sábado, 22 de março de 2014

A morte saiu à rua num dia assim

a inelutável presença, a única certeza


N4 - Silveiras: 15/3/2014

na clara luz de março que torna mais límpido
o granítico contorno da geometria talhada para a eternidade
na tranquila sonolência
dos seres pequenos aquecidos ao sol
no volteio da brisa que busca
os pássaros entontecidos
ou na terra encharcada de viço que transborda
pela erva acima
em tudo o que é
ou por dentro de tudo o que apenas está
sempre
a inelutável presença
das sombras

afinal
a única e nítida certeza

segunda-feira, 10 de março de 2014

Isto deve ser um dom...

Estávamos em 1997, no governo do saudoso engenheiro Guterres, e o Tozé era o Secretário de Estado da Juventude, quando a SIC criou um programa de características peculiares chamado "Cadeira do Poder", cujo apresentador era o inenarrável Artur Albarran. E não é que, logo a abrir, o Tozé foi escolhido para ser o centro de uma "notícia ficcional"? A coisa metia ainda uma "acompanhante" e um "aparatoso acidente com um carro oficial nas docas de Lisboa". Se fosse hoje, talvez esta pequena estória envolvesse também uns quantos croissants ou até um capacete Dexter... quem sabe?




Do que não há mesmo dúvida é de que o Tozé tem queda para a ficção, especialmente a humorística e, pelos vistos, a coisa até já não é de agora: ler aqui.

Imagem daqui

domingo, 9 de março de 2014

We Came Along This Road

entardecer em campo-santo

Azaruja; S. Bento do Mato, 8/3/2014

























emudece a tarde na caliça do tempo
absorta
como se contemplasse 
o vagaroso esmaecer
das flores de plástico
sobre a pedra alva

alheada até dos que por ali
também eles entardecem
e que 
por tão tarde ser
já só podem esquecer

até que por fim
também ela parece adormecer

terça-feira, 4 de março de 2014

Nos bastidores do Conselho Nacional do PSD

Foi à figura contundente e anárquica de Grouxo Marx que Relvas foi buscar a inspiração e o fôlego para enfrentar os companheiros do partido no passado domingo (ler aqui) e, sobretudo, para mandar recado aos come(nta)dores (de) políticos. E o que disse ele então? Pois, apenas isto:



E não é que o nosso "Grousso Relvas" já tem seguidores?! Ora aqui está um deles, apanhado a treinar uns pontapés à 'Grouxo Marx' mesmo à entrada para o dito Conselho Nacional...


Mas será da idade avançada, da baixa forma física ou da incapacidade intelectual, certo é que dificilmente conseguirá ter a mesma graça do original...



Parece que até já pediu desculpa e tudo... Coitado. Deve ter ficado de rastos quando se viu nas imagens...

E ainda há quem não acredite em coincidências...

Logo agora que há eleições à vista e é preciso fazer o milagre da des-multiplicação dos pães...

Imagens daqui

sábado, 1 de março de 2014

Metáforas (quase) naturais - XVI

As imagens do polémico restauro da "última ceia" (ler notícia aqui) fazem mais sentido do que parece à primeira vista. São uma espécie de adequada e arrevesada carnavalização do triste destino coletivo que construímos por nossas próprias mãos ao longo das últimas décadas. Uma espécie de quase metáfora do "antes e depois da troika".

É que ficámos exatamente assim: de olhos arregalados, cara desconsolada, a tentar segurar a máscara de palhaço que nos colaram à força no rosto. Foi isto que nos fizeram nestes últimos três anos: uma espécie de "restauro" coletivo. E tal como para as agora célebres figuras do Santuário de Nossa Senhora das Preces, também para nós nada voltará a ser como antes...

