terça-feira, 16 de março de 2010

Para grandes males, grandes remédios ou o poder curativo dos “conceitos predicáveis”

Aristóteles definiu a oratória como sendo a “arte de falar de modo a convencer”. Entenda-se: “a arte de falar em público de modo inteligente”. Claro que saber falar e saber pensar de forma clara estão aqui quase indistintamente associados. A oratória barroca do Padre António Vieira, na minha imodesta opinião pessoal, claro, é um dos melhores exemplos disso mesmo. Deve ser por isso que foi praticamente desconjuntada nos programas escolares (não convém que as massas percebam muito bem o que é pensar ou argumentar).

Alguns breves excertos do “Sermão do Mandato”, datado de 1655 e pregado por António Vieira na Misericórdia de Lisboa, bastam para perceber o que é a oratória, pois “A beleza da sua linguagem está na sua mesma nobre simplicidade, conciso ajustamento, precisão perfeita, natural fluência – arte que emerge da vida.”, conforme refere Hernâni Cidade (In Pe. António Vieira, Obras Escolhidas).

Sciens quia a Deo exivit, et ad Deum vadit:
Cum dilexisset suos, in finem dilexit eos (1)

I – Definição da matéria: Os quatro remédios do amor

Acomodando-me pois ao dia, ao lugar e ao Evangelho, sobre as palavras que tomei dele, tratarei quatro coisas, e uma só. Os remédios do amor e o amor sem remédio. Este será, amante divino, com licença de vosso coração, o argumento do meu discurso.

Os remédios, pois, do amor mais poderosos e eficazes que até agora tem descoberto a natureza, aprovado a experiência e receitado a arte, são estes quatro: o tempo, a ausência, a ingratidão, e, sobretudo, o melhorar de objecto.

Estas são as quatro partes do nosso discurso; vamos acreditando amor e desacreditando remédios.

II – Primeiro remédio: O Tempo

Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera! São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas que partem do centro para a circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino, porque não há amor tão robusto, que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira, embota-lhe as setas, com que já não fere, abre-lhe os olhos, com que vê o que não via, e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge. A razão natural de toda esta diferença, é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhes os defeitos, enfastia-lhes o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor? O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos.

O amor que é verdadeiro tem obrigação de ser eterno, porque, se em algum tempo deixou de ser, nunca foi amor: Si autem desierit, nunquam vera fuit. Notável dizer! Em todas as outras coisas o deixar de ser é sinal de que já foram; no amor o deixar de ser é sinal de nunca ter sido. Deixou de ser? Pois nunca foi. Deixastes de amar? Pois nunca amastes. O amor que não é de todo o tempo, e de todos os tempos, não é amor, nem foi, porque se chegou a ter fim, nunca teve princípio. É como a eternidade, que se, por impossível, tivera fim, não teria sido eternidade: Declarans amicitiam aeternam esse, si vera est.

III - Segundo remédio: A Ausência

E que terra há que não seja a terra do esquecimento, se vos passastes a outra terra? Se os mortos são tão esquecidos, havendo tão pouca terra entre eles e os vivos, que podem esperar, e que se pode esperar dos ausentes? Se quatro palmos de terra causam tais efeitos, tantas léguas que farão? Em os longes passando de tiro de seta, não chegam lá as forças do amor.

IV – Terceiro remédio: A Ingratidão

O terceiro remédio do amor é a ingratidão. Assim como os remédios mais eficazes são ordinariamente os mais violentos, assim a ingratidão é o remédio mais sensitivo do amor, e juntamente o mais efectivo. A virtude que lhe dá tamanha eficácia, se eu bem o considero, é ter este remédio da sua parte a razão. Diminuir o amor o tempo, esfriar o amor a ausência, é sem-razão de que todos se queixam; mas que a ingratidão mude o amor e o converta em aborrecimento, a mesma razão o aprova, o persuade, e parece que o manda. Que sentença mais justa que privar do amor a um ingrato? O tempo é natureza, a ausência pode ser força, a ingratidão sempre é delito. Se ponderarmos os efeitos de cada um destes contrários, acharemos que a ingratidão é o mais forte. O tempo tira ao amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunicação, a ingratidão tira-lhe o motivo. De sorte que o amigo, por ser antigo, ou por estar ausente, não perde o merecimento de ser amado; se o deixamos de amar não é culpa sua, é injustiça nossa; porém, se foi ingrato, não só ficou indigno do mais tíbio amor, mas merecedor de todo o ódio. Finalmente o tempo e a ausência combatem o amor pela memória, a ingratidão pelo entendimento e pela vontade. E ferido o amor no cérebro, e ferido no coração, como pode viver? O exemplo que temos para justificar esta razão ainda é maior que os passados.
A natureza e a arte curam contrários com contrários. Sendo, pois, a ingratidão o maior contrário do amor, quem duvida que este terceiro remédio seria também o último, e o mais presente e eficaz, ou para extinguir de todo, ou, quando menos, para mitigar o amor de Cristo?

V – Quarto e último remédio: Melhorar de Objecto

É pois o quarto e último remédio do amor, e com o qual ninguém deixou de sarar: o melhorar de objeto. Dizem que um amor com outro se paga, e mais certo é que um amor com outro se apaga. Assim como dois contrários em grau intenso não podem estar juntos em um sujeito, assim no mesmo coração não podem caber dois amores, porque o amor que não é intenso não é amor. Ora, grande coisa deve de ser o amor, pois, sendo assim, que não bastam a encher um coração mil mundos, não cabem em um coração dois amores. Daqui vem que, se acaso se encontram e pleiteiam sobre o lugar, sempre fica a vitória pelo melhor objeto. É o amor entre os afectos como a luz entre as qualidades. Comumente se diz que o maior contrário da luz são as trevas, e não é assim. O maior contrário de uma luz é outra luz maior. As estrelas no meio das trevas luzem e resplandecem mais, mas em aparecendo o sol, que é luz maior, desaparecem as estrelas.

