sexta-feira, 17 de junho de 2011

Poesia que se ouve - I

Performance de poesia sonora realizada por Márcio-André na Casa de Camilo Castelo Branco (Famalicão, 2010) a partir do poema "Quatro cantos do caos", de E. M. de Melo e Castro.

Alentejo contra a crise: copiar é preciso

Évora é o que está a dar (pelo menos por um ou dois dias) nos telejornais. Ele é a "Pig parade" (versão adpatada à tradição gastronómica local da ainda mais vistosa "Cow parade", que animou aqui há uns tempos as ruas de Lisboa), as "Sextas-feiras anti-crise", que são uma espécie de remake regional do "boxing day" anglófono... Afinal, a globalização também é isto. Importam-se todas as ideias alheias e espalhafatosas que forem precisas para promover e incentivar o consumo na cidade de Évora. Claro está que saber se as pessoas têm, ou não, o dinheiro necessário para fazer esses consumos é uma coisa que agora também não interessa nada para o caso.

Ora, precisamente no mesmo telejornal em que tomei conhecimento destas fervilhantes iniciativas eborenses, passou ainda este vídeo que regista a original forma de protesto de um grupo de operários espanhóis prestes a ficarem desempregados à custa da deslocalização da empresa onde trabalham para outras paragens (no caso, a Turquia):
  

Perante a desenfreada busca de estratégias alheias que tem animado os eborenses nestes últimos tempos, faço questão de dar também o meu humilde contributo pessoal. Afinal, quem vive, como eu, numa cidade do interior alentejano, precisa, de quando em vez, de qualquer coisa que quebre a espessa monotonia dos dias iguais, pois só assim é possível preservar alguma da pouca sanidade mental que nos resta. E a minha sugestão tem ainda a vantagem de poder vir a ser utilizada, com grande proveito, noutras cidades alentejanas e não só. Há que aproveitar enquanto a importação de ideias não paga imposto.

E que tal uma "Nude parade" para promover, por exemplo, a "Feira de S. João" que está prestes a iniciar-se? Mas atenção: feita exclusivamente com "produtos locais", claro está, pois há que defender a economia nacional. Ou então uma "acampada" no tabuleiro da Praça do Geraldo, por tempo indeterminado, para protestar contra a crise em geral e o tédio em particular?

Eu acho que ia ser um sucesso. Mais, acho até que, assim, Évora ganhava um ar ainda mais cosmopolita do que aquele que já tem actualmente. E sempre a Agenda Cultural da terra ficava um pouquinho mais recheada...

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Eclipse lunar em versão musicada

Se me comovesse o amor

Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia

caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer

o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.

Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.

Francisco José Viegas, In Se me Comovesse o Amor,
Ed. Quasi, 2008, 2ªed.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Poesia (des)enrolada

Textos: "Declaração de amor ao primeiro ministro" de A. Pedro Ribeiro; "Um Prego" de Luis Miguel nava; e "Confissões intelectuais" de Sérgio Almeida.
Diseurs: Paulo Moreira e Pedro Piaf


Portugal pelos olhos de outrém

Barry Hatton, jornalista inglês há muito radicado entre nós, publicou recentemente em Inglaterra (Signal Books) um retrato do país e do povo que bem conhece e a que deu o título de Os Portugueses, já com edição nacional (Clube do Autor).

A sua visão do povo português é clara, concisa e marcada pela objectividade de uma visão "de fora". É sobretudo uma visão positiva pois como o próprio Hatton afirma "Falo muito bem de Portugal no livro, acho que é um país óptimo. Estou cá há 25 anos, já me foram oferecidos empregos em Nova iorque, em Londres, em Bruxelas, e sempre disse que não. Além de não ser uma pessoa que quer entrar para o trabalho às oito da manhã, prefiro uma vida mais descontraída." Mais à frente acrescenta: "Cada país tem os seus pontos fortes e os seus pontos fracos. Os portugueses têm imensas qualidades, embora os portugueses não achem muito isso. (...) Os portugueses dizem mal de Portugal, dizem mal uns dos outros, mas adoram Portugal. (...) O meu poeta preferido, em qualquer língua, é o Torga. Descreve os portugueses como sendo um "pacífico colectivo de pessoas revoltadas."