Ler aqui

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

cruzar o rio

Lisboa - Ponte Vasco da Gama: 16/12/2013

cruzo o rio
de uma para outra margem
pelos braços abertos da ponte

mas na verdade
ponte alguma
une margens afastadas e distintas
a ponte é apenas
um expediente de passagem
um quadro mental
que nos mantém a seco
e a salvo de comoções

a ponte
não é mais do que pretexto
ilusão ou equívoco
e só o mergulho no colo tumultuoso da corrente
separaria as águas que tanto procuramos evitar
e revelaria se
no instante derradeiro
a vertigem se afogaria no suor do seu próprio medo
ou se os pulmões despertariam
finalmente
do seu torpor
e lutariam por ar

(pelo sim, pelo não
é melhor atravessar pela ponte)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

dia solar


















este sol breve que
veio espreitar pelas
frestas azuis do dia
sabe-me
na boca
          como tempero de sal qb 
deixa-me
na pele 
          um rasto de mosto doce
e pousa-me
nos olhos
        uma ociosa carícia de luz

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Os mecenas de abril

Mecenas a financiar as comemorações do 25 de abril na assembleia da república? Mas que bela ideia, sra. presidente!!!!

Proposta 1. "é praticada por instituições em muitos países e deve ser realizada com parcimónia", disse ela... Por isso, um simples e discreto anúncio no meio das flores, talvez com a indicação de "beber com moderação" ali ao lado, muito discretamente...


Imagem daqui
Proposta 2. "Esse mecenato seria junto de instituições das quais não viesse a leitura de qualquer forma de ‘lobby' sobre o Parlamento. Pensámos em fundações de utilidade pública, somente", acrescentou ela logo a seguir. 
E por que não esta, dirigida em tempos que já lá vão por um in-suspeito membro do atual governo e atualmente dirigida por uma in-suspeita membra do anterior governo? "Lobby" sobre o Parlamento? Hummm. Ná... não temos cá disso...


E sempre podíamos iniciar a transmissão direta na RTP 1 com uma nova versão daquela musiquinha "Eu gosto é d'Assunção": ...e ao fim do dia, bem abraçados, a ver o 25 d'abrile... patrocinado por uma fundação qualquer...


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Piada, piada...

era se, depois do caso amoroso de Hollande com a atriz,
Imagem daqui
da badalada selfie de Obama com a dinamarquesa, mesmo nas barbas da Michelle e da aventura com a cantora (suposta, ou não, ainda é cedo para sabermos...)

Imagem daqui

Imagem daqui
 viéssemos a descobrir que, afinal, eles os dois é que andam de "caso" um com o outro. 

Pelo menos a julgar pela catadupa de notícias e de imagens em que ambos revelam uma tão grande sintonia política, mãos apertadas por cima da mesa, de olhos nos olhos e sorrisos no rosto, ou caminhando lado-a-lado e fazendo adeuses muito juntinhos à varanda, brindes com champanhe ao jantar...não sei, não sei...


Adicionar legenda

Imagem daqui
Imagem daqui 
Imagem daqui

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Afinal, anda mesmo tudo relacionado...

Há dias, o ministro da economia declarava, de forma não muito clara, mas em tom compungido, que...


Ler notícia aqui
Começo agora a perceber melhor a que "famílias" se estava ele a referir...

Ler notícia aqui

Foi certamente por isso que este "chefe de família" já foi até falar com o padrinho ...

Ler notícia aqui
E, com a notícia vinda hoje a público sobre uma das pensões de reforma do próprio sr. Silva e de mais uns quantos desvalidos da política nacional...

Imagem daqui
não me admirava mesmo nada que venhamos muito em breve a ter que devolver à China Tree Gorges/EDP o valor da tal "taxa extraordinária", acrescido dos respetivos juros de mora, está bom de ver.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

E por falar em praxes..

E para estes veteranos da praxação que nos andam a humilhar em grande há vários anos não vai mesmo nada, nada, nada nas próximas eleições?



É que, afinal, no meio desta confusão toda.. 
.
como se pode ler/ver aqui

Basta substituir, nesta espécie de "árvore genealógica", a palavra "caloiro" por "contribuinte", para se perceber logo como  várias coisas começam a fazer mais sentido. 
Aliás, restam-me poucas dúvidas de que esta "árvore genealógica" está na origem de diversas "praxes" a começar pela do próprio Orçamento do Estado para 2014.


