quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A formiga e as cigarras ou uma espécie de fábula Par(a)lamentar

A Formiga
Imagem daqui
e as Cigarras

ou a hipocrisia de quem pensa ser esta a melhor forma de dar uma "lição de moral" ao madraço do povo... Que vos faça bom proveito, então!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Não (a)pagues o amor

A inquieta afeição

Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.

Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é abjeto, mas, em exata verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana.

As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. No próprio ato em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois "amo-te" ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstrata de impressões que constitui a atividade da alma.

Bernardo Soares, do Livro do Desassossego, 25-7-1930,
In Fernando Pessoa: o editor, o escritor e os seus leitores,
Richard Zenith (coord.), Lx: Fund. Calouste Gulbenkian, 2012

Do amor e outras inscrições

Évora: 11/2/2012
















fruto agridoce
de tenra aspereza
desatinado, apetecível

fruto enjeitado
apodrecido

caído
ou apenas adormecido

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

De passagem, a paisagem

I

EN 8: algures entre ETZ/Elvas; 12/2/2012

Atingira um silêncio tão de espanto que era todo o universo à sua volta um seduzido canto.

 II
EN 8: algures entre ETZ/Elvas; 12/2/2012

E posto que viver me é excelente cada vez gosto mais de menos gente.

Agostinho da Silva. in "Uns Poemas de Agostinho",
Lx: Ulmeiro, 1989

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Tal não está a catroika, hem?!

Tendo em conta que:
1) o homem manda no país, ou não tivesse sido ele a elaborar uma boa parte do programa do Governo.
2) o homem meteu a colher, como representante do PSD, na altura da negociação do acordo com a troika.
3) o homem esteve sempre envolvido na re-eleição do atual presidente da república que é, como todos sabemos, um pilar fundamental da nossa atual democracia.
4) o homem sabe o que mais ninguém consegue sequer  adivinhar: que a Troika é nossa amiga, pois claro.
5) o homem já sabe antes de toda a gente, até da própria troika, o que esta nos vai fazer daqui a não muito tempo...Tendo em conta tudo isto e muito mais que não sei, nem quero saber, eu diria que este homem vale todos os "pintelhos" (é mesmo assim que ele diz, é) que tem no corpo e, ou eu muito me engano, ou ainda chega a presidente da China, ou seja, do Mundo. E ainda há quem tenha o desplante de reclamar do escandaloso salário mensal que ele vai auferir na EDP!

O que eu também sei é que além de satisfazermos todas as exigências e caprichos da tal troika, e como se isso não bastasse já, ainda temos que levar com este e suas opiniões quase diariamente. Acresce a tudo isto o Miguel Relvas a garantir, do alto do seu tom pugilístico, que este governo vai fazer reformas estruturais nunca antes vista ou tentadas e que, por isso mesmo, ficarão na história (as reformas e o governo, claro).

Às vezes já dou comigo a pensar que, no meio destes iluminados todos a debitar ideias geniais ao metro cúbico, a troika até é, provavelmente, o menor dos nossos males.

Ler notícia completa aqui

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Breaking Down

A farsa da política que já nem sequer disfarça


O muito comentado episódio da conversa supostamente privada entre Vítor Gaspar e Wolfgang Schauble, captada pelos microfones dos jornalistas vem demonstrar várias coisas:


1ª) a farsa da política: tanta cimeira “ao mais alto nível”, dizem-nos, horas e horas de ponderadas e “duras negociações”, asseguram-nos, milhões gastos em viagens, segurança, logística, etc. para, afinal, as verdadeiras decisões serem tomadas assim, em conversas informais, supostamente em off, e à margem das ditas cimeiras. Até prova em contrário, se o intuito da ida do professor Gaspar à cimeira era dizer e ouvir dizer aquilo, então um simples telefonema ou uma conversa via Skype teria bastado, não?

2ª) a farsa alemã: tanta autoridade em matéria de economia e finanças, tanto raspanete aos países incumpridores (os do sul, claro!), tanta sentença para, afinal, se ficar a perceber que o todo-poderoso ministro Wolfgang Schauble não passa mas é de um paternalista convencido da sua bondade e, o que ainda é pior, de um queixinhas.

