sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A elegante vagabundagem

Aos 70 e tal anos de idade Leonard Cohen cumpre com brilhantismo as etapas duras de uma tournée mundial de quase duzentos concertos, incluindo o de Lisboa em Outubro passado. Por todo o lado salas cheias e o mesmo fascínio de sempre pela música, pelas palavras e pelo intérprete. Com a elegância (re)conhecida, Cohen celebra com o público a música e, no fim de contas, também a própria vida. O álbum agora lançado, "Songs from the road", constitui o registo para memória futura de todos esses momentos que Cohen viveu intensamente com o público.

Como escreveu Luís Maio, "Leonard Cohen ensinou-me algum inglês, muita poesia e várias estratégias de sedução, que me guiaram na adolescência. Regressou como minha banda sonora favorita nas temporadas de folia, copofonia e alguma libertinagem à entrada da casa dos 30. Serviu-me de conselheiro e sobretudo de consolo na época das dúvidas existenciais e dos tombos dos 40. Agora nenhum outro cantor é para mim mais familiar e me dá tanto prazer ouvir." Salvaguardadas as devidas diferenças subscrevo inteiramente estas palavras: pois a música de Cohen também tem sido a banda sonora de muitos dos meus dias e noites, já lá vão várias décadas.

Pode dizer-se de alguém que consegue tocar assim a vida dos outros que ganhou "O futuro".

  

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Mais algumas achas no fogo lento do tal (des)acordo ortográfico

Tenho cada vez mais razões para acreditar que o novo acordo ortográfico é, sobretudo, uma decisão de políticos que querem marcar o seu domínio no território apetecido da CPLP, leia-se as amplas possibilidades de negócio que se abrem em economias florescentes como a angolana. Por isso as razões apontadas por alguns para defender o dito acordo valem o que valem e às vezes nem é preciso um grande esforço para as desmontar. Há alguns meses referi aqui uma entrevista dada por Lauro Moreira, embaixador do Brasil junto da CPLP, durante a qual defendeu o acordo como uma necessidade premente para os editores e livreiros que se viam obrigados ao esforço suplementar de publicar segundo as distintas normas ortográficas de cada país o que, ainda segundo o embaixador, seria uma fonte de prejuízos para as empresas.

Assim de repente, para os leigos na matéria, até parece ser um argumento de peso. Mas verifiquei agora ao ler uma entrevista de Lucia Riff, que a coisa pode não ser bem assim. Disse então esta agente literária que representa os maiores nomes da literatura brasileira que o acordo ortográfico “Não vai mudar nada. Há muitos anos era comum que as editoras – portuguesas ou brasileiras – comprassem direitos para toda a língua portuguesa. Acontecia mais no Brasil. Exportavam-se 100, 200 livros para Portugal, ou vice-versa, e acabava. O livro não viajava mais do que algumas centenas de exemplares através de um distribuidor qualquer.” “Até que dei conta que isso era um erro gravíssimo. O editor brasileiro não estava vendendo absolutamente nada em Portugal. Nós estávamos matando o mercado, matando a possibilidade de o livro ser mais bem explorado e vice-versa. Em Portugal estavam fazendo o mesmo, matando livros que poderiam estar saindo no Brasil.” Decidiu então que, quando vendesse um autor/obra para o Brasil, seria para uma editora brasileira que imprimisse e vendesse no Brasil e para Portugal a mesma coisa.

Assim, segundo Lucia Riff, “O acordo ortográfico pode ter definido onde é que entram ou saem os acentos (...), mas a maneira de escrever, vocabulário, sensibilidade, isso você não transfere por nenhum acordo ortográfico.” Apontando para o novo policial de Tony Belloto - “No Buraco” - (comprado pela Quetzal na Feira do Livro de Berlim), diz ainda que se nele existirem palavras que têm um sentido completamente diferente em Portugal, o editor português vai ter de acrescentar notas de rodapé: “Tem palavras que vocês usam que significam outras coisas para nós. Nisso o acordo não interfere. Quanto ao mercado editorial, não ma parece que venha a ser afectado.”