VI – Exortação final - ‘Remédio santo’ de todas as loucuras cometidas pelos homens: o divino amor

Ah! Senhor, que só o vosso amor, que não teve remédio, pode ser o remédio das loucuras do nosso. Remediai tantas cegueiras, remediai tantos desatinos, remediai tantas perdições. E pelo amor com que nos amastes no fim, tenha hoje fim todo o amor que não é vosso. Esta é, amoroso Jesus, esta é só a mercê que por despedida vos pedimos nesta última hora vossa. Lembrai-vos, enfermo divino, que estais nos últimos transes da vida. Não vos esqueçais de nós em vosso testamento. O legado que esperamos de vossa liberalidade, como criados, e a esmola que pedimos a vossa misericórdia, como pobres, é que nos deixeis, pois nos deixais, alguma parte do vosso amor. Amanhã vos hão de partir o coração: reparti dele conosco, para que de todo o coração vos amemos. Oh! quanto nos pesa nesta hora, e para sempre, de vos não ter amado como devíamos! Nunca mais, Senhor, nunca mais! Só a vós havemos de amar de hoje em diante, e posto que em vós concorram tantos motivos de amor, e tão soberanos, só a vós, e por serdes quem sois. Assim o prometemos firmemente a vosso amor, e assim o confiamos de vossa graça, e só para que vos amemos eternamente na glória. Amén.

(1) Sabendo Jesus que saíra de Deus e ia para Deus, como tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim (Job 13, 1.3)
(Nota: texto sem alterações, mas com supressões, títulos meus)

É extraordinário como palavras proferidas há mais de três séculos atravessam quase incólumes os tempos e conseguem, sem muito esforço, encaixar-se na perfeição aos dias que vivemos. É que, curiosamente (ou talvez não), os ‘remédios’ apontados pelo orador para os (des)amores divinos estão bastante adequados a (des)amores mais profanos. Sábias palavras estas, de facto!

No séc. XVII, os pregadores exerciam no púlpito precisamente a mesma função que, hoje, cumprem na televisão os comentadores-vedeta que todos conhecemos: usar a palavra de forma eficaz para manipular as mentes e encaminhar as vontades dos seus ouvintes/espectadores num determinado sentido. A palavra é de facto uma arma, e bem poderosa.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Blogólogo

Difícil não é manter uma relação com alguém, independentemente da sua natureza (pessoal, familiar, profissional, social,...). Difícil é estabelecer uma relação propriamente dita com alguém. É que, na verdade, só se pode manter (no sentido etimológico do termo: sustentar, conservar, guardar) aquilo que, efectivamente, foi estabelecido (fundado com carácter firme e estável). Ou melhor, só vale a pena manter o que  faz todo o sentido para nós pelo simples facto de existir.

Há uns tempos atrás, no contexto de um determinado relacionamento, ouvia inúmeras vezes a expressão "Não vale a pena!". Só passados quase três anos compreendi o seu verdadeiro significado «não vale a pena manter ou investir numa coisa que não existe, nem nunca existiu». Nem sequer adianta muito que a relação, enquanto tal, exista sobretudo na ilusão de um dos lados. Isso apenas adia o inevitável.

É que,  de facto, "não vale a pena!". E duro mesmo é pensar que a maior parte do nosso tempo útil de vida é gasto com estas não-relações vazias de sentido.

Algumas pérolas e muito cascalho

Fim de semana passado a corrigir testes. Momento ‘privilegiado’ para recolher mais algumas “pérolas” estudantis (infelizmente, o ‘colar’ que tenho vindo a fazer ao longo dos anos já leva umas quantas voltas). É sempre complicado ver-me confrontada com este verdadeiro cascalho resultante do desinteresse e da indiferença dos alunos em relação à aprendizagem e à própria escola. Só não é mais dramático porque, no meio dos testes, ainda vou encontrando pérolas das verdadeiras (poucas, cada vez menos). E é por essas que, apesar de tudo, vale a pena continuar a ensinar.

A questão pedia que os alunos indicassem três características distintivas do texto dramático em relação ao texto narrativo. O aluno respondeu que “As caractrísticas destintivas do texto dramático relativamente ao texto narrativo são as seguintes: é mais dramatizado este tipo de texto em relação ao narrativo é mais realizado em peças (teatro), e dá mais trabalho que ao narrativo.” É dramático, de facto. Não se pode dizer muito mais...

domingo, 14 de março de 2010

Fazer o luto também é uma música assim

A cantora e compositora Corinne Bailey Rae tornou-se conhecida em 2007 quando lançou o seu primeiro cd. Um ano depois a sua vida foi sacudida pela tristeza e pelo sofrimento. Lançou agora um novo trabalho – The Sea – onde assume que faz o luto pelo marido pois, como explicou, “Quando faço música, sinto que é o único momento em que não tenho que pensar nem inventar. Foi assim que este álbum surgiu. Nada é inventado ou imaginado. Tudo é sincero.”. Ao ler estas palavras lembrei-me do poema "Ícaro" de José Régio: 
A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.

in 'Poemas de Deus e do Diabo'

Há na vida momentos em que a Dor fala mais alto, ou é mesmo a única que consegue falar...