Questionado sobre a actual crise e o resgate financeiro a que ela levou Barry Hatton afirmou : "estas medidas são como um penso rápido numa perna partida, como se diz em inglês. Se Portugal quer mudar mesmo, vai ter de mudar a sua maneira de viver. Vai levar gerações, não vai mudar com um acordo com o FMI e a zona euro."

E enunciou depois de uma forma simples, mas brilhante, o verdadeiro e grande desafio com que estamos confrontados e de que ninguém quer falar, sobretudo os políticos: "Até que ponto os portugueses querem mudar? Se querem ser ricos como os alemães e os suíços, os holandeses e os escandinavos, têm de entrar ao trabalho às oito da manhã, trabalhar até às seis, jantar às sete e estar na cama às nove. É essa vida que os portugueses querem? Acho que não. (Se quiserem, vou-me embora, vou para outro país [riso]). Por outro lado, esta geração que cresceu com a União Europeia, que viaja, que tem contacto com a internet, com os outros países, tem outras comparações para fazer (como se viu com os protestos da "geração à rasca").  (...) Esse tipo de contactos muda mentalidades. Muito devagarinho, mas muda. Essa mudança vai ajudar a destapar os portugueses, que estão muito abafados pelas estruturas rígidas da sociedade. É um florescer que vem com o tempo, não vai ser de um dia para o outro."

Palavras sábias as deste jornalista que revela um conhecimento admirável sobre os portugueses ao dizer ainda que: "O jantar e almoçar fora, o convívio, a tertúlia, são a alegria de viver que os portugueses têm. Têm tristeza, mas têm joy in their heart. (...) Parece que uma coisa não bate certa com a outra, mas têm, Têm muita resistência, são muito fortes, adaptáveis. Têm o "desenrascanço", que é uma coisa magnífica que os gajos da troika não sabem, e que os analistas lá fora também não sabem. Deviam saber. Os portugueses mostram que conseguem, só falta destapar aquele potencial. Vai demorar mais uma geração, mas não me preocupo com Portugal."

Ora aqui está um belo exemplo desse tal espírito português do "desenrascanço" de que fala Barry Hatton, registado bem perto da minha casa:

Estremoz, 14/6/201
Trata-se do aproveitamento do arredondado passeio junto à entrada da garagem nas traseiras da casa, tendo a calçada sido substituída por um  exíguo canteiro, cujos limites estão até vedados por improvisada rede e onde se podem colher temperos (salsa e hortelã) e folhas de couve portuguesa para o caldo verde. É mesmo possível, em devido tempo, saborear uns pêssegos, pois tem pomar incluído.
Para além de ser a expressão primorosa de uma certa portugalidade (ingénua, rural, de bom coração), não deixa de ser também aquilo que, agora, e de forma algo pomposa, se designa como "hortas urbanas". Só que esta existe há já muitos anos e demonstra exactamente o tal espírito de "desenrascanço" de que Barry Hatton fala na sua entrevista e que tão útil se pode revelar em tempos de crise como os que estamos a atravessar.

Na verdade, este recanto de passeio público transformado em mini-horta é o lado bom, ingénuo e bem intencionado desse "desenrascanço" nacional, pois julgo que era desse que Hatton falava,  e não do outro, que também existe mas que, em boa parte, nos trouxe até ao beco sem saída em que agora nos encontramos. A este, e a todos que se aproveitam dele para encher os bolsos, vamos ter mesmo de dizer «não, obrigado!». Se não o fizermos estamos mesmo tramados.

Observ. - Os excertos são da entrevista dada por B. Hatton à Pública de 5/6/2011.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Improvisar também é uma música assim

De tarde, com os Poetas

Esta espécie de linha da frente da poesia popular do concelho de Estremoz mostrou ontem à tarde, a todos quantos lá estiveram para os ver e ouvir, com quantos versos se faz uma boa décima. Foi a etapa final de uma maratona de poesia popular que percorreu as freguesias do concelho ao longo do mês de maio.

