sábado, 1 de dezembro de 2012

Madrugada


É nas madrugadas mais frias, quando a claridade crepuscular ainda mal deixa adivinhar o dia, que o ar rarefeito transporta certos sons de uma forma única e paradoxal, eliminando-lhes a estridência e a distância: a passagem dos carros lá em baixo na estrada, o breve tinir dos chocalhos do rebanho que começa a despertar algures, o latido solitário de um cão que parece perdido nos montes ou a ligeira agitação das folhas que ainda não sucumbiram ao outono.

Mais do que sons, são sinestesias. Lembram vozes distantes que venceram a barreira do tempo para acordar memórias e (re)descobrir velhas imagens amarelecidas e há muito esquecidas no fundo das gavetas. São como vozes do passado que só agora tivessem conseguido completar a sua viagem. Tão familiares e, ao mesmo tempo, tão estranhas.

Gosto de ficar atenta, no quente aconchego da cama, a ouvir estes pedaços desencontrados de histórias e a folhear mentalmente um velho e imaginário álbum de fotografias, enquanto a realidade vai acordando pouco a pouco.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Frases de cabeceira - 9

elegia a duas vozes


René Magritte: Os Amantes, 1928
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
não faltaram quilómetros de asfalto,
nem a travessia do deserto tornada rotina,
os olhos secos, doridos
e sempre à chegada a estranha sensação
de não estar no lugar certo
                            faltou dizeres o meu nome
                            como se o soubesses

não faltou a mesa, o riso,
a cama, o cio,
o corpo e as suas urgências,
olhos nos olhos, o fogo fátuo da cumplicidade
extinto logo ali, no último soluço do prazer
                            faltou dizeres o meu nome
                            como se me conhecesses

não faltaram palavras, muitas,
ditas e escritas, ocas quase todas,
entre reticências e grandes silêncios
carregados de signos indecifráveis
tudo só para dizer que a conjugalidade, afinal,
mesmo quando não passa de tosco arremedo,
é bem triste comédia
                             faltou dizeres o meu nome
                             como se me procurasses

e também não faltaram coincidências,
afinidades, uns quantos tropeções,
outros tantos (des)encontros,
alguns (re)começos
e todas as variações possíveis do ocaso
                               faltou dizeres o meu nome
                               como se me chamasses

                               e faltou que eu, depois,
                               respondesse ao teu chamamento

sábado, 24 de novembro de 2012

Se não for isto, é algo muito parecido - 12


Há qualquer coisa...

... de hipnótico na forma como as mãos de Pedro Carneiro dançam sobre a marimba. Vi-o hoje ao vivo pela segunda vez, acompanhado por António Carrilho na flauta de bisel. E não há de ter sido a última...

parábola

percebo, pelo som abafado das vozes
cada vez mais distantes e
pela espessura alongada das sombras
que estou a meio caminho

naquele estranho,
inexacto e equidistante ponto
que medeia entre o princípio e o fim
de tudo

e talvez devesse ficar por aqui
nesta tépida turvação
das águas paradas

contudo,
nunca me recuso a entrar em cada dia
mesmo quando
a pretexto de cansaço
ou de um certo vento
que gela os ossos,
me deixo ficar mais um pouco,
aparentemente,
a marcar passo

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Revista de imprensa


Decepção à regra

Edward Hopper: Early Sunday Morning; 1930
















Sentar-me 
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?

João Luís Barreto Guimarães, in Luz Última
Lx: Livros Cotovia, 2006