sábado, 16 de janeiro de 2010

Improvável blogodiálogo

Neste espaço de todos os possíveis, assim como quem está sentado numa esplanada de verão à conversa com amigos, alguém pergunta para que servem a poesia e os livros. Interrogação quase tão antiga como a própria escrita, já respondida milhares de vezes, mas sempre em renovada inquietação.

De imediato, Julián Carax reproduz uma frase que tinha lido há pouco tempo no livro A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón e que nunca mais esquecera: “Os livros são espelhos: só se vê neles o que a pessoa tem dentro.”.

Logo depois, Mario Jiménez, que tinha conhecido e convivido com Pablo Neruda, quando diariamente lhe entregava o correio na Ilha Negra, contou que, numa das suas muitas conversas sobre o que era e como se fazia poesia, o chileno lhe havia dito uma coisa que ele também nunca mais tinha esquecido: “A poesia não é de quem a escreve, mas de quem a usa.”

José Fanha, que bebia sossegadamente o seu café, diz então que, para ele, a poesia é fundamental, porque “agarrados a um verso podemos sobreviver às intempéries da vida”. Acha até que a melhor prenda que se pode dar a alguém é um verso que possa confortar, como um amigo verdadeiro.

É agora a minha vez de falar e faltam-me as palavras exactas. Contudo, digo que, para mim, o mais fascinante é a capacidade que os poetas têm de dizer exactamente aquilo que eu também já senti, mas que sou incapaz de traduzir em palavras. Acrescento que, como leitora, sinto sempre uma grande emoção quando encontro pedaços de mim nos textos e nos livros que vou lendo. É por isso que me aproprio tantas vezes das palavras alheias e as faço também minhas. São elas que me ajudam a suportar e a superar muitos dias difíceis.

Carax sugere logo ali que brindemos à poesia e aos livros por onde os pedaços da nossa alma andam dispersos, mas não perdidos, na esperança de que um dia sejamos sábios o suficiente para conseguir refazer o puzzle do nosso ser. Essa será a mais inesquecível de todas as histórias, o mais belo de todos os poemas.

No centro da mesa os copos tilintam em uníssono e, por alguns instantes, cada um fica a sós com os seus pensamentos…

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Metaforização

Sobre as mulheres Herberto Helder diz que
“...têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.
Ela sobe dos pés e atravessa
a carne quebrada.
Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus –
e mistura-se nas águas,
no sonho da cabeça.
As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho para espinho,
param de nó em nó.
As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.(...)”
In Lugar/III


Sobre mim digo que cumpri hoje mais uma etapa – a derradeira - de preparação do canteiro. Agora só falta chegar o jardineiro e, com o bisturi, podar a assombrada roseira fria espalhada no ventre. Assim, quando a onda dolorosa e ardente das semanas me tiver passado por cima, espero poder cobrir-me novamente de folhas verdes.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Uma pergunta, duas respostas

O Amor é cego, porquê?

 
Imagem retirada de Barros de Estremoz
de Joaquim Vermelho

 A resposta literal dirá que O Amor é cego é um dos bonecos mais curiosos da barrística popular de Estremoz. Não é mais do que a representação simbólica da figura mitológica de Eros ou Cupido: porte garboso, com a aljava das setas incendiárias junto ao peito (curiosamente em forma de coração para reforçar a ideia de que simboliza o enamoramento) e de olhos vendados para melhor acertar no alvo (ou talvez não).

Uma outra resposta, bem mais dramática e subtil, poderia ser esta Fábula Antiga de António Feijó:

No princípio do mundo o Amor não era cego;
Via mesmo através da escuridão cerrada
Com pupilas de Lince em olhos de Morcego.

