domingo, 23 de novembro de 2014

A vedeta de vaudeville e o copo de cicuta

As últimas semanas indiciam que a justiça ainda se mexe, apesar da morte anunciada por muitos. Mas, pela forma como o tem feito, mais parece que a sóbria e sensata figura de olhos vendados e balança equilibrada no braço firme, participou num qualquer episódio do Extreme Makeover de onde saiu transformada em vedeta de vaudeville, assim meio esgrouviada e um tanto galdéria, agitando máscaras suspensas de um bastão num número musical de gosto duvidoso, mas de grande efeito mediático. Permanentemente rodeada por um batalhão descontrolado de jornalistas, fotógrafos e câmaras de televisão que, pasme-se, sabem sempre antes – e se gabam disso – tudo o que está a ou vai acontecer nas mais secretas investigações policiais, circula a alta velocidade em carros de vidros fumados no que mais parece uma cena do Knight Rider...


Como se circo mediático fosse lei ou  - o que ainda é pior – justiça. Perante este cenário é legítimo perguntar: afinal, vivemos num estado de direito em que polícias e tribunais funcionam como deve ser? Ou em algum momento obscuro da nossa história - e que nos passou terrivelmente desapercebido -  nos teremos transformado numa república abananada onde a justiça se tornou linchamento mediático e desproporcionado de figuras quanto mais públicas e poderosas melhor para dar a ideia de que algo está mesmo a funcionar? Onde a investigação dos crimes parece ser conduzida e, claro, divulgada em primeira mão, pelos jornais e não pelas polícias competentes para o efeito. Com o ministério público a dar o dito por não dito ou a deixar dizer que depois logo se verá...

As últimas semanas foram férteis em grandes furos televisivos e jornalísticos, mas quantas condenações sairão dos julgamentos que se lhes seguirão, se houver julgamentos? E quantos anos demorarão esses mesmos julgamentos? E quantos recursos haverá pelo caminho até vários crimes terem, afinal, prescrito? E depois talvez ainda seja necessário repetir o próprio julgamento porque, naquele dia, alguém com responsabilidade não fez o que era suposto fazer...

Como anónima cidadã esta forma de fazer justiça em praça pública, com afirmações e acusações que se avolumam nos jornais, televisões e redes sociais de hora a hora até se transformarem numa gigantesca bola de neve que destrói tudo à sua passagem, deixa-me inquieta: e se um dia for eu a precisar da justiça ou que se faça justiça, como será? Não tendo acesso ou qualquer interesse para os media, estou mais segura do que estas figuras públicas no que à justiça diz respeito? Ou estarei ainda mais tramada porque, ao contrário destes famosos, nenhum canal de televisão me dará tempo de antena para poder declarar-me inocente ou para baralhar ainda mais as coisas?

É pois também por mim que espero que a este Sócrates – exemplo paradigmático do lado mais sombrio dos partidos políticos, sejam eles da cor que forem - não tenha sido dado agora um prematuro copo de cicuta (ler aqui).

sábado, 20 de setembro de 2014

Com tanto pedido de desculpas...

e o mais que está para vir, o melhor é arranjar já um formulário, mas em papel porque as coisas não andam boas para portais e plataformas online...




domingo, 14 de setembro de 2014

Efémera

Papagaio de fogo

Estremoz: 13/9/2014
papagaio nocturno
com promessas
de a noite incendiar

papagaio amarrado
às pedras de um chão
que não o deixa voar

papagaio com labaredas
a queimar por dentro
as lágrimas doídas
que nem sequer pode chorar

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Mortal Kombat - XI

No PS começou o Torneio Final. Os Antónios, ou melhor, Seguro e Costa como são conhecidos no jogo, já lutam no ringue com afinco. Afinal, só haverá um vencedor e só ele poderá ocupar o trono. É por isso o tudo ou nada para evitar ser banido para o Submundo.

E neste 1º round, o das federações distritais, os resultados deixam antever a dureza da refrega que virá a seguir: Seguro - 9; Costa - 10 (ler notícia aqui).

Mas o Mortal Kombat não se faz aqui só de campeões. São precisos também vastos exércitos para manter as forças do mal à distância. Torna-se imperioso reunir aliados e encontrar generais para os liderar na batalha final e ocupar os postos de vigia depois de a mesma ter terminado. E neste particular verifica-se já que Costa não só está em boa forma como luta com armas temíveis: a experiência política e a grande manha. Percebe-se, pois, que este não será um torneio fácil para o campeão em título, Seguro, mas pouco...
Presidentes de concelhias: 
Seguro - 128; Costa - 180
Presidentes de câmara:
Seguro -70; Costa - 80
(ler notícia aqui).

