atirada às águas paradas da indiferença e do alheamento, com a vantagem de não causar mortos nem feridos. Incomoda muita gente? Talvez alguns. E se vier para a rua talvez possa vir a incomodar muitos mais...
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
domingo, 27 de fevereiro de 2011
A cinemática noite
A Cinematic Orchestra em noite de grande desfile de vaidades e de egos tamanho XL, que o mesmo é dizer, em noite de óscares do cinema em Hollywood. Qual é a relação entre uma e outra coisa? Nenhuma, pois claro! Mas apeteceu-me.
Mentes digitais e inquietas: um desafio diferente, para variar
O futuro dos países, e do mundo, começa cada vez mais a ser discutido e decidido na net. Denunciar todo o tipo de situações ou convocar protestos vários, desde petições a reclamações por mail, manifestações, convulsões e até mesmo revoluções usando a net e, em particular, as redes sociais, tornou-se prática habitual no mundo globalizado. De certa forma, a rede avivou a consciência cívica de muitos cidadãos que andavam alheados de quase tudo, e isso é bom. A par deste fenómeno – e se calhar até certo ponto motivado também por ele - tem crescido na nossa sociedade o número de cidadãos que se candidatam a cargos políticos apenas com o apoio de movimentos cívicos e sem qualquer interferência partidária.
A sistemática depredação dos recursos naturais, o crescimento desordenado e desenfreado das grandes cidades industrializadas, a desertificação e empobrecimento das regiões periféricas e do interior interior estão a trazer consequências gravosas que todos começamos a sentir no bolso e não só: a nossa “qualidade de vida” também começa a estar em risco. Foi só uma questão de tempo até aparecerem na net blogues e fóruns de discussão sobre todos estes temas ligados à sustentabilidade e que prometem vir ainda a dar muito que falar: não porque incitem às manifestações de rua, mas porque, promovendo a discussão e a troca de ideias, levam a uma maior consciencialização dos cidadãos sobre todas estas questões das quais depende, em grande parte também, a nossa sobrevivência no planeta. Talvez se venha assim a formar uma nova geração de cidadãos, e de governantes, com um pensamento mais íntegro e mais consciente de que as decisões devem ser tomadas com bom senso que é, afinal, aquilo que falta à maioria dos políticos que nos (des)governa, tanto a nível nacional como local.
O objectivo do movimento é ambicioso: pensar em soluções criativas que tenham impacto económico e social e que possam vir a ter impacto na nossa vida. Os sítios http://noeconomicrecoverywithoutcities.blogs.sapo.pt/ sediado em Aveiro, o http://networkedblogs.com/anEmX sediado no Porto e o http://www.faro1540.org/ sediado em Faro estão a lançar ideias, propostas, provocações, debates sérios e muito interessantes sobre todas estas questões que, afinal, nos afectam a todos, mesmo que andemos muito “distraídos”. Valem bem uma visita.
Falta agora desmultiplicar esta ideia por outras zonas do país. Évora, por exemplo, bem precisava de um movimento assim. Acho que já todos percebemos que com os habituais blogues onde os cidadãos, quase sempre a coberto do anonimato, destilam venenos de toda a espécie, lançam calúnias e vociferam os insultos mais vulgares numa linguagem, no mínimo, disfuncional, não chegaremos muito longe. Também porque já percebemos que, apenas a dizer mal de tudo e de todos e a defender os interesses do seu partido como quem defende o seu clube de futebol preferido, é que não chegaremos nunca a sair do buraco em que encontramos há já muitos (demasiados?) anos.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Hino singelo
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| Juromenha, 26/2/2011 |
Na erva crespa que cobre o chão e me cerca as passadas a perder de vista três pequenas e delicadas pétalas pintadas de azul aparecem de repente. A delicada flor parece estar agarrada ao chão como se tivesse medo de ser descoberta ou se sentisse intimidada, ali, sozinha e como que perdida na imensidão verde que a cerca. Nas suas pétalas frágeis está guardada a bom recato toda a singela e ainda intacta beleza da primaveril planície.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
As pequenas palavras
De todas as palavras escolhi água,
porque lágrima, chuva, porque mar
porque saliva, bátega, nascente
porque rio, porque sede, porque fonte.
