terça-feira, 2 de setembro de 2014

Elucubrações sobre as primárias do PS

Em primeiro lugar há que destacar o discreto regresso do partido ao socialismo científico, não o de Marx,  claro está, que esse continua bem guardado na gaveta, mas a algo cientificamente ainda mais avançado... É que este partido extraordinaire conseguiu fazer aquilo que a empresa americana de criopreservação Alcor (ler aqui) anda afincadamente a tentar sem sucesso desde 1967: ressuscitar os mortos.

Imagem daqui

Imagem daqui

Mas há mais:. No PS, o futuro - entenda-se, as legislativas de finais de 2015 - é já agora. Senão vejamos: os outdoors espalhados pelo país anunciam a eleição do "candidato a primeiro-ministro", algo que, só por si, já constitui um salto temporal significativo. Mas, a julgar pelos segundos 0:07 a 0:09 do spot publicitário do António Costa apelando à inscrição e ao voto na sua candidatura, trata-se mesmo é de eleições legislativas antecipadas: "trata-se de escolher quem será o próximo primeiro-ministro", diz o candidato sem qualquer pudor, com as cores da bandeira nacional em fundo...certamente para tornar a ficção mais verosímil...






Por isso, das duas, uma: ou estamos perante uma campanha que oscila entre a venda agressiva e a publicidade enganosa, ao melhor estilo dos produtos milagrosos que prometem fazer perder 30 Kg em dois dias, ou então trata-se mesmo é da rodagem do episódio-piloto de uma nova temporada da conhecida série de ficção científica "Flashforward"  (ver trailer aqui)...

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Ouvi o texto muito ao longe

espelho de água

contemplei o espelho das águas
e descobri-me árvore


mirei com atenção o caule lenhoso e
quedo, os ramos torcidos...

percebi-me caducifólia
mas de sombra persistente


Lisboa: agosto de 2014

terça-feira, 5 de agosto de 2014

As mulheres da minha rua: casadas, donas-de-casa e mulheres-a-dias


Évora: julho 2014

Na rua onde a minha vida esteve confinada durante décadas também havia famílias tradicionais. Várias até. Quase em frente da dona Rosa viviam duas delas: no rés-do-chão, a do polícia e, no primeiro andar do mesmo prédio, a do negociante de palhas e fenos. Em tempos de dificuldades económicas generalizadas, estes casais estavam classificados na hierarquia socio-económica da rua como remediados, embora se situassem claramente abaixo da menina Graça e da sua tradicional família de proprietários de um número considerável de habitações e lojas, cujas rendas garantiam uma vida confortável e até, situação única na rua, uma criada que, desde muito jovem, trabalhava e vivia a tempo inteiro na casa, um grande prédio de fachada sóbria mas quase imponente, quando comparada com a simplicidade e até rusticidade das restantes casas da rua.

O sinal mais evidente deste relativo desafogo financeiro era o facto de as respectivas esposas serem ambas donas-de-casa, dedicadas em exclusivo às tarefas domésticas e à criação dos filhos. E há quatro décadas atrás, esta circunstância estava ainda na origem de uma outra hierarquia, mais subtil, mas nem por isso menos importante na rua. Estas mulheres formavam uma espécie de agremiação com regras muito próprias, convivendo quase só entre si, numa cumplicidade que se queria, contudo, pública e notória pois tinha como objectivo marcar a distinção relativamente às outras vizinhas: estas donas-de-casa sentiam-se superiores às que, devido à necessidade de aconchegar a economia doméstica, saíam todas as manhãs para trabalhar fora de casa, quase sempre como mulheres-a-dias. Para além de ser exclusivamente feminina, era também mais perversa, uma vez que se estendia à própria prole que brincava com as bonecas nos poiais das portas ou ao esconder pelas esquinas e ombreiras das ruas adjacentes, demarcando territórios exclusivos e intransponíveis. Certas vizinhas - como a dona Alice por exemplo, que fazia limpezas numa repartição pública, não integrando este restrito microcosmo -, eram contudo toleradas na sua órbita porque aceitavam funcionar como satélites de transmissão, levando e trazendo as mais recentes novidades e rendilhados detalhes sobre a vida alheia a qualquer hora do dia e sobretudo ao serão, nos umbrais das portas, quando as noites quentes propiciavam longas e ciciadas conversas, naquilo que mais não era do que a forma expedita de as donas-de-casa evitarem expor-se demasiado no seu afã de obter as informações que lhes permitiam depois emitir juízos de valor infalíveis e definitivos sobre todos os habitantes das redondezas.

