No espaço branco do lençol os nossos corpos inscreveram a suor o lema revolucionário do desejo: liberdade, igualdade e fraternidade. Depois, olhos nos olhos, cada um mergulhou no silêncio do seu próprio abismo. São frágeis as pontes que unem os corpos e efémeros os atalhos que conduzem ao coração, pois a brevidade é a lei involutiva do amor.
sábado, 6 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
A metafórica árvore da poesia
A poesia tem como raiz o coração humano e como folhas milhares de palavras: neste mundo, onde os homens vivem sob o peso das preocupações mais absorventes, a poesia permite deixar o coração exprimir-se através das coisas que se vêem e ouvem: é nas flores, o canto do rouxinol; sobre as águas, a voz da rã: quem, ouvindo-os, vive sem cantar o seu canto?
Tsourayouki (Séc. X, Japão)
Imagem: "Árvore das Ideias", desenho de Lucas Almeida.
Proverbiais e aforísticas...
... de Bernardo Soares
In "Maneiras de bem sonhar", Livro do Desassossego - 2ª parte
Adia tudo. Nunca se deve fazer hoje o que se pode deixar de fazer também amanhã.
Nem mesmo é necessário que se faça qualquer cousa, amanhã ou hoje.
In "Maneiras de bem sonhar", Livro do Desassossego - 2ª parte
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Fotobiografia do amor
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
O sexo dos blogues
Em 1995, Isabel Allegro de Magalhães publicava uma colectânea de leituras de ficção narrativa a que deu o título de “O Sexo dos Textos”. À questão com que abre a Introdução - “Poder-se-á dizer que os textos têm sexo?” -, a autora respondia da seguinte forma:
“Aparentemente, só os autores têm sexo, não os textos” mas “...os textos são tecidos linguísticos e a matéria da língua – em particular a das línguas latinas, no Ocidente – é toda ela sexuada. Artigos, pronomes, algumas flexões verbais, substantivos (...), adjectivos, são em grande número marcados por um género gramatical...”.
Para além disso, “...a linguagem escolhida, recriada por cada falante e por cada escritor/a – manifesta também ela, preferências diversas, a nível morfológico, fonético, sintáctico, semântico, e tembém rítmico, rimático, etc., preferências essas que podem ser olhadas como espelhos, mais ou menos nítidos, dos universos de experiência de homens e mulheres. E não apenas a linguagem expressa essa dualidade sexuada, como ainda as antenas de percepção do mundo, as sensibilidades, as lógicas (racional, afectiva, onírica); os pontos de vista, também eles, variam.”.
A autora diz depois que os textos “...expressam a diversos níveis essa inegável diferença – antropológica, histórica e cultural – que existe entre uma maneira de estar no mundo própria dos homens e outra própria das mulheres. Uma diferença que em cada sociedade toma modalidades específicas ao longo dos tempos.”.
Conclui depois o seu raciocínio afirmando que “...sempre houve escritores em quem, de certa forma, reconhecemos uma «escrita feminina», assim como há também escritoras que criam uma «escrita masculina». (...) E é assim que se configuram predominâncias, de forma a podermos distinguir duas fundamenatais modalidades de escrita: uma mais próxima do que é a vida, historicamente determinada, das mulheres, e outra mais de acordo com a amneira dominante de estar no mundo, a dos homens (com tantas variantes em cada uma delas quantos os autores).” .
Podemos dizer que este texto está de certa forma marcado cronologicamente, porque se refere muito em particular a uma ficção narrativa de autoria feminina que criou raízes e cresceu em quantidade e em qualidade na segunda metade do século vinte e afirmou a sua maioridade sobretudo a partir da década de setenta. Contudo, ele levanta questões bastante pertinentes face às novas realidades da comunicação globalizada.
Uma delas é justamente esta, em espelho com as afirmações da autora: «Poder-se-á dizer que os bogues têm sexo?»
Haverá nos blogues uma «escrita feminina» e uma «escrita masculina»?