De todas as palavras escolhi dar.
De todas as palavras escolhi flor
porque terra, papoila, cor, semente
porque rosa, recado, porque pele
porque pétala, pólen, porque vento.
De todas as palavras escolhi mel.
De todas as palavras escolhi voz
porque cantiga, riso, porque amor
porque partilha, boca, porque nós
porque segredo, água, mel e flor.
E porque poesia e porque adeus
de todas as palavras escolhi dor.
Rosa Lobato de Faria
porque lágrima, chuva, porque mar
porque saliva, bátega, nascente
porque rio, porque sede, porque fonte.
De todas as palavras escolhi dar.
De todas as palavras escolhi flor
porque terra, papoila, cor, semente
porque rosa, recado, porque pele
porque pétala, pólen, porque vento.
De todas as palavras escolhi mel.
De todas as palavras escolhi voz
porque cantiga, riso, porque amor
porque partilha, boca, porque nós
porque segredo, água, mel e flor.
E porque poesia e porque adeus
de todas as palavras escolhi dor.
Rosa Lobato de Faria
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Explicação da Eternidade
devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.
os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.
por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.
os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.
foste eterna até ao fim.
José Luís Peixoto, in A Casa, A Escuridão; Temas & Debates
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.
os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.
por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.
os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.
foste eterna até ao fim.
José Luís Peixoto, in A Casa, A Escuridão; Temas & Debates
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Subsídios para uma visão comparada da nossa história
Aqui há dias recebi via mail este cartoon que, em poucos traços e de forma brilhante, resume toda a história da Itália, país que, segundo os europeus do norte e à semelhança do nosso, pertence agora à categoria dos países ditos periféricos ou, mais propriamente dos países designados pelo acrónimo PIGS:
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| imagem de http://www.blogger-index.com |
Trata-se, como é notório, de uma história marcada por figuras que, embora separadas no tempo, têm algo em comum: o exibicionismo e a líbido exacerbada. Em termos zoomórficos será algo de semelhante ao cruzamento de um pavão com um galo. Daí provavelmente o notório recrudescimento de um certo apêndice que, em resultado da tal evolução darwiniana das espécies, atingiu o seu apogeu na actual era Berlusconi.
Ora a história portuguesa, porque já vai longa tal como a italiana, apresenta também uma galeria de figuras marcantes. Eis três delas:
É notória a semelhante proeminência de um certo apêndice mas não sei se por sermos de facto diferentes, se para sermos diferentes (confesso ter aqui algumas dúvidas relativamente à preposição a usar), ou se apenas devido a alguma mutação genética ainda inexplicada, este cresceu um pouco mais acima do que o dos italianos. Infelizmente isso não quer dizer que estejamos em melhor situação do que eles, bem pelo contrário. E o mais provável é que a explicação histórica para os nossos desaires enquanto nação seja tão linear quanto esta: os nossos excelsos governantes têm, desde sempre, andado a meter o apêndice errado nos sítios errados...
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| D. Afonso Henriques Salazar José Sócrates |
É notória a semelhante proeminência de um certo apêndice mas não sei se por sermos de facto diferentes, se para sermos diferentes (confesso ter aqui algumas dúvidas relativamente à preposição a usar), ou se apenas devido a alguma mutação genética ainda inexplicada, este cresceu um pouco mais acima do que o dos italianos. Infelizmente isso não quer dizer que estejamos em melhor situação do que eles, bem pelo contrário. E o mais provável é que a explicação histórica para os nossos desaires enquanto nação seja tão linear quanto esta: os nossos excelsos governantes têm, desde sempre, andado a meter o apêndice errado nos sítios errados...
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Notícias de última hora (mais do que actualizadas, sempre actuais)
Elis tinha/tem toda a razão: isto já só entra nos eixos quando os marcianos vierem tomar conta de nós...
O amarelo perdido de Van Gogh
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| Borba, 21/2/2011 |
Os campos estão pintados de amarelo a perder de vista, imensas listas coloridas que se alongam pela paisagem e não desbotam com o sol. Antes pelo contrário: à medida que ele ganha altura sobre a planície, esta cor amarela torna-se ainda mais intensa, quase vibrante.
