terça-feira, 2 de novembro de 2010

Senso (in)comum

O senso comum – coisa que nem sempre coincide com o bom senso – diz-nos muitas vezes que o mais difícil não é fazer as perguntas, é encontrar as respostas certas. No entanto, um destes dias, munida de uma daquelas fúrias organizativas que me acontecem sempre que quero encontrar um livro e não consigo, descobri na estante um volume curioso. (Em geral, nestas ocasiões, acabo por encontrar não o que procurava, mas alguma coisa que me desperta a atenção, e que acaba sempre por compensar, pelas mais diversas razões, a tal fúria de não conseguir encontrar o que queria ou precisava encontrar, claro!)

Foi o que me aconteceu há dias ao descobrir um livro intitulado “O livro das respostas”, cuja autora - Carol Bolt - vem identificada como “artista plástica” a viver em Seattle. Mas, voltando ao dito “Livro das Respostas”, não guardo qualquer memória de quando, onde ou por que razão o comprei. Sei é que foi publicado por uma editora “vocacionada para a área do auto-conhecimento e do desenvolvimento pessoal”, a Estrela Polar. Por princípio, este é um tipo de “literatura” de que desconfio e muito, sobretudo por considerar que a maior parte dos livros ditos de auto-ajuda devem ajudar, de facto, é as finanças de quem os escreve e publica. Contudo, este diz que é de “auto-conhecimento”. Pensei para comigo que devia estar mesmo muito mal no dia em que o adquiri: por não me recordar de o ter feito e também por ter adquirido tal obra.

O livro tem várias centenas de páginas com uma só frase escrita em cada uma das folhas. E a sua “leitura” – ou talvez seja mais apropriado chamar-lhe “consulta” – obedece aos seguintes requisitos: uns segundos de concentração para formular a pergunta, a qual deve ser de resposta fechada, a que se segue o folhear rápido do livro de trás para a frente até se sentir que chegou o momento certo de parar, abrir o livro e ler a resposta que lá está. Repete-se o processo até acabarem as perguntas.

Decidi experimentar e obtive várias respostas, umas mais enigmáticas, outras mais claras. No fim tirei o chapéu à autora: é que as respostas são de tal modo “plásticas” que se adaptam a quase tudo e todos. Não tenho dúvidas de que pensar e escrever uma tal obra requer “engenho e arte”. Decidi, porém, dada a displicência com que me prestei ao jogo, que a margem de erro aqui seria vasta...

Contudo, não tenho dúvida que este jogo (e)leva a eterna dualidade pergunta-resposta para um outro nível. Queixamo-nos muitas vezes de falta de resposta nos mais variados contextos - profissional, familiar, pessoal... -, mas será que o problema não estará nas perguntas que colocamos? Será essa a razão que explica a ausência de respostas às vezes tão ansiadas? Será que, num determinado contexto, certas perguntas não funcionam? Ou não jogam com as respostas que esse mesmo contexto tem para oferecer? Haverá aí algures a resposta certa para determinadas perguntas, da mesma forma que se diz existir por aí a nossa alma gémea? O problema é que sabermos que ela existe não nos garante que a encontremos. O mais provável é que tal não aconteça nunca. E, a julgar pelo número de pessoas infelizes que vejo à minha volta, não acontece mesmo a ninguém. Certamente algo de semelhante ocorre no universo das perguntas e respostas: a maior parte das perguntas não encontra a boa resposta. É por isso que, mesmo com milhares de anos de evolução em cima, continuamos todos à procura de respostas. Mas talvez devêssemos começar a ver a coisa pelo lado das perguntas. Quanto mais não fosse para variar...

De qualquer modo o “Livro das Respostas” é espécie de guia delirante capaz de nos conduzir pelo labirinto da imaginação e da reflexão, ao sabor das indicações contraditórias que nos vai oferecendo, e das próprias questões que vamos formulando, também elas movediças, de acordo com as nossas expectativas, emoções ou desejos. Neste sentido, a sua grande virtude talvez (a única) seja a de nos recordar qual é exactamente a nossa verdadeira natureza a cada instante: contraditória e movediça.