Haverá bloggers que, no desejo de explorar em si mesmos o «continente» do outro sexo, se aventurem a uma escrita mais próxima das características da escrita dita feminina e vice-versa?
Vamos então às provocações:
1) Poderá este ser um exemplo da consciência de que homens e mulheres escrevem, de facto, de forma diferente?
Beijo Ardente
Quando eu era novata nos blogues, achei que seria curioso criar um personagem masculino. Tentava pensar como um gajo, imaginar a vida que um gajo solteiro poderia levar e escrever sobre isso. Até arranjei uma ninfa virtual, por quem sofria de amores.
O blogue que eu e Bentinho criámos era muito sombrio e eu divertia-me imenso a chatear os outros bloggers.
Havia um blogger, já não me lembro bem qual, que terminava sempre os comentários e os posts com «um grande bem-haja». Achei aquilo delicioso.
Quando me resolvi dedicar a este Blogue e contar as peripécias diárias da Capitú (com toda a ficção que lhe consigo imprimir), decidi também construir uma despedida típica.
Beijos todos mandam, mas «beijo ardente» só pode ser da Capitolina.
Um beijo ardente para todos então e, já agora, um grande bem-haja,
Capitolina.
Postado por Capitu do blogue Capitu e a Cidade
2) Poderá este ser um exemplo de escrita dita feminina?
eu de mim não me queria
minhas grandes inconstâncias
minhas tantas insolências
meu saltitar cansativo
e de mim quase abortei
então de mim fui ficando
fui gostando dessa mim
acomodando-me as beiras
e se eiras eu não tinha
agora tenho
eu de mim já muito quero
pus-me à frente em minha fila
mas porém sem holofote
dessa luz eu não preciso
tenho eu clarão de mim~
Postado por Líria Porto do blogue Tanto Mar
3) Poderá este ser um exemplo de escrita dita masculina?
ECCE HOMO
eu que matei deus
e descredenciei credos,
oro entre pernas,
num gozo profundo
onde o mais profundo
dos infernos
ousaria chegar.
religo-me ao que tenho
de mais animal e primitivo:
dentes, carnes, gemidos
e não me detenho
ante as cruzadas...
sejam pernas, sejam armas.
meu amor,
frente ao que é meu
frente ao que é seu
o bem e mal
são os preconceitos de deus.
nós somos imortais.
Postado por Rubens Guilherme Presenti do blogue Poemastigando
4) Poderá este ser um exemplo de escrita que, embora masculina, se aproxima de uma forma mais feminina de ver o mundo?
Devoto do silêncio
Por vezes perguntam-me sobre os motivos que me levaram a pedalar até Ourique e por aqui ficar. Existe a suspeita de que o faço para curar um desgosto de amor, mas é um erro. A partir de certa altura, o desgosto de amor deixa de ser uma desilusão e passa a ser uma inevitabilidade. Um dos verdadeiros motivos que me trouxeram para Ourique foi a ressaca que experimentava depois de falar em público. Se no início ficava em pânico quando precisava de enfrentar uma plateia, uma vez cumprida a tarefa sentia-me bem. Mas com os anos o pânico deu lugar a uma melancolia por antecipação, pois era inevitável que iria ressacar depois da aula, do seminário ou da palestra. Nunca - mas nunca - me senti minimamente realizado com estas actividades. Uma frustração imensa apoderava-se de mim e só uma noite bem dormida era capaz de a fazer partir. A simples ideia de dar aulas regularmente, uma das poucas saídas profissionais com que podia contar, desesperava-me. Esta fobia foi depois crescendo. O que dizia aos jantares. O que respondia quando me apresentavam alguém. A troca de impressões com o sector terciário - excluindo uma rapariga que trabalhava no bar do meu local de trabalho e com quem tinha uma interacção com um subtexto de malandragem e completamente inócuo que muito nos divertia. Aqui em Ourique, um lugar em que por vezes passo dias sem abrir a boca, percebi finalmente que a exposição oral, da anedota à palestra, não é para mim e que apenas no comentário espontâneo consegui ser mediano. Sonhava em interagir com o mundo por escrito. Escrever as palestras e as aulas, em vez de as dar de improviso ou após uns ensaios. O improviso não é para qualquer um. Por isso, só ambicionei ter um gadget na vida: o teleponto. E na vez em que visitei um familiar que tinha sido operado à língua e só podia comunicar com um bloco de notas, senti uma enorme inveja. A inveja de não ter sofrido um daqueles acidentes que legitimam as nossas mais inconfessáveis excentricidades. Bem sei que este desabafo passa por capricho e cobardia, e é até ofensivo para quem quem realmente teve um desses acidentes, mas fazê-lo assim - por escrito - talvez seja uma atenuante.