Afinal, o que a "tragédia do Meco" veio lembrar foi que:

1 - anda por aí à solta gente muito perigosa, disfarçada sob várias capas, incluindo a de estudante universitário, mas que devia estar era atrás das grades;

2 - de uma certa forma, enquanto coletivo, não somos mais do que caloiros a ser praxados por um governo que lhe tomou o gosto e já não quer outra coisa;

3 - quase 40 anos depois do 25 de Abril verificamos, não sem alguma surpresa - que temos andado todos (a tal geração mais qualificada de sempre) a aprender nada mais que a sujeição ao que de pior nos podem fazer - humilhação e achincalhamento públicos -, embora sempre disfarçada por uma boa camada de placebo que dá pelo nome de liberdade individual (o tempo que as autoridades competentes demoraram a acordar do seu torpor e a começar a investigar o que verdadeiramente se passou no Meco é disso uma boa prova - ver aqui). 

Afinal, talvez seja isto o que mais nos dói quando se visionam as imagens das "praxes" aberrantes que se fazem alegre e impunemente aí pelo país fora com o beneplácito de quem nos governa: temos andado a formatar uma geração de gente submissa que está pronta até a arriscar a vida só para obedecer aso seus adorados "duxes".

E nem mil reuniões no ministério da educação, seguidas de mil reportagens chocantes nos telejornais, e mais mil "prós-e-contras" na televisão e outras tantas mil horas de debates e opiniões várias chegarão para disfarçar o mal-estar que todos sentimos perante uma situação que pôs a nu a nossa humilhante condição coletiva de "caloiros" nas mãos de quem nos tem governado, ou melhor, praxado ao longo destes últimos anos. 

E de tal forma temos andado "anestesiados" que foi preciso morrerem 6 de uma só vez naquela praia (as mortes ocorridas ao longo dos anos anteriores nunca conseguiram chamar-nos verdadeiramente a atenção) para percebermos o que nos aconteceu a nós e o que temos andado a permitir que aconteça aos jovens que são, dizem, o futuro deste país.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Tudo bons rapazes...

O árduo trabalho...

Ler aqui

e a justa recompensa...


Ler aqui
numa biografia que já leva muitos capítulos, qual deles o melhor... 
Ler aqui

Ler aqui
PS - O Martin Scorsese bem pode vir rodar o Goodfellas II a Portugal. E o III, e o IV e o V...

E por falar em cortes...

há aqui uma estranha familiaridade...

Impostos

Noticia-se aqui que o "Estado arrecada mais 3,2 mil milhões de euros só com IRS em 2013", tendo a receita do IRC "subido 803,3 milhões de euros face a 2012". Em 2014, suplantar estes números não será uma tarefa fácil para o governo mas ideias não faltam, como se pode comprovar neste registo vídeo... 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Bolero Do Coronel Sensível Que Fez Amor Em Monsanto

A assessora

O comprimento da saia que a assessora do sr. Silva usou durante a cerimónia de condecoração de CR7 é o assunto do momento nas redes sociais e na imprensa mais rosada (ler aqui) ... Já há até "especialistas em protocolo" a opinar sobre a matéria. Só falta mesmo é perguntar a opinião da Irina Shayk. Mas, não deve tardar...
Mas eu tenho cá para mim que, se calhar, as razões que levaram a senhora a escolher aqueles trapinhos são as mesmas que motivaram Björk, nos idos de 2001, a enrolar um cisne ao pescoço e a simular a célebre cena do ventilador do metro da Marilyn Monroe...

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O estado, o privado e o burro

Primeiro vêm dizer que é preciso menos estado, blá-blá-blá, blá-blá-blá... fazem a apologia da iniciativa privada e blá-blá-blá, blá-blá-blá... Mas depois, quando a iniciativa privada funciona, justamente onde o Estado já está a falhar e de que maneira - como é o caso da falta das vacinas para a gripe - vem logo esse mesmíssimo Estado dizer que não pode ser, que é ilegal e que blá-blá-blá, blá-blá-blá... Quem se lixa é que é sempre o mesmo: o burro, claro está.

