domingo, 15 de dezembro de 2013

outonal

N4 - Borba: 13/12/2013





























no rubor desolado das vinhas
o sol traça mais nítidas
as veredas deste outono
que se demora a descansar
no dorso dos montes

e, ao cair da tarde,
um melro alvoroçado
ecoa estridente no ar fino e leve 
como se viesse reclamar pelo atraso

domingo, 8 de dezembro de 2013

Antigamente, tudo era diferente

De vez em quando aparecem coisas assim. Neste caso, feitas pelos alunos das escolas do 1º ciclo das freguesias rurais de Montemor-o-Novo. Nã há dúveda, estes gaiatos sã mêmo uns artistas.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Qualquer coisa

Edvard Munch: Melancolia; 1894, óleo s/ tela



















Um hálito de música ou de sonho,
qualquer coisa que faça quase sentir,
qualquer coisa que faça não pensar.

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Cátia e Ivan - ou a vida suburbana, hoje

Primeira curta-metragem produzida em exclusivo para um revista digital portuguesa: a Carrossel Magazine. Foi escrita por Ricardo Adolfo - sim, esse mesmo, o do romance Maria dos Canos Serrados - e realizada por Jorge Cramez (ver aqui).

sábado, 30 de novembro de 2013

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

aforística

Guadiana - Ponte da Ajuda: nov. 2013


das água paradas
é às vezes
a mais pedregosa
travessia

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Terms and Conditions

narrativa das árvores - I


N4 - Borba - novembro 2013
quando o dia
poente e sonolento
começa a deixar pender a cabeça para trás dos montes
as sobreiras de casca enrugada
e com o saber de gerações vincado no tronco
parecem enfileirar-se devagar pela encosta

lembram um rebanho
que se agrupa em busca de proteção
contra a mordedura do frio 
- ou até contra o medo - que repassa
as grandes noites espessas
que precedem o solstício de inverno

talvez o façam 
porque no seu cerne ainda guardam
a memória ancestral 
das genesíacas águas que tudo alagaram

talvez o façam 
porque sentem no mais profundo das suas raízes 
a crescente aridez do solo
e querem perscrutar no horizonte longínquo
as nuvens dispersas que adivinhem as chuvas a haver 

ou talvez o façam 
apenas pelo mais puro e simples prazer 
de se  contemplarem
no rubor crepuscular
do narcísico espelho das águas paradas

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Por coincidência

Por coincidência, no final do jogo com a Suécia, alguém se deu ao trabalho de fazer um video com os craques da seleção a agradecer o apoio dos portugueses.

Por coincidência, ficou o povo todo babadinho, até porque a seleção se qualificou para o mundial aquele.

Por coincidência, o video tornou-se logo viral e passou reiteradamente em tudo quanto  é canal de televisão e foi publicado nos jornais online (ver aqui e aqui).

Por coincidência, ontem mesmo - e uns dias mais tarde do que o habitual -, eu, tal como milhares de outros privilegiados funcionários públicos, recebi via mail uma mensagem com três anexos: o reci d venci do mês em curso, o reci do duodé do subsí de Nat e ainda um terceiro anexo, onde constava o rec do sub de fér. Aliás, continua a chamar-se àquilo "recibo" apenas por uma questão de hábito instalado, ou quem sabe por pura ironia, porque na verdade é um "corte" bem mais que um abono.

Por coincidência, andamos todos tão contentinhos com o ronaldo, a seleção e o tal de mundial e a bota de ouro do messi e mais a campanha abortada da pepsi e mais o raio que nos parta a todos que  já nem sequer reagimos.

Por coincidência, isso também convém a alguns.

Por coincidência, os (tele)jornais anunciavam também ontem que os funcionários públicos iam receber o subsídio de férias no natal e que os comerciantes, quais abutres a salivar ante a carniça fresca, já esfregavam as mãos de contentes a pensar no dinheirão que todos irão gastar em prendas, sim, porque agora podemos, claro (ler aqui). E só por causa disso, isto é, por causa do subsídio, perdão, do "corte de férias dos funcionários públicos", o consumo vai aumentar neste natal. Pelos vistos, impediram-se assim as férias para garantir agora a subida do consumo interno e para poder vir depois dizer que os funcionários públicos são mesmo uns privilegiados, vejam lá o que eles fizeram com o subsídio que tanto sacrifício o estado fez para pagar: foram gastá-lo todo em prendas de natal e olhem que eram uns largos milhões de euros. Temos mas é que lhes baixar ainda mais o ordenado a ver se esses privilegiados se controlam.

