terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Molusco

















Com a viveza das marés aprendi a cerzir
o cromatócito manto em que me envolvo,
pois o segredo da invisibilidade não é ser,
mas parecer igual a tudo o resto.

Mas há sempre um olhar mais atento
ao gesto descuidado, ou uma súbita vibração 
no ar que às vezes denuncia a secreta identidade,
sem dar tempo à calculada fuga.

E, na aflição, um só pensamento me assola:
por que razão, afinal, não me ensinaram
as ondas a secretar carbonato de cálcio?

Se não for isto, é algo muito parecido - 39


domingo, 20 de janeiro de 2013

Por amor da santa!


Um rei!? Era mesmo só o que nos faltava agora!

De passagem, a paisagem - V


Elvas: 20/1/2013

Estrada de Elvas



Janeiro 2013

Nunca o saberás, pai, mas todos os km que já fiz nesta estrada para te ir visitar me doem como pancadas: por não conseguir reconciliar-me contigo, nem sequer agora que já és só farrapo e sombra de ti mesmo. Algo de fundamental se estilhaçou entre nós há muito tempo – se é que alguma vez existiu  – e nunca demos um único passo para mudar a situação. Foste sempre e apenas o homem autoritário que impunha em casa um silêncio hostil e nos mantinha a nós – tuas convenientes e eficientes ‘servas’ -  à distância e em seu devido lugar: na cozinha. Nem mesmo no fim, quando as circunstâncias me forçaram a decidir como seria o resto dos teus dias, conseguimos conversar olhando nos olhos um do outro.

Quando agora chego e te vejo sentado num canto do pátio, de rosto inexpressivo e olhar perdido no vazio, percebo como estás velho, só e doente. E percebo o quanto isso, no fundo, me entristece. Apesar de tudo. Nos escassos instantes que demoro a chegar perto de ti quase acrescento ‘frágil’. Mas logo tu, decidido, me estendes a mão - exactamente como farias para cumprimentar um qualquer conhecido encontrado por acaso na rua - e eu percebo que não é o impulso da tua ligeira demência a comandar-te o gesto e sim o instinto certeiro de que a nossa relação filial não é - nem nunca foi - mais do que uma absoluta formalidade. Igual a ti próprio até ao fim, pai. No fundo, admiro (às vezes, até invejo) essa tua dureza quase feudal, que nunca se compadeceu e que nunca vi fraquejar.

Também não deixa de haver uma certa ironia nesta distância quilométrica que nos separa, e que é exactamente proporcional àquela a que sempre vivemos quando ainda partilhávamos o mesmo tecto familiar. A única diferença é que, agora, é já tarde demais. De uma forma estranha e paradoxal, esta estrada que percorro todas as semanas para te ver é também a única coisa que ainda nos liga. A estrada, e esta tristeza amarga que nos consome vivos. 

A preço de saldo

Alguém colocou um anúncio na página da OLX propondo a venda de um imóvel muito peculiar: a Assembleia da República. Preço: 1 € (ler notícia aqui)

Dado o custo de manutenção do edifício e a situação que estamos a viver, é caso para dizer que ele nos está a sair bem caro. 

Mas é de louvar o sentido de humor deste cidadão. Deve ser mesmo a única coisa que ainda não nos conseguiram tirar.

Ver anúncio aqui

Em tempo de guerra, mentira é como terra: provérbio ilustrado

Ler notícia aqui

sábado, 19 de janeiro de 2013

The weeping song

Se não for isto, é algo muito parecido - 37


The Way We Used To

Ouvir os pássaros

O mais completo e mais antigo arquivo científico de conteúdos áudio e vídeo do mundo - a biblioteca Macaulay - disponibilizou agora na internet (ler notícia aqui) cerca de 150 mil registos de áudio. A visita vale pelo deslumbramento dos sentidos.

http://macaulaylibrary.org/.
Mas acho que se poderia acrescentar um arquivo: o dos sons deste vento que toda a noite rondou a casa, assobiou, rosnou, uivou, deu murros na parede, cabeçadas na janela e que ainda não desistiu de tentar entrar...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Do not go gentle into that good night

Corta daqui/des-corta ali

Em finais de outubro de 2012, o secretário de estado da Administração Pública dizia que "todos os agentes terão de ser chamados a discutir a reforma dos serviços do Estado, porque há escolhas a fazer, e o debate terá que ser sério". (ler notícia aqui)

Ainda 2013 mal começou e já um secretário de estado afim - o da Reforma Administrativa -  vem anunciar que o...