Certo é que, seja qual for o vencedor deste torneio, ainda não será desta que o reino fica a salvo. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

As cinquenta dores de corno de Valérie e os dentes podres de Hollande

De modo discreto, certamente para impedir alguma providência cautelar por parte do ex, Valérie Trierweiler largou nos escaparates um objeto - chamar-lhe livro é capaz de ser perigoso para a verdadeira literatura - que mais não é do que o refluxo gástrico de uma indigestão - aliás plenamente assumida, faça-se-lhe justiça por isso -, que coloca na sombra as "Cinquenta sombras de Grey" de E. L. James. 

No twitter não tardaram a surgir imagens com excertos daquilo a que na minha terra se costuma chamar uma boa "lavagem de roupa suja", num estilo de escrita conforme ao conteúdo, como convém.

Imagem retirada do Twitter

E, à catadupa dos aspectos mais sórdidos, segue-se agora a contra-sequência dos excertos elogiosos, como este retirado do L'Express, ou não houvesse bons assessores de imagem no palácio do Eliseu, nos quais a imagem de vingadora-rotweiller da senhora sai um bocadinho amachucada. Parece até que, das duas uma: ou, na sua juventude, a senhora leu demasiados romances de amor ao melhor estilo "Biblioteca das Moças", de que a França tem longa tradição, ou então anda a praticar umas coisinhas novas no "quarto vermelho da dor" para ver se reconquista o Hollande, que é capaz de já andar um bocado farto de croissants...



Ridículos e podres à parte, e mesmo a 20 euros, certo é que o livro vai vender-se como milho porque se há coisa que o povinho gosta é de espreitar alcovas pelo buraco da fechadura e aqui a porta está escancarada. Será um "best seller" pelas piores razões.

Parece-me que a traição Hollande - coisa, enfim, tão banal - se tornou afinal o grande erro da sua vida: perdeu uma companheira e cúmplice verdadeiramente à sua altura política, a qual, como se sabe, não é muita e a história dos "sans dents" (ler aqui) é disso um excelente exemplo. Agora, vai ter que dar mais voltas à cabeça para descobrir a chamada "saída airosa". Sim, que a França diz-se agora "chocada", mas todos sabemos como nestas coisas de políticos e de política a memória do povo é fraquinha, fraquinha...

De qualquer forma, Trierweiler fecha a silly season com chave de ouro. O pessoal tem entretenimento que chegue para uns tempos e os políticos, incluindo o Hollande e a sua pandilha, agradecem, reconhecidos, a folga.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Tesourinhos imprevistos - I

A TAP, num outro mês de agosto, com mais "ativos" e certamente com menos "exigências operacionais" ou, quem sabe, talvez com menos portugueses "a viver acima das suas possibilidades" (ler aqui). 

Anúncio publicado no jornal Público em agosto de1999

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Elucubrações sobre as primárias do PS

Em primeiro lugar há que destacar o discreto regresso do partido ao socialismo científico, não o de Marx,  claro está, que esse continua bem guardado na gaveta, mas a algo cientificamente ainda mais avançado... É que este partido extraordinaire conseguiu fazer aquilo que a empresa americana de criopreservação Alcor (ler aqui) anda afincadamente a tentar sem sucesso desde 1967: ressuscitar os mortos.

Imagem daqui

Imagem daqui

Mas há mais:. No PS, o futuro - entenda-se, as legislativas de finais de 2015 - é já agora. Senão vejamos: os outdoors espalhados pelo país anunciam a eleição do "candidato a primeiro-ministro", algo que, só por si, já constitui um salto temporal significativo. Mas, a julgar pelos segundos 0:07 a 0:09 do spot publicitário do António Costa apelando à inscrição e ao voto na sua candidatura, trata-se mesmo é de eleições legislativas antecipadas: "trata-se de escolher quem será o próximo primeiro-ministro", diz o candidato sem qualquer pudor, com as cores da bandeira nacional em fundo...certamente para tornar a ficção mais verosímil...