Parece que, ao contrário do que alguns têm sugerido, os interesses económicos do mercado editorial lusófono - e das editoras portuguesas em particular - se jogam, afinal, num outro tabuleiro que não o do tal (des)acordo ortográfico. É então caso para perguntar: que interesses serve, de facto, este novo acordo ortográfico?

Nota. Excertos da entrevista publicada no Ipsílon, 5/11/2010

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Angolano, penseólogo, poeta e sofredor...

... mas podia ser um português...



E nem de propósito amanhã é o dia internacional dos "penseólogos", uns para levar mais a sério que outros...

Corpos que dançam ao sabor da música: património (i)material da humanidade

Depois do Tango em 2009,  foi agora o Flamenco. O Fado aguarda a sua vez de ser declarado património imaterial da humanidade, talvez no próximo ano. Em comum, nesta espécie de tripla videopostagem, o olhar de Carlos Saura.




terça-feira, 16 de novembro de 2010

Uma crise singular

A Europa vive uma crise singular: económica, sem dúvida, mas sobretudo civilizacional e cultural. De repente, nos media, Portugal e a Grécia aparecem sempre designados como países "periféricos", ou seja, à margem de, podendo até vir a tornar-se descartáveis. Mas "periféricos" relativamente a quê? Ao bloco de países centro-norte da Europa, verdadeira entidade patronal da UE que decide quem tem aumento, não de ordenado, mas de fundos europeus, quem leva louvor e quem leva reprimenda, quem é promovido ou posto de castigo, até quem deve ser expulso por mau comportamento.

Contudo, Grécia e Portugal, estes dois países agora "periféricos", foram respectivamente nem mais menos do que o berço civilizacional e cultural da Europa e o responsável pelo primeiro fenómeno de globalização - a expansão europeia para o resto do mundo, até então desconhecido. E são agora justamente estes dois países que ajudaram a construir a Europa tal como a conhecemos hoje que estão em maiores dificuldades económicas e se vêem forçados a mendigar ajuda na Europa e fora dela. Sem esquecer a própria Irlanda que, em grande parte, constitui a matriz civilizacional dos omnipotentes EUA.

É, no mínimo, uma ironia um tanto amarga da História. A tal ponto que até mesmo Timor, a nação que ajudámos a criar há cerca de uma década e a que tivemos de prestar grande auxílio para poder manter a independência, está agora em condições económicas de nos poder ajudar a nós, financeiramente, investindo na nossa colossal dívida externa. Até mesmo o Brasil declara abertamente ao mundo que quer ajudar Portugal a sair da crise em que se encontra fazendo vultuosos investimentos. Angola, por sua vez, tem aproveitado a situação para comprar participações nas grandes empresas nacionais, que é como quem diz, nas lucrativas. Agora foi a China que veio cá ver o que há, para decidir depois se compra ou não, como alguém que vai ver a mercadoria antes da abertura do leilão, para escolher as pechinchas que mais lhe interessam.

Posta de parte a fatalista possibilidade de estarmos a pagar por erros históricos antigos, numa espécie de justiça dos Fados que não perdoam nem esquecem as atrocidades cometidas por gregos e portugueses no seu passado mais ou menos glorioso, das duas três: ou o paradigma civilizacional que fundou e deu forma à Europa está definitivamente acabado e teremos que procurar rapidamente outro que o substitua para podermos sobreviver à crise que ameaça fazer submergir diversos países europeus; ou então serão os que já foram, em tempos do nosso passado colonial, considerados por muitos como os "filhos de um deus menor" que, entretanto emancipados e muito bem na vida, nos virão salvar a pele, assim ao estilo de "boa acção do dia" ou de intervenção mais ou menos filantrópica. O que, só por si, é uma ironia ainda mais requintada porque significa que, na prática, poderemos ficar nas suas mãos e depender inteiramente da sua boa vontade. Se tal vier a acontecer, sei de mais do que um a dar voltas na tumba...