Ler aqui e aqui

Se não for isto, é algo (mesmo) muito parecido - 73

Ora confiram lá num qualquer telejornal, naquele friso de emplastros que aparece sempre por detrás de qualquer ministro, se não é mesmo assim...




domingo, 19 de janeiro de 2014

Requiem pour un con




A invernia política

Depois de ler esta brilhante e inteligente afirmação (e, como sabemos, não há como um político para fazer afirmações brilhantes...)...

Imagem daqui
...comecei já a olhar para a severa invernia que se abateu sobre a lusa pátria desde há cerca de um mês com outros olhos e parece-me até que, tendo em conta a salgalhada que vai na assembleia da república sobre a questão da co-adoção e, claro, a teoria de Silvester,...

Imagem daqui
...não tardará muito a abater-se sobre nós uma seriíssima e bíblica chuva de sapos... Só pode.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Novos provérbios portugueses

Quem mais conjuga, mais sanguessuga... 

ou a pouco subtil arte de tornar o verbo "aguentar" a palavra-chave dos dias que vivemos desde há... três anos; ou ainda como já está a funcionar em pleno a máquina de preparar os espíritos da "nossa gente" (??!!) para aguentar, pelo menos, mais quatro anos de lodaçal: Há vida para além da troika, há vida com crescimento, em 2014 recuperaremos a autonomia, retomaremos a economia, em 2014 cessa o protectorado, embora não desapareçam os constrangimentos, em 2014 há um moderado lugar para a esperança, 2014 será na verdade será o primeiro ano em que se pode falar de Portugal depois da troika e da economia depois da recessão” (ler mais aqui). E o pior é que "A nossa gente" papa mesmo isto tudo...

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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O regresso do filho pródigo...

ou seja, de Portugal aos mercados.

Ao que parece, quanto mais pobrezinhos estamos, mais dinheiro nos querem emprestar (ler aqui e aqui). Regozijemos, pois! 
Rembrandt van Rijn: O Regresso do Filho Pródigo;séc XVII 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

I'm Waiting Here

Propostas para o novo ano - III

Agora que se avizinham eleições várias (europeias e, depois, legislativas) e as manobras políticas habituais para as vencer, era bom que, no dia habitualmente destinado à "reflexão" dos eleitores, este video passasse nos media a cada três minutos para recreio e ilustração popular.

Propostas para o novo ano - II

Alguém com bons contactos na antiga RDA que, por favor, providencie a compra de uns quantos destes esquis para oferecer a todos os elementos do governo e já agora, se não for pedir demais, ao Sr. Silva também. 

Imagem daqui

Propostas para o novo ano - I

A julgar pelo sucesso do museu recém-aberto na Madeira (ver aqui) proponho que se coloque uma figura de cera do CR7 a segurar um cartaz tipo "Eu adoro visitar museus" à entrada de todos os museus e galerias nacionais a ver se a coisa melhora... 
Claro está que, se a figura de cera for demasiado cara para os cortes orçamentais da cultura em 2014, uns simples posters em tamanho natural, comprados a bom preço no loja do tal museu do Funchal também servem.

Imagem daqui

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Mentir ao baldão: empate técnico

Em janeiro de 2005, o líder da oposição, José Sócrates de sua graça, prometia recuperar nada mais nada menos que 150 mil empregos perdidos nos últimos três anos pelos governos PSD/CDS-PP, mas só se se os socialistas vencessem as eleições legislativas do mês seguinte (ver aqui).

Em dezembro de 2013, Passos Coelho, mais conhecido no Face como «Pedro», veio dizer que em 2013 já criou 120 mil postos de trabalho, que afinal são apenas 22 mil, segundo o INE e este jornal aqui.