Por coincidência, ficámos ontem todos ricos, o governo é que, coitado, tem agora de suar as estopinhas para cumprir as metas do défice, ah mas eu sei muito bem de quem é a culpa! É do tribunal constitucional que obrigou o coitadinho do estado a pagar o que deve aos seus funcionários, esses privilegiadões que, na sua maioria, ganham pouco mais de 600 euros mensais e andam a chupar o sangue ao dito cujo sem fazer nada.

Por coincidência, eh pá, o ronaldo fez mesmo um granda jogo, aquilo foi mesmo brutal, pá. A jogar assim vamos à final do mundial aquele, pá. 

De repente,só por coincidência, até parece que não há mesmo coincidências... Chiça!

terça-feira, 19 de novembro de 2013

domingo, 17 de novembro de 2013

Idiotismos

Esta idiota foi à televisão tentar vender o seu último livrinho e aproveitou para dizer pérolas como esta "Fico triste em ver este tipo de manifestações, que demonstram falta de civismo das pessoas que vão interromper e tentar perturbar o trabalho daqueles que neste momento governam o país" e outras que se podem ver/ouvir aqui


Despoletou de imediato reações como esta do Bruno Nogueira (ouvir aqui) e muitas outras nos media e no Facebook. E todos acharam muito bem que a fulana levasse na cabeça, incluindo eu.








Já não percebo assim tão bem é que venha este idiota à televisão e aos jornais de maior circulação, todo contentinho consigo mesmo, dizer coisas como esta: "Subir salário mínimo é estragar a vida aos pobres" e não despolete de imediato uma onda de reações em tudo análoga à que existiu para o primeiro caso. 
Até porque este idiota é convidado diariamente, muito bem pago e, provavelmente,  muito tido em conta no "arco do governo" por aqueles que andam a esmifrar isto tudo.

Muito provavelmente é porque, no primeiro caso, se trata de uma mulher, com bom aspeto e ainda por cima loura, e, no segundo, estamos perante  um homem de fato e gravata e barba na cara? 

Até nisto somos miseráveis, de facto,

domingo, 10 de novembro de 2013

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

E a peixeirada ainda mal começou

Começou bem a campanha pública de Carrilho contra a quase ex-mulher Bárbara: desde álcool e drogas, passando por depressão, traumas e abuso sexual, aquilo mais parece um manual de psicologia. Ou um filme de terror.

Nem se percebe como é que o pobre do homem, ainda por cima de reconhecido gabarito intelectual e impoluta reputação política (ou será ao contrário?) aguentou tantos anos casado com uma mulher assim tão desequilibrada...

Gostei sobretudo do modo como ele atirou desde logo os filhos menores para dentro desta tina de roupa suja lavada em público, dizendo ainda por cima que é para melhor os proteger...

Lidas algumas das suas contundentes revelações acusatórias contra a mulher ficou-me uma dúvida. Coisa assim muito pequenina: e por onde andaria tão extremoso pai pela filha pequena que alegadamente chorava de fome junto à porta, enquanto a mãe se alcoolizava fechada na cozinha?


Ao que parece, estava muito ocupado em... Paris:


Relativamente à quase ex-mulher diz que tentou "tudo", mas não refere nada de concreto. Aqui chegado, parece que a memória - tão cheia de detalhes sórdidos, até sabe quantos comprimidos ela toma diariamente para se manter magra - não tem espaço para guardar alguns exemplos que agora pudesse apontar em público sobre a forma como terá então tentado "tudo" para ajudar a companheira que, a julgar pelas descrições que faz, não demorará muito a ser internada compulsivamente numa clínica de repouso.