Estremoz, 12/6/2011
Presentes neste friso de poetas estavam, entre outros, o "Ti" Canoa de S. Lourenço, a D. Constantina, ilustre descendente do genial Jaime da "Manta Branca", o Sr. Altino, antigo "contínuo" da escola secundária, e, claro, o Sr. Aurélio Buinho, do Cano. São, na sua maioria, antigos camponeses.   Verdadeiros "sem-terra" que, em tempos que já lá vão, mendigavam trabalho nos campos alheios para poderem sobreviver. Têm o rosto e o corpo marcado por toda a espécie de canseiras, dificuldades e privações.

Conheceram como ninguém as agora (quase) inacreditáveis arbitrariedades de que os todo-poderosos senhores da terra alentejana eram capazes. É disto tudo e de muito mais que falam nas redondilhas que escrevem ou memorizam e é quase comovente o entusiasmo com que, ainda hoje, louvam os ideais ingénuos da reforma agrária, nos quais acreditaram de alma e coração, sem hesitar; a tremura na voz embargada pela tristeza com que dizem as dores e perdas que foram sofrendo ao longo dos anos (um filho, a companheira); ou a forma resignada, mas simultaneamente optimista e sábia, como encaram a velhice e o seu cortejo de doenças e debilidades.

Uma das décimas ditas ontem por Aurélio Buinho, antigo pastor que ocupa(va) o tempo a fazer versos encantadores e de uma força extraordinária, os quais guarda(va) na memória por não saber ler nem escrever foi esta, criada em 1980, a partir de um mote de Luís de Camões e que se mantém actual. Nela é o próprio Portugal personificado que se exprime:

MOTE

Já não posso ser contente
Tenho a esperança perdida
Ando perdido entre a gente
Nem morro nem tenho vida

(Fala o País)
I
Eu sou um país assim
Tenho traidores e divisionistas
Tenho ladrões e oportunistas
Que se estão valendo de mim
Mas espero ter o fim
Do desrespeito presente
Quero ter continuamente
A democracia de vez
Mas não respeitam as leis
Já não posso ser contente

II
Tenho em mim tanta pobreza
Tenho rosas e tenho espinhos
E tenho tantos pobrezinhos
Que produzem a riqueza
Tenho a alta nobreza
Tenho a classe desfavor'cida
Tenho atentados na lida
De quem produz o pão
Por não ter paz e união
Tenho a esperança perdida

III
Por tudo isto sou culpado
E do meu interesse esquecido
Há tantos anos adormecido
Sem que me tenham acordado
Deixei marcas no passado
Governei inconveniente
Torturei severamente
Da maldade estou cansado
Sou um país desastrado
Ando perdido entre a gente

IV
Tenho um livro complicado
Tenho a lei atraiçoada
Tenho a vitória falhada
Tenho o interesse do estado
Tenho o rico abastado
Tenho a miséria escondida
Tenho a verdade desmentida
Tenho o povo descontente
Sou um portugal doente
Não morro nem tenho vida

In, Camões e os Poetas Populares,
ETZ, 1983

Disse de memória outras décimas de que não tenho registo escrito: a das aflições que enfrentou durante uma tempestade de proporções bíblicas, quando tinha perto de mil e quinhentas ovelhas à sua guarda, as quais se recusavam a atravessar as valas alagadas e transformadas em torrentes fortíssimas para proteger os pequenos borregos e que assim forçaram o pastor passar a noite ao relento; ou aquela, para mim a mais impressionante de todas, dedicada à morte e feita quando, um dia, no campo, ouviu o repique dos sinos que anunciavam um funeral na aldeia distante.