Faltou-lhe, portanto, um bocadinho assim para chegar aos números aventados por Sócrates naquela campanha eleitoral. Mas não faz mal porque um disse que ia criar os empregos se ganhasse as eleições e o outro disse que já tinha criado, mas não criou nada, embora tenha ganho as eleições. Como ambos mentiram, regista-se um empate técnico neste despique ao "baldão" entre estes dois mentirosos compulsivos que deixam o Jim Carrey de "Liar, Liar" maus lençóis como, aliás, se pode confirmar já a seguir:

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Se não for isto, é algo muito parecido - 71

Évora: 23/12/2013

Narrativa das árvores - II


Quando ainda muito jovem, todo cheio de vigor e de força, o pinheiro foi implantado na linha de dunas, mesmo de frente para o atlântico, onde lutou sem descanso, às vezes corpo-a-corpo, contra o vento enfurecido, sem nunca deixar que ele o derrubasse. Mas isso foi há tanto tempo que ele já nem sabe contar.
Passados alguns anos, com o tronco todo marcado por lanhos fundos, vergado devido ao esforço excessivo e continuado, era-lhe cada vez mais difícil enfrentar o rijo vento que, para o irritar ainda mais, insistia em lhe soprar para cima das raízes a areia fina das dunas. Quando isso acontecia, só lhe apetecia gritar até fender a grossa casca ou então fugir dali, mas sabia que as raízes enterradas bem fundo na areia compactada pelo tempo nunca lho permitiriam. Às vezes, sentia-se tão cansado que as forças lhe faltavam ainda que só por breves instantes. E foi justamente numa dessas ocasiões que o vento, sempre impiedoso para com as fraquezas alheias, o derrubou sem aviso. Prostrado, ali ficou impotente a sentir como a areia das dunas se tornava a cada dia mais insinuante e ameaçadora, consciente de que, se não fizesse algo para reverter a melindrosa situação em que se encontrava, tinha os dias contados.
Certo dia, viu aproximar-se um ser diferente de todos os que conhecia e que deslizava ligeiro pela areia quente do início da tarde, deixando atrás de si um rasto ondulante. Era uma jovem serpente que, na sua busca errante por alimento e território para se estabelecer, ali tinha vindo parar por mero acaso mas que, logo percebendo que a vida por aquelas paragens não era fácil, seguiu em frente à procura de lugares mais amenos.
Enquanto o vento lho permitiu, o pinheiro observou com atenção o estranho sulco ondulante que atravessava o dorso das dunas. E muitos dias depois de desaparecido o rasto, a imagem daquele ser estranho a deslizar graciosamente pela areia ainda continuava bem viva na sua memória. Não sabia bem explicar como nem porquê, mas parecia-lhe que aquela visão misteriosa e inusitada não acontecera por acaso, que havia ali um qualquer sinal que precisava entender. Até que, numa certa manhã de ventania, quando mais uma vez perdia o fôlego a tentar inutilmente puxar as raízes, percebeu que a estranha forma de locomoção que observara talvez fosse a resposta que procurava há muito tempo para poder escapar à traiçoeira situação em que se encontrava.
Tomou, nesse mesmo instante e sem qualquer hesitação, a decisão que lhe viria a mudar a vida para sempre. Fez um grande esforço para se alhear de tudo o que o cercava, sobretudo do vento que o vinha provocar a todas as horas do dia ou da noite, e começou a concentrar-se mas, pela rigidez entorpecida do tronco tombado, logo compreendeu que não seria fácil. Por isso, redobrou a sua determinação, feita de teimosia, convicção e vontade de vencer e percebeu que a cada dia que passava conseguia chegar um tudo nada mais longe.
Até que, num luminoso dia de abril, sentiu estalar a casca de uma forma estranha e viu que uma escama larga e arredondada se formava lentamente... Logo se sentiu tomado por uma súbita e intensa alegria que lhe percorreu o cerne e o sacudiu todo até lhe deixar as agulhas a vibrar de excitação. Uma alegria como nunca havia sentido antes! Percebeu, nesse mesmo instante, que um dia conseguiria mesmo libertar-se daquele túmulo onde o vento o estava pouco a pouco a enterrar vivo, que poderia finalmente libertar-se daquela permanente obrigação de estar alerta para poder resistir e ripostar e ir ver um pouco do grande mundo que desconhecia. Ganhou então confiança e forças acrescidas para continuar o lento processo de transformação que iniciara há anos atrás.
Agora, já com o tronco bem mais oblongo e quase todo coberto de grandes escamas simétricas está cada vez mais próximo do seu objetivo único: ser, finalmente, LIVRE.