Mas um dia, brincando, a Demência, irritada,
Num ímpeto de fúria os seus olhos vazou;
Foi a Demência logo às feras condenada,

Mas Júpiter, sorrindo, a pena comutou.
A Demência ficou apenas obrigada
A acompanhar o Amor, visto que ela o cegou,

Como um pobre que leva um cego pela estrada.
Unidos desde então por invisíveis laços,
Quando o Amor empreende a mais simples jornada,
Vai a Demência adiante a conduzir-lhe os passos.

in Sol de Inverno, 1922

Proverbiais e aforísticas

Das notícias que fazem a abertura dos telejornais por estes dias...


O que é natural e fica bem é cada um poder amar como mais lhe convém.

Quando à Terra apetece sacudir o dorso, enterra milhares sem qualquer remorso.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Quem sabe para onde vai o tempo?

Em 1969, Sandy Denny e os Fairport Convention gravavam uma das mais extraordinárias canções de sempre, intitulada Who knows where the time goes?



Vem isto a propósito das muitas vezes que ouço dizer a pessoas de gerações diferentes que o tempo “passa cada vez mais depressa”. Dias, semanas, meses e anos sucedem-se agora a um ritmo muito mais rápido do que há algum tempo atrás. Às vezes parece mesmo que andamos a correr atrás de um tempo que nos escapa sempre e chegamos ao fim do dia cansados e insatisfeitos porque, apesar da correria constante, não fizemos nem metade do que pretendíamos. É uma simples percepção do senso comum mas que, curiosamente, até os mais jovens referem com alguma frequência.

Ora, numa dessas mensagens de e-mail que circulam aí por meio mundo, recebi uma explicação para este fenómeno. Ignoro se terá fundamentos científicos sólidos ou se é apenas verosímil. Achei-a sobretudo curiosa porque encaixa nesta percepção tão generalizada de que o tempo está a passar mais depressa que o habitual.

Chama-se “teoria de Schumann” e diz que, em 1952, o físico alemão que lhe deu o nome verificou que a Terra está cercada por um campo electromagnético situado a cerca de cem quilómetros da superfície do planeta, o qual possui uma frequência mais ou menos constante de 7,83 hertz (pulsações por segundo) e funciona como um verdadeiro metrónomo da biosfera. Concluiu ainda Schumann que todos os seres vivos e sistemas ecológicos funcionam nesta frequência biológica - espécie de biorritmo natural - incluindo o nosso próprio cérebro. Ao que parece, as viagens espaciais comprovaram esta teoria, pois quando os astronautas ficavam fora do seu alcance adoeciam e, quando submetidos à acção de um simulador desta mesma frequência electromagnética recuperavam a saúde.

Parece também que, desde a década de 80 do século passado, que os valores desta frequência de Schumann têm vindo a subir e já estão agora perto dos 13 hertz. Segundo esta teoria é como se a frequência cardíaca da Terra estivesse demasiado alta, provocando assim os desequilíbrios ecológicos que temos vindo a sentir nos últimos anos: maior actividade sísmica e vulcânica, aumento das tensões e conflitos no mundo, maior frequência de comportamentos desviantes nas pessoas e nos próprios animais. Com esta aceleração do ritmo da frequência de Schumann, as 24 horas do dia acabam por representar apenas 16 horas de tempo útil. A tal sensação generalizada de que o tempo está a passar demasiado rápido ficaria assim explicada.

Teorias mais ou menos científicas à parte, certo é que o superorganismo vivo que é a Terra está desequilibrado e doente. Se ela vai reencontrar ou não o equilíbrio perdido, se o vai fazer com a nossa ajuda ou sem ela, é ainda cedo para se saber. Por isso, a poética interrogação de Sandy Denny, feita há já quarenta anos, mantém toda a sua pertinência e beleza:

And I am not alone
While my love is near me.
I know it will be so,
Until it's time to go.
So come the storms of winter
And then the birds in spring again,
I have no fear of time,
For who knows how my love grows?
And who knows where the time goes?