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Uma viagem pela consciência

105
Há vísceras sentimentais que têm influência num homem
e essas, claro, não são as mais sensatas,
porém as piores e mais determinantes são, de longe,
as pornográficas.
Por que razão não é a vida apenas uma ordem que respira,
onde para cada momento existe uma única acção certa?
A vida individual como algo de didáctico e estúpido
onde se pedisse apenas uma repetição dos dias
que outros já tivessem praticado em perfeita segurança.

106
Abandonando a ironia e falando seriamente:
há uma certa angústia nos homens que já se viram nus
ao lado de outros humanos.
E isto porque aí se percebe com intensidade forte (e brutal)
como um homem é coisa distinta e, portanto, inimiga
de qualquer outro. Foi a roupa que inventou a compaixão
(e provavelmente a simpatia). Nus, os homens odeiam-se,
ou quando muito excitam-se; vestidos, pelo contrário,
fingem que ser da mesma espécie é mais importante
que não ser o mesmo corpo.
Vistas as coisas, Bloom quer alcançar a Índia
e a sabedoria ao mesmo tempo.
E tão longe ainda está desses dois
destinos.

Gonçalo M Tavares, Uma Viagem à Índia, Canto I, Lx: Caminho, 2010.

domingo, 14 de novembro de 2010

Ter uma "Red Right Hand" para a música

Pedradas no charco dos dias (des)iguais

René Magritte, Castelo dos Pirinéus
1ª pedrada
Dizemos ou ouvimos dizer muitas vezes expressões sobre as quais às vezes nem sequer pensamos muito, que dizemos por dizer, só para dizer alguma coisa, mesmo que no fim aquilo que dizemos não signifique de facto nada ou, pelo menos, nada de muito relevante. Dizêmo-las, mas poderíamos dizer outra coisa qualquer, pois a maior parte das vezes nem sequer pensamos sobre isso. Uma dessas expressões é “fica para a próxima”. Assim à primeira, até parece uma coisa inócua, até mesmo optimista: implica a certeza de que há sempre uma próxima oportunidade para tudo. Mas será mesmo assim? Será que a vida nos dá uma “próxima” hipótese, em tudo igual à que acabámos de perder, para que a possamos enfim aproveitar? Haverá, de facto, uma “próxima” oportunidade para os sentimentos, as vivências, as oportunidades, as ideias, os projectos ou as pessoas que, pelas mais variadas razões, não soubemos, não pudemos, não quisemos ou não conseguimos aproveitar em devido tempo? Não me parece... mas, como me vão faltando as forças, sobretudo as da vontade, para lutar contra os moinhos de vento, seja: fica para a próxima!

2ª pedrada
As “Novas Cartas Portuguesas”, escritas em conjunto pelas três Marias – a Isabel Barreno, a Teresa Horta e a Velho da Costa – obra singular da nossa literatura que, por subverter todos os cânones literários e desafiar a imbecilidade moral instalada, foi proscrita logo após a publicação em 1972 e que, com o tempo, se veio a tornar também obra maldita, vai agora ser reeditada pela D. Quixote. Ontem como hoje é um livro de que se pode ter medo, especialmente quando se é homem. Aqui não há paninhos quentes, nem pruridos em ferir orgulhos de machos cheios de pseudo-superioridades de género (masculino, claro!). Este é um livro onde se escreve “Ó meu Portugal de machos a enganar a impotência, cobridores, garanhões, tão maus amantes, tão apressados na cama, só atentos a mostrar a picha” e a ver qual é o que a tem maior, como se isso fosse o mais relevante.

É um livro belo na sua violência linguística e na forma como esventra tudo aquilo que continua a existir porque sempre foi assim ou se fez assim. É um livro que assusta também porque as mulheres que nele escrevem não têm medo das palavras e usam-nas para dizer exactamente o que precisa ser dito para sacudir as consciências de forma violenta. É um livro que mete medo porque, justamente, não deixa “para a próxima”: ele diz agora mesmo tudo o que há para dizer, fazendo da palavra uma arma arremessada com precisão às cabeças bonitas e bem-pensantes das conveniências instaladas. É, para tudo dizer, uma livro-pedrada no charco.