Postado por Eremita da planície do blogue Ouriquense
5) Poderá este ser um exemplo de escrita que, embora feminina, se aproxime de uma escrita dita masculina?
Boliqueime
Peguei finalmente na Ler de Dezembro. Com enfado. Como quem cumpre uma obrigação ou um ritual de vida saudável. Lá estava ela no correio dos leitores: a Fátima, a leitora mais que tudo da Ler. É uma chata. Deve ser psicótica ou coisa que o valha. Não há um único mês em que não esteja na coluna dos leitores derramando erudição, exibindo saber literário, dando gritinhos de prazer com as crónicas e recensões que lá se publicam. A masturbação é uma coisa boa. Reconheço-o. As saudades que tenho dos tempos em que me bastava um texto, uma imagem, uma lembrança para também eu libertar os meus instintos básicos e sentir uma vertigem de prazer. Mas a masturbação, quer assuma a sua natureza básica e rudimentar, como no meu caso, que me contento com qualquer par de mamas, quer consubstancie formas mais sofisticadas, sublimes, exigentes, como no caso da Fátinha, que há-de molhar as cuequinhas com Verlaine e Rimbaud, exige recato. Não serei a pessoa mais indicada para o afirmar, eu que aqui venho ciciar repentes suicidas e outros segredos, mas uma mulher deve chorar e masturbar-se com discrição.
Postado por Ana Cássia Rebelo do blogue ana-de-amesterdam
6) E finalmente, poderá este ser um exemplo da consciência de que os blogues são uma ficção, cuja escrita nos permite criar personagens e máscaras dentro de nós para, deste modo, vivenciarmos outras realidades?
muquirana
ele é bonito gostoso
por mim eu não cobrava
mas a dona da pensão
fica na porta do quarto
de mão estendida
Postado por líria porto do blogue Putas Resolutas
Nota final: o meu agradecimento aos vários bloggers citados, cujos blogues admiro e visito, esperando que não se sintam ofendidos com estas minhas provocações.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Uma oração também é uma canção assim
Esta noite quero embalar as minhas inquietas memórias nos braços da tua música e na cadência da tua voz para, depois, simplesmente, adormecer. If it be your will to let me sleep...
Cada um de nós é uma prolixidade de si mesmos
Depois que as últimas chuvas deixaram o céu e ficaram na terra – céu limpo, terra húmida e espelhenta -, a clareza maior da vida que com o azul voltou ao alto, e na frescura de ter havido água se alegrou em baixo, deixou um céu próprio nas almas, uma frescura sua nos corações.
Somos, por pouco que o queiramos, servos da hora e das suas cores e formas, súbditos do céu e da terra. Aquele de nós que mais se embrenhe em si mesmo, desprezando o que o cerca, esse mesmo se não embrenha pelos mesmos caminhos quando chove do que quando o céu está bom. Obscuras transmutações, sentidas talvez só no íntimo dos sentimentos abstractos, se operam porque chove ou deixou de chover, se sentem sem que se sintam porque sem sentir o tempo se sentiu.