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Há rir e rir

Em O Riso, publicado em 1900, Henri Bergson explicava o que entendia pela clássica expressão ridendo castigat mores: “O riso é, antes de tudo uma correcção. Feito para humilhar, deve é dar à pessoa que é objecto dele uma impressão penosa. (...) Não atingiria o seu fim se trouxesse a marca da simpatia ou da bondade. (...) O riso castiga certos excessos, apanhando inocentes, poupando culpados, a cada caso individual (...)”. Mais à frente, o filósofo completa esta ideia ao acrescentar que “Assim acontece em tudo o que se realiza por vias naturais em lugar de se realizar por reflexão consciente. Uma média de justiça poderá surgir no resultado de conjunto mas não no pormenor dos casos particulares. Nesse sentido, o riso não pode ser absolutamente justo. E repetimos, também não pode conter bondade. Ele tem uma função, intimidar, humilhando.”

No início do séc. XX Bergson acreditava, de facto, na capacidade evolutiva do intelecto humano e, por isso, achava que “... a sociedade, à medida que se vai aperfeiçoando, obtém dos seus membros uma capacidade de adaptação cada vez maior que tende a equilibrar-se cada vez melhor...”, ou seja, que os homens seriam capazes de substituir um riso meramente humilhante e castigador, puro rebaixamento da condição humana, por uma forma superior de expressão crítica que se manifestaria através do humor, do sarcasmo e da ironia. Ou como Lídia Jorge escreveu num artigo publicado há muito no Jornal de Letras (9/3/93), à medida que a humanidade fosse evoluindo  “A velha fórmula de rindo, castigam-se os costumes, teria sido substituída por alguma coisa aproximada dum rindo, conquista-se a inteligência.

Passado mais de um século sobre as palavras de Bergson verifica-se contudo que  os avanços da nossa cada vez mais tecnológica sociedade  são proporcionais, em muitos aspectos, à regressão da sua humanidade e inteligência. Talvez seja por isso que temos também cada vez menos verdadeiro sentido de humor e caímos com frequência em atitudes antagónicas: por um lado o riso imbecil, bacoco e vulgar que nada tem a ver com a verdadeira alegria e, por outro, a incompreensão ou a rejeição do lúdico e do riso, ainda que inteligentes. A ambas falta, contudo, o essencial: a carnavalização, a ruptura e a desordem que geram novos e saudáveis equilíbrios.
 
Tudo isto fez-me pensar nos Monthy Python que, em meados do século passado, faziam humor com os ingredientes certos: inteligência, ironia e sentido crítico. Esta “piada mais engraçada do mundo” é paradigmática, até porque, ironicamente, pelos efeitos letais que provoca, também pode ser considerada “a pior piada do mundo”.


Quando dizer é pensar ou fazer

O poder simultaneamente factitivo e performativo que as palavras têm sobre nós é algo de fascinante e assustador: uma única palavra consegue às vezes tocar-nos tão fundo que abala as nossas convicções, desconstrói-nos o raciocínio e desfaz os pré-conceitos mais enraizados. É o sentido bíblico do verbo/palavra como poder criador: "E no princípio era o Verbo". Por elas somos  levados a fazer e a dizer coisas impensadas, ou até aí impensáveis, capazes de mudar o rumo da nossa vida para sempre, tanto no bom, como no mau sentido.

As palavras do campo semântico de amor têm quase todas esta dupla face. São mesmo das mais poderosas e perigosas do dicionário. Devem, por isso, ser usadas com muita precaução para evitar acidentes. É também o que nos conta esta breve, mas muito intensa, história de Quino.

 
In Sim... Meu Amor!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Coincidências

Decidi aproveitar o curto intervalo antes da aula da tarde para verificar o e-mail num dos computadores da sala de professores. Costumam estar em modo de suspensão e, por isso, carreguei ao acaso numa tecla. De imediato, o monitor se iluminou revelando uma página de internet previamente aberta pelo utilizador anterior. Tratava-se de um sítio de citações que nem sequer conhecia: http://www.pensador.info/.