Para com todas as que, por falta de disponibilidade ou de paciência, ou até por feitio, não se deixavam enredar nesta teia de pequenos poderes, a atitude da dona Dulce e da dona Esperança, como se chamavam, era substancialmente distinta, sendo notório o ligeiro ar de desdém com que observavam as vizinhas que logo de manhã bem cedo desciam a rua, apressadas, a caminho do trabalho, cumprimentando-as com um certa condescendência e vincando, com aquela presença ociosa à janela, o estatuto social que acreditavam ser não apenas diferenciado, mas sobretudo superior: afinal, elas eram as únicas esposas da rua que não precisavam trabalhar fora de casa.

Também as filhas de ambas, de idades muito próximas e, ao tempo, ainda miúdas de escola primária, já levavam muito a sério esta condição de meninas-mais-bem-que-as-outras-meninas-da-mesma-idade que então viviam na rua e cuja convivência devia ser evitada o mais possível por serem mais pobres do que elas. Por isso, brincavam juntas nas respectivas casas ou à tardinha no poial da porta, sempre sob a vigilância atenta de uma das mães, não fosse alguma das outras crianças, que durante as férias de verão corriam livremente e aos berros rua acima e rua abaixo durante todo o dia, intrometer-se ou mesmo molestá-las, quem sabe?. Nunca, em todos aqueles anos de infância e pré-adolescência, as vi correr uma única vez pela rua fora, certamente para não desobedecerem às zelosas mães que consideravam tão radical actividade coisa muito pouco própria de meninas-de-bem. Na verdade, o máximo que lhes estava permitido era caminhar sempre ao lado das mães, com passinhos curtos, muito compostas e compenetradas nos seus vestidinhos rodados feitos pela modista, mais parecendo adultas em miniatura.

Neste território social tão bem demarcado o domingo constituía, sem dúvida, o ponto alto da semana pois a missa do meio-dia em Santo Antão, antecedida da catequese que ambas as raparigas  frequentavam, significava quase sempre estrear um novo vestido. E durante a manhã era vê-las, a subir e a descer a rua, coisa que durante a semana não faziam justamente para se distinguirem das restantes crianças, sem que houvesse qualquer motivo aparente que justificasse tão inusitada azáfama, muitas vezes sob o olhar enternecido das mães que, das janelas, observavam a impecável compostura da sua descendência. Embora a passadeira vermelha não passasse aqui de tosca calçada de granito, tratava-se na verdade de um desfile que procurava cumprir dois objectivos: para as mães, era uma forma de mostrar a toda a vizinhança que tinham a folga financeira suficiente que lhes permitia, para além de manter as esposas em casa, mandar fazer vestidos para as filhas a um ritmo quase semanal – algo que nenhuma das outras famílias podia proporcionar às suas crianças senão uma ou duas vezes por ano, se as coisas corressem bem  – para as filhas, significava fazer pirraças disfarçadas à miudagem da zona, que as gozava impiedosamente por serem tão empertigadas, ou, como então dizíamos, porque tinham a mania.