Muito mal contada esta história. Isso sim. Há em toda esta história algo de a "Guerra das Rosas", mas é um mau remake porque há dois miúdos pequenos envolvidos. E é só deles que tenho pena metidos no meio de semelhantes progenitores e a serem usados como meros objetos para servir interesses que, de certeza, não são os seus.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Parece que o futuro já chegou...


... pelo menos no que aos telemóveis diz respeito. É só olhar à volta e nem precisa de ser com muita atenção.


Às vezes tenho a impressão de que, para muito boa gente, não existia vida antes do dito, tal a forma como parecem depender dele até para respirar. Parece-me té que algumas delas não sobreviveriam mais do que uma hora sem ele (os meus alunos adolescentes nem sei se aguentavam meia hora...).

Visitando um museu.

Um belo dia na praia.
Um animado jantar de amigos.
Ainda melhor: um jantar romântico a dois.

Uma espécie de "vá para fora cá dentro" (do tlm, claro está).
Confidências entre amigas.
A torcer pelo clube de eleição.
"O primeiro beijo" de David Vela Cervera (2007)
A brincar com os amigos no parque infantil.
Novas regras de etiqueta à mesa.

domingo, 27 de outubro de 2013

All Tomorrow's Parties

Quem os ouvia e quem os ouve...

Em junho de 2011, alguns dias após as eleições legislativas, PPP assegurava que tinha testosterona para dar e vender. Por isso, o povo que se preparasse e a oposição que se cuidasse... 
...
Ler aqui
Agora, que as eleições legislativas estão novamente no horizonte e se aproximam a largas passadas, o Mota vem de lambreta dizer que, afinal, os credores internacionais - Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e Comissão Europeia - exigiram o aumento da idade da reforma para os 67 anos, mas que o executivo rejeitou.


Ler aqui
Por este andar, ainda os vamos ouvir dizer que estes quatro anos de empobrecimento generalizado e de perda de direitos sociais não passaram de um grande equívoco, nosso, claro está!

E pior: é bem provável que muitos dos que, agora, andam aí nas manifestações a gritar contra o governo voltem a votar PSD em 2015. 

Ler/ver aqui
A ver vamos...

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Se não for isto, é algo muito parecido - 68

Nem sei de quem tenho mais inveja, se do fotografado, se do fotógrafo.... e não, desta vez, não se trata de uma metáfora do país ou dos contribuintes. É mesmo só isto: a vertigem em estado puro.

Fotografia de Jimmy Chin, tirada no Parque Nacional de Yosemite (Half Dome), para o National Geographic Magazine

terça-feira, 22 de outubro de 2013

domingo, 20 de outubro de 2013

Ainda a paisagem, de passagem - VII

E há um verde que alastra pouco a pouco sobre o solo em carne viva...

N4 - Elvas: 20/10/2013





























Do hábito de reparar

O coração não se engana.
Pode cansar-se, 
mas não se engana.
Pode também 
habituar-se ao ponto
de já nem reparar
na planura que rodeia a estrada
(contra essa dor é a minha luta).
Mas não, não se engana.

Enquanto, de passagem, 
o olhar for capaz
de perceber as múltiplas, 
quase imperceptíveis
formas como a paisagem
se altera no espaço
de apenas alguns dias,
e enquanto a consciência disso tudo 
- do olhar e das coisas vistas - 
fizer sentido, sei que o coração
pode até estar cansado,
mas nunca entorpecido pelo hábito,
que, até nisso, o coração não se engana.

Sei lá.. a vida tem sempre razão

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

You're So Vain

O lusintectual

Diz o lusintectual
que a bloga já não lhe dá pica.
Que escreve para as audiências
e estas (que injustiça!)
andam arredias.

Por issoo homo scribens, 
temendo ser condenado
à darwinística extinção,
ameaça com voz grossa:
Olhem que vou escrever para outra plataforma!

Mas uma semana depois
ei-lo que regressa, 
qual fénix desempoeirada: 
Ora tomem lá o meu novo livro! Apareçam!

Presumo, pois, que as audiências,
assustadas,
devem ter regressado a trote...

(grande marmelo este!)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O busílis da questão

Cada vez me parece mais que isto é como a velha questão do copo: meio cheio ou meio vazio? 