Aqui fica um bom exemplo. “Será sempre imprevisível” é a resposta do livro. Agora é só formular a pergunta certa. Se tal coisa ("a pergunta certa" para esta resposta) existir, deve ser algo não muito diferente de encontrar agulha num palheiro. É por isso que, de uma forma que não deixa de ser irónica, este  pode ser visto também como o livro dos (nossos) dias:

domingo, 31 de outubro de 2010

Depois da chuva

Depois do temporal a manhã despontou com uma reverberação diferente, um ar mais límpido e luminoso. Gosto destas grandes chuvadas que lavam e levam o pó do verão que já findou, arrastando consigo as folhas secas e o lixo acumulado nos cantos. Gosto de ouvir a água ruidosa que se despenha dos beirais e que, límpida e aos borbotões, corre depois pela rua, envernizando as pedras pardas da calçada. Gosto destas grandes chuvadas que lavam as ruas lá fora e me fazem também sentir mais limpa por dentro.

“Lamentável”

“Lamentável” foi o adjectivo que me ocorreu enquanto assistia, ontem, à representação da última peça do Cendrev em parceria com o Teatro del Astillero de Madrid: Flutuando no espaço.

Ao todo, não deviam sequer estar vinte almas numa plateia fria e desconsolada. À semelhança do próprio átrio do teatro, onde não há uma cadeira, um banco confortável, aquecimento, enfim, qualquer coisa que torne a ida lá mais acolhedora ou, pelo menos, mesnos desconfortável. Recordo-me que, enquanto se realizaram obras no museu municipal, havia umas esculturas no átrio que até cortavam a despida frieza do espaço, embelezando-o. Agora, é apenas um vazio desconsolado.

O espectáculo que pretendia ser “provocador, irreverente, incómodo até” afirmava ainda uma intenção programática de arriscar “caminhar por territórios do íntimo, do privado reflectindo sobre a fronteira cada vez mais difusa/confusa entre o público e o privado na sociedade actual.”

Afinal, o texto de Luis Miguel Cruz, bilingue e com algumas passagens multilingues, é uma espécie de patchwork de frases feitas, misturadas com palavrões e referências sexuais explícitas, que se (des)enrola à volta de uma pretensa nave espacial que, pousada no palco,“flutua no espaço” (daí o título). A música dos Beatles funciona como uma espécie de leitmotiv, enquanto os actores debitam anúncios pessoais de cariz pornográfico, arremedam sessões de psicoterapia ou encontros tipo “blind date”. As actrizes desfilam por diversas vezes no palco, de perfil, ao estilo pin-up dos anos 50, usando roupa coleante e com as pernas em evidência sobre saltos altos. Em certos momentos os actores falam inglês com um sotaque péssimo que compromete a compreensão de frases que não são mais do que lugares-comuns do cinema e das novelas: a referência à mulher com cancro e à sua posterior morte é um exemplo paradigmático dos clichés de que a peça é feita. Há uma altura em que, claramente, o espectáculo se arrasta penosamente em círculos.

Enfim, tão confrangedor e absurdo que alguns dos poucos espectadores presentes, em noite de sábado de um fim de semana prolongado, abandonaram a sala antes do termo de espectáculo. Alguma coisa está muito errada numa companhia de teatro que insiste num caminho que acaba justamente por contribuir para aquilo que mais critica e lamenta na política cultural da cidade: o caminho que não leva a lugar nenhum ou o deserto cultural que tem afugentado as pessoas para outras paragens mais interessantes.

sábado, 30 de outubro de 2010

Os três da vida airada: cócó, ranheta e facada

Estas últimas semanas têm sido, em termos políticos, um verdadeiro festival. O primeiro-ministro, com uma espécie de máscara funerária no rosto, anuncia ao país que assim não se pode continuar. Não é que lá fora não nos queiram continuar a emprestar dinheiro para comprar bananas, querem é emprestá-lo com juros tão altos que, na prática, é como se as bananas fossem de platina, ou algo assim. Tornámo-nos oficialmente país pouco (con)fiável e, por isso, estamos no top 10 da lista dos possíveis maus pagadores. Prevenindo o futuro, eles emprestam-nos o dinheiro mas cobram-nos elevados juros como forma de minimizar eventuais futuros prejuízos. Assim, caso deixemos de pagar as dívidas, eles pelo menos já não perdem tudo. Tudo isto, claro, cirurgicamente planeado e gerido pela bem oleada máquina da propaganda e da comunicação, de forma a garantir que o nefando orçamento para o próximo ano não levantasse um motim da populaça. E é por isto que os três da vida airada - primeiro-ministro, líder do principal partido da oposição e presidente da república - têm andado numa roda viva.