Só bem mais tarde, quando as correrias loucas nas férias de verão se foram tornando menos frequentes e começámos a apreciar com olhos adolescentes as roupas que vestíamos é que este rito dominical nos permitiu perceber até que ponto não éramos, de facto, todos iguais naquela rua. E foi então que, certamente apercebendo-se dessa nossa insidiosa consciência, as duas raparigas passaram a exibir-se ainda mais orgulhosas a cada semana que passava como se estivessem cientes de que, apesar da chacota de que tinham sido alvo, afinal, sempre tinham sido elas o centro daquele pequeno mundo. Uma delas, a Julinha, como lhe chamavam, ganhou mesmo o hábito de caminhar tão empertigada pela rua como se tivesse todas as vértebras coladas, de cabeça muito levantada e ligeiramente inclinada para um lado, olhando sempre em frente e para cima, como se à sua volta nada importasse ou sequer existisse.

Ora, andar assim numa cidade de ruas sinuosas, com calçadas irregulares rematadas por lancis mal acabados é, no mínimo, imprudente.Algo que ficou, aliás, sobejamente demonstrado no dia em que a menina Júlia, então já com uns dezassete anos, tal como eu, ao seguir para a missa dominical - talvez envergando mais um novíssimo vestido rodado – se estatelou com espalhafato, mas certamente em grande estilo, debaixo das arcadas e foi necessário chamar uma ambulância que a levasse ao hospital onde descobriu que tinha partido o tornozelo. Lembro-me ainda da onda de ohs e de ahs espantados que atravessou a rua de ponta a ponta pelo infortúnio da menina Júlia. Logo a uma menina tão ajuízadinha e bem comportada! se fosse uma dessas rufias que anda na rua o dia inteiro, ainda se percebia, agora a Julinha, coitadinha, não merecia!... Só que o Fado, como é sabido, foi sempre uma divindade caprichosa... 

Ainda hoje recordo, com o mesmo irreprimível sorriso de então, a forma como a  pesada e desengraçada bota de gesso estragava irremediavelmente a estreia de qualquer vestido, por melhor que fosse a modista, e como o saltitante catwalk em duas canadianas refreou um pouco as peneiras amaneiradas da menina Júlia e me deixou cá a pensar que em algum estranho e remoto lugar do universo, afinal, havia uma coisa chamada “justiça poética”. Cruel, sem dúvida, mas eficaz. Algo fundamental quando na adolescência se tem de encarar o futuro com borbulhas no rosto*...

* Verso da canção “Não há estrelas no céu”, do álbum Mingos & Os Samurais de Rui Veloso, lançado em 1990.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Critérios de (in)justiça

Uma conhecida alegoria apresenta a Justiça como uma mulher cega segurando uma balança. Embora seja totalmente contra a discriminação de pessoas com deficiência, parece-me que, no caso particular da justiça e tendo em conta o que vai por este país fora, talvez fosse melhor dar o emprego a outra pessoa.

Talvez assim se evitassem alguns ridículos constrangimentos, para além das perdas de tempo e de dinheiro dos nossos impostos... Felizmente que, no tribunal de Faro, alguém parecia ter os olhos um pouco mais abertos... (ler notícia aqui)



segunda-feira, 16 de junho de 2014

Metáforas (quase) naturais - XVIII

Évora: junho de 2014



















metafísica

talvez
amar o infinito 
seja a única forma
de conseguir acreditar
que o caminho não tem fim