Ler notícia aqui

Ou seja, e agora mesmo a sério: corta daqui/des-corta ali, ou mais-do-mesmo. 
Pelos vistos, este "recado" ainda  lá não chegou...

Anda tudo a fazer pouco da gente!

Ler notícia aqui.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sinestesia

Tarde fria de sol.
Tarde de coloridos e nítidos contrastes.
Tarde toda de aromas florais e de canto dos trigueirões,
com a terra muito tenra a afundar-se debaixo dos pés.
Tarde de deitar...





















e rolar pela colina...
Evoramonte; 15/1/2013


Se não for isto, é algo muito parecido - 34


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Changing os the Seasons

Frases de cabeceira - 17


Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspetivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro. 

O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu. 

O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho. 

(...) Atualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convívio. A solidariedade efetiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil. 

José Gil, "O Roubo do Presente", In 'Visão', 20 de Dezembro de 2012

domingo, 13 de janeiro de 2013

Estrada de Elvas

Cilindros ao longo do asfalto
esmagam a tua memória sem sentido.
É o Inverno em Borba, não recordo
quase nada de ti. Vejo o trabalho
destes homens com suas pás, seus maços,
paro um momento à beira deles
para acender um cigarro. «Compadre,
tenho um irmão na Angola!» E nada sabem
do gelo que nascia da tua boca.

Levo outro amor mais claro do que o teu.
Não te recordo já: talvez morresses
antes de seres memória, chuva, e a noite.

Fernando Assis Pacheco, "Cuidar dos Vivos" (1963),
In A Musa Irregular, Lx: Ed. Asa, 1996, 2ª ed.


(Um dia, quando ganhar coragem, também hei de escrever
sobre a "minha" estrada de Elvas...)

Epitaph for My Heart

sábado, 12 de janeiro de 2013

Zangam-se as comadres?! Não, ainda não é desta...



Ao 1º embate tudo parece perdido:

Carlos Moedas acha o relatório do FMI (ver aqui) "muito bem feito". 

Carlos Carreiras, autarca do PS
pede a demissão do secretário de Estado Adjunto.

Pedro Mota Soares diz que o documento "tem pressupostos errados".
(Ler notícia aqui)


Ler notícia aqui



Mas depois, pensando melhor...

Ler notícia aqui

Não, afinal ainda não é desta...

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Claro, há sempre uns que levam mais tempo a perceber a mensagem...

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Se não for isto, é algo muito parecido - 33


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Novas e ainda melhores maneiras de holocaustizar a função pública

Imagem daqui
O tão falado relatório encomendado pelo governo ao FMI, e certamente pago a peso de ourosugere a realização de um exame nacional online para decidir que funcionários públicos serão dispensados. Será que a Lagarde y sus muchachos não conseguem fazer melhor do que isto? Exames nacionais?! Ou seja, lá se vão contratar mais umas largas dezenas de consultores, assessores, amigos de amigos e especialistas vários para poder levar a coisa para a frente. Claro está, todos bem pagos com o tal dinheiro que o estado tanto quer poupar. (Já deve é andar por aí muito jotinha a esfregar as mãos de contente...) Para já não falar do descalabro que seria depois esse outro "tesourinho" nacional chamado "rankings", divulgado a seguir à publicação dos resultados... 

Podiam era ter-me perguntado a mim, que eu, inteiramente de borla e apenas pelo prazer que tenho em ajudar este governo de géniozinhos precoces para o qual trabalho com tanto gosto e motivação todos os dias da minha vida, teria dado um montão de sugestões bem melhores e que colheriam certamente muito maior receptividade por parte da "opinião pública".

Aqui deixo apenas algumas possibilidades:

1. funcionários públicos a participar em larga escala num concurso do formato "Decisão Final", naturalmente apresentado pelo Malato (isso era conditio sine qua non), onde os ditos  iriam caindo no 'vazio' um a um para grande gáudio dos espectadores, enquanto o público no estúdio aplaudia tudo freneticamente.