3ª pedrada
Nick Cave pegou nos Bad Seeds, trocou o piano pela guitarra e formou os Grinderman que Warren Ellis (um dos elementos da banda) sintetizou como “homens adultos a criar intencionalmente uma zona de risco” (Ipsílon, 12/11/2010), ou seja, com Nick Cave a vociferar contra monstros e medos antigos “Well my baby calls me the Loch Ness Monster/Two great big humps and then I'm gone”, em “Worm tamer”, ou contra o lado obscuro da vida: “What's this husband of yours ever given to you? /Oprah Winfrey on a plasma screen”, em “Kitchenette”. É, segundo o próprio Ellis, um “stoner rock”, ou seja, uma pedrada de música alucinada no charco dos dias de uma banda já com um longo percurso e provas dadas. Cave regressa assim ao lado mais sombrio da sua música, que é também o mais arrepiadoramente belo.

Para mim, Nick Cave faz na música aquilo que as nossas "três Marias" fizeram com a (re)escrita das "Novas Cartas Portuguesas": tal como elas dá uma pedrada no charco agora, ou seja, não deixa ficar para a próxima.



sábado, 13 de novembro de 2010

Previsão da meteorologia no fim de semana...

Os pombos

p
Évora, 13/11/2010
A praga dos pombos tem alastrado de tal forma em Évora que, quando percorremos certas ruas do centro histórico, mais parece que estamos numa das cenas do inquietante filme de Alfred Hitchcock "Os Pássaros"...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Frivolidades de um luminoso dia primaveril...

Jean-Honoré Fragonard, O Balouço, 1767





















... apenas para contrariar o sombrio e monotonal anoitecer...
 
"O Balouço", de Fragonard

Como balouça pelos ares no espaço
entre arvoredo que tremula e saias
que lânguidas esvoaçam indiscretas!
Que pernas se entrevêem, e que mais
não se vê o que indiscreto se reclina
no gozo de escondido se mostrar!
Que olhar e que sapato pelos ares,
na luz difusa como névoa ardente
do palpitar de entranhas na folhagem!
Como um jardim se emprenha de volúpia,
torcendo-se nos ramos e nos gestos,
nos dedos que se afila, e nas sombras!
Que roupas se demoram e constrangem
o sexo e os seios que avolumam presos,
e adivinhados na malícia tensa!
Que estátuas e que muros se balouçam
nessa vertigem de que as cordas são
tão córnea a graça de um feliz marido!
Como balouça,como adeja, como
é galanteio o gesto com que, obsceno,
o amante se deleita olhando apenas!
Como ele a despe e como ela resiste
no olhar que pousa enviesado e arguto
sabendo quantas rendas a rasgar!
Como do mundo nada importa mais!

Jorge de Sena, Metamorfoses, Lx, 
Moraes Editores, 1963.

Haja paciência...

... para aguentar tanta reunião, tanta aula, tanto papel preenchido, tanta hora perdida, inutilmente...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A senha para o sonho

Se o sonho fosse a senha, o impossível seria a poesia da vida. Se a senha fosse o sonho, talvez a poesia não dissesse a vida, talvez ela fosse mesmo a própria vida.

Assim, só nos restar esperar que a poesia seja sempre a nossa senha possível para o sonho, e que este um dia nos revele então a esquiva senha para vida.

Lua adversa

Georges de La Tour, Madalena com chama e fumo, 1636-38





















Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolias
eu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Cecília Meireles

domingo, 7 de novembro de 2010

A deriva política da língua portuguesa

Um antigo presidente do Instituto Camões, o professor Fernando Cristóvão, dizia que os falantes de português não pertencentes à comunidade linguística são mais um país da CPLP, pois há cada vez mais gente a querer aprender português, excluindo luso-descendentes e universitários. Os mais optimistas – ou talvez mais interessados no caso – afirmam que o acordo ortográfico tem um papel muito importante a desempenhar nesta expansão, pois segundo eles evita a concorrência entre as duas variantes (portuguesa e brasileira) da língua, embora aqui Portugal esteja a perder há já muito tempo, não só, mas também por falta de investimento.