Por isso, das duas, uma: ou estamos perante uma campanha que oscila entre a venda agressiva e a publicidade enganosa, ao melhor estilo dos produtos milagrosos que prometem fazer perder 30 Kg em dois dias, ou então trata-se mesmo é da rodagem do episódio-piloto de uma nova temporada da conhecida série de ficção científica "Flashforward"  (ver trailer aqui)...

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Ouvi o texto muito ao longe

espelho de água

contemplei o espelho das águas
e descobri-me árvore


mirei com atenção o caule lenhoso e
quedo, os ramos torcidos...

percebi-me caducifólia
mas de sombra persistente


Lisboa: agosto de 2014

terça-feira, 5 de agosto de 2014

As mulheres da minha rua: casadas, donas-de-casa e mulheres-a-dias


Évora: julho 2014

Na rua onde a minha vida esteve confinada durante décadas também havia famílias tradicionais. Várias até. Quase em frente da dona Rosa viviam duas delas: no rés-do-chão, a do polícia e, no primeiro andar do mesmo prédio, a do negociante de palhas e fenos. Em tempos de dificuldades económicas generalizadas, estes casais estavam classificados na hierarquia socio-económica da rua como remediados, embora se situassem claramente abaixo da menina Graça e da sua tradicional família de proprietários de um número considerável de habitações e lojas, cujas rendas garantiam uma vida confortável e até, situação única na rua, uma criada que, desde muito jovem, trabalhava e vivia a tempo inteiro na casa, um grande prédio de fachada sóbria mas quase imponente, quando comparada com a simplicidade e até rusticidade das restantes casas da rua.

O sinal mais evidente deste relativo desafogo financeiro era o facto de as respectivas esposas serem ambas donas-de-casa, dedicadas em exclusivo às tarefas domésticas e à criação dos filhos. E há quatro décadas atrás, esta circunstância estava ainda na origem de uma outra hierarquia, mais subtil, mas nem por isso menos importante na rua. Estas mulheres formavam uma espécie de agremiação com regras muito próprias, convivendo quase só entre si, numa cumplicidade que se queria, contudo, pública e notória pois tinha como objectivo marcar a distinção relativamente às outras vizinhas: estas donas-de-casa sentiam-se superiores às que, devido à necessidade de aconchegar a economia doméstica, saíam todas as manhãs para trabalhar fora de casa, quase sempre como mulheres-a-dias. Para além de ser exclusivamente feminina, era também mais perversa, uma vez que se estendia à própria prole que brincava com as bonecas nos poiais das portas ou ao esconder pelas esquinas e ombreiras das ruas adjacentes, demarcando territórios exclusivos e intransponíveis. Certas vizinhas - como a dona Alice por exemplo, que fazia limpezas numa repartição pública, não integrando este restrito microcosmo -, eram contudo toleradas na sua órbita porque aceitavam funcionar como satélites de transmissão, levando e trazendo as mais recentes novidades e rendilhados detalhes sobre a vida alheia a qualquer hora do dia e sobretudo ao serão, nos umbrais das portas, quando as noites quentes propiciavam longas e ciciadas conversas, naquilo que mais não era do que a forma expedita de as donas-de-casa evitarem expor-se demasiado no seu afã de obter as informações que lhes permitiam depois emitir juízos de valor infalíveis e definitivos sobre todos os habitantes das redondezas.

Para com todas as que, por falta de disponibilidade ou de paciência, ou até por feitio, não se deixavam enredar nesta teia de pequenos poderes, a atitude da dona Dulce e da dona Esperança, como se chamavam, era substancialmente distinta, sendo notório o ligeiro ar de desdém com que observavam as vizinhas que logo de manhã bem cedo desciam a rua, apressadas, a caminho do trabalho, cumprimentando-as com um certa condescendência e vincando, com aquela presença ociosa à janela, o estatuto social que acreditavam ser não apenas diferenciado, mas sobretudo superior: afinal, elas eram as únicas esposas da rua que não precisavam trabalhar fora de casa.

Também as filhas de ambas, de idades muito próximas e, ao tempo, ainda miúdas de escola primária, já levavam muito a sério esta condição de meninas-mais-bem-que-as-outras-meninas-da-mesma-idade que então viviam na rua e cuja convivência devia ser evitada o mais possível por serem mais pobres do que elas. Por isso, brincavam juntas nas respectivas casas ou à tardinha no poial da porta, sempre sob a vigilância atenta de uma das mães, não fosse alguma das outras crianças, que durante as férias de verão corriam livremente e aos berros rua acima e rua abaixo durante todo o dia, intrometer-se ou mesmo molestá-las, quem sabe?. Nunca, em todos aqueles anos de infância e pré-adolescência, as vi correr uma única vez pela rua fora, certamente para não desobedecerem às zelosas mães que consideravam tão radical actividade coisa muito pouco própria de meninas-de-bem. Na verdade, o máximo que lhes estava permitido era caminhar sempre ao lado das mães, com passinhos curtos, muito compostas e compenetradas nos seus vestidinhos rodados feitos pela modista, mais parecendo adultas em miniatura.