3ª) a farsa da informação: ena!, duas “conversas informais” apanhadas, por acaso, na mesma cimeira e, claro, logo divulgadas sem demora para o público, por causa da sua relevância apesar de... E claro, está-se mesmo a ver que, logo por acaso, foram “apanhadas”, justamente, as conversas de dois dos países que estão no fio da navalha dos mercados financeiros: Portugal e Espanha. E os mercados, aliás, não tardaram a reagir positivamente, apesar de … serem apenas conversas informais... E, como é óbvio, para demonstrar que esta forma de fazer informação – e política – é algo de credível logo foram acrescentados outros episódios igualmente edificantes, em que os ministros/políticos nacionais foram “apanhados” em conversas de bastidores.

Seja como for, vai tudo no mesmo sentido: São estes os homens que tomam as decisões que afetam a vida de milhões de pessoas? E é nas mãos destes homens que está o futuro do país e da própria Europa? Chiça!?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Same time, same place

Nesta altura do ano, quando a pilha de testes para corrigir fica assim...


... é tempo de rumar a abrigo seguro para sobreviver à loucura do fim de semana.

Pelo menos enquanto houver abrigo seguro ...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Ialma

Hoje, "O que eu vos posso dar, é pouco. Paciência..."

Gustav Klimt: O Bosque de Bétulas, 1903, Óleo s/ tela


























O que eu vos posso dar, é pouco. Paciência...
Das vidas que vivi, - sem a minha viver -,
Tentando, ao mesmo tempo, amar e compreender,
Somente me ficou esta amarga exp'riência:

É mais forte, afinal, o homem, sem amor,
Depois de ter amado... A solidão estimula
Um sobrenatural sorriso, que estrangula
Os gemidos que vêm das entranhas da dor.

Carlos Queirós, In Desaparecido e Outros Poemas,
Lx: Bertrand, 1950

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Do Vento

Sibila lá fora um vento gelado, alucinado, que nos deixa a pele mordida.

Este vento cospe lugares de
Fogo traz na boca cinza
Queimada onde a ignorância
Transforma a noite em esquecimento
Queima as folhas das árvores
Onde um dia escrevi este poema
De pó sobrevivente

Carlos Moura, "Último Verão", In Palavras de Vento e de Pedra,
Fundão: Encontro do Vento/Festival de Castelo Novo, 2006

Não será o inquietante Mistral que Joris Ivens tentou filmar em 1965, mas é igualmente exasperante.



terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

The problem

Não seja piegas, homem!

Ao que parece, o ministro da Economia desconhece em absoluto que o primeiro-ministro deu ontem indicação clara a todos os portugueses para que "deixem de ser piegas" (ver aqui). Só assim se justifica a forma como reagiu às críticas de que foi alvo hoje na Comissão Parlamentar de Economia! (ler notícia aqui)

E pelo tom da conversa não querem lá ver que, terminada a reunião, ainda por cima, foi fazer queixinhas ao chefe?!

A invasão asiática

Aqui há uns tempos atrás foram as lojas de norte a sul do país. Depois foi a EDP, a que logo se seguiu a REN. E não tarda outras se seguirão.

Parece que já nem as joaninhas se safam à invasão asiática...
Imagem daqui

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Mais uma boa oportunidade perdida

Face aos sacrifícios que nos estão a ser exigidos a todos os níveis, face a tudo o que já perdemos e vamos ainda perder para poder pagar a dívida colossal de um estado que é sempre o primeiro a dar o mau exemplo e a ser complacente com a desonestidade e a incompetência, acho que Passos Coelho perdeu hoje uma excelente oportunidade para ficar calado. Aliás, perdeu mais uma. (ler notícia aqui)

Dizer NÃO

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.

Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.

Diz NÃO à cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da polícia. Porque a cultura não tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, não é um modo de se descer mas de se subir, não é um luxo de «elitismo», mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.

Diz NÃO até ao pão com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pagá-lo com a renúncia de ti mesmo. Porque não há uma só forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como preço a tua humilhação.

Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código, antes de passar pela certeza do que tu sabes ser justo.