Ora o ensino da língua portuguesa, ou de qualquer outra, é hoje indissociável da cultura. Neste contexto, a participação portuguesa em eventos culturais internacionais e de grande impacto mediático – festivais de cinema, exposições em grandes museus e em galerias prestigiadas torna-se muito relevante como forma de captar gente interessada na aprendizagem da língua. É com este intuito de divulgação da língua, mas sobretudo da própria cultura portuguesa, que o Instituto Camões abriu há cerca de um mês mais um centro no King's College em Londres. Apesar destes vultuosos e aparatosos investimentos financeiros não é, contudo, nas cosmopolitas capitais europeias que se joga a parada da verdadeira política de expansão da língua. Tudo isto tem muito mais que se lhe diga e, sobretudo, envolve grandes investimentos financeiros.

Veja-se o caso das Nações Unidas: com a entrada de um país lusófono no Conselho de Segurança torna-se necessário formar quadros altamente qualificados: tradutores, intérpretes, pessoal administrativo. Ainda que Portugal e os próprios países africanos de expressão portuguesa – que estão muito interessados em colaborar e ajudar a que isto aconteça – possam dar o seu forte contributo a vários níveis, alguém duvida de que seja o Brasil a retirar as grandes contrapartidas (mais uma vez, acrescentaria eu) desta oportunidade? É que, no que à situação da língua portuguesa no mundo diz respeito, a liderança do Brasil é óbvia há já muito tempo. Portugal, aos tropeções, limita-se a tentar acompanhá-lo.

Por outro lado começa a despontar em África uma outra situação curiosa. Refiro-me a Angola - actual presidente da CPLP - que tem revelado muito interesse nesta questão da língua. Graças à sua relevância económica e política no continente africano, muitos países vizinhos, como o Senegal, o Congo ou a África do Sul já introduziram o ensino do português nos seus currículos. E esta realidade emergente despoletará a necessidade de formação de professores em larga escala. A braços com uma tão grave crise económica, e com recursos humanos também eles limitados, Portugal não vai conseguir dar resposta às solicitações que lhe serão feitas por todos estes países. Restarão duas possibilidades: ou somos capazes de pensar mais além do que o horizonte anual do orçamento geral do estado para sairmos em defesa da variante portuguesa da língua, e aí contribuímos de modo significativo para a formação de professores locais; ou então deixamos que o Brasil o faça por nós.

Tendo em conta a esgotada solução de alternância político-governativa que vivemos há décadas e com a qual não há meio de conseguirmos romper – tudo indica até que estamos mais ou menos prontos para dar uma reviravolta que pintará de laranja os muros rosa da nossa lamentação - e a crise económica instalada de pedra e cal, não tenho muitas dúvidas: continuaremos à deriva nesta matéria e será mais uma vez o Brasil a ganhar esta parada, sobretudo agora que até já tem um acordo ortográfico mesmo à medida das suas pretensões. E ainda por cima mantendo a imagem de “país irmão” que dá uma mãozinha fazendo aquilo que Portugal não consegue, né?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Amanhã é sábado. Por isso podemos respirar fundo e dizer...

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E manhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny de Vasconcellos, Pastelaria, in Nobilíssima Visão, Assírio & Alvim, 1991

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A educação pública e a criatividade, ou a falta dela(s)

Ken Robinson anda pelo mundo inteiro a dar conferências sobre escola e criatividade, ou seja, sobre como a escola deve estimular a dita para educar melhor e obter melhores resultados. Veio agora a Portugal. Os seus argumentos assentam no trabalho que realizou há uma década atrás em Inglaterra – reuniu especialistas, escolas, professores e associações de pais para discutir a importância da criatividade no quotidiano das escolas –, o qual culminou com a publicação de um relatório final, o All Our Futures, mais conhecido como Robinson Report.