Neste território social tão bem demarcado o domingo constituía, sem dúvida, o ponto alto da semana pois a missa do meio-dia em Santo Antão, antecedida da catequese que ambas as raparigas  frequentavam, significava quase sempre estrear um novo vestido. E durante a manhã era vê-las, a subir e a descer a rua, coisa que durante a semana não faziam justamente para se distinguirem das restantes crianças, sem que houvesse qualquer motivo aparente que justificasse tão inusitada azáfama, muitas vezes sob o olhar enternecido das mães que, das janelas, observavam a impecável compostura da sua descendência. Embora a passadeira vermelha não passasse aqui de tosca calçada de granito, tratava-se na verdade de um desfile que procurava cumprir dois objectivos: para as mães, era uma forma de mostrar a toda a vizinhança que tinham a folga financeira suficiente que lhes permitia, para além de manter as esposas em casa, mandar fazer vestidos para as filhas a um ritmo quase semanal – algo que nenhuma das outras famílias podia proporcionar às suas crianças senão uma ou duas vezes por ano, se as coisas corressem bem  – para as filhas, significava fazer pirraças disfarçadas à miudagem da zona, que as gozava impiedosamente por serem tão empertigadas, ou, como então dizíamos, porque tinham a mania.

Só bem mais tarde, quando as correrias loucas nas férias de verão se foram tornando menos frequentes e começámos a apreciar com olhos adolescentes as roupas que vestíamos é que este rito dominical nos permitiu perceber até que ponto não éramos, de facto, todos iguais naquela rua. E foi então que, certamente apercebendo-se dessa nossa insidiosa consciência, as duas raparigas passaram a exibir-se ainda mais orgulhosas a cada semana que passava como se estivessem cientes de que, apesar da chacota de que tinham sido alvo, afinal, sempre tinham sido elas o centro daquele pequeno mundo. Uma delas, a Julinha, como lhe chamavam, ganhou mesmo o hábito de caminhar tão empertigada pela rua como se tivesse todas as vértebras coladas, de cabeça muito levantada e ligeiramente inclinada para um lado, olhando sempre em frente e para cima, como se à sua volta nada importasse ou sequer existisse.

Ora, andar assim numa cidade de ruas sinuosas, com calçadas irregulares rematadas por lancis mal acabados é, no mínimo, imprudente.Algo que ficou, aliás, sobejamente demonstrado no dia em que a menina Júlia, então já com uns dezassete anos, tal como eu, ao seguir para a missa dominical - talvez envergando mais um novíssimo vestido rodado – se estatelou com espalhafato, mas certamente em grande estilo, debaixo das arcadas e foi necessário chamar uma ambulância que a levasse ao hospital onde descobriu que tinha partido o tornozelo. Lembro-me ainda da onda de ohs e de ahs espantados que atravessou a rua de ponta a ponta pelo infortúnio da menina Júlia. Logo a uma menina tão ajuízadinha e bem comportada! se fosse uma dessas rufias que anda na rua o dia inteiro, ainda se percebia, agora a Julinha, coitadinha, não merecia!... Só que o Fado, como é sabido, foi sempre uma divindade caprichosa... 

Ainda hoje recordo, com o mesmo irreprimível sorriso de então, a forma como a  pesada e desengraçada bota de gesso estragava irremediavelmente a estreia de qualquer vestido, por melhor que fosse a modista, e como o saltitante catwalk em duas canadianas refreou um pouco as peneiras amaneiradas da menina Júlia e me deixou cá a pensar que em algum estranho e remoto lugar do universo, afinal, havia uma coisa chamada “justiça poética”. Cruel, sem dúvida, mas eficaz. Algo fundamental quando na adolescência se tem de encarar o futuro com borbulhas no rosto*...

* Verso da canção “Não há estrelas no céu”, do álbum Mingos & Os Samurais de Rui Veloso, lançado em 1990.