O primeiro diz e repete em tournée de comícios por esse país fora que este é “O” orçamento que salva o país e, de caminho, protege as famílias e o emprego(!?). Afirma ele ainda do alto estrado da sua presunção que este é “O” orçamento certo, no momento exacto. Aqui há uns tempos dizia mais ou menos o inverso: que as grandiosas obras públicas é que eram necessárias para alavancar a economia e tirar o país do buraco onde já estava enterrado até à cintura. Agora vem dizer que é necessário ficarmos todos na penúria para salvar o país, e que, em vez de gastar, temos é que poupar. E por isso vai dar ele próprio o bom exemplo poupando onde é mais fácil, barato e dá milhões: nos salários da função pública. E, de caminho, aumenta o IVA para garantir que todos pagamos ainda mais. Sobre o que vai ser feito para tentar tirar a economia da recessão em que se encontra, nada, zero. Sobre a desastrosa (des)governação que nos atascou até ao pescoço, nem uma palavra. Sobre a ineficácia óbvia das medidas que tomou anteriormente – aumentos do IVA e de toda a carga fiscal, congelamento de progressões e emagrecimento (?) da função pública, limitação nos aumentos salariais, PEC 1, 2 e 3, etc., etc. - nem uma explicação sequer.

O segundo, líder do principal partido da oposição - faminto de poder e já a salivar com os resultados das últimas sondagens -, começou por fazer de lobo-mau ao declarar enfaticamente que não assinava, não aprovava e não concordava! Depois, aceitou negociar, mas impondo duras e intransigentes condições para mostrar que o lobo-mau, afinal, também sabe ser cordeirinho quando se trata de começar a mostrar aos portugueses que lhe poderão vir a dar o voto como é que se governa um país. E, ao que tudo indica, o IVA dos pacotes de leite com chocolate foi mesmo decisivo para que as negociações chegassem a bom termo!

No meio de tudo isto, o terceiro, actual presidente da república, incansável: reuniões, audiências, visitas, declarações em que diz e em que diz que, afinal, não disse, vocês é que dizem que eu disse, mas eu não disse e apoteóticas aparições públicas de toda a espécie e feitio, sim, que isto, quem não aparece, esquece, como é sabido. Sobretudo agora que já é oficialmente (re)candidato a novo mandato de uma magistratura que, nas suas próprias palavras, era de “influência” e que agora vai ser “activa”. Numa atitude que me pareceu prudente não explicou depois o que significava “magistratura activa”, mas talvez seja aproveitar todas as oportunidades para fazer declarações em directo ao país a dizer que ele já tinha dito, ele já tinha avisado, ele já sabia que ia ser assim...

Como é conhecido, depois de vários episódios e respectivas declarações à imprensa em que cada um procurou o melhor que sabia marcar o território, tudo ficou resolvido, ao serão, em casa do chefe da delegação do PSD - ele próprio um antigo ministro das finanças, que não deixou muito boa memória mas, em política, o tempo lava sempre mais branco, como sabemos – num ambiente familiar, informal e de saudável confraternização, com direito a fotografia no telemóvel e tudo!! (Não terão também actualizado as respectivas páginas do facebook e feito seguir a mensagem para os seguidores no twitter?...) Assim se concluiu uma espécie de jogo de pingue-pongue entre dois adversários que, embora usem equipamentos de cor diferente, são, afinal, muito semelhantes. Sobretudo na ambição desmedida e na falta de escrúpulos. Por isso andam tão empatados. Ou ainda haverá dúvidas de que, para estes dois, os fins justificam os meios? Sem esquecer, claro, essa espécie de árbitro que quer ficar de bem com deus e com o diabo, valendo-se dos seus pergaminhos de economista - já um tanto amarelecidos e ultrapassados -, para justificar a sua permanência no cargo. Por fim, lá dormiu mais descansado: tudo está bem quando acaba bem, Maria, e ainda não foi desta que tive de tomar uma decisão realmente... decisiva.

E aí o temos agora “O” tal orçamento que vai permitir ao país continuar a endividar-se alegremente lá fora para que, cá dentro, empresas e famílias possam continuar a viver a crédito e acima das suas reais possibilidades, e também para manter as mordomias de uns quantos e pagar a outros como se fossem os salvadores da pátria e não simples gestores competentes. (Ou não é isso que se deve exigir e esperar de alguém que gere uma empresa?) Todos os dias ouvimos os apelos à contenção das famílias no que ao crédito diz respeito, mas é agora o próprio estado que, com este orçamento, dá o pior dos exemplos. Ainda por cima numa conjuntura económica e internacional que já não é só difícil, é irreversível. Os gloriosos anos 80/90 do consumo desmedido, do crescimento imparável e da especulação desenfreada já lá vão. Já todos percebemos que os próximos tempos serão de salve-se quem puder, de olho por olho e dente por dente, na europa e em toda a parte.

