a imaginar como e porquê.

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sexta-feira, 13 de abril de 2012

quinta-feira, 12 de abril de 2012

The North Star Grassman And The Ravens

Um dia, talvez

Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra, é bobagem.
Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela...
Um dia nós percebemos que as mulheres têm instinto "caçador" e fazem qualquer homem sofrer ...
Um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável...
Um dia percebemos que as melhores provas de amor são as mais simples...
Um dia percebemos que o comum não nos atrai...
Um dia saberemos que ser classificado como "bonzinho" não é bom...
Um dia perceberemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em você...
Um dia saberemos a importância da frase: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas..."
Um dia percebemos que somos muito importantes para alguém, mas não damos valor a isso...
Um dia percebemos como aquele amigo faz falta, mas ai já é tarde demais...
Enfim...
Um dia descobrimos que apesar de viver quase um século esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos os nossos sonhos, para beijarmos todas as bocas que nos atraem, para dizer o que tem de ser dito...
O jeito é: ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutamos para realizar todas as nossas loucuras...
Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação.

Mário Quintana (recebido por mail)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Fake Empire

Objet trouvé


Marcel Duchamp: Fountain, 1917

Em casa de meus Pais havia
grandes chávenas de loiça       para fazer chichi.
No Museu de Arte Moderna em Nova Iorque há
uma chávena de pêlo                        mas não vi
nenhum penico.                    Para Duchamp fico
na secção de Design                  a esperar vê-lo.

Salette Tavares, In Lex Icon, Lx: Moraes Ed., 1971

terça-feira, 10 de abril de 2012

Até sempre

O pior de envelhecer é isto de começar a sentir que o nosso pequeno mundo se vai pouco a pouco despovoando: primeiro, começam a partir os familiares mais velhos, os nossos e os dos nossos amigos e conhecidos; depois, vêm os momentos mais sombrios, quando começamos a ver partir também os da nossa geração, os que connosco cresceram ou conviveram, os que ainda tinham tanta vida pela frente mas que, num instante, deixaram de estar cá.

Sem aviso, a Maria João partiu (conseguiremos alguma vez vez estar preparados para ver partir assim as pessoas de que gostamos verdadeiramente?). Fomos colegas de curso na universidade. (Os trabalhos que nós as três - eu, a Maria João e a Fátima - fizemos no corredor da sociologia, entre incontroláveis gargalhadas, como se a vida fosse para sempre aquela alegria sem mácula e sem amanhã que não podia esperar para acontecer... mas esta era uma outra vida que não importa agora contar, pois a música é que era a verdadeira vida da Maria João.)

De facto, a Maria João tinha a música dentro dela. Recordo-me de a ver, há muitos anos atrás em casa dos pais, sentada numa cadeira, a tocar um acordeão quase maior que ela própria, alheada de tudo o que a cercava e com um brilho no olhar que não deixava margem para dúvidas. Já nessa altura havia encontrado o companheiro com quem partilhava esse sonho entretanto tornado realidade no Trítono. Apesar das alergias e dos problemas respiratórios, a Maria João cantava com uma voz luminosa que espelhava bem a profunda alegria que sentia enquanto o fazia. Ao longo dos anos fomo-nos re-encontrando nos concertos. A última vez foi no início de novembro, em Évora, justamente no concerto comemorativo do 18º aniversário do "seu" Grupo Vocal Trítono, na igreja do convento de S. Bento de Cástris.

Foi para mim um choque saber hoje da tua partida repentina na passada sexta-feira. Espero que a música continue a acompanhar-te os passos onde quer que estejas. Até sempre, Maria João, e boa viagem...

segunda-feira, 9 de abril de 2012

E por falar em reformas antecipadas...

Imgem recebida via mail
Esta senhora reformou-se ainda no tempo dos "contos", em 1998, aos 42 aninhos de idade. É muito adequadamente aquilo a que se chama uma "reformada activa". Tão cheia ainda de vigor e de energia que, apesar de aposentada, até preside agora à Assembleia da República. E não é caso único, bem pelo contrário. Na verdade, somos em boa parte um país governado, presidido e administrado por reformados. Deve ser (também) por isso que o governo tanto exorta os jovens a emigrar. Enfim, há que garantir lugares para estes reformados activos.