Sir Ken Robinson é sobretudo um comunicador brilhante, com um discurso que cativa até a plateia mais renitente. Os seus argumentos são também irrefutáveis, claro. Quem é que, actualmente, discorda da ideia de que a arte e a criatividade têm um papel importante na educação das crianças e jovens? O problema é passar da teoria à prática quando o sistema educativo é cada vez mais encarado, por quem decide as medidas políticas e económicas que se lhe aplicam, do mero ponto de vista da produtividade e da eficácia, que é como quem diz, do sucesso estatístico a todo o custo.

Mas há um argumento que Robinson não se cansa de repetir e que a mim, como professora, me levanta muitas dúvidas: diz ele que a escola mata a diversidade. Diz até que aceitamos hoje a diversidade em todo o lado - restaurantes, arquitectura ou música – mas que, na escola, continuamos a proceder a uma espécie de “normalização” castradora dessa mesma diversidade natural dos indivíduos. Pode até ser, mas o que eu também não duvido – até pela experiência que tenho na escola onde trabalho – é que a diversidade, se não mata a escola, mata pelo menos algumas coisas na escola. Desde logo pela diversidade de medidas tantas vezes avulsas, contraditórias (para não dizer absurdas) e quase inúteis que orientam o quotidiano da escola. Mas também pela diversidade de problemas insolúveis que nela desaguam, que afectam o seu funcionamento e que a escola, só por si, não consegue resolver: tremendos problemas familiares e pessoais, famílias desconjuntadas e disfuncionais, carências económicas, desajustamentos e dificuldades sócio-culturais de toda a ordem, complexos e graves problemas de saúde física e até mental, etc.

Tudo isto agravado e potenciado por um sistema de ensino todo ele orientado para metas de sucesso estatístico, como é o caso do nosso, em que todos anos os rankings - para mim a forma mais eficaz e barata de humilhar as escolas e os que nelas trabalham, incluindo os próprios alunos – inviabilizam de todo as tais criatividade e atenção à diversidade que implicam, claro está, atenção pessoal a cada um dos alunos, enquanto indivíduos. Isto foi possível na escola de outros tempos quando os alunos eram apenas os poucos que a podiam frequentar e que, por isso, se entregavam à aprendizagem de peito aberto.

Hoje isso ainda acontece nos bons colégios privados e nas mais prestigiadas universidades que só alguns podem pagar e a que só uma elite tem acesso. Na escola pública que pretende dar uma formação mínima ou básica a um máximo de alunos, não estou a ver como é que será possível fazer algo de semelhante, nem mesmo por decreto. No ensino público o que ainda vai valendo é a boa vontade e o profissionalismo de muitos professores que dão todos os dias o seu melhor, apesar de tudo. No mundo real do ensino público a criatividade é sobretudo uma possibilidade, ou talvez um sonho, que alguns conseguirão agarrar ou não, à semelhança de muitas outras coisas na vida: sucesso pessoal e profissional, dinheiro, reconhecimento, poder, etc. Na vida real da escola pública andamos todos a tentar que os alunos percebam que esses sonhos existem e que eles, com esforço, perseverança e motivação, os poderão vir a alcançar um dia, ou não. Se calhar não chega mas, nos dias conturbados que vivemos, se conseguirmos ao menos isso, já não será tão pouco assim.

No entanto, como exercício de reflexão, não deixa de ser interessante escutar Sir Ken Robinson. Talvez até escutá-lo sobretudo como exercício de imaginação, se ainda houver tal coisa nas nossas cabeças:

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Fome Indecisa

Penélope, David Ligure













Como hei-de saber o que desejo,
Se tudo o que não tenho me apetece?
A minha vida é mesmo essa quermesse
Negativa.
Vivo
A sonhar ser conviva
Doutro banquete

Miguel Torga, Diário V, 1951