Também já percebemos como todo este circo mediático apenas serviu para que engolíssemos a pílula, mesmo sem água. E há que o dizer: nisto, os três da vida airada foram profissionais, pois com o anúncio oficial de que se o orçamento não fosse aprovado vinha aí o bicho-papão comer-nos a todos, até respirámos de alívio quando nos disseram que se tinham entendido e que tudo se resolveria pelo melhor!!?

Mesmo maldizendo e resmoneando entre dentes, quase ficámos contentes por saber que, afinal, não precisamos de enfrentar o bicho-papão: basta-nos curvar o espinhaço ao peso dos impostos e do custo de vida, basta-nos pagar, pagar, pagar e pagar mais ainda. Até ver, só mesmo a vida destes três – cócó, ranheta e facada - é que vai airada. A nossa nem por isso.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Escrever...

A propósito do seu último livro “Viagem à Índia”, que o próprio autor descreve como “uma coisa e o seu oposto” - um romance, “também, em parte, um ensaio”, e ainda uma espécie de glosa inquietante e em verso a Os Lusíadas de Luis de Camões -, Gonçalo M Tavares diz que “Pode parecer estranho, pois tenho a imagem de alguém muito cerebral, mas escrevo instintivamente. Quando as coisas correm bem escrevo sem pensar em nada. Nunca penso antes de escrever. Tento que o pensamento coincida exactamente com o acto de escrita – não estão separados no tempo. Nunca planeio ou projecto. Quando começo um livro não sei que personagens vão existir, não sei o que lhes vai acontecer. Se já sei o que vou escrever, não escrevo. A minha escrita é claramente para mim um acto de investigação, tentar descobrir o que não sei.”

Sobre o seu próprio estilo de escrita diz ainda que “Muito do meu trabalho sobre o texto é eliminar. Se tenho dez palavras que tentam dizer algo numa frase, eu peno se posso passar para cinco palavras, mantendo a essência da frase. E este é o ofício mais difícil: trabalhar para o texto ser cada vez mais pequeno e forte. Ganhar força à medidia que perde palavras. Gosto que as frases sejam exactas e ambíguas, ao mesmo tempo, o que é um pouco paradoxal – mas tem algo a ver com isto: eliminar o explicativo e o que adoça a frase. Assim, julgo que fica mais espaço para o leitor.”

Se, mesmo assim, Gonçalo M Tavares vai já no seu 27º romance só podemos imaginar o que seria se, por acaso, o seu estilo fosse mais do tipo palavroso ou queirosiano...

Nota: Citações da entrevista dada por Gonçalo M Tavares ao Ípsilon, 28/10/10

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Dos dias que vivemos

O perfume inebriante do poder atrai sempre multidões de amigos e de apoiantes...


Afinal, há que garantir a possibilidade de apanhar nem que seja umas migalhinhas do banquete...

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O lado melhor das novas tecnologias

Computadores e internet permitem hoje aceder aos mais variados sítios (reais e virtuais), informações, pessoas (e personalidades) e documentos. Na sociedade da informação online o conceito de “biblioteca” mudou radicalmente. E para bem melhor.

Exemplo disto mesmo é a digitalização e disponibilização online de toda a biblioteca particular de Fernando Pessoa, ao todo 1142 volumes, constituída entre os anos de 1898 e 1935 no endereço http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/bdigital/index/index.htm

À semelhança do seu proprietário também ela tem óbvia vocação universalista, pois é constituída por obras de todos os géneros, escritas em diversas línguas, todas elas anotadas à mão pelo próprio Fernando Pessoa.

Inês Pedrosa, a actual directora da Casa Fernando Pessoa, refere na página de entrada que “... uma biblioteca desta importância devia tornar-se património da humanidade” e Jerónimo Pizarro – um dos três autores do projecto – diz também numa nota prévia: “Que leu Pessoa? Com que propósitos? Estas são algumas das perguntas que agora se podem começar a formular com mais assiduidade.”

Esta curiosa biblioteca surge-nos classificada por categorias temáticas e inclui ainda poemas e ensaios manuscritos pelo autor nas páginas de guarda de muitos dos livros. É possível pesquisar por autor, ano, ordem alfabética e por tema (religião, psicologia, etc.). Os autores do projecto acrescentaram ainda interpretações para determinados aspectos das obras, bem como informações sobre estudos e bibliografia. É também possível fazer o download das obras completas em formato pdf.