A bem da verdade aqui nem se pode propriamente falar em "reforma antecipada", pois tratou-se mais de uma jogada de antecipação.  Olha se fosse agora, hein? Lá tinha a senhora que esperar dois anos...

The Road

Dar a mão à palmatória

Embora contrariada, vejo-me forçada a dar a mão à palmatória. É que o homem tem razão quando diz que não fomos enganados. É que não fomos mesmo.
Fomos foi desenganados, algo que, além de completamente distinto, é mil vezes pior. É que, enganados, ainda podíamos ter esperança mas, assim, já nem a isso temos direito.
Ler notícia aqui

domingo, 8 de abril de 2012

Para o Guinness, e em força

De vez em quando o país é assolado pela febre dos recordes do Guinness. E, nessas alturas, desde o pastel de Tentúgal ao desfile de Pais Natais, tudo serve para entrar no livro de recordes.

Ora o DN dá hoje destaque de 1ª página à notícia de que, diariamente, há 17 empresas que abrem falência. Desde janeiro, e assim por alto, já faliram 1650 empresas. Se conseguirmos manter este ritmo chegaremos ao f inal do ano com mais de 6 mil empresas fechadas por insolvência. Ou seja, mais um recorde do Guinness. O jornal refere ainda que o distrito do Porto é o campeão das insolvências (409), seguido de perto por Lisboa (338), logo, nada de novo por aqui. Évora ocupa um modesto 15º posto neste ranking infame (18 insolvências), bem à frente de Beja (17ª, com 12 falências) e, sobretudo, de Portalegre, 20ª da lista com apenas 8 insolvências até ao momento. Ou seja, mais um recorde para ser festejado na avenida dos Aliados...

Mas há muitas mais hipóteses de recordes que poderão vir a ser registados no Guinness: o ministro que mais contribuiu para afundar a economia nacional; o ministro que mais ideias peregrinas anunciou sem se desmanchar a rir (palpita-me que alguém deste governo é bem capaz de inscrever o nome em pelo menos dois recordes!), o ministro que mais contribuiu para afundar rapidamente o país, o ministro que fabricou mais pobres no mais curto espaço de tempo, o ministro que mais “lapsos” cometeu numa só semana, o governo que mais mentiras contou em período não eleitoral... Desta forma, ao menos numa coisa não estávamos em crise, até porque as possibilidades seriam quase infinitas, ou não tivéssemos nós este governo tão verdadeiramente competente e inspirador em todos os sentidos...

(Re)lapso

Confesso que a questão da reposição "gradual" dos subsídios continua a causar-me brotoeja. E, embora bastante contrariada, tenho que reconhecer que, desta vez, até estou de acordo com as críticas da oposição (refiro-me aqui sobretudo ao PS).

É que, na tentativa de atalhar a polémica sobre o pagamento dos subsídios, o homem lá se viu forçado a reconhecer, de forma assaz relutante, que tinha havido um "lapso" da sua parte. E só pode mesmo tratar-se de um "lapso". Senão vejamos: o homem até sabe que "o ano de 2015 é o ano imediatamente consecutivo a 2014" e fez questão de o dizer "muito vagarosamente" para que toda a gente percebesse bem.  (O problema é que ele também tinha dito "muito vagarosamente" que a suspensão dos ditos subsídios era só até 2013, inclusive. Coisa que toda a gente também ouviu e entendeu muito bem.)

 Agora vem dizer que, afinal não é bem assim, pois o programa de ajuda externa só acaba em 2014 e, por isso, só em 2015 é que recomeçarão a ser pagos os subsídios de férias e de natal. O que ele lá bem no fundo quer dizer é que nós todos é que somos estúpidos e não percebemos nada de números! Deve ser por isso que ainda ninguém tinha compreendido as habilidosas contas do "vagaroso" Gaspar: os próximos dois anos têm afinal 36 meses, em vez dos habituais 24...

Confesso que estas contas do Gaspar me assustam ainda mais quando penso que o homem pode, um dia destes, ter mais um "lapso" e vir dizer que, embora os próximos dois anos tenham forçosamente 36 meses, em vez dos habituais 24, só receberemos 24 meses de salário...  Afinal, de um homem que é tão bom economista qué até manipula o calendário a seu bel-prazer, podemos esperar tudo. Mesmo tudo. 