Antologia pessoal de uma (in)definição

No século XVI Luís de Camões escreveu um dos seus mais conhecidos sonetos:

Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence o vencedor;
É ter, com quem nos mata, lealdade,

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Sem o saber, estava a iniciar um verdadeiro “leitmotiv” na poesia portuguesa e também a descobrir um verdadeiro filão que tem alimentado a inspiração de inúmeros poetas até hoje. No “Amor é...” Camões não expressou apenas um sentimento, deu também voz a uma necessidade inscrita desde sempre no espírito do Homem: a de traduzir em palavras o que pensa e o que sente, para se definir a si próprio perante o(s) outro(s). A poesia não é mais do que uma forma de fazer isso mesmo, ainda que nem sempre queira, ou possa, dizer de facto tudo pois, como explicou Matias Aires no século seguinte, não podemos esquecer nunca que: “O amor não se pode definir, e talvez que esta seja a sua melhor definição. Sendo em nós limitado o modo de explicar, é infinito o modo de sentir: por isso nem tudo o que se sabe sentir, se sabe dizer: o gosto, e a dor, não se podem reduzir a palavras. O amor não só tem ocupado, e há-de ocupar o coração dos homens, mas também os seus discursos; porém por mais que a imaginação se esforce, tudo o que produzir a respeito do amor, são átomos. Os que amam não têm livre o espírito para dizerem o que sentem; e sempre acham que o que sentem é muito mais do que o que dizem; o mesmo amor entorpece a ideia e lhes serve de embaraço: os que não amam, mal podem discorrer sobre uma impressão, que ignoram; os que amaram são como a cinza fria, donde só se reconhece o efeito da chama, e não a sua natureza, ou também como o cometa, que depois de girar a esfera, sem deixar vestígio algum, desaparece.” (In Reflexões sobre a vaidade dos homens, 1752).

Embora certamente conscientes disto, os que deram continuidade ao tema na nossa poesia, tomaram dois rumos distintos: uns contentaram-se com a imitação do modelo que admiravam, explorando as potencialidades da antítese ou do paradoxo como formas privilegiadas de exprimir o indizível, fazendo quase “pastiches” do soneto camoniano; outros, sem perder de vista os versos primordiais, seguiram por um caminho distinto e procuraram inovar e dar a sua visão pessoal e poética sobre o tema.

Entre os que “navegaram à vista” encontra-se um Anónimo publicado na colectânea barroca Fénix Renascida (1716-28):

É um nada Amor que pode tudo,
É um não se entender o avisado,
É um querer ser livre e estar atado,
É um julgar o parvo por sisudo;

É um parar os golpes sem escudo,
É um cuidar que é e estar trocado,
É um viver alegre e enfadado,
É não poder falar e não ser mudo;

É um engano claro e mui escuro,
É um não enxergar e estar vendo,
É um julgar por brando ao mais duro;

É um não querer dizer e estar dizendo,
É um no mor perigo estar seguro,
É, por fim, um não sei quê, que não entendo.

Ou, ainda do período barroco, esta aproximação do poeta alemão Georg Philipp Harsdörffer (1607-1658): 



E, já no século XVIII, também este soneto do Abade de Jazente:

Amor é um arder que não se sente;
É ferida que dói e não tem cura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente.

É fogo, que consome ocultamente;
É dor, que mortifica a Criatura
É a ânsia, a mais cruel e a mais impura;
É frágua, que devora o fogo ardente.

É um triste penar entre lamentos;
É um não acabar sempre penando;
É um andar metido em mil tormentos.

É suspiros lançar de quando em quando;
É quem me causa eternos sentimentos;
É quem me mata e vida me está dando.

É já do século XIX um outro poema que, continuando a estabelecer uma clara correlação com o classicismo camoniano, e com o próprio período barroco, reescreve a definição do amor numa lógica antitética, mas agora ampliada também pelas metáforas e reforçada pelas sucessivas enumerações. É o caso de “Se se morre de amor!” de Gonçalves Dias (1823-1864):

Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração – abertos
Ao grande, ao belo; é ser capaz d’extremos,
D’altas virtudes, té capaz de crimes!
Compr’ender o infinito, a imensidade,
E a natureza e Deus, gostar dos campos,
D’aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
Fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes:
Isto é amor, e desse amor se morre!

Ainda do séc. XIX é também este soneto de Elisabeth Barrett Browning:

No entanto, o amor é belo, e tem valor.

O fogo é sempre vivo, quer consuma
Um templo ou palha; quer arda uma pluma,
Quer um tronco de cedro, dá fulgor.

E amor é fogo. Quando, com ardor,
Digo: Gosto de ti, eu sei que há uma
Mudança no meu rosto; sinto, em suma,
Que ao dizê-lo irradia luz, calor.

Nada é baixo no amor, nem quando ama
O mais humilde. Deus sempre aceitou
O amor de quem o ama na pobreza.

O que sinto por ti, é uma chama
Que ilumina a penumbra do que sou;
A mão do Amor corrige a Natureza.

In Sonetos Portugueses (Trad. Manuel Corrêa de Barros)

Segue-se-lhe, logo no início do século XX, José d’Abreu Albano que, em 1912, escreveu a “Esparsa III”, aliando o tema clássico à forma tradicional, tal como o próprio Camões também fez, jogando sobretudo com a cadência rítmica das rimas encadeadas:

Amor me faz esperar,
Esperança me faz rir,
O riso me faz chorar,
O choro me faz sentir;
O sentir me faz sofrer,
O sofrer me causa dor,
A dor me dá um prazer
E o prazer cantos d’amor.

Também Mário de Sá-Carneiro se deixou conquistar pela poesia de feição tradicional e popular e escreveu “O Amor”:

Mote (popular)
Amor é chama que mata,
Sorriso que desfalece,
Madeixa que desata,
Perfume que se esvaece.