Abre-se assim mais uma janela para iluminar o labirinto da mente de Fernando Pessoa(s). Mas o melhor de tudo é pensar que por mais janelas que se abram, nunca se desvendarão por completo os mistérios da sua complexidade. Até porque, como elae próprio escreve em Isto:

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

In Cancioneiro


terça-feira, 26 de outubro de 2010

Música sem fronteiras

Parece que em 1996 o produtor Nick Gold e os guitarristas Ry Cooder e Eliades Ochoa sonharam promover um encontro musical entre músicos de Cuba e do Mali, o qual nunca chegou a acontecer porque não foram emitidos os vistos necessários para que estes últimos pudessem entrar em Cuba. Resolveram então avançar para um projecto alternativo a que chamaram Buena Vista Social Club. Esta reunião de ´glórias "sénior" da música cubana foi um enorme sucesso a nível global e, em consequência, a música cubana nunca mais deixou de dominar o panorama da world music.

No entanto, o ambicioso projecto inicial não ficou esquecido e 16 anos depois tomou forma sob a designação de AfroCubism e dele o crítico Luís Maio diz que "será sempre comparado a "Buena Vista", mas o seu trunfo é sacudir essa pressão, mantendo-se fiel a um programa de cruzamento entre sonoridades acústicas, ancestrais e eminentemente rurais. É o son e a guaracha, típicas dos trovadores de Santiago de Cuba, ao encontro do blues do deserto e do reportório dos griots do Mali, misturados para além dos seus lugares comuns." (in Ípsilon, 22/10/2010). Será de facto tudo isto mas, para mim, é sobretudo um dos melhores discos que ouvi nestes últimos tempos. Não consigo parar de o ouvir, mesmo enquanto trabalho. A cada nova audição descubro sonoridades em que ainda não tinha reparado antes. É um verdadeiro exemplo de como a multiculturalidade pode ser uma coisa extraordinária, desde que misturada com talento. E todos estes músicos o têm, e muito.



segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Frases que fazem pensar

Sempre que vejo as notícias e ouço os nossos (des)governantes a justificar o injustificável ou, se calhar, apenas a utilizar os seus “quinze minutos de fama” penso nesta frase de Andy Warhol:

Disse o que pensava? Disse o que sabia? Disse o que achava ser verdade? Com Warhol, que dominava como ninguém a arte da provocação, nunca o saberemos.

E no entanto esta frase faz cada vez mais sentido...

domingo, 24 de outubro de 2010

"Minorias éticas"

Falei aqui há tempos dos cartuxos de Évora a propósito do filme-documentário de Philip Gröning  “O Grande Silêncio” ("Die Große Stille”) para dizer que acho muito importante que os políticos que governam a cidade respeitem esta comunidade que escolhe afastar-se do mundo para viver no silêncio, na oração e na meditação, enquanto formas de alcançar patamares mais elevados de consciência e de sabedoria. Julgo que o desenvolvimento urbanístico da zona envolvente ao convento deve ser pensado com cuidado para, justamente, não pôr em causa a permanência da comunidade. Acho até que a presença dos monges é uma prova de que, no que à ganância dominante se refere, certos limites da decência ainda não foram ultrapassados. Pelo menos completamente.

Contudo, a construção desenfreada de prédios horrorosos, tipo cubo-lego, que cercam já de forma compacta toda a cintura amuralhada da cidade não deixa antever nada de bom. E no entanto, com tanto terreno disponível em volta da cidade e para lá dela, com o gritante envelhecimento populacional, com a crise generalizada a todos os níveis (até do espírito), não se entende por que raios é preciso vivermos todos em cima uns dos outros num espaço reduzido, sufocado pelas muralhas ou estrangulado pelas vias de circunvalação entupidas de trânsito!

