quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Se não for isto, é algo muito parecido - 27


White as Diamonds


I've known mornings
white as diamonds
silent from a night so cold
such a stillness
calm as the owl glides
our lives are buried in snow

Título por haver

Leonardo da Vinci: O Homem Vitruviano, 1492





















No meu poema ficaste
de pernas para
o ar
(mas também eu
já estive tantas vezes)

Por entre versos vejo-te as mãos
no chão
do meu poema
e os pés tocando o título
(a haver quando eu
quiser)

Enquanto o meu desejo assim serás:
incómodo estatuto:
preciso de escrever-te
do avesso
para te amar em excesso



Ana Luísa Amaral, in "366 poemas que falam de amor",

Lx: Quetzal, Ed., 2009

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Não subestimemos o sr. Silva


Estava eu firmemente decidida a ignorar as habituais futilidades de dia de ano novo do sr. Silva, quando os acontecimentos destes últimos dias e a sua eficaz gestão do "silêncio, não vá sair asneira!" me levam a estar muito interessada em ouvir o que ele tem para me dizer.  O que, nas atuais circunstâncias, não é despiciendo. 

Aliás, parece até que o homem fez de propósito para ver se o pessoal se decide a ouvir a tal mensagem. Por isso, digo: é melhor não subestimarmos o sr. Silva... Está visto que ainda tem uns trunfos na manga. E a melhor prova disso é que já vai no segundo mandato.

Post-scriptum (23.50) - Mais uma vez o sr. Silva fintou tudo e todos. Preferiu explicar a crise aos tótós e deixar no ar umas ligeiras dúvidas... Haja paciência!

Se não for isto, é algo muito parecido - 26


Gravity's Angel

Pessoa(l)
























Amigo, vem deitar-te comigo à beira do precipício e,
quietos, olhemos de frente a profundidade do abismo
até o sabermos de cor.
Depois, enlacemos as mãos e contemplemo-nos
no mútuo espelho líquido dos olhos
numa tácita aceitação do risco de estarmos aqui.

Outros há que preferem caminhar apressados
sobre brasas, esperando ficar ilesos. Mas nós
escolhemos ficar assim, estendidos lado a lado,
sentindo ainda a firmeza do chão sob o corpo,
ao mesmo tempo que já as mãos do calafrio
nos sobem, leves, pelas costas.

Neste fio de navalha que nos
entrecorta a respiração
nos deixemos então fluir como se 
acreditássemos que é possível amansar o vazio.
Ou talvez apenas esperemos que
ainda não seja hoje o seu dia de fruir.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Hoje, talvez seja mesmo isto

Évora; 24/12/2012

Frases de cabeceira - 14

Estou em Sines e sinto-me bem. E estou lá, também, porque não tenho outro sítio nenhum para ir. Cheguei a um ponto da minha vida que não há sítio no mundo para onde se possa ir viver e ser feliz. Sines é um lugar onde tenho conforto, onde me protejo, onde ninguém me aborrece, onde posso ter uma vida diferente, sem ser autor... Sou pelo profissionalismo do escritor e da edição... mas preciso de recarregar baterias, de me proteger do mundo, também. E, lá, nada me interrompe a vida.

Al Berto, in Diários
Assírio e Alvim, 2012

sábado, 29 de dezembro de 2012

Desejos de Novo Ano

Tão impossíveis quanto possível. Como convém nestas ocasiões.
Este (Satisfied Mind) nem com 12 mil passas lá iria...

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Dois pesos e duas medidas

Num país governado(?) por este, quem é que pode levar a mal este?

(Eu cá não. Pois se nem os especialistas duvidaram dele...) 
Mas afinal o que é que falta a esse tal de Artur Baptista da Silva para ser "especialista"? Um diploma da Lusófona?...

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Frases de cabeceira - 13

Só há dois tempos na vida: o imediatamente ou o malogradamente. Ou é agora ou é tarde demais.

Pedro Chagas Freitas, in Livro de Aforismos e Mentiras Universais
Fábrica de Escrita

Se não for isto, é algo muito parecido - 24


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A mensagem de Natal

Sobre a habitual mensagem de Natal do primeiro-ministro à qual, aliás, fiz muita questão de não assistir pois tenho mais e melhor em que ocupar o tempo, só tenho uma coisa a dizer: não tenho dúvida de que perdeu uma excelente oportunidade de ficar calado. De discursos e de políticos (bac)ocos e suas promessas vãs estamos todos fartinhos. E, no meu caso pessoal, estou-me a  borrifar para a esperançazinha desse tal "futuro próspero" que o 'Pedro', pelos vistos, me vai "oferecer". 

E o pior de tudo é que, daqui a uma semana, ainda vou ter que gramar com as costumeiras tretas do Sr. Silva... (deve ser carma, ou algo assim do género.)

Mas agora me lembro deste anúncio publicado aqui há uns tempos no Jornal do Fundão e interrogo-me: será que obteve resposta? Era capaz de comprar um também, talvez ainda fosse a tempo de salvar o ano novo.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Às vezes somos um país mesmo “porreiro, pá!”


Nesta fase do ano os telejornais regurgitam reportagens sobre os almoços natalícios oferecidos aos sem-abrigo dos grandes centros urbanos de norte a sul do país. Mostram-se os pratos bem cheios como se eles pudessem fazer esquecer, neste único dia, os restantes 364 de provação e privação, ou talvez a intenção seja mesmo anestesiar (nos sem-abrigo e nos espectadores) a consciência de que, mais do que comida no prato, o que falta mesmo é a esperança de, no próximo ano, já não precisarem destas iniciativas para poderem comer uma refeição melhorada. E parece-me bem que, sem essa esperança, toda a comida que enche os pratos nestas almoçaradas solidárias deve ter um travo bem amargo. Aliás, basta ver a expressão no rosto dos comensais e a forma como a maior parte deles tenta evitar a todo o custo as câmaras de televisão que insistem em mostrar-lhes a cara. Afinal, para os que pouco ou nada têm, nem no Natal há almoços grátis. 

Depois, claro, há essa grande obra de caridade da Sra. Jonet que periodicamente nos vem pedir alimentos para depois redistribuir pelos que mais precisam. E, apesar das ideias um pouco confusas da senhora sobre o nível de vida da grande maioria dos portugueses, a verdade é que temos sorte em ter por cá uma instituição como o Banco Alimentar que vai matando por aí a fome a muita gente neste país.

Só é pena que todo este espírito caritativo não chegue para dar o almoço às crianças cujos pais deixaram de poder pagar o valor das refeições escolares (ver aqui). Pena maior por isso estar a acontecer justamente nas escolas públicas que, por serem (pelo menos no papel) o lugar da “inclusão” e da “formação integral dos futuros cidadãos” deviam ser, justamente, as primeiras a identificar e responder a estas situações. Pena, sobretudo, por isso estar a acontecer com as poucas crianças de um país tão velho que a pirâmide demográfica até já está invertida. E tanto se me dá que essas crianças sejam portuguesas ou filhas de imigrantes. Elas são é seres humanos a quem foi intencionalmente recusado um prato de comida num refeitório escolar. Pode parecer coisa pequena no panorama mais vasto do drama social que estamos a viver, mas na verdade não é bem assim. Se calhar são gestos destes que fazem os maiores estragos, pois são os que revelam o verdadeiro carácter de uma sociedade. E não há dúvida: às vezes somos um país mesmo “porreiro, pá!”.