Glosas
Amor é chama que mata,
Dizem todos com razão,
É mal do coração
E com ele se endoidece.
O amor é um sorriso
Sorriso que desfalece.

Madeixa que se desata
Denomina-se também.
O amor não é um bem:
Quem ama sempre padece.
O amor é um perfume
Perfume que se esvaece.

E depois os Modernismos (primeiro e segundo) abriram de par em par as portas da liberdade poética e criativa, tanto na forma, como no conteúdo. É já na segunda metade do século XX que encontramos uma série de poemas que exprimem uma nova visão do mundo, do homem e do próprio amor, mas nos quais se escutam ainda os ecos do soneto de Camões. São poemas que, de forma intencional e depurada, fazem a ponte entre o passado e o presente da poesia portuguesa. Representam uma linha de continuidade que une os grandes poetas na vontade de escrever poemas que celebram sobretudo a essência da própria poesia: a palavra e o seu poder ao mesmo tempo transformador e libertador. É o caso de “Soneto à maneira de Camões”, de Sophia de Mello B. Andresen:

Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é o meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que não m’o dês – pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.

de “Quase nada”, de Eugénio de Andrade:

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

ou até mesmo da belíssima canção de Sérgio Godinho, “Definição do amor”:

Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.”

Que o poeta de todos os poetas
me conceda boa estrela
que a estrela de todos os astros
me premeie na lapela
prémios de honor
prefiro os muitos
oferecidos pela mãos do amor
coroando o amor e os seus heterónimos
nem vão caber nos Jerónimos

Amores anónimos não há
e assim foi pela madrugada
mesmo que seja um “assim fosse”
vou nomear-te namorada
ninguém já soube o que é o amor
se o amor é aquilo que ninguém viu
uma cor que fugiu
de um pano leve
e pairou serena e breve
no ar
(Pousa agora, borboleta na pena deste poeta:)

(R): É uma cor que dá na vida
o amor
é uma luz que dá na cor
mas é uma batalha perdida
que se trava com ardor
é uma cor que dá na vida
o amor
dor que desatina sem doer

Se devagar se vai ao longe
devagar te quero perto
mesmo que o que arde nunca cure
vou beijar-te a sol aberto
é já dos livros que o instante
se parece tanto com a eternidade
e que o amor, na verdade
só se cansa de ti
se de ti mesmo te cansas

Mordidas mansas, emoções
Suspiros densos, afagares
liberto das definições
o amor define os seus lugares
ilhas desertas até ver
ver o sol, a chuva
o arco do corpo
arco-íris, corpo a corpo
cara a cara, cor a cor
incandescendo o olhar
(Pousa agora, borboleta, na mão deste poeta:)
(R)

E ao pôr o dedo nas feridas
que supúnhamos curadas
provas de fogo atravessamos
no mar alto festejadas
não se controla o inesperado
nem se diz o indizível do amor
uma cor que fugiu
de um pano leve
e pairou serena e breve
no ar
(Pousa agora, borboleta, na pena deste poeta:)
(R).

Já Alexandre O'Neill, no tom de ironia séria que lhe era muito particular e com recurso a uma linguagem ao mesmo tempo metafórica e coloquial, escreveu que a melhor definição do amor, é fazê-lo:

O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!
O amor é o amor - e depois?!

Em 2005, no livro Geometria Variável (Lx: D. Quixote), também Nuno Júdice se deixou “tentar” e escreveu


O amor é

Ferida que não dói,
a palavra que não precisa de ser dita,
um olhar suspenso dos teus olhos,
respirar o ar em que respiras.

dizer o teu nome
e ouvir nele a tua voz,
esperar-te a cada instante
em que sei que me esperas,
dar-te a alegria que me dás,
ver-te chegar num eco de ave
e deixar que me prendas
com o teu gesto mais suave,
sentir-te, só, ao pé de mim,
e sentir-me tão longe de ti,
saber que existes em mim
como sei que existo em ti,
a flor de fogo do teu corpo, e beijar essa flor.

E este é, sem dúvida, o melhor remate para esta “viagem” peculiar pelas (im)possíveis definições do amor, pois mais do que perder tempo a explicar ou a dizer, importa é conjugar o verbo “amar” em todos tempos, modos e pessoas. E disso bem sabe Francis Cabrel...

sexta-feira, 12 de março de 2010

Da violência na escola

O chamado bullying em contexto escolar saltou para as primeiras páginas dos jornais. As razões mais recentes para este interesse público ainda não estão esclarecidas e, como é habitual nestas coisas dos inquéritos e das investigações em Portugal, nem nunca virão a sê-lo. Provavelmente, nunca saberemos se o que aconteceu em Mirandela foi, de facto, bullying, ou se foi um caso extremo de violência, de contornos complexos, envolvendo escola, família e comunidade numa responsabilidade partilhada. O que sabemos é que todos os dedos estão já apontados para a escola. Nestas situações difíceis de digerir é sempre bom haver um bode expiatório! Muitos especialistas têm vindo à televisão opinar, explicar, acusar, aconselhar, blá, blá, blá...

Certo é que a escola pública é mais uma vez chamada a responder a múltiplas acusações e a prestar contas por uma coisa que não poderá nunca resolver, pois este problema não diz respeito exclusivamente à escola, mas sim à sociedade no seu todo. Por isso, já nem me espanta que ninguém, nem sequer um único dos seus superiores responsáveis, tenha pronunciado uma só palavra em defesa dessa mesma escola (pública, a tal inclusiva e para todos) e dos que nela trabalham.