Cada um de nós é vários, é muitos, é uma prolixidade de si mesmos. Por isso aquele que despreza o ambiente não é o mesmo que dele se alegra ou padece. Na vasta colónia do nosso ser há gente de muitas espécies, pensando e sentindo diferentemente. Neste mesmo momento, em que escrevo, num intervalo legítimo do trabalho hoje escasso, estas poucas palavras de impressão, ou o que as escreve atentamente, sou o que está contente de não ter nesta hora de trabalhar, sou o que está vendo o céu lá fora, invisível de aqui, sou o que está pensando isto tudo, sou o que sente o corpo contente e as mãos ainda vagamente frias. E todo este mundo meu de gente entre si alheia projecta, como uma multidão diversa mas compacta, uma sombra única – este corpo quieto e escrevente com que reclino, de pé, contra a secretária alta do Borges onde vim buscar o meu mata-borrão, que lhe emprestara.
30-12-1932, Bernardo Soares, Livro do Desassossego (1ª parte)
domingo, 31 de janeiro de 2010
A importância de ser (como) César
Numa extensa entrevista concedida ao jornal Público (P2, 13/1/10), o historiador Adrian Goldsworthy explica por que razões estudar a cultura clássica nos permite compreender melhor as contradições que marcam os dias que vivemos. E entre as várias razões apontadas destaca o facto de a cultura clássica estar embebida na nossa história e na nossa cultura; a possibilidade de estabelecermos paralelos entre os romanos e nós, os quais nos ajudam a compreender melhor determinados acontecimentos políticos da actualidade e, por fim, como a análise das batalhas travadas pelos grandes generais romanos nos permite perceber o que é um verdadeiro líder e por que é que alguns triunfam e outros fracassam no mundo da política.
Júlio César é, a este propósito, apresentado no livro César - A vida de um colosso (2008), como um caso exemplar, pois embora nem sequer tenha chegado a ser imperador, a sua influência em Roma foi de tal forma marcante que todos os imperadores de Roma se vieram depois a chamar César. Isto, apesar de a sua carreira política e militar romper com os padrões habituais, como sublinha Goldsworthy. César inicia a vida pública como causídico e tribuno, o que lhe permite desenvolver os seus dotes de orador. Já tinha quarenta anos quando entra na vida militar e se torna a principal figura de Roma, na sequência de uma guerra civil que culminou com a lendária travessia do Rubicão, tendo derrotado as tropas de Pompeu, o Grande. Os seus sucessos como figura pública foram sempre políticos e militares já que, na Roma antiga, uma coisa implicava a outra. A mais conhecida campanha militar de Júlio César foi a da Gália. Durou mais de uma década e motivou a escrita, pelo próprio, da obra Comentários sobre a guerra na Gália.
Como é que um homem praticamente sem experiência militar anterior conseguiu conduzir um exército numeroso à vitória num terreno tão difícil e hostil? Adrian Goldsworthy responde dizendo que César tinha uma capacidade simultaneamente natural e intuitiva de desempenhar bem tarefas que a maior parte de nós levaria algum tempo a aprender. Além disso, sabia retirar ensinamentos dos erros que cometia e não voltava a repeti-los. Tinha ainda outras características extraordinárias e decisivas para o seu sucesso: “ao mesmo tempo que tomava decisões difíceis [era] capaz de criar uma enorme empatia com os seus homens”, “sabia sempre onde estar no campo de batalha e, sobretudo, sabia transmitir confiança”; “dirigia-se sempre ao povo de Roma tocando em pontos sensíveis que preocupavam as pessoas, por vezes num registo quase populista, mas mantendo-se fiel a causas que eram problemas reais, como a necessidade de uma distribuição das terras mais justa ou um melhor governo das províncias”. Como explica ainda Goldsworthy, “há pessoas que fazem com que as coisas aconteçam” e Júlio César era uma delas, porque tinha aquilo que distingue um líder: fazer “com que os processos ocorram de forma natural, oleada e rápida, quase como se não estivessem lá: é aí que se consegue distinguir quem tem ou não capacidade de liderança, quem tem de impor as suas ordens ou orientações e quem é naturalmente seguido”.