Vem isto a propósito de um texto tocante hoje publicado pelo ex-Director do Museu de Évora – Joaquim Caetano – no Público (24/10/2010) e intitulado muito adequadamente “Minorias éticas”:
"Comemora-se o cinquentenário do restauro do Convento da Cartuxa. O conde de Vilalva comprou o convento e mandou restaurá-lo. Como o dilema ainda não se punha entre fazer daí um hotel ou um centro cultural, o conde teve a ideia estranha de repovoar o espaço com monges cartuxos, a mesma ordem que tinha sido obrigada a deixar o convento em 1834. Os seguidores de S. Bruno vivem em solidão e silêncio e têm basicamente a noção de que o mundo podia ser um sítio melhor, se aprendêssemos a estar calados. Mas são generosos. Apoiaram-me muito ao aceitar, durante as obras do Museu de Évora, recolher lá centenas e centenas de peças de pedra de grandes dimensões e isso deu-me o direito de passar alguns momentos muito agradáveis no enorme e silencioso edifício e nos seus jardins. Recordo-me de que, quando as televisões davam noticiários de hora a hora sobre o estado de saúde de João Paulo II, eles viveram no total desconhecimento, até que um monge soube e deixou na capela um pequeno papel com uma linha escrita a lápis sobre a doença do Papa, telegráfica nota que lá ficou até amarelecer. Um dia queixei-me junto de um dos cartuxos das funcionárias do museu não poderem ver as peças pela interdição à entrada feminina, e recebi a resposta rápida e directa: “Não vamos deixar de ser como somos, só para agradar a quem não é como ós.” Tinha obviamente razão, nem na igualdade as maiorias devem poder impor-se contra a natureza do diverso. São melhores e mais ricas as cidades assim, respeitando as minorias, mesmo as que decidem calar-se. A acção do conde de Vilalva possibilitou isso, um espaço íntegro, na sua forma e na sua função, habitado por homens silenciosos, e íntegros também eles.

Depois de ler o texto pensei que os monges cartuxos estão para Évora como os canários estavam antigamente para os homens que escavavam o fundo das minas. Para estes, a morte da ave alertava para a falta de oxigénio ou para a presença de gases tóxicos. Dizia-lhes que corriam perigo de vida e era necessário abandonar os túneis o mais depressa possível. Se um dia a cidade de Évora se tornar insustentável e/ou incompatível com a comunidade cartusiana não tenho dúvidas de que eles partirão e isso será, sem dúvida, o sinal mais evidente de que a cidade se desumanizou e se tornou igual a qualquer outra das megacidades do país: um mero dormitório de autómatos sem alma do qual é melhor fugirmos e bem depressa. Apenas posso desejar que esse dia esteja bem distante.

sábado, 23 de outubro de 2010

Little life

A demolição da Torre de Babel

No seu Atlas das Línguas em Risco a Unicef afirma que existem seis mil línguas em todo o mundo. Cerca de 2500 correm já hoje sério risco de desaparecimento e 199 são faladas por menos de dez pessoas. Na prática é como se já estivessem mortas, pois para sobreviver uma língua tem que ser falada por mais de cem mil pessoas e, se não for usada por mais de 30% das crianças, começa a correr risco de extinção.

A esmagadora maioria das línguas inventariadas no Atlas da Unicef (90%) não está representada na internet o que, num mundo globalizado e a muito curto prazo, pode significar a sua extinção. Quatro por cento dessas línguas são faladas por cerca de 97% da população mundial e algumas previsões indicam que, em 2100, 90% das línguas actualmente existentes estarão extintas.

De uma maneira geral é nos países com maior diversidade linguística que este risco de extinção é maior. Contudo, também esta regra apresenta excepções, como é o caso da Papua Nova Guiné: no seu território falam-se nada menos do que 800 línguas e, destas, só 88 estão em risco de extinção. E não é caso único: as línguas aymara e quechua no Peru, a língua maori na Nova Zelândia e a língua guarani no Paraguai conseguiram recuperar com sucesso de uma quase extinção.

Ora, ao longo da história da humanidade sempre houve línguas que se extinguiram, tal como também desapareceram civilizações inteiras, quase sempre por razões diversas. O que está agora diferente, segundo a Unicef, é o ritmo acelerado a que essa extinção está a acontecer. As causas desta extinção em massa são muitas e de grande complexidade: há línguas mais apetecíveis do ponto de vista económico do que outras, como é o caso do inglês, por exemplo; há ainda um discurso nacionalista disseminado a nível global que desde o séc. XIX se apoia muito na ideia da homogeneidade e, consequentemente, no conceito de uma língua nacional, que constitui a norma padrão à qual todas as outras se submetem. Isabel Tomás (Univ. Nova de Lisboa) aponta ainda três tipos de morte para as línguas: a morte súbita provocada pelo desaparecimento catastrófico de todos os seus falantes (genocídio); a morte radical provocada por uma forte repressão política; ou ainda a morte gradual provocada pelo abandono por parte dos seus falantes (que adoptam a língua dominante, com maior prestígio ou mais valor no mercado) que cessam assim de a transmitir às gerações mais novas. Também as línguas que não têm uma forma escrita (ou seja, ortografia oficial e gramática) têm mais dificuldade em sobreviver. O mais grave de tudo é que a extinção de uma língua conduz também ao desaparecimento de tradições, da cultura e dos conhecimentos acumulados ao longo de séculos que lhe estão associados. Ou seja, a humanidade fica culturalmente mais pobre sempre que uma língua se extingue.