Quem trabalha no ensino sabe que ninguém terá a coragem de assumir a verdade: que, por um lado, a escola, e de igual modo as funções sociais e educativas que lhe estão atribuídas, estão desacreditadas no actual contexto de crise social e económica, e que, por outro, os professores foram deliberadamente descredibilizados e desautorizados perante a opinião pública. Em suma, perante casos de bullying, de violência, de indisciplina, de simples incumprimento de regras básicas em sala de aula, a escola está manietada e refém de legislação inútil e quase sempre impeditiva de uma actuação eficaz, preventiva ou exemplar.  Basta ler o estatuto do aluno e o estatuto do professor para perceber isso mesmo. Também não é difícil a qualquer um, desde que o queira fazer, compreender como tudo isto vai fundo na sociedade e como terá consequências de que só agora nos começamos a aperceber através das tristes notícias da comunicação social.

Num daqueles mails que circulam por aí recebi há tempos um cartoon de Quino intitulado “Os Valores do Séc. XXI”. São eles:


Naturalmente que estes valores não surgiram só agora. Eles marcaram já, e muito, as duas últimas décadas do século passado, mas  tornaram-se dominantes nesta primeira década do século XXI. Ora a geração do bullying, da violência e afins é justamente esta que Quino descreve e que já foi formada dentro destes valores pela família e pela própria sociedade.

Muitas crianças e adolescentes dedicam-se hoje à violência porque, tendo tudo e fazendo tudo quanto querem, se sentem aborrecidos e profundamente entediados. São violentos porque sim, nem eles sabem bem explicar porquê. Para eles, humilhar os colegas é tão banal como jogar no computador. Pessoas e figuras animadas têm para eles valor idêntico: é tudo diversão. O sofrimento físico ou psicológico dos outros, especialmente dos mais fracos ou frágeis, desperta-lhes apenas indiferença ou  desprezo. Como num qualquer jogo de guerra virtual, caminham pelos corredores da escola, na perseguição das “vítimas-alvos a abater” e, ao final do dia, fazem a contagem dos pontos ganhos.

Por isso, o que nos devia inquietar a todos não é apenas o que a escola pode ou deve fazer para resolver o problema do bullying. O que nos devia inquietar a todos, e muito, é que estes jovens, formados dentro de um quadro axiológico distorcido e mesquinho, estão a consolidar a sua personalidade dentro dos princípios violentos do bullying e vão transportar isso para todos os domínios da sua vida: pessoal, familiar, profissional, social, até política. O que nos devia inquietar a todos, e muitíssimo, é a sociedade futura que estamos, agora, a construir.

quinta-feira, 11 de março de 2010

sulidão: "ce ne sera rien que de la musique et des mots"

 

Retrato...

...da ausência, do vazio, da solidão, de tantos dias e de tantas noites, de tantas vidas, do coração de tantas pessoas...

Pierre Ducordeau, "Tableau en déplacement", 1974

Há datas assim

Datas

Há datas que não são um número, um mês e um ano.
Há datas que vivem dentro de nós
Vivem com a nossa intimidade, o nosso calor.
São como a linfa do nosso sangue.
(A minha infância, o despertar!)

Há datas que falam como se tivessem boca
e deixam um traço cá dentro na alma,
como uma cicatriz num rosto.

(A tristeza e a dor dos horrores da guerra!)

Um dia de chuva toda a gente esquece.
Mas um dia de cheia vive no coração dos pobres
como a melancolia das árvores desfolhadas no coração do poeta.
Como um grito sem destino que furasse o céu
viveria no coração dos homens!

Um dia de Paz parece um dia vulgar
Mas é como um canto de glória na voz da Primavera
Um dia de Paz não é nunca um dia vulgar!

Vasco Cabral, in A Luta é a Minha Primavera (1981)

As datas do grande tsunami na Ásia, das cheias e enxurradas na Europa, no Brasil, na Madeira, na América Central, dos sismos de Itália, do Haiti, do Chile, da Turquia, do ciclone Katrina e tantos outros... Todas elas deixaram cicatrizes no dorso da Terra e marcas profundas na vida e “no coração dos pobres”. Muitas ficarão para sempre.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Arqueologia, paralelismos e especulações

Em Junho de 1935, no primeiro número da revista «Sudoeste» (de que foi, aliás, editor) Almada Negreiros escrevia que “Portugal oferece-nos o aspecto de
1) Uma nação formada.
2) Um Estado a formar-se.
3) Uma sociedade inculta.
4) Um povo novamente à procura da sua dinâmica própria.”

Ora em 2010, setenta e cinco anos depois, Portugal debate-se exactamente com os mesmos problemas. Que monotonia de país!

Já sobre a Europa, escrevia que “Terminado o império romano e emancipados os povos, formam-se depois as várias nacionalidades e substitui-se a unidade política da Europa da Roma dos Césares pela unidade política da Europa legítima.
Entregues os povos aos seus próprios governos, a unidade da Europa está na ligação de todos pela mesma fé geográfica e telúrica.
Trata-se de formar as várias civilizações particulares da civilização geral europeia. Trata-se de guardar no todo da Europa o perfil de cada um dos seus particulares.”

