domingo, 2 de dezembro de 2012

Postagem aberta ao Tótó Seguro

No intervalo de um daqueles frequentes estágios acelerados de formação para políticos incompetentes, a que todos os partidos deste país recorrem quando estão a ficar sem ideias sobre o que hão de dizer/fazer a seguir para aparecer no telejornal, esta iminência* emproada declarava então que "O nosso diálogo é com os portugueses (...), a primeira coligação [do PS] é com os portugueses".

Digo já, em alto e bom som, "alto lá com o andor que o santo é de barro" e o conceito de povo então, mais do que campo semântico movediço, é aqui campo minado. Por isso, comigo não conte, ó Tó Zé. 

E mais lhe digo, Tó Zése "os portugueses" aceitarem a sua inqualificável proposta já nas próximas eleições legislativas, antecipadas ou não, então é porque "os portugueses" não têm só um grave problema de memória, sofrem mas é já de encefalopatia coletiva em estado muito avançado.

E ao ritmo a que isto vai, não tarda e convoca uma conferência de imprensa para dizer "aos portugueses" que um bom candidato do PS à presidência da república seria o Sócrates ou, em alternativa, o Guterres, essa outra santidade socialista que resolveu vir agora (e porquê agora?) fazer um ato público de contrição. E de facto, porque ele não sabia fazer contas, é que o país se começou a afundar e, desde então, nunca mais parou, como se pode ver aqui:


Ou seja, Tó Zé, no que diz respeito a eventuais "coligações com os portugueses", e como a imagem bem documenta, falta-lhe um "bocadinho assim". E isso, para mim, faz toda a diferença.
Imagem daqui

* o «i» não é aqui, seguramente, erro ou gralha.

Se não for isto, é algo muito parecido - 16

Beleza em fluxo contínuo

por Jamie Scott

sábado, 1 de dezembro de 2012

Photograph

Frases de cabeceira - 10


O real: resposta ou convicção

(Se calhar, nem uma coisa, nem outra)

Como é que se posiciona no real?

Num soneto, o Jorge de Sena pergunta: quem somos nós para pôr a questão? A questão já tem uma tal opacidade. Temos respostas ou convicções várias... Nasci num texto sagrado. Quem tem este texto, quem tem essas narrações que condicionam toda a leitura do resto tem resposta para essas questões. Quem não tem fica numa ambiguidade em relação a esses temas.

Eduardo Lourenço, entrevista a Isabel Lucas
In Montepio, nº 7, Série II, Out. 2012

Madrugada


É nas madrugadas mais frias, quando a claridade crepuscular ainda mal deixa adivinhar o dia, que o ar rarefeito transporta certos sons de uma forma única e paradoxal, eliminando-lhes a estridência e a distância: a passagem dos carros lá em baixo na estrada, o breve tinir dos chocalhos do rebanho que começa a despertar algures, o latido solitário de um cão que parece perdido nos montes ou a ligeira agitação das folhas que ainda não sucumbiram ao outono.

Mais do que sons, são sinestesias. Lembram vozes distantes que venceram a barreira do tempo para acordar memórias e (re)descobrir velhas imagens amarelecidas e há muito esquecidas no fundo das gavetas. São como vozes do passado que só agora tivessem conseguido completar a sua viagem. Tão familiares e, ao mesmo tempo, tão estranhas.

Gosto de ficar atenta, no quente aconchego da cama, a ouvir estes pedaços desencontrados de histórias e a folhear mentalmente um velho e imaginário álbum de fotografias, enquanto a realidade vai acordando pouco a pouco.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Frases de cabeceira - 9

elegia a duas vozes


René Magritte: Os Amantes, 1928
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
não faltaram quilómetros de asfalto,
nem a travessia do deserto tornada rotina,
os olhos secos, doridos
e sempre à chegada a estranha sensação
de não estar no lugar certo
                            faltou dizeres o meu nome
                            como se o soubesses

não faltou a mesa, o riso,
a cama, o cio,
o corpo e as suas urgências,
olhos nos olhos, o fogo fátuo da cumplicidade
extinto logo ali, no último soluço do prazer
                            faltou dizeres o meu nome
                            como se me conhecesses

não faltaram palavras, muitas,
ditas e escritas, ocas quase todas,
entre reticências e grandes silêncios
carregados de signos indecifráveis
tudo só para dizer que a conjugalidade, afinal,
mesmo quando não passa de tosco arremedo,
é bem triste comédia
                             faltou dizeres o meu nome
                             como se me procurasses

e também não faltaram coincidências,
afinidades, uns quantos tropeções,
outros tantos (des)encontros,
alguns (re)começos
e todas as variações possíveis do ocaso
                               faltou dizeres o meu nome
                               como se me chamasses

                               e faltou que eu, depois,
                               respondesse ao teu chamamento