A meio da página, rodeada de anúncios da Google, apenas esta citação de Luiz Fernando Veríssimo:
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando, porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Surpreendida, fiquei sem pestanejar durante uns momentos, diante do computador. Então não é que, sem querer, tinha acertado em pleno? Assim em jeito de mensagem do além... mar, ali estava, mesmo a meio do monitor, um pequeno raio de optimismo, bem necessário nestes dias em que mais apetece hibernar, enroscada num sítio quente e confortável, até que a tempestade passe. Há coincidências curiosas, de facto.

E bem haja Luiz Fernando Veríssimo por, com as suas palavras certeiras, me ter sacudido do pensamento a monotonia cinzenta desta tarde.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Os direitos do blogger

Sendo o espaço deste blogue, clara e assumidamente, uma espécie de Reino da Minha Vontade e aqui se vivendo em regime autocrático, embora virtual, pareceu-me fazer sentido inventar os 'direitos do blogger', à revelia de tudo o que a legislação em vigor possa dizer sobre este assunto. Entenda-se, claro está, os meus direitos de blogger, à semelhança dos muito conhecidos “dez direitos do leitor” que Daniel Pennac estabeleceu no início dos anos 90, em Como um Romance.

1º - O direito de fazer do seu blogue tudo aquilo que a vontade, a capacidade ou a imaginação ditarem.
2º - O direito de postar apenas quando lhe apetece ou sente necessidade disso.
3º - O direito de reescrever, acrescentar ou eliminar as postagens a seu bel-prazer.
4º - O direito de espreitar os blogues alheios.
5º - O direito de saltar postagens.
6º - O direito de (re)visitar os blogues de que mais gosta
7º - O direito de não regressar aos blogues de que não gosta.
8º - O direito de saltar de blogue em blogue à descoberta de coisas interessantes.
9º - O direito de não comentar o que se leu.
10º - O direito de não querer ser comentado.
11º - O direito de não ser julgado precipitadamente pelo conteúdo das postagens que faz.
12º - O direito à liberdade de decidir e fazer o contrário de (quase) tudo o que ficou consagrado nos direitos anteriores, sempre que disso houver vontade.

Mrs. Robinson

O caso dos (des)amores de Mrs. Robinson tomou de assalto jornais e noticiários europeus e fez-me lembrar, desde logo, a Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade:

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Claro que os favores financeiros ao jovem empresário são a única e grande vergonha pública deste episódio, uma vez que a deslealdade para com o marido é assunto privado e de consciência individual a resolver noutro contexto. Goste-se ou não, Mrs. Robinson mostrou sobretudo que, aos 60 anos, está bem viva e dotada de um espírito aberto, o que não é fácil de engolir, seja na Irlanda, seja em qualquer outro país, até no nosso. Contudo, os media ainda não estão saciados e escavam agora afincadamente o passado da senhora, à procura de outros episódios suculentos, naquilo que deve ser o equivalente moderno mais próximo de ser queimada viva ou apedrejada em praça pública.

E se tudo isto tivesse acontecido exactamente assim, mas com Mr. Robinson e uma jovem modelo de 19 anos, também seria descrito neste tom vexatório e classificado de “vergonhoso para baixo" em todos os jornais? Tenho algumas dúvidas...

sábado, 9 de janeiro de 2010

Vozes

Nas noites em que o frio parece amplificar mais ainda o silêncio da casa, costuma ficar à escuta das múltiplas vozes que lhe habitam o espírito para fazer de conta que não está só: a voz da tristeza, a voz da amargura, a voz da dor, a voz da raiva, a voz do sonho, a voz do dever, a voz da ternura... Umas vezes apenas ouve sussurros, noutras, o barulho é quase ensurdecedor, pois todas falam ao mesmo tempo num tom zangado. Nesses momentos, a amargura dá voz às pequenas cobardias e indignidades quotidianas, enquanto a raiva resmoneia a meia voz, como se receasse alguém ou alguma coisa. A voz do dever faz muita questão de cortar a palavra à voz do sonho e, por isso, esta última já quase não fala. A voz da dor às vezes chora baixinho durante muito tempo, mas as outras estão demasiado ocupadas consigo próprias para se aperceberem disso. Talvez seja essa distracção que abre espaço aos fugazes rasgos de audácia, alegria ou entusiasmo com que a voz da ternura apanha toda a gente desprevenida. Mas, no fim, é sempre a tristeza que, com a sua voz grave, silencia as companheiras e se faz ouvir durante longas horas.