Com Júlio César “a diplomacia e a política marcham sempre a par com a força militar, pois “Uma das coisas que César sempre percebeu foi que a vitória militar não era suficiente” e que “Há que pensar no dia seguinte às batalhas”. Por isso, “ Durante a campanha da Gália reunia todos os anos com os líderes tribais. O seu objectivo não variava: através das vitórias militares sempre quis criar uma situação em que os líderes locais se sentissem mais satisfeitos por estar dentro do mundo romano do que lutando contra ele”. É aqui que o historiador conclui que César e outros grandes generais romanos nos poderiam ensinar muito sobre “um dos maiores dilemas dos conflitos militares actuais - como ganhar as chamadas “guerras assimétricas”-, já que foi neste domínio que se revelaram especialmente competentes. E as razões, segundo Goldsworthy, são mais políticas do que militares. Primeiro, tiveram “a noção de que era necessário que o adversário acabasse por perceber que Roma iria sempre sair vencedora, mais cedo ou mais tarde, porque era imensamente mais poderosa” e, por isso, não se permitiam o mínimo recuo ou sinal de fraqueza. Depois, eram “muito bons a convencer a opinião pública de que as guerras eram justas, pois tinham a preocupação de tornar claro o que era a guerra, o que ela implicava, o que ela custava”.
Com a interrogação “o que é que isto nos ensina?”, Goldsworthy estabelece então a ponte temporal entre Roma antiga e a época contemporânea, dizendo que “temos de perceber o que o adversário pensa, o que deseja, porque o mais provável é que pense de forma muito diferente da nossa. Se insistirmos em vê-lo como parecido connosco, a grande probabilidade é que falhemos os nossos objectivos”. Afirma depois que “nunca podemos dar um sinal de fraqueza”, é preciso sermos persistentes para levar as coisas até ao fim. Por fim, considera que é preciso ter uma opinião pública favorável às acções militares. Ora, de acordo com o historiador, sobretudo na Europa, mas também já na América, ninguém está “disposto a lutar até ao fim”. “E nas batalhas que hoje se travam, no Iraque ou no Afeganistão, se o adversário percebe que não se quer permanecer muito mais tempo, então o seu raciocínio é simples: basta-lhe esperar. É por isso que os Estados Unidos deviam provar que são capazes de lutar o tempo que for necessário, mas isso não está acontecer”.
São todas estas razões, polémicas sem dúvida, até mesmo contraditórias, mas também pertinentes, que, para Adrian Goldsworthy justificam que se volte a estudar latim e cultura clássica nas escolas e a ler os Comentários sobre a guerra na Gália nas academias militares, como acontecia há algumas décadas atrás. Ainda segundo o historiador, sem medo de que certas coisas se repitam, pois, apesar de tudo, a humanidade mudou para melhor e os espectáculos de circo que culminavam na morte de seres humanos são agora uma impossibilidade.
Contudo, aqui, conhecendo a paixão ibérico-latina por touradas e vendo diariamente as imagens das coisas degradantes que acontecem todos os dias por esse mundo fora, e que não ficam nada a dever em malvadez e desumanidade ao circo romano, é que eu tenho algumas discordâncias: é que o César que ia ao Circus Maximus deleitar-se com os gladiadores e com as feras era o mesmo que escrevia cartas onde manifestava uma profundidade humana em tudo semelhante à nossa. Capaz do melhor e do pior, como qualquer um de nós.