ainda que o fim do caminho 
esteja à vista

domingo, 15 de junho de 2014

As mulheres da minha rua: viúvas, solteiras e malcasadas

Évora: junho de 2014
Ao primeiro olhar, a rua estreita e quase sinuosa parece continuar igual ao que sempre foi: pacata, pitoresca, uma das muitas que constituem o labirinto histórico da cidade, por onde os visitantes vagueiam olhando para os lados e para cima, a encher a memória das câmaras digitais de cores, ângulos e imagens. Ou, pelo menos, é essa a ideia vendida pelos folhetos turísticos que todos eles levam na mão. Mas eu, que a conheço por dentro quase desde que nasci, nem preciso olhar uma segunda vez para saber que a velha rua está hoje tão desbotada pela passagem do tempo como uma daquelas fotografias de infância que guardo no canto mais sombrio da velha cómoda. As casas, apertadas umas contra as outras, como que a encolherem-se para caberem no espaço estreito, estão na sua maior parte vazias, abandonadas à sua sorte. As paredes espessas, de onde o vento e a chuva desprendem caliça, estão repassadas de humidade e sobre algumas vai alastrando uma película de caruncho que deixa no ar um leve odor a bafio e a decomposição. E há sobretudo um grande silêncio que amplifica os sons da cidade, sobretudo os mais banais, fazendo-os ecoar demasiado estridentes. Do bulício doméstico que preenchia os dias da gente que aqui fez a sua vida e há muito deixou este plano da existência já só restam memórias dispersas, alguns nomes e pequenos fragmentos de estórias nem sequer muito originais.

Lembro-me bem da dona Alice, viúva desde os quarenta e picos, com uma única filha então já adulta e com família constituída, que inventou para si própria o título de “mulher mais asseada da rua” e fez da pública e inequívoca demonstração desse seu convencimento a grande razão de existir. Durante muitos anos evitou até usar a canalização da própria casa para os despejos que, certamente, aí acumulariam uma sujidade difícil de eliminar. Por isso, ao longo do dia, juntava num balde as águas sujas da casa e, ao início da noite, quando toda a gente estava recolhida para jantar, ia despejá-lo perto da sarjeta situada a menos de vinte metros, evitando fazer barulho. Depois voltava quase rente às paredes e fechava a porta muito devagar para não chamar a atenção dos vizinhos. Apesar de todos estes cuidados a verdade é que, com o passar dos anos, o peculiar hábito que ela tanto queria secreto acabou por se tornar conhecido, motivando de imediato ásperas críticas por parte das vizinhas que, a qualquer hora do dia, mantinham em surdina frequentes e longas conversas entreportas, e diz ela que é asseada, faria se não fosse, atirava uma, enquanto a outra logo acrescentava em voz baixa, depois de olhar de través na direção da janela da dona Alice não fosse ela aparecer de repente e perceber que era o tema da conversa, ela nem faz comida para não sujar a cozinha, anda a pão e queijo dias seguidos para não perder tempo e poder limpar a casa de cima a baixo, coitada, aquilo é doença com certeza..., cuidado que ela está à porta e percebe..., bom dia dona Alice, como está hoje a senhora... ah, estava mesmo agora a comentar com a  vizinha Joana que não há porta tão limpa como a sua aqui nas redondezas, até dá gosto ver...

Claro que as coisas azedaram no dia em que a dona Alice, certamente para evitar que o intenso e característico odor de coentros, alho e azeite interferisse com o perfume de lixívia impregnado nas paredes, resolveu despejar os restos de caldo de uma açorda junto à porta da vizinha da frente logo depois do almoço, e não ao serão, junto à sarjeta, como lhe era habitual. Apanhada em flagrante, o mínimo que se pode dizer é que viu logo ali a sua reputação de fada da vassoura de piaçaba a andar às arrecuas, enxovalhada que foi pelos impropérios que a outra não se coibiu de lhe atirar à cara em alto e bom som e os quais ela, silenciada não pelo peso na consciência, mas pela humilhação de ter sido descoberta - e logo por aquela pelintra que só lava o degrau da porta de mês a mês, ou nem isso -, nem tentou refutar, fechando-se de imediato em casa para não voltar a ser vista durante o resto do dia e evitando vir à rua nos seguintes não fosse ter algum mau encontro e sujeitar-se a novo vexame. Contudo, nem esse incidente lhe moderou o ímpeto higiénico e, fizesse sol ou um frio de rachar, a dona Alice lá continuou a lavar meticulosamente o degrau de mármore da porta duas vezes por dia numa espécie de ritual que, dependendo do número de transeuntes e grau de interesse dos mexericos mais recentes, se podia estender por várias horas ou ocupar mesmo toda uma tarde até quase ao anoitecer. As próprias pedras da calçada junto ao rés-do-chão onde vivia, situado quase a meio da rua, no lado dos números ímpares, eram vigorosamente esfregadas uma a uma com uma vassoura rija, cujo cabo de madeira mandava cortar de propósito para ter que se dobrar como se andasse na monda. Décadas deste árduo labor acabaram por lhe curvar as costas a ponto de, por fim, não conseguir sequer endireitar-se, mas a larga cópia de informações sobre a vida de todas as almas da vizinhança e arredores que assim conseguiu acumular e divulgar pareceu sempre compensar-lhe largamente o desaire.