Sente-se frágil e desgastada pelas desilusões amargas que teve de enfrentar nos últimos tempos e, por isso, tenta manter-se alerta, a fim de não permitir que alguma das vozes assuma o comando do seu espírito, pois tudo se tornaria ainda mais difícil. Talvez seja essa maior percepção de si própria que a leva, certa noite, a reparar numa outra voz, de natureza bem distinta, e a que nunca antes tinha prestado atenção: imóvel, afastada das outras vozes, quase encolhida no canto mais sombrio, de olhar fixo e no mais absoluto mutismo.

Intrigada, conclui que o isolamento silencioso daquela voz talvez se deva a uma excessiva reserva, ou até ao facto de ser demasiado individualista. Porém, numa análise mais detalhada, apercebe-se de que o coro dissonante das outras vozes lhe é, afinal, totalmente indiferente. Percebe ainda que, qualquer que seja a direcção para onde vire o olhar se depara agora com o silêncio acusador da voz encolhida no escuro. Compreende então que, de todas as vozes que lhe povoam o espírito, aquela é a mais perigosa, por ser também a mais implacável e começa a sentir medo do brilho cada vez mais ameaçador dos olhos sempre cravados nos seus.

Pouco a pouco, vai tomando consciência da forma como o mutismo impiedoso daquela voz a compeliu a ficar em silêncio e imóvel nas piores situações que viveu ao longo dos últimos anos, em que era imperativo gritar, barafustar, partir a louça, esmurrar sorrisos cínicos, esmagar palavras sarcásticas ou hipócritas, escavacar portas, sair sem olhar para trás e, afinal, nada disse. Talvez distraída pelo coro estridente das outras vozes, nem se tinha apercebido de como aquela voz soturna, pouco a pouco, se apoderara de forma despótica do seu pensamento e da sua (re)acção, até quase chegar ao ponto de aniquilamento.

Com o arrepio que lhe sacode o corpo vem a súbita compreensão de que a permanência da voz silenciosa e acusadora no seu espírito é incompatível com a lucidez e de que terá de enfrentá-la antes que seja demasiado tarde. É então que arranja forças para elevar a sua própria voz interior e gritar bem alto à voz silenciosa e quieta no canto escuro que ela mesma se acusa de todas as vezes que, em silêncio, se tem limitado a engolir a humilhação, e que o faz sem precisar de se cruzar com o seu olhar feroz. Todavia, convencida de que no fim sairá vencedora, a voz limita-se a sorrir e, mais uma vez, nada diz.

As duas lutam agora todos os dias, sem tréguas, quase corpo a corpo, confinadas pelas cordas de um ringue a que convencionaram chamar blogue. Apostou consigo mesma que a voz silenciosa será a primeira a gritar de dor e que a vai desalojar do canto escuro onde vive barricada de mutismo. Para poder lutar em pé de igualdade com adversária tão temível, pediu à voz do sofrimento que a ensine a ser também mais implacável. Diz-se até disposta a recorrer a golpes baixos pois, afinal, é a sobrevivência do seu próprio ser que está em causa. O coro das vozes dissonantes limita-se a observar, na expectativa de um desfecho por enquanto ainda incerto.


sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Hibernação cultural

Aqui pelo interior sul parece que o frio fez hibernar até a própria cultura, pois as agendas culturais estão mais despidas que plátanos de avenida no mês de janeiro. Decidi por isso aproveitar as vantagens e facilidades do mundo virtual e (re)criar o meu próprio momento cultural do fim de semana pois, com as temperaturas anunciadas para os próximos tempos, não será tão depressa que os responsáveis pela organização destas coisas acordarão do sono letárgico que os afecta há já muito tempo...