O que não esperávamos mesmo era que o ministro da Finanças de um país a afundar-se na crise e na depressão tivesse "lapsos" assim, sobretudo quando até fez questão de demonstrar no parlamento que sabia bem que 2015 era o ano "consecutivo a 2014"...

Claro que também deve ter sido por "lapso" que se esqueceu de nos informar a todos, no dia em que o conselho de ministros tomou a decisão, que as reformas antecipadas iriam ser canceladas por dois anos. Dois anos?! Ó senhor ministro, explique lá então muito "vagarosamente" até quando vão durar agora estes dois anos a ver se a gente percebe... É que isto já são tantos lapsos seguidos que o senhor ministro já me parece relapso...

Observ. - ler notícia aqui

sábado, 7 de abril de 2012

Do estado da nação

A cada dia que passa é mais ténue a linha que separa o inverno do inferno do nosso descontentamento.


sexta-feira, 6 de abril de 2012

Redemption

And the blood gave life
To the branches of the tree
And the blood was the price
That set the captives free
And the numbers that came
Through the fire and the flood
Clung to the tree
And were redeemed by the blood

               

Salmo 139

Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe escrutas as menores intenções,
reconheces a minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
– Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.

Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho‑te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra‑me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.

Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho‑me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer‑se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta
dá‑me o caminho secreto para a tua eternidade.

mudado por Herberto Helder
In Poesia Toda. Lx: Assírio e Alvim, 1996, p. 169‑170

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Sometimes it Snows in April

Os dilemas da (des)governação: addenda em forma de solilóquio

O primeiro-ministro já anunciou que subsídios só lá para depois de 2015, de uma forma que ele ainda não sabe como há de ser, mas que será certamente um “processo gradual”. Nem é preciso esforçar muito os neurónios para ler nas entrelinhas das mais recentes notícias que:

Não há mais subsídios para ninguém. Até 2015, ainda temos muito tempo para pensar como é que isso vai ser comunicado aos portugueses de uma forma mais eufemística. Claro que não vai ser fácil! Mas o governo já tem uma equipa de assessores altamente especializados a delinear a estratégia necessária para a criação de uma espécie de fase transitória e preparatória em que pagaremos ainda um suplemento em géneros. É por isso que estamos já a negociar um acordo de cavalheiros com a indústria farmacêutica – que também precisa de ganhar dinheiro, claro está – no sentido de esta vir a fornecer ao estado os supositórios analgésicos necessários para que os portugueses possam adaptar-se mais facilmente a esta nova etapa da vida nacional. Estou em condições de assegurar a todos os portugueses que o estado garantirá a cada um a sua caixa de supositórios analgésicos antes de anunciar o corte definitvo dos subsídios de férias e de natal. Afinal, temos que cumprir o acordo com a troika, custe o que custar. Mas, como já disse e faço questão de reafirmar, estou em condições garantir a todos os portugueses que com um supositório será bem mais fácil.

E, de qualquer forma, até lá, não há qualquer motivo para preocupação, até porque o pagamento dos ditos subsídios já está suspenso, não é verdade? Portanto, é só mesmo uma questão de formalizarmos esta situação numa lei que será, obviamente, discutida e aprovada em sede parlamentar como é normal em democracia. Repito: os portugueses nada têm a recear, pois todo este processo será, como já referi, indolor. Estamos, aliás, em condições de assegurar isso a todos os portugueses. Claro que, depois de 2015 e depois de aprovada a lei que suprime definitivamente o pagamento dos subsídios de férias e de natal, os portugueses terão então que comprar os supositórios analgésicos de que precisem, pois, como certamente compreenderão, o governo não tem condições financeiras para assegurar o pagamento desse suplemento em géneros durante muito tempo. Será mesmo só na fase inicial, que julgamos será a mais dolorosa, pois estamos convictos de que, lá para 2015, os portugueses já terão o lombo tão calejado que não necessitarão de mais do que uma caixa de supositórios analgésicos para cada um. Apelamos pois ao já conhecido espírito de sacrifício do povo português para, nesta fase difícil que o país está a atravessar, encaixarem mais esta medida imposta pelos nossos parceiros da troika. De preferência com cara alegre pois se, numa das visitas de controlo da troika, eles chegasse cá e vissem toda a gente de cara feia, isso daria uma péssima imagem do país lá fora, coisa que, como é óbvio, queremos evitar a todo o custo.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Cortar ou não cortar, eis a questão