Diz NÃO à verdade que te pregam, se ela é a mentira com que te ilude o pregador. Porque a verdade tem a face do Sol e não há noite nenhuma que prevaleça enfim contra ela.

Diz NÃO à unidade que te impõem, se ela é apenas essa imposição. Porque a unidade é apenas a necessidade irreprimível de nos reconhecermos irmãos.

Diz NÃO a todo o partido que te queiram pregar, se ele é apenas a promoção de uma ordem de rebanho. Porque sermos todos irmãos não é ordenanmo-nos em gado sob o comando de um pastor.

Diz NÃO ao ódio e à violência com que te queiram legitimar uma luta fratricida. Porque a justiça há-de nascer de uma consciência iluminada para a verdade e o amor, e o que se semeia no ódio é ódio até ao fim e só dá frutos de sangue.

Diz NÃO mesmo à igualdade, se ela é apenas um modo de te nivelarem pelo mais baixo e não pelo mais alto que existe também em ti. Porque ser igual na miséria e em toda a espécie de degradação não é ser promovido a homem mas despromovido a animal.

E é do NÃO ao que te limita e degrada que tu hás-de construir o SIM da tua dignidade.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1', tirado daqui

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Eu também quero ir para o altinho, que eu daqui não vejo bem

Coisas que me abespinham, encanitam e irritam - XI

EN 18 - 5/2/2012

Este hábito português de deixar o "saquinho do lixo" na berma da estrada tira-me do sério! Sobretudo quando, como aqui, há um contentor de lixo a 500 metros, exatamente na zona que fica escondida pelo tronco do grande pinheiro que se vê à esquerda.

Aliás, nas bermas das nossas estradas, mesmo nas mais recônditas, há lixo disperso por todo o lado. Não é preciso ser muito inteligente para perceber os danos que isto pode causar em zonas que, pelas suas características, abrigam e alimentam um grande número de espécies selvagens. Estamos perante uma atitude de falta de civismo e de total desrespeito pela natureza. Exatamente o tipo de atitude que leva muito "boa gente", sempre que vai para férias ou apenas porque sim, a abandonar os animais ditos "de estimação" nessas mesmas bermas de estrada para morrerem à fome ou esborrachados no asfalto. Se calhar a mesma "boa gente" que, um destes dias e por causa da "crise", além do saquinho do lixo, também começará a deixar os filhos na berma das estradas...

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Pequenos Cisnes

A bailarina emplumada

EN 18 - 5/2/2012

Grácil, a garça caminha pela berma escalvada. A espaços, a brisa levanta-lhe as alvas penas do tutu e espreita-lhe o corpo esguio. De repente estaca, inclina a cabeça para o lado e fica imóvel como se escutasse a voz da terra. Depois, com um impulso do pescoço, recomeça a caminhada matinal. Em pontas, a nívea bailarina emplumada executa a solo, sobre o manto gelado do chão, o impiedoso bailado da sobrevivência. E dança com tanta graça que, visto assim de relance, o bailado da garça até parece fácil.

EN 18 - 5/2/2012

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Combater o frio também pode ser uma música assim

Queriam, queriam, mas...

Évora; 3/2/2012
E até se compreende porquê: por isto, isto ou ainda isto:

Tudo, claro está, depois de Vítor Gaspar ter ga-ran-ti-do no parlamento, com todas as letras, que não haveria excepções na função pública, (ver aqui). Pois, nota-se.

Ou seja, vivemos em democracia, mas lá no (des)governo há gente a pensar que alguns têm de fazer bem mais sacrifícios que outros: os que menos ganham e menos regalias têm. Não admira, pois, que nos queiram sem voz. Também é verdade que andamos todos um tanto ou quanto amarfanhados com tudo o que nos está a acontecer, mas ainda não estamos assim tão tótós quanto lhes daria jeito a eles. Ou será que estamos?