No primeiro andar da casa da dona Alice vivia a menina Graça, que era também sua senhoria. À beira já dos quarenta, era a única mulher numa ninhada de sete irmãos e até então apenas se lhe conhecera uma única paixão na vida: o vizinho solteiro que vivia com a mãe no extremo da linha de casas, mas no lado dos números pares. Funcionário de uma companhia de seguros, sempre impecável no seu fato e gravata, educado e muito discreto, cumpria horários tão regulares que todos na rua sabiam a que horas a menina Graça interromperia por instantes os seus muitos afazeres domésticos para se debruçar numa das sacadas e testemunhar a chegada do cobiçado solteiro para almoçar. Na vizinhança, este interesse era conhecido e até comentado, mas nunca se chegou a saber se o pretendido também sabia disso e fazia questão de ignorar a quase ostensiva presença feminina que assim o espiava às claras, ou se ele nunca sequer reparou ou se interrogou sobre o motivo por que ela estava ali, sempre omnipresente na hora exacta em que ele regressava a casa. Embora a menina Graça até fosse aquilo a que então se chamava um bom partido, pois era herdeira de uma família abastada, certo é que nunca o pretendido mostrou qualquer sinal de reconhecimento, menos ainda de interesse por ela. Mas nem por isso o impulso amoroso da menina Graça esmoreceu. Apenas, com o decurso dos anos, se foi tornando uma espécie de hábito adquirido que ela mantinha de forma instintiva enquanto, ao mesmo tempo, respondia às interpelações da criada que a ajudava nas tarefas domésticas, virando apenas ligeiramente o rosto para dizer vou já, vou já, sem nunca desviar o olhar vigilante do fundo da rua.

Na rua morava também a dona Rosa, que andava já na casa dos cinquenta anos, mas cujo rosto revelava ainda traços evidentes de uma beleza que, em seu tempo, devia ter dado a volta à cabeça de muito rapaz. Sempre com o cabelo pintado e muito bem arranjado, de saia travada pelo joelho, morava sozinha numa espécie de parcela de casa, constituída apenas por uma estreita divisão em cada um dos dois pisos, contígua às casas da dona Alice e da menina Graça, de quem, aliás, também era inquilina. Situada mesmo a meio da rua, tinha ainda a particularidade de possuir um poial de granito com pelo menos meio metro de altura a que era literalmente necessário trepar para poder alcançar o puxador de uma dupla meia porta, única forma de conseguir arejar o acanhado interior, permitindo ao mesmo tempo a entrada de luz. Ninguém lhe conhecia profissão e o seu estado civil era obscuro mas, na rua, constava que estava separada do marido há muitos anos. Certo é que, numa época em que todas as vizinhas ainda davam uso à roupa branca dos enxovais pacientemente acumulados na mocidade, com ou sem entremeios de renda e bordados mais ou menos elaborados, dependendo das possibilidades financeiras e habilidade de mãos de cada uma para a costura, a exuberante paleta de cores e padrões dos lençóis de compra que a dona Rosa secava no estendal deixava a vizinhança em alvoroço, pois era vista como um sinal de descarada modernice e óbvio desafogo financeiro. Sempre estendidos bem abertos e ao comprido, como se quisesse que todas as vizinhas os pudessem apreciar e comentar, faziam-me lembrar coloridos penachos de aves ondulando em ostensiva parada nupcial. Mas esse esparramar de cores e padrões devia-se às nocturnas e regulares visitas de certo senhor de meia-idade. Aliás, o número de vezes que o estendal se enchia de lençóis permitia às vizinhas manter uma contabilidade actualizada dessas visitas e algumas afirmavam mesmo que todas as semanas ela estreava roupa de cama, coisa que, à época, raiava o quase-escandaloso. Já do seu visitante nocturno apenas sabiam que era negociante de gado, casado e pai de filhos, o que fazia da dona Rosa a sua amante oficial, com casa posta e total dependência da sua generosidade e disponibilidade financeira. Uns anos mais tarde, com a morte abrupta do amante, o estendal da dona Rosa perdeu muita da sua exuberância, da mesma forma que ela perdeu o desafogo financeiro. O que lhe vale é ter sabido aproveitar o bom tempo, dizia-se na rua à boca pequena e foi certamente esse pé-de-meia que lhe permitiu subsistir com um mínimo de dignidade ainda durante algum tempo até ser forçada a mudar-se de vez para casa de uma irmã.