Depois das décimas, animados pelo copo de tinto entretanto distribuído pelo “maestro” Hernâni, logo os poetas afinaram a voz e começaram a cantar à desgarrada. O acompanhamento musical esteve a cargo do Sr. Altino e das suas sonoras “trancanholas”, instrumento musical que ele mesmo inventou e construiu, e com o qual anima jogos florais, excursões e convívios que ele aprecia quase tanto como os “passarinhos assados no carvão” com que remata todas as suas décimas. Enfim, um memorável final de tarde (a qualidade do vídeo é que não é assim tão memorável, mas enfim, foi o que se conseguiu arranjar...)


domingo, 12 de junho de 2011

Há dias para tudo, até para uma "Postagem em Branco"

  • Há dias para celebrar acontecimentos, pessoas, entidades, ...
  • Há dias para festejar...
  • Há dias para (re)lembrar...
  • Há dias para esquecer (muitos mesmo)...
  • No fundo, há dias para tudo. Por isso, também pode haver dias para... nada.
Ou melhor: dias para não fazer rigorosamente nada. Afinal, desde que alguém se lembrou de publicar o "Livro em Branco" dizendo que, lá por ter as páginas em branco, não deixava de ser um livro em tudo igual aos outros e o pessoal achou tanta piada à ideia que (quase) toda a gente o comprou fazendo daquilo um sucesso de vendas maior do que muitos dos livros do Saramago da fase pré-Nobel... (Aliás, ainda hoje é possível comprá-lo - já vai na 14ª edição "revista, ampliada e comentada" -  e, pasmemo-nos, vende-se na secção "literatura", como se pode ver aqui...)

À semelhança do que se afirma convictamente na capa do tal livro em branco: "uma postagem é uma postagem, mesmo quando não há nada nela". Por isso, esta é a minha "Postagem em Branco" pois determinei que, para mim, hoje, era tal dia. Vamos ver se consigo cumprir: um dia para não fazer nada, como se estivesse de bem merecidas férias.

sábado, 11 de junho de 2011

Uma espécie de missão impossível com muitos tentáculos à mistura

Um deles até é cor-de-rosa e o outro ... alaranjado. Enfim, coincidências curiosas...

Anúncios (des)classificados

Nos meados da década de 90, quando o semanário Independente provocava grandes ataques de azia a muito boa gente neste pais, e logo após as eleições que deram a vitória a Guterres, o suplemento Vida publicava duas páginas de anúncios classificados dirigidos especialmente aos "laranjinhas" que, após a derrota eleitoral, teriam que começar a procurar novos empregos, uma vez que o "tachinho" político tinha acabado. Tinham que ceder o lugar aos "rosinhas" que, agora e por sua vez, se vêem na contingência de desocupar a cadeira em favor dos "laranjinhas". 

Tendo em conta que a bipartidarização da vida política portuguesa tem levado à sucessão alternada de ciclos políticos em que apenas muda a cor da bandeira partidária e tudo o resto se mantém idêntico (corrupção, nepotismo, favorecimento, etc. etc.), a verdade é que os pequenos anúncios irónicos e críticos mantêm toda a actualidade e podem agora, ao fim de mais este ciclo político de hegemonia "rosa" ser adaptados sem qualquer problema. São da autoria de Henrique Burnay e Pedro Marta Santos estes autêntico mimos de humor inteligente.

Os "rosinhas" vão começar muito em breve à procura de empregos. As ofertas serão múltiplas e variadas. Aqui ficam alguns exemplos de possíveis classificados "rosas" para inspirar os que, agora, se vêem forçados a procurar outros meios de subsistência até que a tal alternância dite novamente o seu apoteótico regresso à ribalta:
















sexta-feira, 10 de junho de 2011

Alheios são todos estes versos onde me enleio

...cá, onde o mal se afina e o bem se dana...
...correm turvas as águas deste rio...
...efeitos mil revolve o pensamento...
...vai-se gastando a idade e cresce o dano...

...aquilo a que já quis é tão mudado...
...(parece-me qu’estava assi ordenado)...
...que o tempo que se vai não torna mais...
...e pois já não me vedes como vistes...

...que dias há que na alma me tem posto...
...este meu tão cansado sofrimento...
...vencendo ferro, fogo, frio e calma...