E, de facto, a ‘utopia’ que levou à criação da CEE/UE em 1965 não foi mais do que a expressão desta vontade. Só que a grave crise mundial com que se iniciou este milénio, trouxe-nos o confronto com uma nova realidade, também ela claramente explicada há 75 anos atrás por Almada Negreiros: “A unidade espiritual da Europa entra hoje na sua maturidade. Os povos já não terão por inimigos o estrangeiro que lhes justifique as lutas pela independência. Hoje a independência dos povos assenta sobre si mesmos, adentro fronteiras, corre mais perigos e tem menos inimigos estranhos.
A unidade espiritual da Europa ao mesmo tempo que ilumina melhor também ameaça mais a independência de cada nacionalidade do que o estrangeiro à porta.
(...) Afinal, na europa, não há senão casos particulares de europeus: o caso russo, o caso alemão, o caso inglês, o caso francês, o caso português, o caso espanhol, etc. Os diversos e determinados casos da Europa. Os diversos, determinados e legítimos casos da Europa.”

Basta ver as notícias que nos chegam diariamente do “caso particular” da Grécia, berço cultural, civilizacional e linguístico da própria Europa para percebermos que a coisa é bem séria. Está é ainda por provar se a Europa desta União Europeia entrou, de facto, “na sua maturidade” e se os povos europeus, entregues a si mesmos e sem “inimigos às portas” terão capacidade para resolver os problemas económicos, sociais e políticos com que se debatem dentro das suas próprias fronteiras. Afinal, já todos percebemos que esta crise, sendo mundial, tem mesmo força para ser uma questão “de vida ou de morte para cada nacionalidade”.

Em 1935, quando Almada Negreiros escreveu estas palavras, nuvens de tempestade amontoavam-se já sobre a Europa e o desfecho foi o que sabemos: a segunda guerra mundial. Ironicamente, foi na sequência deste conflito à escala global (e também graças a ele) que muitos países, nomeadamente os Estados Unidos, superaram a grave crise económica com que estavam confrontados desde 1929. Foi também graças a ela que novas potências económicas, como a Alemanha, se (r)estabeleceram de forma sólida na própria Europa.

Vamos ver o que dá a grave crise global com que o mundo se confronta hoje. O problema é que agora não há muito ‘espaço de manobra’ para uma terceira guerra mundial: matamos o quê?, com quê?. Com o armamento de que dispomos, duas bombas chegam para erradicarmos o próprio planeta e ainda não dispomos de colónias no espaço (tanto quanto sabemos!) para que, pelo menos alguns, possam escapar a um armagedão de proporções bíblicas. A situação de conflito latente tem, pois, que ser resolvida (ou pelo menos aplacada) com prudência e sabedoria.

Mas penso que Portugal pode aqui dar uma ajuda. Temos grandes gestores e administradores a decidir negócios com a ajuda de robalos. Muita tinta tem sido gasta sobre esta questão que, se calhar, mais não é do que uma velha abordagem para uma nova situação. Talvez tudo não passe de várias formas do mesmo fluxo contínuo de eventos que vem desde o início dos tempos e da própria história: é que os romanos, por exemplo, também sacrificavam animais para, nas suas entranhas, decifrarem os augúrios, bons ou maus, que o futuro lhes reservava. E depois agiam em conformidade. Ora, a julgar pelo que tem sido divulgado através da comunicação social, as duas personagens implicadas nesta verdadeira “peixeirada” até nem se deram nada mal na vida. Podemos por isso concluir que a técnica do robalo funciona bem.

Assim sendo, talvez fosse boa ideia que alguém próximo do nosso Primeiro Ministro (afinal é ele o “chefe máximo”) lhe desse esta sugestão: usar robalos para decifrar o futuro dos grandes investimentos públicos e medir com precisão o buraco negro do défice. Talvez as coisas comecem a correr melhor. E mesmo quando for lá fora participar numa daquelas cimeiras internacionais ou em visitas de estado deverá fazer-se sempre acompanhar de uma caixa dos ditos para garantir que não assina nada “de cruz”.

PS - Qual “sigamos o cherne”, qual carapuça! Sigamos mas é o robalo e encontraremos com certeza o pote de ouro no fim do arco-íris.

O restolho dos dias que vivemos também é uma música assim

Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar p'ra aprender a viver

e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
pra receber daquilo que aumenta o coração

Mafalda Veiga - In Restolho (1987)

terça-feira, 9 de março de 2010

(re)conforto

Quem faz o que gosta e gosta daquilo que faz, faz coisas (e programas de televisão) assim. Ainda por cima é uma excelente proposta para o jantar (logo hoje que tenho uma "daquelas" reuniões até às tantas): alimenta corpo e alma.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Não há fronteiras para o génio

João Magueijo nasceu em Évora há 42 anos. É meu conterrâneo, portanto! Quando tinha 12 anos de idade o pai ofereceu-lhe um livro escrito por Einstein e Infeld na década de trinta do século passado. Numa entrevista à TSF, em 2003 (Programa “Pessoal e Transmissível”, de Carlos Vaz Marques), Magueijo explicou que, nesse livro de divulgação científica, descobriu “A maneira de pensar da Física. A ideia das experiências conceptuais. Estar a imaginar coisas completamente abstractas como, por exemplo, a ideia de movimento, completamente longe de qualquer constrangimento. A ideia de experiências de pensamento, que é um foco central do pensamento do Einstein e que aparece muito vivamente nesse livro. Foi a coisa que mais me afectou.”.

Tornou-se também ele Físico Teórico, com um interesse muito particular pela cosmologia, e há muitos anos que trocou Portugal pela Inglaterra: é professor e investigador do Imperial College em Londres. Tornou-se uma verdadeira “estrela” no mundo científico quando, há dez anos, se atreveu a questionar uma teoria que o próprio Einstein tinha proposto em 1911. Como Magueijo disse então: “...não há dúvida que é a coisa mais controversa que eu tenho feito. (...) Tive uma reacção inicialmente muito negativa, gradualmente mais positiva, mas fazer com que a ideia seja aceita tem sido um processo bastante doloroso”. Tudo começou com a afirmação de Einstein: “nada se move mais depressa do que a luz”, que se propaga a uma só velocidade, constituindo uma das constantes da natureza e um dos pilares da Física moderna. Magueijo fez a si próprio uma pergunta aparentemente simples: e se a velocidade da luz tiver variado ao longo do tempo, tendo sido maior no universo primordial e diminuindo de velocidade à medida que o universo foi arrefecendo e evoluindo? A isto chamou “Teoria da velocidade da luz variável" e, por causa dela, caíu literalmente “o carmo e a trindade” na comunidade científica.