Destas três mulheres, já só uma está viva, a dona Alice, internada num lar há vários anos. Nunca mais voltou à casa que lavou e limpou obsessivamente durante décadas. E, a julgar pela sujidade acumulada nos cantos do degrau da porta, é melhor assim. Novos inquilinos e proprietários tomaram conta das casas onde estas três mulheres viveram, mas o certo é que a rua me parece mais vazia a cada ano que passa. E, se há trinta anos atrás todas elas me irritavam profundamente por não conseguir entrar ou sair de casa, a qualquer hora do dia ou da noite, sem que pelo menos uma delas desse conta e viesse logo à janela ou à porta passar-me uma minuciosa revista ocular que me deixava sempre a desconfortável sensação de ter sido apanhada em flagrante sem ter feito nada de errado, hoje, entendo-as melhor e olho para as suas vidas de outra forma, talvez até com uma certa nostalgia, de tal forma que, quando às vezes subo a rua e já ninguém aparece a espreitar-me como antes, sinto até a sua falta. Pior que isso, com o desaparecimento destas personagens e das suas idiossincrasias, a verdade é que a rua perdeu a sua verdadeira alma e tornou-se igual a tantas outras da cidade: vazia, decadente, a manter uma pose forçada para os turistas ocasionais que lhe tiram retratos enquanto fazem dela rota de passagem para destinos mais apelativos. À espera do fim. 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Se não for isto, é algo muito parecido - 82


Évora: junho 2014
Está aí a vaga das hortas urbanas: no quintal - próprio ou do vizinho -, em loteamentos municipais, na varanda... um pouco por toda a parte e com grande sucesso. Há até as chamadas hortas verticais que trepam pelas paredes das casas, justamente para poupar espaço ou para quando ele está a menos. Encontrei este belíssimo exemplo numa rua do centro histórico de Évora. E bem prático por sinal: apetece um figo para a sopa de tomate do almoço? é só chegar à janela, estender o braço e colher... Isto é que é qualidade de vida!

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Os ratos são sempre os primeiros a abandonar o porta-aviões: provérbio ilustrado

Mais uma vez fica demonstrado que os ratos são sempre os primeiros a abandonar o porta-aviões (ler aqui), sobretudo quando lhes chega às narinas o odor das feromonas do poder, e é vê-los a saltar para ver se ali ao lado o banquete tem mais e melhores migalhas...



Ler aqui

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Dois novos provérbios portugueses

1.  No PS quem festeja vitória, logo passa à estória.


Imagem daqui

2. Dois galos e um poleiro, algazarra no galinheiro.

Imagem daqui

domingo, 25 de maio de 2014

Questões de género: a mulher barbuda


Évora: 25/5/2014

Deparei hoje com esta Marisa Wurst Matias num rua de Évora... e logo me pareceu evidente a relação de sentido feita na cabeça de quem fez isto entre poder e autoridade / homem de barba e bigode.