...mas por que meu destino se mostrasse...
...contentei-me com pouco, conhecendo...
...o rouco som do mar, a estranha terra...

Luís Vaz de Camões, Príncipe dos Poetas

Lápide

Luís Vaz de Camões.

Poeta infortunado e tutelar.
Fez o milagre de ressuscitar
A Pátria em que nasceu.
Quando, vidente, a viu
A caminho da negra sepultura,
Num poema de amor e de aventura
Deu-lhe a vida
Perdida.
E agora,
Nesta segunda hora
De vil tristeza,
Imortal,
É ele ainda a única certeza
De Portugal.

Coimbra, 11 de Janeiro de 1980

Miguel Torga, in "Diário XIII", 1983;
"Poesia Completa", 2000

quinta-feira, 9 de junho de 2011

e la nave va

O rating actual da língua portuguesa

Sobre o valor da Língua Portuguesa no mundo actual, a presidente do Instituto Camões, Ana Paula Laborinho, fez várias afirmações curiosas numa entrevista* recente.

À pergunta "Prevê-se que o português cresça a nível internacional nos próximos tempos?, respondeu o seguinte: "Exactamente. Quando falamos da economia das línguas, também falamos da afirmação das economias nessa língua e, olhando para o mundo, o facto de países como o Brasil ou Angola estarem em crescimento afirma a língua.  Há uma relação entre línguas e economias. Um dos exemplos é a própria China. Em 2002, quando deixei Macau, havia na China três universidades onde se ensinava português e neste momento há 17."

Depois, explica de forma mais detalhada esta ideia: "Precisamente por causa da economia e do interesse que eles têm nas relações económicas quer com o Brasil quer com Angola. Estamos a falar em dois fenómenos: o dos países que falam as línguas e o da expansão e da sua divulgação como língua estrangeira, que se faz muito por via do interesse que as economias desses países têm em termos internacionais."

Uma nova questão permite clarificar mais ainda esta estreita ligação entre a língua e a economia: "Ao nível da procura no estrangeiro, o português está ao nível de que outras línguas?"
"Há uma grande procura na China, na América Latina, em África e, no caso da Europa, nos países de Leste. A procura do português é hoje, muito claramente, maior que a de algumas das línguas tradicionais como o francês e o alemão. Não será tão grande na Europa como é noutras regiões. A língua portuguesa não tem na Europa o espaço que lhe é devido. A Europa tende a considerar as línguas em função da população europeia. A língua portuguesa não vale apenas 10 milhões."

Em vésperas do Dia da Língua, vale a pena reflectir sobre a cinzenta realidade da língua portuguesa no seu território de origem: Portugal. É que, como a própria presidente do Instituto Camões muito bem explica, o crescimento linguístico a nível global é consequência directa do desenvolvimento económico de dois grandes países irmãos: Angola e Brasil. E também dos cada vez maiores investimentos e interesses económicos da China nesses dois territórios lusófonos.

De lamentar é que Portugal não capitalize nada disto, nem em termos de desenvolvimento económico, nem em termos de promoção da aprendizagem da língua portuguesa não materna, a qual é, aliás, da responsabilidade do Instituto Camões. Nunca Portugal liderou nada disto. Quando muito, foi-lhe permitido ser mediador  preferencial em diversas entidades internacionais devido ao facto de ser o país de origem da própria língua. No fundo, apenas por cortesia dos tais países-irmãos.
E se não o fizemos antes, em tempos de subsídios abundantes e de generosos programas europeus de financiamento, muito menos o faremos agora em tempos de recessão económica, de crise social e de dificuldades financeiras que obrigarão a cortes brutais no financiamento, nomeadamente do próprio Instituto Camões. Resta-nos, pois, esperar com paciência que essa cortesia se estenda também à vontade de ajudar a nossa debilitada economia fazendo alguns investimentos em território nacional.

Mas claro, sobre tudo isto cairá amanhã um conveniente silêncio... Afinal é dia de desfiles, discursos e medalhas e não se pode estragar a festa... nem o povo ia ficar contente



* In Pública, 5/6/2011

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Por este andar...