E, ainda a propósito de Júlio César, vale a pena ver este excerto do filme "O Clube do Imperador" que é uma excelente lição de história mas, sobretudo, uma grande lição de vida, como o livro de Adrian Goldsworthy: http://www.youtube.com/watch?v=AALXuCfcOSQ
Post-scriptum - escrito em Évora, antiga Ebora romana que, justamente por se ter mantido fiel a Júlio César nas guerras civis, recebeu como recompensa o título honorífico de Liberalitas Iulia. É caso para dizer. Ave Caesar!
sábado, 30 de janeiro de 2010
A conta do tempo
E se, um dia, alguém me pedir conta do tempo que passo por aqui a escrever, a ver, a ouvir ou, sobretudo, a procurar? Que poderei eu responder? Talvez a dificuldade maior nem seja o que dizer. O problema está mais no como começar. Por isso, pensei que um pequeno passeio pelas contas do tempo que outros já fizeram me pudesse avivar as ideias. E os clássicos parecem-me ser a melhor forma de iniciar esta viagem. Encontrei logo este soneto de Camões:
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto
E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
São palavras que exprimem uma dor existencial profunda e sem esperança, nas quais o poeta distingue “o tempo natural, (…) do tempo humano irreversível, instável, que muda as coisas sem uma lei ou uma razão, apenas com um sentido: para pior. Um tempo «errado». A reflexão sobre o tempo resulta numa análise imbuída de cepticismo sobre a consistência do bem passado. (...) Duvida-se de que alguma vez ele tenha existido e não seja mais do que um efeito de contraste perante a infelicidade presente, uma ilusão da memória que inventaria uma felicidade passada que não existiu. Ou, se existiu, serviu apenas para «semente» de mal.” (Maria Vitalina Leal de Matos, in Introdução à poesia de Luís de Camões)
Dou então um salto ao século vinte para ouvir “Avec le temps” de Leo Ferré. Para além da dor e da solidão, a pungente voz de Ferré fala de desamparo e de perda. É quase como um eco musicado das palavras de Camões.
Ora, dar conta de tempos assim, para além de doloroso, é para mim quase impossível, pois quando acabasse de escrever já tudo estaria mudado e as palavras não fariam sentido nessa nova realidade. Seria preciso recomeçar. Só que não disponho de muito tempo, e muito menos tenho o poderoso engenho lírico de Camões ou a força vocal de Ferré para me poder permitir o luxo da permanente (re)criação de tudo até encontrar «um tempo certo» para mim. Decidi, assim, avançar na minha busca.
Novo flashback até ao século dezassete e aos seus elaborados jogos conceptuais e linguísticos, muito centrados nos dilemas da existência. Foi lá que encontrei este soneto bem curioso, de autor anónimo:
Deus me pede do tempo estreita conta!
É preciso dar conta a Deus do tempo;
mas quem gastou, sem conta, tanto tempo
como dará sem tempo tanta conta?
Para fazer a tempo a minha conta
Dado me foi, por conta, muito tempo:
mas não cuidei na conta e foi-se o tempo...
Eis-me agora sem tempo, eis-me sem conta!
Ó vós que tendes tempo sem ter conta,
não o gasteis sem conta em passatempo,
cuidai, enquanto é tempo, em terdes conta.
Pois, se quem isto conta do seu tempo,
houvesse feito a tempo, apreço e conta,
não chorava sem conta o não ter tempo.
Aqui está em causa a consciência amarga de um tempo desbaratado em vão e do qual, depois, sentimos falta para realizar outras coisas que, percebemo-lo demasiado tarde, são as mais importantes. Embora tenha ficado encantada com o artifício engenhoso desta resposta, e considere que mais cedo ou mais tarde todos passamos um pouco por aqui, considerei que este soneto ainda não se enquadrava totalmente nas minhas necessidades pessoais, até porque, de amarguras, já bastam as que me atormentam o espírito.
Foi então que me recordei de uma antiga lengalenga infantil: O vento perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao vento que não tem tempo para dizer ao vento que o tempo do tempo é o tempo que o tempo tem.
Este é daqueles enunciados que responde, mas não diz nada. Para algumas pessoas ou em algumas situações pode até ser o mais conveniente. O tempo que o interlocutor leva a tentar digerir o que escutou, é mais do que suficiente para permitir a fuga para um tema menos polémico ou comprometedor das nossas pessoas. Resolvi, por isso, guardá-la na manga.