O professor Gaspar tem pela frente mais um dilema: Bruxelas exige agora o corte definitivo dos subsídios de férias e de natal. E, como sabemos, Bruxelas - via troika - é quem mais ordena. Vai daí, a fazer de conta que ainda pode decidir alguma coisa logo o professor Gaspar veio dizer que «nã-o se-nh-or, na-da di-sso», é a-pe-nas um cor-te tem-po-rá-rio» a ver se alguém ainda morde o isco. Mas, claro, como os chefes lhe devem ter logo ligado a  perguntar se estava armar-se em engraçadinho, lá ficou o homem entre a espada e a parede.

Sem demora, logo o primeiro-(des)governante da távola rectangular nos veio salvar a todos do mortal pecado do incumprimento, com a fórmula mágica para agradar a lusos e troikanos: os subsídios voltarão a ser pagos mas ... só lá para 2015 e vamos com calma. Ou seja, já não em 2014 como estava previsto no acordo de resgate inicial. Ou seja: nim, vamos (re)cortar os subsídios e enfeitar com muitos folhinhos que é a melhor forma de ganhar tempo a ver como é que a gente lhes vai dizer que não voltam a ter subsídio, sem que haja um levantamento de rancho. Sim, que temos de manter o povo sereno, pois não queremos cá confusão e barulho nas ruas.

O homem lá conseguiu respirar de alívio. Tão aliviado que até recuperou o sentido de humor e deu uma espécie de risada, hoje, em pleno parlamento ... mas nós é que, mais uma vez, ficámos todos a miar...

terça-feira, 3 de abril de 2012

I Talk to the Wind

A (in)certeza da vida

Plantei hoje, pela primeira vez na vida, uma árvore (e não, a estafada trilogia livro-filho-árvore nada me diz): uma singela amendoeira trazida do Algarve por mãos amigas. Escolhi-a por causa do sabor delicado e doce dos frutos, pela resistência às esperezas do clima continental e, sobretudo, pela beleza das delicadas flores de laivos rosados com que se cobre na primavera.

Évora, 3/4/2012

No final, ergui-me a contemplá-la e várias pessoas me cruzaram o pensamento por alguns instantes. É sempre em pessoas que penso quando contemplo árvores pois, para mim, também elas são, de certa forma, gente. E gente boa. Pensei na mãe da minha melhor amiga - que tanto gostava de flores – e que partiu há poucos dias, no grande vazio que ficou e que nada nem ninguém poderá preencher. Pensei nos meus pais, no seu sofrimento físico e, sobretudo, emocional. Também em mim, que sofro com e por eles, sobretudo pela impotência de nada poder remediar ou alterar nas suas vidas.

E enquanto lhe olhava as tenras folhas verdes lembrei-me ainda dos versos velhos de séculos e, afinal, tão "novos":

A incerteza da vida

Homem que plantaste a árvore,
Porventura sabes se a vida consente
Que sejas tu a colher a maçã?
Terás a certeza de poder olhar
A folhagem verde a vestir os ramos
E os rebentos viçosos amadurarem?

Detém-te e pensa, um só momento,
Que perdes a vida e não serás tu
A ver o esplendor do pomar em flor.
E tu lhe deste a água da sua sede
E uma estaca para se amparar.
Assim é o mundo onde vivemos!

Ainda que venhas a ter na mão
O fruto maduro da adulta árvore,
Nunca te iludas meu bom amigo.
Nada te diz que possas gozar
O sabor do fruto que veio da flor
Que enfeita a árvore do teu jardim.

A morte é senhora de todas as dúvidas!
E não é prudente e de bom aviso
Que o dono legítimo do belo jardim
Seja o vigia do crescimento
Da macieira mimosa e frágil
E esqueça os cuidados que lhe pede a alma.