Foi apelidado de arrogante a herege por se atrever a questionar um ícone científico ainda “intocável” na ciência moderna, mas João Magueijo limitou-se a dizer que “No fundo, estamos a afinar a teoria da relatividade. Muito mais do que a destruí-la. Da mesma maneira que a teoria da relatividade estava a afinar a teoria de Newton.”. Esta teoria só pode ser comprovada pela observações astronómicas (nomeadamente, através dos quasars) e pode levar ainda muitos anos até que seja validada experimentalmente. Segundo o cientista, se isso acontecer, “...é completamente impossível prever se alguma tecnologia vai sair daqui ou não. Em termos conceptuais, obviamente, o efeito é enorme. No fundo, é reescrever os alicerces da Física por completo.”.

Para explicar aos  leigos na matéria esta sua teoria escreveu em 2003 o livro “Mais rápido do que a luz – A biografia de uma especulação científica”. Redigiu-o em inglês por considerar que está perfeitamente inserido na cultura inglesa e porque, como segunda língua, a considera “libertadora” em relação à sua própria língua materna. Quando veio a Portugal apresentr o livro declarou que escrever romances era uma hipótese séria na sua vida: “Aliás, tenho tentado, de vez em quando, a brincar. (...) É engraçado, de vez em quando, escrever qualquer coisa.”.

E, sete anos depois, escreveu mesmo: uma biografia. Intitula-se “A Brilliant Darkness – The Extraordinary Life and Mysterious Disappearance of Ettore Majorana, The Troubled Genius of the Nuclear Age”. Parece que é uma espécie de viagem de um físico teórico à descoberta dos mistérios e enigmas da vida e do pensamento de um outro físico teórico italiano - Ettore Majorana -, desaparecido misteriosamente em Março de 1938, aos 31 anos de idade. Sobre esta figura estranha, João Magueijo declara que “Tem-me acompanhado durante toda a minha carreira científica como uma sombra que não consigo afastar, lembrando-me sempre da sua história”; “Não fiquei apenas interessado em saber o que lhe aconteceu, fiquei agarrado à questão: O que o levou a desaparecer?” (in Público, 8/3/2010). Embora tenha descoberto muita coisa sobre Majorana, no final do livro, ao que parece, a pergunta fulcral continua sem resposta. Segundo Magueijo, isso não é o que mais importa: ”...na história de Majorana é também o resto que interessa. Ser um génio é uma deformação profissional, e ele pagou bem caro por isso.” (idem). Escrito em inglês, o livro foi publicado em Dezembro nos Estados Unidos e tem várias traduções já a decorrer para diferentes países. Sobre a sua possível tradução e publicação em Portugal, Magueijo respondeu à jornalista que o entrevistou (Teresa Firmino) que nada sabe.

Basta ver este excerto do documentário realizado pelo Discovery Channel - "A Física de João Magueijo" - para perceber a diferença entre o típico português que anda "lá fora a lutar pela vida" (cá dentro) e este português atípico que foi lá para fora para desfrutar a vida que merece.

Dizer os dias que vivemos também é uma música assim

"This is life", de facto.

domingo, 7 de março de 2010

A actualidade em cena no palco da comunicação social

Na peça Richard III de William Shakespeare, escrita em 1594, o rei, em pleno campo de batalha, grita, aflito:

“KING RICHARD III: A horse! a horse! my kingdom for a horse!
CATESBY: Withdraw, my lord; I'll help you to a horse.”
(In, Acto V, Cena 4)

Em Portugal, ano da (des)graça de 2010, no grande teatro político das influências, favores e favorecimentos, está em cena uma peça com contornos um pouco diferentes, que se ficam a dever, quase de certeza, à tradição marítima do país:

"Administrador: Um robalo! Um robalo! Os meus favores de milhões por um robalo!
Sucateiro: Descanse, senhor doutor! Já lhe enviei uma caixa deles! Ah, e vai também um fatinho de futebol para o menino!"

A poesia na era da tecnologia também é uma coisa assim

Gregory Colbert usou imagens extraordinárias de pessoas e de animais para criar um impressionante espectáculo multimédia intitulado "Ashes and Snow", que tem percorrido as grandes capitais do mundo. 
Colbert chamou "haiku" a cada uma das sequências de filme e de texto que integram a sua apresentação. Este "Feather to Fire" é narrado em três línguas por Laurence Fishburne (inglês), Ken Watanabe (japonês) e Enrique Rocha (espanhol).

Proverbiais e aforísticas...

...politicamente coerentes:
  • De mal dizer e de nada saber é feita a arte de governar.
  • Político pede, sucateiro dá (nem que seja um robalo).
  • Certos políticos escrevem torto até por linhas direitas.
  • Quem muito escuta pouco prende.
  • Mais vale ser escutado que perder bocado.
  • Com vara é que se conduz a manada.

sábado, 6 de março de 2010

Condensar o tempo

Florbela Espanca escreveu um dia que "Ser poeta" é, entre muitas outras coisas, ser capaz de "condensar o mundo num só grito". Também há quem seja capaz de condensar quinhentos anos de arte em alguns minutos de video que valem bem a pena. 