Manda quem pode, obedece quem quer: provérbio ilustrado

Imagem daqui

Há muitos anos que admiro Vasco Graça Moura. Mais por via da escrita que da política. É dos que mais tem lutado contra a aplicação cega e sem critério do novo Acordo Ortográfico. Também é dos poucos que sabe realmente do que fala, até porque o AO tem ignorantes dos dois lados da barricada. Não me surpreendeu, pois, esta notícia. É certo que ela não vai inverter o rumo das decisões políticas já tomadas, mas tem o  grande mérito de agitar as águas paradas da opinião pública portuguesa no que à defesa da cultura e da língua diz respeito.

E é bom que a discussão se faça. Sobretudo porque é preciso repensar o pseudo-Acordo Ortográfico, pois ele faz-que-simplifica, mas afinal complica, sobretudo no campo da hifenização e da acentuação. Há por lá umas excepções "consagradas pelo uso" ou por uma tal de "pronúncia culta" que enfim... Até os meus alunos, coitados, a quem eu já estou a evengelizar desde o início desde ano lectivo (pois, que remédio!), agradeciam. É caso para dizer: VGM - 1; AO - 0.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Uma mentira repetida cem vezes...

... torna-se verdadeira, dizia Goebbels, o ministro da propaganda nazi. Ao logo do tempo a história tem-lhe dado razão e, porque os tempos andam agora particularmente difíceis, parece que há quem queira estender esta máxima propagandística ao domínio da economia, a ver se pega. Os jornais foram hoje inundados de notícias como esta, esta ou esta. Claro que o intuito é convencer estes e, de caminho, justificar aos que já estão no limite ou para lá dele - nós todos - mais um belo pacote de medidas de austeridade.

Agora, a história de como é que isto lá vai com o país a cair um pouco mais na recessão a cada dia que passa é que eu gostava de ouvir contar (ver aqui). Acho que tenho de ler isto e isto pelo menos mais umas 99 vezes, a ver se eu própria começo a acreditar...

A Town Called Obsolete

Isto será genético, ou quê!?...

Primeiro enviaram-me esta imagem via mail...


Depois, lembrei-me deste vídeo,que até já é bem conhecido  e, de caminho, ainda me apareceu mais este. Esta "epidemia do macho tuga" que tomou conta do YouTube é um claro sinal da gravidade da situação e parece até indicar que, nas planícies alentejanas, a coisa já atingiu proporções catastróficas...

Assim, sorte tem o Nilton, que começou a explorar o filão do "macho tuga" há já algum tempo. É que o "material" promete ser inesgotável. Infelizmente.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

No sound but the wind

Paisagem citadina

Maria Helena Vieira da Silva: Les grandes constructions;
1956; óleo s/ tela























A pele por fulgurantes
instantes muitas vezes abre-se até onde
seria impossível que exercesse
com tão grande rigor o seu domínio.

Não temos então dela senão rápidas
visões, onde os reclames
do coração se cruzam, solitários
e agrestes, reflectidos

por trás nos ossos empedrados.
Em certas posições vêem-se as cordas
do nosso espírito esticadas num terraço.

A roupa dói-nos porque, embora
nos cubra a pele, é dentro
do espírito que estão os tecidos amarrados.

Luís Miguel Nava, In Poesia Completa 1979-1994;
Lx: Publ. D. Quixote, 2002

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Certamente em protesto contra as más condições de vida...

Ler notícia aqui
Por uma vez, parece que são os peixes a fazer junto dos homens o seu protesto! Mas "Nunca pior auditório" poderiam arranjar  as pobres criaturas pois, como dizia o Padre António Vieira, os homens falam muito, mas ouvem pouco. (In Sermão de Sto. António aos Peixes)

De qualquer forma, com tamanha "concentração", a polícia de intervenção já deve ir a caminho para fazer dispersar os manifestantes...

The Man Who Sold The World

Qualquer semelhança não é pura coincidência


Ambos "enterram" muito bem aquilo que não querem partilhar com ninguém. O problema é que, às tantas, "esquecem-se"...
(ver notícia aqui)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Hard Times

A classe média portuguesa em slow motion

Imagem daqui
Em A Classe Média: Ascensão e Declínio (agora publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos), Elísio Estanque descreve a classe média como um grupo social "doente". Na verdade, a chamada "classe média" portuguesa também nunca passou de uma ilusão alimentada durante duas décadas com crédito bancário a preço de saldo.