O passado dia 13 de Novembro de 2009 reservava uma bela surpresa aos clientes habituais do Mercado Central de Valência, aqui mesmo ao lado, em Espanha. Enquanto circulavam por entre frutas e legumes, foram brindados com árias de "La Traviata" de Giuseppe Verdi cantadas ali mesmo, ao vivo. O espanto origina entre os desprevenidos clientes as mais diversas reacções e emoções e prova que a música, mais ou menos erudita, pode ser ouvida e apreciada em qualquer sítio, desde que as pessoas estejam predispostas para tal.



Fait-divers

O acaso das leituras trouxe-me hoje notícias de um interessante estudo realizado por um psicólogo da Universidade de Chicago, John Cacioppo de seu nome, sobre a solidão. Depois de ter acompanhado cinco mil pessoas ao longo de vários anos, através de inquéritos que avaliavam os níveis de solidão e de depressão de cada um, Cacioppo concluiu que a solidão é nada menos do que... contagiosa e se propaga entre as pessoas da mesma forma que um vírus. Assim, quando alguém se torna soltário, há sérias possibilidades de que alguns à sua volta lhe sigam as pisadas, podendo esta propagação atingir até mesmo os amigos dos amigos. Verificou ainda o psicólogo que, talvez por um instinto básico de sobrevivência, o grupo tenta evitar que o solitário se auto-isole completamente criticando-o e procurando integrá-lo. Confesso que esta parte da solidariedade grupal me deixa algumas dúvidas, mas enfim...

Claro está que, se este fosse um blogue muito frequentado e com um número significativo de leitores, como tantos na blogosfera, sentir-me-ia na obrigação ética de fazer desde já um aviso de alerta à navegação pois, se a solidão é contagiosa, esta Sulidão deve ser, no mínimo, perigosa. Mas, tratando-se apenas de uma espécie de moleskine online, limito-me a registar a informação na categoria de fait-divers e a deixar o resto ao livre arbítrio dos poucos que por aqui se aventuram.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A ironia é um líquido que se deve beber puro

Um quase mar interior chamado Alqueva, aqui mesmo, em frente de um mar de gente desesperada por não ter uma gota de água nas torneiras.

Palavras e música


Sulidão povoada de palavras e de música

Num dos Papéis do Gabiru, datado de 20 de Novembro, encontro a descrição perfeita destes dias duros de Inverno: Chove um dia, outro dia, sempre. Amanhece um dia nublado, outro dia alvorece áspero e negro. O vento abala a pedra sobre que é construído o casebre. O Inverno tem a sua voz própria, a sua cor, o seu vestido em farrapos com que agasalha os montes deixando-lhes os ossos de fora. Mas o Inverno é sonho. Só agora o compreendo. É sonho concentrado: sob esta casca ressequida está uma Primavera intacta.
in Húmus, Raul Brandão


terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O amor também é uma canção assim

Cabelos brancos

De vez em quando alguém me pergunta por que razão não pinto os cabelos: se pintasses o cabelo parecias logo quatro ou cinco anos mais nova... dizem-me. Sempre tenho achado curiosa a forma como as mulheres que me cercam ficam incomodadas com os  meus, agora já praticamente grisalhos, cabelos.  Para algumas delas é difícil entender o facto de eu não estar interessada em parecer nem mais nova nem mais velha, ou melhor, não querer ser outra coisa que não eu mesma. Para mim, é peculiar a forma como a maior parte delas, e também alguns homens que conheço, esconde os cabelos brancos debaixo das cores mais variadas, numa tentativa às vezes bastante desajeitada de iludir o calendário e a natureza.