Estão aqui quase todos: Leonardo Da Vinci, Rafael, Ticiano, Botticelli, Boltraffio, Albrecht Durer, Lucas Cranach, the Elder, Messina, Perugino, Hans Memling, El Greco, Hans Holbein, Rokotov, Peter Paul Rubens, Gobert, Caspar Netscher, Pierre Mignard, Jean-Marc Nattier, Vigee-Le Brun, Sir Joshua Reynolds, Winterhalter, Tyranov, Borovikovsky, Venetsianov, Gros, Kiprensky, Amalie, Corot, Edouard Manet, Flatour, Ingres, Wontner, Bouguereau, Comerre, Leighton, Blaas, Renoir, Millias, Duveneck, Cassatt, Weir, Zorn, Mucha, Paul Gaugan, Henri Matisse, Picabia, Gustav Klimt, Hawkins, Magritte, Salvador Dali, Malevich, Merrild, Modigliani, Pablo Picasso.

Leitura pessoalmente conveniente de política inconveniente

Em 1848, Henry David Thoreau escreveu "A Desobediência Civil", no qual incitou os americanos a rebelarem-se contra um governo e uma Constituição que consagravam a escravatura e apoiavam a invasão do México para alargar o território. As ideias revolucionárias que contém têm sido (ab)usadas, sem terem em conta esse contexto específico, para dar cobertura a todo o tipo de ideias e propostas, das mais legítimas e sensatas às mais absurdas. Mas é como diz Thoreau quase no fim do texto: “Se um homem é livre, quando pensa, quando imagina, quando fantasia, dando existência a coisas que não existem, não há governante, não há reformador que possa colocar-lhe travões.”.

Foi a pensar nisto que tomei a liberdade de fazer a minha leitura de um dos melhores textos libertários de sempre. (Ah, e podem os governantes dormir tranquilos que não vou apregoá-la em nenhuma tribuna pública):

“O governo é uma espécie de espingarda de madeira na mão das pessoas. Mas isso não o torna menos necessário porque as pessoas precisam de ter uma máquina complicada, precisam de lhe ouvir o estrondo, para satisfazerem a ideia que têm de governo. Os governos são, assim, a demonstração de como os homens impõem facilmente o seu domínio e o impõem em proveito próprio, até mesmo quando o impõem a si próprios. Uma boa coisa, havemos de concordar. (…)Mas, falando na prática como cidadão, desvinculando-me dos que a si próprios se denominam antigoverno, não defendo agora a ausência de governo, limito-me a exigir, no imediato, um governo melhor. "(…)"Ao fim e ao cabo, a razão prática pela qual, tendo o povo o poder na mão, o entrega a uma maioria, que o conserva durante um longo período, não é porque essa maioria tenha razão, ou porque a minoria o considere justo, mas só porque a maioria dispõe de maior força. Mas um governo em que domine sempre a maioria não pode basear-se na justiça, tal como os homens a entendem." (…)

"Terão os cidadãos, por um momento que seja, mesmo em grau ínfimo, de submeter a sua consciência ao legislador? Eu penso que devemos ser primeiro homens e só depois súbditos. Não é desejável que se cultive o respeito pela lei, tanto quanto o respeito pela justiça. A única obrigação que tenho o direito de assumir é a de, em todas as alturas, fazer o que julgo justo. Afirma-se muitas vezes e com razão que uma corporação não tem consciência. Mas uma corporação de homens conscientes é uma corporação com consciência. Nunca a lei tornou um homem mais justo; é por causa do respeito pela lei que até alguns bem-intencionados se tornam todos os dias agentes da injustiça." (…)

"Seja como for, o governo não me preocupa nada e a minha vontade é pensar nele o menos possível." (…)

"A evolução duma monarquia absoluta para uma limitada e desta para uma democracia é o progresso do respeito pelos indivíduos. Até o filósofo chinês tinha saber suficiente para considerar o indivíduo como a base do império. Será a democracia, tal como a conhecemos, o último melhoramento possível do acto de governar? Não será possível dar-se mais um passo no reconhecimento e na organização dos direitos do homem?" (…)

"Dá-me prazer imaginar um Estado que possa finalmente fazer justiça aos homens e tratar os indivíduos com respeito, como os vizinhos entre si. Sem se convencer de que atentam contra a sua tranquilidade os homens que dele se distanciam, os que não se intrometem nos problemas dele, os que não se deixam dominar por ele, os que cumprem todos os deveres da boa vizinhança e da boa camaradagem. Um Estado que fosse capaz de produzir esse fruto e concordasse em deixá-lo cair no chão assim que ele estivesse maduro abriria caminho a um outro Estado ainda mais perfeito e glorioso, que eu por sinal também já imaginei, mas que ainda não encontrei em parte alguma." (...)

Cinema Inquietação

Na tela da memória projecta-se permanentemente um filme feito com pedaços soltos de ontem, hoje e talvez amanhã... São imagens, palavras, momentos, histórias, pessoas, decisões, mágoas, lugares, rancores, sonhos, teimosias, dúvidas, sensações, meias-verdades e semi-mentiras, paixões, saudades, interrogações, sei lá que mais... É também por isso que, com frequência, atravesso não as “quatro estações num dia”, como na canção dos Crowded House, mas sim a inquietação de (re)viver “quatro estações numa só hora”. Na certeza porém de que
It doesn't pay to make predictions
Sleeping on an unmade bed
Finding out wherever there is comfort there is pain
Only one step away
Like four seasons in one day

Blood dries up
Like rain, like rain
Fills my cup
Like four seasons in one day