Desfeitos os sonhos e as expectativas, aniquilada toda a esperança de uma "mobilidade social ascendente" em consequência da subida do nível das qualificações  - tudo em nome da diminuição do défice das contas públicas - ela está agora a implodir de forma violenta e apressada. São os novos pobres: envergonhados, deprimidos e frustrados. De cabeça baixa, portanto. Como convém aos partidos do "arco do poder" que se vão alternando no (des)governo deste país.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Coisas que me abespinham, encanitam e irritam - X

Falam, falam, falam, falam mas eu não os vejo a fazer nada! Fico chateada, mas concerteza que fico chateada... sobretudo depois de ouvir a notícia repetida pelo menos umas 40 vezes num só dia e estando bem consciente de que, depois dos telejornais, dos programas da manhã e da tarde, tudo vai continuar exatamente na mesma até à próxima notícia de mais um ou dois casos idênticos.

Na verdade, estas são as notícias de um Portugal que já não está a "entristecer", como dizia Fernando Pessoa, mas sim a envilecer.

São hoje especialmente verdadeiros e até dolorosos os versos de Pessoa:"Ninguém conhece que alma tem, / nem o que é mal nem o que é bem. / (Que ância distante perto chora?) / Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Ó Portugal, hoje és nevoeiro..." ("Nevoeiro", In Mensagem, 1934)
Imagem daqui

Europa: (quase) sem chavo, mas (ainda) com chavões

Cimeira após cimeira, os líderes europeus vão repetindo os chavões costumeiros: harmonia, respeito, solidariedade e apoio entre todos os estados-membros da UE, blá-blá-blá.
Imagem daqui

O problema é que a economia em avançado estado de decomposição de alguns deles obriga os "donos da UE" a desembolsar cada vez mais €uros em benefício dos  tais PIGS e, a este ritmo, vamos ver até quando se mantém o discurso dos belos chavões europeus. E esta notícia deve ser apenas o começo...

sábado, 28 de janeiro de 2012

Regra sua pera quem quiser viver em paz

Os bons conselhos até abundam por aí, contudo ainda mais abundantes são os desmandos que nos assolam os dias e contra os quais as boas “regras” pouco podem.
















Ouve, vê e cala,
e viverás vida folgada.
Tua porta cerrarás,
teu vizinho louvarás,
quanto podes nam farás,
quanto sabes nam dirás,
quanto vês nam julgarás,
quanto ouves nam crerás,
se queres viver em paz.
Seis cousas sempre vê,
quando falares te mando:
de quem falas, onde e quê,
e a quem, como e quando.
Nunca fies nem perfies,
nem a outro injuries,
nom estês muito na praça,
nem te rias de quem passa,
seja teu tudo o que vestes;
a ribaldos nam doestes,
nam cavalgarás em potro,
nem ta molher gabes a outro;
nom cures de ser picam
nem travar contra rezam.
Assi lograrás tas cãas
com tuas queixadas sãas.

D. João Manuel
(1450?-1499?)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Paz à sua alma



Será este o programa que se segue?

Experience

Are You?

Procurar agulhas

Camilo Castelo-Branco conclui "Agulha em Palheiro" (Lx: Livraria Edª, 1928) desta forma:

"Há um anexim que diz: Procurar agulha em palheiro. É baldado empenho? Pois eu assevero que, uma vez, procurei uma, e achei-a!
E, desde então, com a minha infinita paciência, acho tudo que quero, n'este palheiro da humanidade, mormente quando os indivíduos, que procuro, têm devorado a palha, e se me apresentam a nu, - coisa que me tem acontecido mais mais vezes do que mereço a Deus."

Terminada a leitura, estava aqui a pensar como estas palavras de Camilo estavam, e estão, certas. De facto, nos "palheiros da humanidade" não é difícil encontrar "agulhas". O problema é que, vistas a "nu", elas se revelam quase sempre minadas de ferrugem por fora e, sobretudo, por dentro (o que ainda é pior). Imprestáveis, portanto. Talvez esta fosse uma boa altura para começar a procurar noutros sítios.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O "lugar do tempo" e da memória

"Lugar do tempo" realizado pelo ainda aluno do curso de Cinema na Escola Superior de Teatro e Cinema, Manuel Guerra, ganhou em 2011 o prémio "Património Imaterial" no  Concurso de Vídeo Fundação INATEL (ver aqui). Neste breve documentário pelas veredas da memória de um grupo de antigos mineiros alentejanos está contido todo o fascínio do realizador pelo Alentejo.