Foi por acaso, ao ler o jornal, que encontrei a resposta que mais me convém: O tempo que gostas de perder não é tempo perdido. Quem a disse foi Bertrand Russell e quem sou eu para contestar a sua afirmação? Bem pelo contrário, apropriei-me logo dela porque serve muito bem os propósitos desta minha demanda e tem ainda uma outra vantagem: com ela posso neutralizar algumas vozes que, eventualmente, venham a inquietar-se com o tempo dispendido nas minhas andanças blogosféricas, nomeadamente, a da minha própria consciência (que, ainda por cima, é chata como tudo).
Esta perspectiva inovadora e optimista de que «não é tempo perdido, desde que se goste» faz-me sentir tão leve que só posso acompanhar Gilbert Bécaud a cantar “Et maintenant que vais-je faire de tout ce temps que sera ma vie?”, e ficar bem com isso.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Erudição legislativa
Em meados do século dezanove, o presidente Abraham Lincoln, proclamou oito leis sobre a governação dos homens e da res publica. Homem de ideias muito à frente do seu tempo - a vontade férrea de abolir a escravatura foi apenas uma delas -, com estas oito máximas revelava não apenas uma visão clara do essencial, mas também um grande poder de síntese, e uma invejável clareza de ideias: Foram então, e continuam a ser hoje, verdades incómodas para muitos ouvidos:
1. Não chegarás à riqueza, se desprezares a economia.
2. Não podes fortalecer o fraco, enfraquecendo o forte.
3. Não podes ajudar o operário, rebaixando quem lhe paga o salário.
4. Não promoves a fraternidade dos homens, incitando ao ódio de classes.
5. Não podes ajudar o pobre, destruindo o rico.
6. Não tentes estabelecer uma segurança bem fundamentada com dinheiro emprestado.
7. Não podes dar ao homem valor e carácter, tirando-lhe a iniciativa e a independência.
8. Não podes ajudar os homens, fazendo tu o que eles poderiam fazer.
Por cá, e na vigência do chamado Simplex, que tudo comanda na administração da coisa pública (e este é um detalhe muito importante), produzimos leis como esta:
“O presente decreto-lei altera o Estatuto da Carreira dos Educadores de Infância e dos Professores dos Ensinos Básico e Secundário, aprovado pelo DL nº 139-A/90, de 28 de Abril, alterado pelos DL nº 105/97, de 29 de Abril, 1/98, de 2 de Janeiro, 35/2003, de 17 de Fevereiro, 121/2005, de 26 de Julho, 229/2005, de 29 de Dezembro, 224/2006; de 13 de Novembro, 15/2007, de 19 de Janeiro, e 35/2007, de 15 de Fevereiro, (...). O presente DL altera, ainda, os DL nº 20/2006, de 31 de Janeiro, e 104/2008, de 24 de Junho.” Só falta acrescentar que esta transcrição constitui o Artigo 1º do DL 270/2009, de 30 de Setembro, ou seja, é o ECD em vigor (que já está a ser renegociado e, em breve, será de novo re-publicado) e funciona como uma espécie de «mote» para as várias dezenas de artigos que se lhe seguem.
Está claro que, nos dias que vivemos, as leis não podem ser reduzidas a máximas, por mais sábias e pertinentes que sejam, mas este ECD constitui uma autêntica demonstração de preciosismo e erudição legislativa. Só justificável porque o objectivo aqui é mesmo contrariar de forma deliberada, na letra e na prática, a Lei 7 de Lincoln: é que professores com valor, carácter, iniciativa e independência não curvam tão facilmente a espinha, por isso, é mais simples reduzi-los a funcionários (cá está o tal simplex). O problema é que a pastilha, embora amarga, está tão bem disfarçada, que alguns dos visados ainda nem deram pelo mau sabor.