...vamos é ficar todos de bina (e já não será nada mau...)

Ressaca eleitoral - II

Os (tele)jornais descobriram agora as troikomedidas que nos vão esvaziar os bolsos daqui em diante e passam a maior parte do tempo a azucrinar-nos a paciência com elas: são 200 a implementar até ao final do ano. Isto para começar. Só nos falta saber se as duas centenas já divulgadas não escondem outras tantas por enquanto ainda só conhecidas no recesso dos gabinetes ministeriais onde as negociatas político-partidárias decorrem a bom ritmo (dizem-nos também).

Julgo que é caso para lamentar o final da campanha eleitoral, período em que os candidatos, numa clara manifestação de sensibilidade e consideração para connosco, tiveram o cuidado de nos poupar a este duro choque de realidade. Deixaram a desagradável tarefa para os media. Eles (os políticos) convocarão depois uma conferência de imprensa para explicar ao país que, afinal, foram forçados pela conjuntura internacional (sempre ela), que os mauzões do FMI (sempre eles), que a senhora Merkel, que a UE, que a Grécia, que... etc, etc. Enfim, tudo razões de peso para justificar o que vem a caminho.  Ninguém, e muito menos eu, consegue ainda visualizar bem o impacto real que isto terá nas nossas vidas. Sobretudo - e apesar da catadupa de notícias, declarações e explicações - ninguém está verdadeiramente preparado para elas.

Na verdade, apesar das más notícias com que nos bombardeiam todos os dias, acho que ainda estou (não estamos todos?) na fase avestrusiana da coisa. Ou como bem dizia o Luís Afonso no seu certeiro Bartoon:

Público, 2/6/2011

terça-feira, 7 de junho de 2011

O número de versos

É muito igual a literatura, o que fica guardado nos livros.
Com o tempo mudou o verso, a curva, o arco,
o declive, o mal-estar, a maneira de enumerar as paisagens,
as coisas desconformes. Imagina tu as palavras que se repetem
à saída dos cinemas de província, atravessando o nevoeiro
das noites de Inverno; imagina tu estas ruas que ficam desertas
com o crepúsculo, os campos de batalha, os recados e bilhetes
de amor que nunca foram entregues, os caminhos
que levam da madrugada até ao coração da morte.
Poesia fácil, prosa quase; a música vem da sua melancolia
e não da aritmética sentimental, daquelas palavras
(sangue, grito, coração, litoral). Mais de um halo,
do sopro dos pinhais, dos destroços de um amor de toda a vida.
Desengana-te acerca da poesia, da elevação,
da circunstância, fala apenas - como os antigos - da aventura
de um solitário entre ruínas, levantando as pedras,
reerguendo os muros, contando o número de vítimas.
Depois deste haverá outro terramoto, recordarás o vento
nas eiras, o musgo entre os carvalhos, o rio dobrando-se
numa curva onde há mais choupos, esse areal, essa ventania.

Francisco José Viegas, In Se me comovesse o amor,
Quasi Ed., 2008, 2ª ed.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Dia de ressaca

Hoje é dia de ressaca nacional alargada.

Para os vencedores da noite porque, apesar dos apelos do líder à «contenção», não se conseguiram conter e andaram a pavonear-se ruidosamente pelas ruas durante boa parte da noite.