2. outros tantos a integrarem o casting de um reality show em horário nobre, do tipo "Casa dos Segredos", animado pela etérea Teresa Guilherme, e de onde seriam 'expulsos' com a ajuda da televotação do público. 

3. mais umas dezenas de milhares a ouvir até ao fim o anúncio da Samsung com o grande "deseijo da Flipa Xaviere p'ra dois mil e treuze de possuire umamálaChánele" - e ser depois levado para a ala psiquiátrica de um qualquer hospital público em estado catatónico. Sim, porque o estado é 'social' e não abandona assim os funcionários públicos aí nas ruas da amargura...

Não posso deixar de sublinhar que estas soluções têm ainda o grande mérito de deixar o governo com as mãos totalmente limpas, pois tudo correria por conta de terceiros, como convém nestas melindrosas matérias do "corte das gorduras do estado". para já não falar do quanto o povinho andaria entretido, deixado assim alguma margem para manobras governativas tão ou mais brilhantes ainda do que estas (se é que tal é possível...). 

Fico, pois, à espera de ver a Lagarde a fazer melhor do que isto! E à borla, ainda por cima...

Se não for isto, é algo muito parecido - 32


E a palavra do ano 2013 será?...

Em 2012 foi...

e, face ao que agora veio a público (ver aqui), até já me parece que não foi assim um ano tão ruim quanto isso.


Ainda janeiro não vai a meio e sobre qual será a palavra do ano 2013 também não me restam muitas dúvidas: fodido.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Fábula para adormecer inquietações

Santana do Campo; janeiro 2013




















De Esopo conta a fábula
que a tartaruga só folgou
depois de, perseverante, 
vencer em corrida
a lebre espertalhona.

Neste lugar se conta a história
de uma certa árvore com carapaça que,
à beira do caminho e
sem nada saber dessas
narrativas antigas,
espreguiça os ramos ao sol
enquanto as lebres mecânicas
correm velozes tentando vencer
até a própria dor.

Rindo-se de tais pressas inúteis,
a velha árvore, sábia, encolhe os ombros,
ajeita a casca e murmura:
Correr para quê, se a dor não foge,
ou sequer adormece com cantos de pássaro?

Melhor mesmo é deixar endurecer
a carapaça ao sol da manhã, 
garantir que por aqui a dor não passa.
Só o tempo e muito devagar.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Frases de cabeceira - 16

"... o facto de até hoje não termos conseguido nem sequer identificar com perdurável certeza os nossos próximos entre a multidão dos alheios, vem demonstrar, se era preciso, o que por tradição sabíamos, que a dificuldade de realizar o simples sobrepassa em complexidade todos os ofícios e técnicas, ou, por outras palavras, é menos dificultoso conceber, criar, construir e manipular um cérebro electrónico do que encontrar no nosso próprio a simples maneira de ser feliz."
 
José saramago, In História do Cerco de Lisboa,
Lx: Ed. Caminho, 1989

Se não for isto, é algo muito parecido - 30





 

domingo, 6 de janeiro de 2013

My Pagan Land

Regresso au lugar da Pedra das Gamelas





















À hora em que as estevas acordam para o sol da manhã, regresso ao caminho de terra batida que serpenteia pelos campos empapados de água, onde os pés se afundam na lama verde da vegetação despontada, para contemplar a grande pedra como se ela estivesse ali à minha espera. Volto a sentir no ar que aqui se respira uma vibração própria, um murmúrio ininteligível que só acrescenta fascínio à beleza deste lugar. E a toda a volta um silêncio feito da ausência dos pássaros que ainda não chegaram trazendo a inflorescência primaveril nas asas.

Altar sacrificial por onde o sangue inocente corria, dizem, para aplacar os caprichos dos deuses - ou talvez apenas as faltas humanas -, coberta de cicatrizes antigas por onde escorre agora um musgo viscoso como sangue espesso. Ou talvez apenas um grande cálice quase natural, para recolha da chuva purificadora que abençoa os campos e a vida dos homens que neles labutam.

Ao certo, só sei que esta pedra velha como o mundo, parada à beira do caminho, não é igual a nenhuma outra e isso basta-me. Trepo pelas saliências do seu dorso arredondado e, devagar, toco com a mão no rebordo da gamela maior como se ali pudesse depositar o desconcerto desta dor de andar perdida em corpo alheio e em tempos sempre irremediavelmente desencontrados. Não ficaria para ver, mas sei que gotejaria devagar pelo torso granítico até se misturar com a terra e ficar só uma pequena cicatriz quase invisível no fundo irregular da concavidade.