Depois há ainda a complexa questão da classificação do que é língua e do que é dialecto. O linguísta Hugo Cardoso considera que, muitas vezes, a distinção é mais sociocultural e política do que apenas linguística. É o caso da ex-Jugoslávia onde os dialectos passaram a ser considerados como línguas por mera decisão política, tornando-se desta forma uma manifestação de soberania dos novos estados. Em países como a China, pelo contrário, os dialectos são tão distintos entre si que poderiam ser classificados como línguas de plenos direito mas, para garantir a homogeneidade e a coesão nacional, o estado centralizado impede que tal aconteça. Certo também é, que quando um dialecto passa a ser considerado língua fica, de certa forma, protegido.

Porém, salvar uma língua da extinção não é fácil: requer que seja ensinada nas escolas, utilizada nos meios de comunicação, nas cerimónias religiosas, na literatura, até mesmo no aparelho burocrático do estado e, sobretudo, que a sua comunidade de falantes esteja interessada e motivada para evitar o seu desaparecimento. Veja-se, a este propósito, o que está a acontecer ao mirandês que, pouco a pouco, está a ser transmitido para as gerações mais novas, ou com o patuá de Macau que está a ser recuperado por uma questão de identidade e para manter vivas as referências culturais dos seus falantes.

Em muitos casos, contudo, pouco mais há a fazer do que documentar e registar para estudar depois e para perpetuar a memória. Foi o que aconteceu agora com o crioulo indo-português de Cochim, nascido no séc. XV da interacção entre o português e o malaiala, cujo último falante – William Rozario – morreu recentemente. É, aliás, o que está a acontecer com muitos dos crioulos nascidos da nossa expansão marítima. As estatísticas dizem mesmo que a cada duas semanas há menos diversidade linguística no mundo, ou seja, estamos a desmantelar a Torre de Babel.

A Torre de Babel de Pieter Brueghel, o Velho
(Síntese do artigo de Francisco Gorjão Henriques intitulado “Rozario morreu e com ele uma língua inteira”, Público, 20/10/2010)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Teatro dos dias

Ninguém cheira melhor
nestes dias
do que a terra molhada: é outono.
Talvez por isso a luz,
como quem gosta de falar
da sua vida, se demora à porta,
ou então passa as tardes à janela
confundindo o crepúsculo
com as ruínas
da cal mordidas pelas silvas.
Quando se vai embora o pano desce
rapidamente.

Eugénio de Andrade, Ofício de Paciência, Fund. Eugénio de Andrade, 1994, 1ª ed.

Blue as your blood

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Metáforas (quase) naturais - IX

Estremoz, 21/10/2010
O dia começa a descer devagar pelo outro lado do outeiro e, por entre os vinhedos, o chão parece estar coberto de cinzas sobre as quais um sangue ressequido e quebradiço vai caindo, abundante, num gotejar contínuo, como se as videiras chorassem de dor pelos frutos usurpados. Algumas, já exangues, deixam ver o tronco contorcido e nodoso que parece ter ardido por dentro até à petrificação. Paira sobre toda a paisagem um silêncio adocicado que anuncia o começo deste luto colectivo.

E no entanto, depois das chuvas do inverno, sob o olhar atento de um sol já primaveril, é certo que voltarão a cobrir de verde os campos como quem, esquecida a dor, acreditasse que, dessa vez, será diferente.

Contemplo-as e penso como a permanência da memória é, justamente, o que nos impede muitas vezes de fazer o luto das nossas próprias dores.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

And When I Die...

in 2010. Passei uma boa parte da minha adolescência a ouvir a sua voz límpida e as canções de sonoridade folk que cantou no trio Peter, Paul and Mary.

Pre(sen)tenciosa

Blaise Pascal escreveu um dia que “À força de falarmos de amor, apaixonamo-nos”.

Hoje, ao deparar com a citação no jornal pensei que, seguindo esta lógica, então “À força de escrevermos o desamor, dasapaixonamo-nos.”

Mais simples e claro não deve ser possível. Mais fácil também não. Agora só falta mesmo é acontecer exactamente assim.




terça-feira, 19 de outubro de 2010

Brasil: o paladino da portugalidade?