Numa recente entrevista ao Diário do Alentejo (ver aqui), fala da região com uma sensibilidade invulgar, embora ela não seja o seu berço. Algo que, segundo diz, lamenta. Reconheço-me nesta paixão incondicional por estas planícies tão agrestes e tão belas ao mesmo tempo, além de gostar francamente de gente que não tem medo de gostar por dentro desta terra.

Na impossibilidade de incorporar aqui o filme de Manuel Guerra fica a síntese do seu projeto:

proposição: «Em cada instante cabe o Mundo» (título de um livro de poesia de Armindo Rodrigues, publicado em 1945)


J. Boldt (1999) Pessoas 4

storyline: Um retrato colectivo de vinte mineiros reformados, que se reúnem para cantar, conviver e resistir.

sinopse: Um conjunto de vozes – umas suaves, outras roucas –, um fato de trabalho, um capacete que lhes ilumina o caminho e um lenço de cores portuguesas. São estes os elementos que constituem um dos grupos mais antigos e carismáticos da história do cantar tradicional alentejano: o “Grupo Coral do Sindicato Mineiro de Aljustrel”. Todos têm em comum serem companheiros de profissão, agora reformados que, depois de mais um dia, ganharam o hábito de se reunir para cantar. Nas suas vozes, a nostalgia oprime mas liberta: é o canto do trabalho, do amor e da memória, da luta e da resistência. «Lugar do Tempo» é um retrato do Alentejo. Uma reunião, provavelmente poética, de fragmentos e vestígios do tempo.

Argumento Ricardo Penedo | Produção Mariana Correia | Realização Manuel Guerra Imagem Ana Pires | Som Luís Nunes | Montagem Joana Góis

"A Muralha de Aço" das vozes e do balanço uníssono dos corpos:

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Poema de uma queda anunciada

"Campanha de proximidade"

Em Montalegre vestiu-se
Com uma capa de palha;
O Zé Povinho sorriu-se:
"Coitado, que Deus o valha".

Entrou em confeitarias,
Pediu pastéis de feijões;
Mas se nos toma por tolos,
Nos quer enganar com bolos,
Que abandone as ilusões.

Agora vai na arruada,
Zumba, zumba, a tocar bombo!
Espere pela pancada,
Que grande vai ser o tombo!

Flávio Vara, A Bem Soada Gente,
Lx: Roma Ed., 2007

Pela boca morre o peixe: provérbio ilustrado

Ler notícias aqui e aqui

domingo, 22 de janeiro de 2012

On the Sunny Side of the Ocean

Prenúncio de primavera

Junto à estrada, de quando em quando, há agora árvores cujos ramos parecem transbordar de flores para cima do asfalto. Singela exuberância que é já o prenúncio da primavera no verde ainda hesitante dos campos a perder de vista. 
Terrugem; 22/1/2012

Coisas que me abespinham, encanitam e irritam - IX

Como o dinheiro lhes enche os cofres de uma forma tão fácil que nem eles próprios conseguem explicar lá muito bem, os donos de quase tudo neste país acham que os consumidores não passam de uma mole de idiotas que é preciso depenar até ao último cêntimo possível. Estes em particular até já acham que basta acenar com alguns euros num cartão. Qualquer dia começam a oferecer-nos um espelhinho ou umas contas coloridas.

O que mais lamento - embora reconheça que nós, consumidores, temos responsabilidades nesta situação (muitas vezes não nos informamos ou não reagimos em tempo útil quando é necessário fazê-lo com firmeza) - é que, em Portugal, somos sempre apanhados quer estejamos na "esfera do estado", quer estejamos fora dela. Veja-se o que aconteceu com a "liberalização" do preço dos combustíveis e do mercado das redes móveis, ou o que está agora a acontecer com a imposição à força toda dos 4 canaizinhos generalistas da TDT.