É que os cabelos brancos nunca me angustiaram e também nunca me passou pela cabeça a ideia de os disfarçar. Nunca me senti em desvantagem por causa de os ter e, até hoje, nunca deixei de fazer fosse o que fosse por causa disso. Posso mesmo dizer que alguns dos melhores momentos da minha vida foram vividos junto de pessoas com muitas rugas e cabelos brancos, de bem com a vida e que, por isso mesmo, me fizeram sentir bem ao seu lado. O que verdadeiramente me angustia é pensar que talvez não saiba, ou não consiga envelhecer bem, pois é o que vejo acontecer à minha volta cada vez com mais frequência. De forma paradoxal, as sociedades ocidentais com populações muito envelhecidas, são também as que mais preconceitos têm em relação ao envelhecimento e as que mais rejeitam os velhos. Basta ver como, a (des)propósito de tudo, somos permanentemente bombardeados com imagens de rostos e corpos não apenas jovens e belos, mas também perfeitos e... fabricados nas salas de operações ou nos programas de edição de imagem dos computadores. Envelhecer tornou-se para muitos um drama e há quem gaste fortunas (quem o pode fazer) para construir uma espécie de máscara de cera, muito lisa e esticada, só para fazer de conta que o tempo não passou. Duvido é que, por causa disso, seja mais feliz.

Como escreveu Vergílio Ferreira "Ser jovem ou ser velho não tem apenas que ver com a idade mas também com uma condição (...). Por orgulho ao menos, ou respeito que nos mereçamos, importa que a nossa idade seja a idade que é nossa no vigor ou decadência que nos deixa ou nos visita."

De quando em vez, (re)leio o poema Cabelos Brancos, de António Feijó para me lembrar que, de facto, não são os anos que nos fazem velhos, são certas horas más da vida. Essas é que, a partir de dentro, nos vão corroendo lentamente até que um dia os estragos se tornam visíveis por fora. Os cabelos brancos nada têm que ver com isso ou, quando muito, poderão ser uma das consequências disso.

Não repares na cor dos meus cabelos
Sem ler primeiro Anacreonte;
Verás que os sonhos juvenis, mais belos,
Também se evolam de enrugada fronte.

O espírito do Poeta é sempre moço;
O Coração nunca envelhece...
Basta um sorriso, um nada, um alvoroço,
E tudo nele se ilumina e aquece.

Deusas de eterna graça adolescente,
Jamais as Musas desdenharam
Da luz que treme incendiando o poente,
Dos rouxinóis que ao pôr do Sol cantaram.

Fina e frágil vergôntea melindrosa,
Que foi na ceifa abandonada,
Ruth, apesar de moça e de formosa,
Nos braços de Booz dorme encantada.

Quantas flores de inédita fragância
Em mãos provectas vão abrindo...
Abisag, ao sair quase da infância,
No leito de David entrou sorrindo.

E desse beijo, Inverno e Primavera,
Desse conúbio, ó maravilha!
Como se a ruína fecundasse a hera,
Veio à luz uma estrela que ainda brilha.

Esculturais patrícias, de olhos ledos,
Quem as lembrara, se deixassem
Que mãos obscuras, mercenários dedos,
A velhice de Horácio engrinaldassem?

Quantos nomes ilustres! quantos casos!
Mas que direi mais eloquente?
Não há dias tão pálidos, e ocasos
Como explosões duma cratera ardente?

Não repares na cor dos meus cabelos;
A branda luz que neles arde,
Como o poente, das nuvens faz castelos,
Tinge de alva o crepúsculo da tarde...

Muita vez os cabelos enbranquecem
Na dor de horríveis sofrimentos...
Não são os anos que nos envelhecem;
São certas horas más, certos momentos...

in Sol de Inverno

domingo, 3 de janeiro de 2010

Este fim de tarde é uma música assim


Dia de limpeza


Graffiti de Banksy

Hoje é dia de varrer cacos e lixo para debaixo do tapete, de modo a que tudo esteja apresentável para os convidados que irão chegar amanhã, logo às oito e meia. O que me vale é que, para estes convidados, não é preciso ser, basta parecer.