Desço e volto a olhar a grande pedra, quase reconhecida pela sua generosidade ancestral de aceitar o que os homens já não querem ou não suportam mais. Regresso então a casa, e a mim, trazendo só na memória o cheiro resinoso das estevas que rebentam de verde. E quase ágil de tão mais leve

Santana do Campo; Pedra das Gamelas; janeiro 2013


sábado, 5 de janeiro de 2013

As razões de tanto festejo

Começamos a perceber melhor as razões que levaram estes três moscaloteiros a festejar tão estrondosamente a entrada do novo ano (ver notícia aqui) ...
Ler notícia aqui

We No Who U R

Se não for isto, é algo muito parecido - 29


Santana do Campo; janeiro 2013

Metáforas (quase) naturais - XIII

Retomo hoje esta série já antiga aqui pela sulidão... 


Frases de cabeceira - 15

"E só se ama com urgência. Só se ama como se numa ambulância, como se no último respiro, como se no último afago. Só se ama com urgência. Só se ama como se acabasse no segundo seguinte. E por isso o segundo, este, exactamente este, é o segundo final. E amar só é, só tem de ser, uma sequência de segundos finais, uma interminável (mesmo que terminável) sucessão de segundos finais entre quem se ama. Amar é inseguro, amar é ciúme, amar é urgente. Amar – quando é amar - é-te tudo. E é tudo."

Pedro Chagas Freitas, In Eu Sou Deus, Chiado Editora

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Se não for isto, é algo muito parecido - 27


White as Diamonds


I've known mornings
white as diamonds
silent from a night so cold
such a stillness
calm as the owl glides
our lives are buried in snow

Título por haver

Leonardo da Vinci: O Homem Vitruviano, 1492





















No meu poema ficaste
de pernas para
o ar
(mas também eu
já estive tantas vezes)

Por entre versos vejo-te as mãos
no chão
do meu poema
e os pés tocando o título
(a haver quando eu
quiser)

Enquanto o meu desejo assim serás:
incómodo estatuto:
preciso de escrever-te
do avesso
para te amar em excesso



Ana Luísa Amaral, in "366 poemas que falam de amor",

Lx: Quetzal, Ed., 2009

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Não subestimemos o sr. Silva


Estava eu firmemente decidida a ignorar as habituais futilidades de dia de ano novo do sr. Silva, quando os acontecimentos destes últimos dias e a sua eficaz gestão do "silêncio, não vá sair asneira!" me levam a estar muito interessada em ouvir o que ele tem para me dizer.  O que, nas atuais circunstâncias, não é despiciendo. 

Aliás, parece até que o homem fez de propósito para ver se o pessoal se decide a ouvir a tal mensagem. Por isso, digo: é melhor não subestimarmos o sr. Silva... Está visto que ainda tem uns trunfos na manga. E a melhor prova disso é que já vai no segundo mandato.

Post-scriptum (23.50) - Mais uma vez o sr. Silva fintou tudo e todos. Preferiu explicar a crise aos tótós e deixar no ar umas ligeiras dúvidas... Haja paciência!

Se não for isto, é algo muito parecido - 26


Gravity's Angel

Pessoa(l)
























Amigo, vem deitar-te comigo à beira do precipício e,
quietos, olhemos de frente a profundidade do abismo
até o sabermos de cor.
Depois, enlacemos as mãos e contemplemo-nos
no mútuo espelho líquido dos olhos
numa tácita aceitação do risco de estarmos aqui.

Outros há que preferem caminhar apressados
sobre brasas, esperando ficar ilesos. Mas nós
escolhemos ficar assim, estendidos lado a lado,
sentindo ainda a firmeza do chão sob o corpo,
ao mesmo tempo que já as mãos do calafrio
nos sobem, leves, pelas costas.

Neste fio de navalha que nos
entrecorta a respiração
nos deixemos então fluir como se 
acreditássemos que é possível amansar o vazio.
Ou talvez apenas esperemos que
ainda não seja hoje o seu dia de fruir.