Ainda para mais se atendermos ao slogan da campanha, constituído por um ato ilocutório diretivo que exprime a vontade da candidata, e do partido que ela representa, em impelir os cidadãos eleitores a realizar uma ação não verbal, a qual, no caso em apreço, se traduziria, numa determinada opção de voto. 

Ora isto do poder e das ordens - De pé! - continua a estar muito no domínio masculino, e o escasso número de candidatas a estas eleições, sobretudo como cabeças de lista, bem o confirma. Espero, pois, que consiga ser eleita, quanto mais não seja para dar uma bela luvada de veludo a esta cambada de machistas que anda por aí à solta a poluir o ar que respiramos. 

Tenho pena de só ter visto isto depois de ter ido votar. Senão, e por uma questão de solidariedade de género, em vez do homem barbudo, tinha votado mas era na "mulher barbuda". Para o efeito não faria grande diferença.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Metáforas (quase) naturais - XVII

Estremoz: 19/5/2014

entardecer
alguns raios de luz coada
por núveo quebra-luz
suspenso nos cabos de alta tensão

quanto baste para que a noite encontre o caminho

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Descubra as diferenças

Entre a campanha para as legislativas de 2009 e a campanha que agora decorre para as europeias de 2014 o que é que mudou no estilo do PS? 

Talvez mesmo só o preço do pequeno-almoço... (ver aqui)



quinta-feira, 15 de maio de 2014

Pelos pentelhos de Matusalém,

tá-se mêmo a ver que o homem já se esqueceu de tudo aquilo que escreveu no programa deste governo...

Ler aqui

Senhoras e senhores, vai em 7 milhões...

está em 7 milhões... 
Alguém dá mais? 
7 milhões e 500 mil?
7 milhões e 500 mil...  

7 milhões e 500 mil... uma ...



E pensar que, em 2005, Sócrates prometia uns míseros...


Notícia tirada daqui

segunda-feira, 12 de maio de 2014

As dúvidas da CNE e a campanha eleitoral

Ao que parece a CNE ficou com "dúvidas" (ler notícia aqui) sobre as verdadeiras intenções do governo ao decidir apresentar, no próximo dia 17, um documento dito de "estratégia para o futuro", com o qual se pretende assinalar a suposta saída da troika do país (ler  notícia aqui). Permitam-me, senhores, que vos esclareça. É que a coisa parece complicada, mas na verdade é assaz simples de entender.

A campanha eleitoral - a que hoje se iniciou oficialmente, ou qualquer outra - é feita apenas com um único intuito:


Já a respeito do conteúdo do tal documento dito de "estratégia do governo para o futuro" também não há muito que saber...





Em circunstâncias ditas "normais" estaríamos, de facto, perante uma contradição e assim se justificariam as dúvidas existenciais da CNE: então andam os candidatos a palmilhar o país de lés-a-lés, a mostrar a cenoura ao povinho e o povinho todo contente a aplaudir nos jantares-comício e a pedir canetas e sacos de plástico e o governo já nem se dá ao trabalho de esperar pelo dia das eleições e tira a dita cenoura assim às escâncaras? Mas que é isto? Já não há decoro? 

Contudo, a CNE pode ficar tranquila. É que os profissionais da política há muito tempo perceberam que o povo é sereno. Tão sereno que, existir ou não uma cenoura na ponta da vara, é já só um mero detalhe, pois a verdade é que o povo parece que já nem precisa de cenoura. Basta-lhe apenas a vara para seguir em frente...