1. A língua
Há uns meses atrás escrevi aqui e disse que o Brasil, para defender dos seus próprios interesses em África e não só, tem feito pela língua portuguesa, tanto em termos de divulgação como de promoção, tudo aquilo que Portugal - seu território de origem - não tem, mas deveria ter feito: refiro-me apenas à criação do Museu da Língua Portuguesa em S. Paulo e ao Acordo Ortográfico (porque do ensino da língua é melhor nem falar). Em relação a este último, ficou bem claro que, com a nossa proverbial passividade e espírito de "deixa andar", quando nos demos conta do que se estava a passar já não havia muito a fazer e o (des)Acordo Ortográfico é, sobretudo, o que o Brasil entendeu fazer dele e com ele. Nós limitámo-nos a assinar de cruz.

Em relação ao Museu da Língua Portuguesa, o Ministério da Cultura (no pretérito reinado de Isabel Pires de Lima), certamente embaraçado com esta falha gritante, ainda pensou em fazer qualquer coisinha do género alí para os lados de Belém, mais propriamente no edifício do Museu de Arte Popular. Para não se tornar tão óbvio que, por incrível que pareça, mais não éramos do que macaquinhos de imitação, chamar-se-ia Museu do Mar e da Língua Portuguesa. Chegou a apontar-se a sua abertura para o ano de 2008, para poder beneficiar ainda de fundos comunitários, num investimento que rondaria (mais coisa, menos coisa) os 2,5 milhões de euros. Foram até estabelecidas parcerias com o Ministério da Ciência e falou-se da hipótese de o Centro Ciência Viva também vir a integrar o projecto. Contactou-se ainda a Fundação Roberto Marinho, patrocinadora do museu brasileiro, para a cedência de software e para a "partilha de experiências", no sentido de se replicar em Portugal a ideia de um museu que não tivesse um único objecto exposto, mas em que o visitante pudesse de forma interactiva conhecer e compreender melhor a sua própria língua.
Com a saída da ministra, os cacos do projecto foram varridos para debaixo do tapete e não mais se voltou a falar do assunto. E nem me parece que o assunto volte a ser referido pois, se na época dita "das vacas gordas", não houve grande interesse em fazer o Museu, agora que as ditas vacas estão a morrer à fome, mesmo que houvesse interesse (que continua a não haver) faltariam certamente as verbas necessárias para o concretizar. 

2. A literatura
Mas não é apenas na defesa da língua que o Brasil vai à frente. O mesmo está a acontecer com a divulgação da literatura portuguesa (sim, do território português e não a de expressão portuguesa). É por isso que hoje, na Casa Fernando Pessoa, será apresentado o Dicionário de Escritoras Portuguesas, um ambicioso projecto da autoria de três professoras de Literatura Portuguesa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte: Conceição Flores, Constância Lima Duarte e Zenóbia Collares Moreira.

Este projecto de investigação, que teve início em 1985,  é constituído por cerca de duas mil entradas, abarcando uma cronologia alargada: do séc. XV até à actualidade. Apresenta todas as escritoras consagradas, mas também nomes conhecidos apenas a nível local e regional, ou até no mais restrito círculo dos amigos e da família. Segundo noticia a Lusa, "Resgata muitos nomes ao esquecimento e ao ostracismo, identifica pseudónimos através de verbetes remissivos, colige informações dispersas de tempos diferentes, congregando mulheres que ao longo dos séculos publicaram ou deixaram os seus textos manuscritos, os quais foram posteriormente redescobertos pelos investigadores/as. Os verbetes reúnem informações biográficas e bibliográficas, munindo o leitor de dados que, regra geral, ele não encontra agrupados, o que constituí um instrumental indispensável para alunos, professores, investigadores e todos aqueles que se interessam pela literatura escrita por mulheres."

Considerações feministas (ou machistas à parte), esta é, sem dúvida, uma obra importante para se conhecer melhor a história da nossa literatura no feminino. E também não duvido de que se tornará numa obra de referência obrigatória em tudo quanto é bibliografia escolar e académica (e não só). Já quase nem me espanta que, mais uma vez, venha de terras do Brasil para cá. E quase aposto que já deve haver, algures numa universidade brasileira, uma equipa semelhante a tratar de elaborar a versão masculina do dito dicionário. Assim se salvaguardará a igualdade de géneros (pacificando assim os ânimos mais exacerbados) e se consolidará o conhecimento sobre a nossa própria literatura nacional. Só temos é que agradecer aos brasileiros este interesse que, pelos vistos, nós próprios já perdemos ou, pelo menos, temos descuidado muito. Mas deveríamos era pensar que, ao fazer isto, o Brasil está sobretudo a velar pelos seus próprios interesses e futuros proveitos e começar a aprender também como se faz.