Só que, neste caso particular, ainda não se percebeu bem se a dificuldade se deve ao facto de o problema ser insolúvel, ou se são as cabeças que, por serem fraquinhas, não conseguem resolvê-lo...

João Abel Manta, Um problema difícil, 1975

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A lição de anatomia

Ontem, em horário nobre e em direto, Paulo Portas não fez uma comunicação ao país. Deu-nos, isso sim, uma verdadeira lição de anatomia do contribuinte (ler/ver aqui). E assim se percebeu bem melhor a razão de ter demorado 10 horas o tal conselho de ministros. Foi mesmo tudo escalpelizado ao pormenor, não nos fosse escapar algum cêntimo no bolso...

Imagem daqui

Se não for isto, é algo muito parecido - 65


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O país perguntou, Passos Cartoon...

... qual magical maestro dos reality shows televisivos, respondeu galhardamente e Tex Avery fez a sinopse. Falamos, é claro, de uma amostra de país cuidadosamente escolhida. Na verdade, com um país assim, é tudo bem mais fácil: seja governar, seja responder a perguntas.

Aqui fica, para quem não conseguiu ver, ou não teve paciência para aguentar a estucha, o condensado das melhores respostas do primeiro-ministro.


Ler aqui

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

das palavras




















quantas vezes
as palavras
de tão doídas se afiguram ressentidas
de tão acauteladas soam a já expiradas
de tão amassadas se tornam informes

outras vezes há que
as palavras
de tão transpiradas
- tremenda ironia -
até parecem inspiradas

e uma ou outra vez
as palavras
na sua descuidada limpidez
e involuntário acerto
de tão espontâneas
por breves instantes
até me parecem ser alheias

duvido sempre delas
e mais ainda de mim

sábado, 5 de outubro de 2013

ARRE!

Ver video aqui
ARRE, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.

Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!


Álvaro de Campos

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

ícaro precipitado

Imagem daqui

















neste lugar
onde ícaro queimou as asas
a planície sedenta arde de febre
enquanto o dia esmorece
com os olhos raiados de sangue
postos no voo assimétrico
das andorinhas delirantes
que atiram contra os muros
pios estridentes e fazem
ricochete no ar
até se dissolverem na lonjura

neste lugar
onde ícaro perdeu as asas
a noite vem serenar o suão
enquanto a planície aliviada adormece
para só acordar de madrugada
coberta de suores nocturnos
mesmo a tempo de assistir
ao retorno das andorinhas
que em bando
tentam de novo derrubar os muros
com a estridência dos seus gorjeios
até se perderem na distância

neste lugar
onde ícaro se precipitou
os bandos de andorinhas
em vertiginoso voo rasante
hão de um dia derrubar
a golpes de asa
os muros que
aprisionaram o minotauro

e é na beleza do seu voo impetuoso
que percebo o quanto sou
asa quebrada em muro erguido
labirinto incontornável e híbrido insolúvel

terça-feira, 1 de outubro de 2013

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Maryjoana

Coisas que me abespinham, encanitam e irritam - XV

O sorrisinho contentinho com que o sr. Silva explica ao povo o que são eleições autárquicas - nem nós teríamos maneira de o saber se ele não nos dissesse tim-tim por tim-tim como é - e o modo como é claro que o governo nada tem que ver com isto... (ver aqui)
Viu-se...

Aliás, para o sr. Silva, o importante mesmo nestas eleições autárquicas foi a vitória do tenista João Sousa em Kuala Lumpur.  
Tudo a ver. 
Até porque nem outra ocasião mais favorável e adequada haveria para o sr. Silva felicitar publicamente o atleta.

domingo, 29 de setembro de 2013

Ainda a paisagem, de passagem - IV

Spray de outono.
N4 - Elvas: 29/9/2013

vigília

Giacomo Balla: A Luz da Rua (1909)

























era de noite e nos choupos
ouvia-se o vento
resmunguento
mas do ribeiro ao fundo da casa
nem um lamento

era de noite e algo em mim
continuava atento
ao fio de água inquieto
que me corria por dentro
do pensamento

era de noite e já a madrugada
espreitava quando por fim
nos choupos o vento
perdeu o alento

só o fio de água
já purulento
insistia ainda em correr
por dentro do pensamento