Giolla Brighde O'Heoghusa (final do séc. XVI),
In A Perfeita Harmonia – Poemas Celtas da Natureza,
Lx: Assírio e Alvim, 2004 (Trad. José Domingos Morais)

A transitoriedade de tudo é a grande, talvez mesmo a única verdade que possuímos. Mas não importa se chegarei a saborear a doçura das suas amêndoas, ou não. O importante foi ter-lhe enterrado as raízes e, com as minhas próprias mãos ter-lhe composto a terra macia em volta, como quem ajeita os cobertores a uma criança à hora de dormir. Tudo isto numa absoluta tranquilidade interior, com o pensamento vazio de tudo o que não fosse o verde em volta e naquelas folhas. E, claro, sempre acompanhada pelo melro alvoroçado que deve ter ninho nas proximidades e anda alarmado com a minha inusitada presença. Cuidarei dela enquanto puder, esperando que cresça saudável e frondosa. Quanto às amêndoas depois se verá.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Do silêncio, da noite, da chuva mansa, de tudo

Ecos de um lugar ameno


Nicolas Poussin: "Et in Arcadia ego"
(Trad: "Até na Arcádia existo", referindo-se à morte) 
ou "Os pastores da Arcádia", cerca de 1650




















SUB

REPTÍCIO
merso
consciente
liminar
marginal
desenvolvido
dividido
alterno
serviente
vencionado
delegado
versivo
lunar
tegmine fagi*

Carlos Drummond de Andrade
in Poesia e Prosa

* Debaixo de uma frondosa faia - é uma referência directa à Primeira Bucólica  de Virgílio, constituída pelo diálogo entre Melibeus e Títiro, dois pastores dos arredores de Mântua, terra natal do poeta, sendo que os dois primeiros versos estão entre os mais famosos e conhecidos versos de Virgílio. Nestes versos  iniciais do poema Melibeus lamenta que as suas terras tenham sido confiscadas e sente inveja de Títiro, que tinha conseguido conservar as suas devido a um beneplácito do imperador. Assim, Melibeus diz a Títiro:

Tityre, tu patulae recubans sub tegmine fagi
Silvestrem tenui musam meditaris avena.
Nos patriae fines et dulcia linquimus arva,
Nos patriam fugimus. Tu, Tityre, lentus in umbra
Formosam resonare doces Amaryllida silvas.
(vv. 1-5)
 “Títiro, vejo-te assim deitado (recubans) sob a copa de uma frondosa faia, tocando, na flauta, um canção campestre. Eu fui expulso de minhas terras e tive que abandonar meus agradáveis campos, mas tu, Títiro, ocioso, à sombra, fazes ecoar, pelo arvoredo, o nome da tua formosa amada Amaryllis.”

As Bucólicas de Virgílio são, na verdade, desafios poéticos de carácter repentista entre pastores que assim ocupam o tempo enquanto apascentam o gado. Não só, mas também são elas a minha leitura por estes dias em que tenho também dedicado algum do meu tempo às "coisas da terra": de sacho na mão, a ouvir o canto alvoroçado de um melro que me espreita e segue a esvoaçar de ramo em ramo pela horta afora, enquanto contemplo as ameixeiras cobertas de belas flores rosadas, os delicados buquês formados pelas flores e folhas ainda tenras do marmeleiro, os primeiros figos que despontam já nos ramos da grande figueira, rego a hortelã ou a aspiro o aroma dos viçosos óregãos, longe de tudo e de todos. Tão longe de tudo e de todos como se estivesse, justamente, na bucólica Arcádia dos poetas-pastores e não nos caminhos da sulidão.

domingo, 1 de abril de 2012

E porque não um novo feriado?

A mentira tem hoje o seu dia oficial. Como se não nos bastassem já todas as mentiras que ouvimos/vemos diariamente nos (tele)jornais:
Muitos e bons exemplos se poderiam ainda acrescentar mas acho que nem vale a pena. O que para mim é surpreendente é a forma como nós, cidadãos, mandatamos com o nosso voto toda esta gente que nos (des)governa os dias, mesmo sabendo que nos estão descarada e deliberadamente a mentir e a enganar, só para conseguir votos.

Assim, não faria mais sentido arranjar um "dia da verdade", nem que fosse apenas para desenjoar? Provavelmente não. Estamos tão saturados da feia verdade diante dos nossos olhos que preferimos a mentira piedosa, ou então estamos tão anestesiados com as mentiras que já não somos capazes de reconhecer a verdade, nem que ela se sente à nossa frente. O mais provável é que ainda venha a ser feriado nacional. Seria até mais um motivo  de contentamento para o povo e temos tão poucos atualmente. Celebremos, pois, o 1 de abril e a mentira sob todas as suas formas...
Imagem daqui