É sem dúvida aqui e agora que, naturalmente preservados, brilham intensamente os tons amarelos que há muito se perderam dos mais belos quadros de Van Gogh.
É sem dúvida aqui e agora que, naturalmente preservados, brilham intensamente os tons amarelos que há muito se perderam dos mais belos quadros de Van Gogh.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Proverbiais e aforísticas
Nem sempre a vida acontece.
Muitas vezes, apenas tece. E outras, nem sequer apetece.
Certo é que vale, sobretudo, pelos raros momentos em que nos enternece.
Muitas vezes, apenas tece. E outras, nem sequer apetece.
Certo é que vale, sobretudo, pelos raros momentos em que nos enternece.
Revisitar o mito
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| Tiziano, Sísifo, 1548 |
O amor é a mais perigosa das doenças sexualmente transmissíveis, sobretudo porque aquele/a que a transmite raramente é portador/a ou apresenta sintomas de tal maleita. Na ausência de vacina ou de qualquer outro tratamento farmacológico, a taxa de sobrevivência a este tipo de infecção viral depende sobretudo da capacidade de cada um para criar anticorpos que reforcem o sistema imunitário contra tais aflições (actuais ou futuras).
Sabemo-nos imunizados quando tudo se começa a resumir a uma simples função biológica. E, no exacto instante dessa tomada de consciência, deixamos de carregar o familiar pedregulho, para começarmos a senti-lo dentro de nós. Depois, é só deitar e rolar... pela encosta abaixo.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Prenunciação da primavera
As recém-chegadas andorinhas traçaram a carvão, na azulada claridade, volutas de alegria que deixaram sobre os telhados um rasto sonoro reverberante, prenunciação da primavera que já chegou, mas que ainda não é perceptível aos nossos olhos. Por agora, está ainda confinada ao canto dos pássaros, mensageiros da boa nova, e aos campos que começam já a tecer os floridos tapetes por onde todos os anos passa o cortejo eufórico da renovad(or)a festa da (re)criação.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Dos círculos
Sob todos os pontos de vista é sempre mais fácil fechar um círculo do que um ciclo.
Talvez seja por isso que para a maioria de nós, seres comuns, a vida se confunde quase sempre com um longo e único ciclo vital feito sobretudo de pequenos círculos de tédio, de (des)ilusão e de frustração que se vão encaixando, sucessivamente, dentro de outros círculos que, por sua vez, apenas conduzem a mais círculos dentro de outros círculos, tudo sempre dentro do mesmo longo e enredado ciclo.
Escassas vezes conseguimos, a duras penas e por tentativa e erro, fechar ou quebrar um só desses pequenos círculos. Fechar todo um ciclo vital para depois iniciar um novo, então, é algo a que só raros seres, atravessados pela assombração da genialidade ou marcados pela singularidade, conseguem. E eu, há já muito que percebi não haver em mim nada de genial ou de singular.
Talvez seja por isso que para a maioria de nós, seres comuns, a vida se confunde quase sempre com um longo e único ciclo vital feito sobretudo de pequenos círculos de tédio, de (des)ilusão e de frustração que se vão encaixando, sucessivamente, dentro de outros círculos que, por sua vez, apenas conduzem a mais círculos dentro de outros círculos, tudo sempre dentro do mesmo longo e enredado ciclo.
Escassas vezes conseguimos, a duras penas e por tentativa e erro, fechar ou quebrar um só desses pequenos círculos. Fechar todo um ciclo vital para depois iniciar um novo, então, é algo a que só raros seres, atravessados pela assombração da genialidade ou marcados pela singularidade, conseguem. E eu, há já muito que percebi não haver em mim nada de genial ou de singular.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Denunciar a cantar
Depois de termos feito da cantiga uma arma contra a ditadura, as circunstâncias actuais estão claramente a inspirar uma nova vaga de canções que se poderiam talvez chamar "de denúncia": os Deolinda, por exemplo e, agora esta de Paco Bandeira que não deixa pedra nenhuma por levantar.
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