Temos, portanto, boas razões para desconfiar de mais esta "liberalização" e, sobretudo, deveríamos estar muito atentos para não cairmos logo na primeira armadilha que nos aparece à frente.
Ler notícia aqui


 

sábado, 21 de janeiro de 2012

A educação nacional também é uma música assim (infelizmente)

Coisas que me abespinham, encanitam e irritam - VIII

As autarquias são um mundo curioso: por um lado são capazes de gastar milhões para fazer uma simples rotunda mas, por outro, convivem muito bem com situações que nos deviam era deixar a todos bastante envergonhados. Enfim...

Imagem daqui




Quem não deve não teme: provérbio ilustrado

E com a brilhante carreira que este senhor tem feito na justiça ao longo destes últimos anos, preocupar-se para quê, realmente.

Ler notícia aqui

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Qualquer semelhança não é coincidência

Qual é a principal semelhança entre estes dois homens?
Francesco Schettino / Vítor Gaspar
Simples: ambos tinham/têm nas mãos o "leme de um navio" (ver aqui) em "ponto de viragem" e ambos acreditaram/acreditam que era/é possível "dar a volta" (ver aqui). Isto, claro, para além de ambos gesticularem muito enquanto falam.

Em relação ao primeiro navio - o tal Costa Concordia - já sabemos no que deu. Falta agora saber do segundo. Mas as notícias não são animadoras, "comandante" Gaspar. (ver aqui) Talves fosse prudente verificar a rota...

De qualquer forma, tanto num caso, como no outro, os passageiros que se cuidem.

Ouça um bom conselho / que eu lhe dou de graça...

"Devo receber 1300 por mês, não sei se ouviu bem 1300 euros”, disse hoje Cavaco aos jornalistas e acrescentou que "Tudo somado não dá para pagar as despesas".

Senhor Presidente, perante tal evidência, parece-me que só há uma coisa a fazer: cortar nas despesas. Caso ainda não tenha percebido é o que todos nós, comuns mortais que não acumulamos várias reformas ou vencimentos, temos andado a fazer nestes últimos tempos.

Mas, não leve a mal que pergunte sr. Presidente: a não ser que o senhor ande a viver acima das suas (e das nossas) possibilidades, o que fez ao resto do dinheiro? (ver aqui e aqui).

A crise nossa de todos os dias

Prepara-te Mafaldinha, ao ritmo a que isto vai (ver aqui), quando tu já fores "idosa", ainda a crise vai no adro...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Novos provérbios portugueses

De diseur e de louco todos os ministros têm um pouco.

E, pensando agora no poema citado (O Mostrengo), na obra em que se insere (A Mensagem) e nos ideais do seu autor (Fernando Pessoa), tenho cá para mim que o nosso Gaspar está convencido de que será ele a lançar a primeira pedra do tão mítico quanto ansiado V Império. Ora não querem lá ver...

Imagem daqui

Ouvir canções até que fique tudo bem

"This is such a pointless fight.
Two songs won't make it right.
Three songs won't make it right.
Maybe a hundred songs might make it right."

Ou mil, ou quem sabe dez mil canções consigam de facto "curar", fazer com que tudo fique, pelo menos, melhor. Começo já por esta.

Por estes dias que vivemos se eu não tratar de mim...

O que faz bem pra minha saúde

Acho a maior graça. Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere...

Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos. Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.
Prazer faz muito bem.
Dormir me deixa 0 km.
Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha.
Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois rejuvenesço uns cinco anos.
Viagens aéreas não me incham as pernas; incham-me o cérebro, volto cheio de ideias.
Brigar me provoca arritmia cardíaca.
Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago.
Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano.
E telejornais... os médicos deveriam proibir - como doem!
Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo, faz muito bem! Você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada.
Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde!
E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda!
Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mussarela que previna.
Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau!
Cinema é melhor pra saúde do que pipoca!
Conversa é melhor do que piada.
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que gente influente.
Economia é melhor do que dívida.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Sonhar é melhor do que nada!

Martha Medeiros, copiado daqui