O futuro da escola
Esta não será a escola do futuro, mas, pelo caminho que as coisas levam, pode bem vir a ser o futuro na escola. Presente ou futuro hipotético, o melhor é rir, em vez de chorar. Ou, o que seria ainda melhor, chorar a rir.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Declaração de cidadania
E eu?
Passo por eles: vejo-os, ouço-os.
Cada vez entendo melhor o que são, o que fazem e o que dizem: nada.
Cada vez percebo melhor o que querem: aproveitar-se.
Cada vez me sinto mais distante deles: do que dizem, do que fazem, do que são e do que querem.
Sou dos que escolheram ficar na sombra, longe deles. É que há luzes capazes de cegar até o próprio entendimento. E eu quero, pelo menos, continuar a ver.
Contradições
As contradições deste nosso mundo são engraçadas! Claro, nós que fazemos o mundo, também o somos! E eis aqui um belo exemplo da hipocrisia vigente! Em 2001, o ataque às Torres Gémeas gerou uma onde global de indignação, ódio e revolta. Algo sem paralelo, que levou diversos países, sob pretexto de esmagar as redes terroristas, a declarar guerra, a atacar e a destruir vários outros países, sem olhar a despesas, tanto em vidas humanas, como em meios materiais.
Contudo, a indignidade, o sofrimento e a indigência que, desde sempre, têm dizimado países inteiros, quase sempre por causas fúteis, nunca, até hoje, incomodaram praticamente ninguém. Apenas motivam umas campanhas de solidariedade que ficam bem e aliviam as pesadas consciências, embora não resolvam, de facto, coisa alguma.
Foi para chamar a atenção para esta desproporção contraditória e vergonhosa dos números e das reacções que eles despoletam que a MTV montou uma campanha publicitária constituída por estes três anúncios:
“2863 pessoas morreram. 824 milhões de crianças passam fome em todo o mundo. O mundo uniu-se contra o terrorismo. Já se deveria ter unido contra a fome”.
“2863 pessoas morreram. Há 630 milhões de sem-abrigo no mundo. O mundo uniu-se contra o terrorismo. Já se deveria ter unido contra a pobreza”.
“2863 pessoas morreram. Há 40 milhões de infectados por HIV no mundo. O mundo uniu-se contra o terrorismo. Já se deveria ter unido contra a SIDA”.
Parece que estas imagens, e respectivos slogans, tocaram mesmo num ponto sensível e incomodaram tantos e tanto, que a estação americana foi forçada a cancelar, de imediato, a campanha. Aliás, os anúncios passaram uma única vez. Tendo isto acontecido no país que dá ‘lições ao mundo’ é caso para dizer: em casa de ferreiro, espeto de pau, ou seja, na grande casa da democracia, a consciência fica, quase sempre, à porta.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
A bio-adversidade
No Ano Internacional da Biodiversidade, cujo objectivo é alertar para a decrescente veriedade das espécies que vão subsistindo no planeta, esta pequena pérola de Chico Buarque e Francis Hime, chamada Passaredo, diz quase tudo o que há para dizer sobre este tema:
Ei, pintassilgoOi, pintaroxo
Melro, uirapuru
Ai, chega-e-vira
Engole-vento
Saíra, inhambu
Foge asa-branca
Vai, patativa
Tordo, tuju, tuim
Xô, tié-sangue
Xô, tié-fogo
Xô, rouxinol sem fim
Some, coleiro
Anda, trigueiro
Te esconde colibri
Voa, macuco
Voa, viúva
Utiariti
Bico calado
Toma cuidado
Que o homem vem aí
O homem vem aí
O homem vem aí
Ei, quero-quero
Oi, tico-tico
Anum, pardal, chapim
Xô, cotovia
Xô, ave-fria
Xô, pescador-martim
Some, rolinha
Anda, andorinha
Te esconde, bem-te-vi
Voa, bicudo
Voa, sanhaço
Vai, juriti
Bico calado
Muito cuidado
Que o homem vem aí
O homem vem aí
O homem vem aí
É que a grande adversidade da biodiversidade tem apenas um nome: o homem.
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