Para os vencidos porque:
  • no PS acharam sempre que, apesar dos pesares (e eram muitos) segurariam o poder por uma unha negra; por isso, quem tinha algo a perder com a derrota (nem que fosse o cargozinho de sub-sub-assessor de qualquer coisa ou de alguém, na mais recôndita das repartições públicas) deu o tudo por tudo na campanha para dara  ideia de que a coisa estava garantida; a tal ponto que até o grande líder foi apanhado de surpresa...
  • no BE porque não perceberam que a malta, confrontada com as dificuldades e apertos do dia-a-dia e, sobretudo, com a total ausência de expectativas (em especial os mais qualificados), já se cansou daquilo que o próprio Daniel Oliveira classificou como 'exotismo de esquerda' ou animação de rua que apenas pretende fazer bonito com recurso à ironia ácida e pouco mais; a juntar a tomadas de posição e decisões recentes que, aliás, acabaram por minar a credibilidade política de um partido que, nas anteriores eleições, até tinha crescido no parlamento mas que, ao insistir na ideia de não querer ser governo, acabou por não poder afirmar, com seriedade, que exige a mudança, pois esta só pode passar por uma outra forma de governação; todos os que queriam que se fizesse/mudasse, de facto, alguma coisa foram assim forçados a procurar outras paragens político-partidárias (se foram, ou não, as mais certas e adequadas, é uma outra conversa). A este propósito vale a pena comparar com os resultados do CDS - um dos vencedores da noite -, cujo líder assumiu exactamente a atitude oposta e tirou disso largo e óbvio benefício.
Para os comentadores, politólogos, analistas e outros opinion makers da praça que têm agora novas munições para nos moer o juízo diariamente, enquanto tentam por a + b provar que, afinal, cada um deles é que tinha razão e, aliás, já tinha dito isso mesmo num qualquer canal de televisão.

Mas a maior das ressacas, contudo, é a do próprio país. Mais do que a já conhecida dança do «ora agora mandas tu, ora agora mando eu, ora agora mandas tu mais eu», a que também se costuma chamar bipolarização, destaca-se na noite de ontem uma clara viragem do país à direita, por enquanto ainda numa direita que se diz moderada (a fala mansa e de tom radiofónico de Passos Coelho, reforça esta ideia que ainda está por confirmar). A paulatina subida do CDS nos últimos actos eleitorais confirma essa tendência. Os portugueses agora desconfiam - e têm muitas e boas razões para isso - dos partidos que se afirmam de esquerda para ganhar os votos mas, uma vez chegados ao poder, fazem uma espécie de lavagem cerebral e governam em função dos interesses partidários e das recompensas exigidas por aqueles que, dentro do partido, os ajudaram a chegar ao poder e não do país. Este que pague depois a conta dos desvarios. Por isso deu ao PSD a maioria necessária e suficiente para governar, mas sem maioria absoluta. E com uma garantia adicional: será um governo de coligação. O que, para o bem e para o mal, sempre obrigará a algum jogo de cintura.
E o responsável por esta viragem talvez histórica - e que já nada tem que ver com as motivações subjacentes à maioria absoluta de Cavaco Silva nos anos 90 - é justamente um partido que se diz de esquerda: o PS. Um partido historicamente associado ao 25 de Abril e à implantação de uma democracia de centro-esquerda em Portugal. Esta é que é a grande ironia da noite eleitoral de ontem. Esta é que, a meu ver, é a grande ressaca que vamos ter que curar. Ontem, o povo fez a sua escolha e disse o que pensava. Escolheu entre quem se diz de esquerda para ganhar votos e depois governa ainda mais à direita que os partidos ditos «de direita» e quem se afirma da direita moderada ou centro-direita e não parece disposto a sair muito dos trilhos conhecidos (pelo menos para já).
Também o reforço da votação na CDU mostra como os portugueses reconhecem nesta força política a ligação sentimental a essa espécie de paraíso perdido que foram os sonhos da revolução de Abril e acha importante a sua presença no parlamento para que a memória do "antes" e "depois" da Revolução não se dissipe para já numa sociedade que começa agora a ser governada por aqueles que nasceram já no pós-25 de Abril e que do «antes» pouco sabem ou ouviram falar. De certa forma, a CDU ficou ontem mandatada para ser o memorial vivo dos ideais de abril, num parlamento agora de direita, para afirmar lá, na «casa da democracia», que o povo português gostava mesmo era de viver numa próspera democracia de esquerda mas como, face à conjuntura internacional, isso já não é possível quer lá o PCP para lembrar e dizer a todos o que sente lá bem no fundo.

Vamos então aguardar para ver o que o tempo dirá e nos trará.