Por isso, a cenoura só lá está - refiro-me, é claro, à campanha eleitoral - por uma questão de tradição e porque, assim, sempre a vara tem melhor aspeto aí nos outdoors e mupis que cobrem o país de norte a sul. Não precisa, pois, a CNE de se inquietar: está tudo bem, repito, o povo é sereno e não será a varejada (mais uma) de dia 17 que vai exaltar os ânimos. Pode a CNE estar muito descansadinha que, no próximo dia 25, tudo como dantes no quartel de abrantes:

Ler notícia aqui

domingo, 30 de março de 2014

Os figurões da semana

O mestre de culinária

Especialidade: cozinha de fusão, expressão que, lida muito depressa, é, como se sabe, o que mais se assemelha a "confusão", algo que se pode definir mais ou menos assim: assegurar, na mesma frase, uma coisa e o seu contrário, como fez o líder da bancada par(a)lamentar do PSD esta semana, ao garantir que não haveria mais cortes de rendimento e que, caso os houvesse, isso seria compensado pela redução dos cortes (ler aqui). Não é petisco para estômagos fracos, não...


e a Sósia

De acordo com a notícia do jornal Correio da Manhã, a coisa passou-se mais ou menos assim:



Ler mais aqui, e se isto não for um "jornal de referência", não sei o que será...

sábado, 22 de março de 2014

A morte saiu à rua num dia assim

a inelutável presença, a única certeza


N4 - Silveiras: 15/3/2014

na clara luz de março que torna mais límpido
o granítico contorno da geometria talhada para a eternidade
na tranquila sonolência
dos seres pequenos aquecidos ao sol
no volteio da brisa que busca
os pássaros entontecidos
ou na terra encharcada de viço que transborda
pela erva acima
em tudo o que é
ou por dentro de tudo o que apenas está
sempre
a inelutável presença
das sombras

afinal
a única e nítida certeza

segunda-feira, 10 de março de 2014

Isto deve ser um dom...

Estávamos em 1997, no governo do saudoso engenheiro Guterres, e o Tozé era o Secretário de Estado da Juventude, quando a SIC criou um programa de características peculiares chamado "Cadeira do Poder", cujo apresentador era o inenarrável Artur Albarran. E não é que, logo a abrir, o Tozé foi escolhido para ser o centro de uma "notícia ficcional"? A coisa metia ainda uma "acompanhante" e um "aparatoso acidente com um carro oficial nas docas de Lisboa". Se fosse hoje, talvez esta pequena estória envolvesse também uns quantos croissants ou até um capacete Dexter... quem sabe?




Do que não há mesmo dúvida é de que o Tozé tem queda para a ficção, especialmente a humorística e, pelos vistos, a coisa até já não é de agora: ler aqui.

Imagem daqui

domingo, 9 de março de 2014

We Came Along This Road

entardecer em campo-santo

Azaruja; S. Bento do Mato, 8/3/2014

























emudece a tarde na caliça do tempo
absorta
como se contemplasse 
o vagaroso esmaecer
das flores de plástico
sobre a pedra alva

alheada até dos que por ali
também eles entardecem
e que 
por tão tarde ser
já só podem esquecer

até que por fim
também ela parece adormecer

terça-feira, 4 de março de 2014

Nos bastidores do Conselho Nacional do PSD

Foi à figura contundente e anárquica de Grouxo Marx que Relvas foi buscar a inspiração e o fôlego para enfrentar os companheiros do partido no passado domingo (ler aqui) e, sobretudo, para mandar recado aos come(nta)dores (de) políticos. E o que disse ele então? Pois, apenas isto:



E não é que o nosso "Grousso Relvas" já tem seguidores?! Ora aqui está um deles, apanhado a treinar uns pontapés à 'Grouxo Marx' mesmo à entrada para o dito Conselho Nacional...


Mas será da idade avançada, da baixa forma física ou da incapacidade intelectual, certo é que dificilmente conseguirá ter a mesma graça do original...



Parece que até já pediu desculpa e tudo... Coitado. Deve ter ficado de rastos quando se viu nas imagens...