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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Cantos da Babilónia
Chegou hoje mesmo e estou a ouvi-lo. Um legado de enorme beleza e sensibilidade que Pedro Osório nos deixou no seu último disco.
A nova ortografia: uma espécie de addenda
Há dias em que esta "hortografia" me começa a parecer verdadeiramente premonitória. Hoje é um deles.
A nova ortografia portuguesa: algumas gemas
O Novo Acordo Ortográfico (AO) em vigor promove o retorno a uma escrita mais fonética, cuja face mais visível é a supressão das consoantes mudas.
Esta tentativa de fazer prevalecer a fonética sobre a etimologia, além de polémica, não acontece sem criar um anedotário próprio.
Desenvolvi hoje na Biblioteca da escola uma atividade de leitura de textos narrativos curtos Numa mesa onde estavam colocadas várias dezenas de títulos muito variados os alunos podiam escolher livremente o que lhes "apetecesse". No final, apenas tinham que preencher um papel indicando o título do livro e dar a sua opinião sobre o livro/atividade.
Alguns resistiram e refilaram o tempo todo: "ó professora, detesto ler"; "professora, não posso antes ir fazer isto ou aquilo". Dois ou três fazem mesmo questão de afirmar que nunca leram um livro nas suas ainda curtas vidas. É obra! Só depois de muita argumentação lá se foram então conformando e começaram a escolher um livro para ler.
A avaliação solicitada era um tanto ou quanto a preto e branco, para além de anónima, mas permitiu obter informação preciosa.
Alguns, certamente aqueles para quem a simples ideia de ler um livro é sinónimo de horror e tortura, não pouparam nas palavras. Eis apenas alguns exemplos das razões apresentadas pelos que, decididamente, não gostaram desta atividade:
Contos Policiais - "não porque tem muitas paginas"
A salvação de Wang Fô e outros contos orientais - não "porque o velho é parvo"
Contos de África e da Europa - não "porque isto não presta pra nada"
O Fantasma dos Canterville - não "porque é muito grande e não tem imagens"
Contos Tradicionais Portugueses- não "porque a Biblioteca serve só para jogar computador, não é cá para ler um monte de palavras inúteis que não servem para nada!"
Quanto aos que declararam ter gostado da atividade destaca-se a palavra "interessante", presente em muitas locuções como estas: "achei interessante"; " foi interessante", etc. as quais, justamente, por pouco terem de interessante não contam para esta estória.
Bem mais "interessante" foi ir verificando a criatividade ortográfica de um número significativo de alunos. Eis alguns exemplos:
Boca do Inferno - "é interçante"
A salvação de Wang Fô e outros contos orientais" - "pelo que li pareceu-me intersante"
Contos da Montanha - "porque é interesante"
Antologia do Conto Português - "achei intresante esta iniciativa"
Novas Crónicas da Boca do Inferno - "foi bastante interassante e divertido"
Contos de África e da Europa - "é um livro interresante sobre África e da europa é engraçado"
Lá pelo meio encontrei verdadeiros "bombons com recheio", como estes:
Lá pelo meio encontrei verdadeiros "bombons com recheio", como estes:
Um deles não escreve (esquecimento ou preguiça?) o título do livro, mas diz: "Eu achei o livro imucionante".
Um outro escreve assim o título do livro que folheou, mais do que leu: "O testamento do Sr. Natamoceno" (naturalmente, refere-se a "O testamento do senhor Napumoceno da Silva Araújo" de Germano Almeida").
Este panorama da ortografia é o resultado de um conjunto de situações sobre as quais nem vou sequer discorrer muito (até porque é exercício inútil): falta, ou mesmo ausência de hábitos de leitura; simplificação dos currículos; massificação do ensino; pouca exigência e excessivo facilitismo do processo de avaliação, especialmente na escolaridade obrigatória, em prol de estatísticas nacionais mais favoráveis, etc. Esta é a realidade do nosso sistema educativo há já demasiado tempo. Agora, por todas as razões e mais a crise económica (redução brutal do investimento público no ensino), vai ser muito difícil mudar este estado de coisas.
Tenho pois boas e más notícias para os que continuam a lutar contra o novo AO. Boa notícia é que os alunos se têm adaptado muito bem à nova realidade, apesar da exuberância de algumas das reações iniciais (tipo, "eu cá não vou escrever assim") ter feito prever bem pior. Agora preparem-se, que isto da ortografia fonética é como um rio cujo caudal está a ganhar força e, não tarda, será muito difícil, talvez mesmo impossível, controlá-lo. E esta é, sem dúvida, a pior notícia para aqueles que ainda acham que a ortografia devia continuar a refletir (ou reflectir, cá está) a etimologia das palavras portuguesas.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
O politicamente correto contra-ataca
para enfeitar o discurso e soar bem mas, na verdade, não significa nada e, sobretudo, não faz acontecer coisa alguma.
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Coisas que me abespinham, encanitam e irritam - VII
Por menos convencional que seja a família, deixar passar um tão flagrante erro/gralha é estranho. Para mim, ainda mais estranho num sítio que se pretende de "referência" a vários níveis.
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| In www.wook.pt |
A chinesização do trabalho
Talvez seja coincidência, ou talvez não, mas o certo é que as nossas leis laborais iniciaram um percurso de aproximação às práticas chinesas conhecidas nesta área e que garantem, à força toda, um crescimento económico brutal. (ver aqui) Coisa muito conveniente, sobretudo agora que os chineses estão a comprar o país, perdão, a investir em força no país.
Talvez fosse mais prudente nunca dizer nunca...
... até porque, como o próprio esclareceu, se nos 1.110 despachos até agora publicados em Diário da República e respeitantes a nomeações, apenas cerca de 190 correspondem a novas nomeações", também logo acrescentou que esses números não contemplavam os gabinetes dos ministros e secretários de Estado. O que só reforça a minha convicção de que "nunca" é aqui uma palavra talvez demasiado forte e, sobretudo, prematura.
Além disso, é bom não esquecer que só passaram 6 meses desde a tomada de posse do governo. Ainda há muitos Diários da República a publicar daqui até ao fim do mandato. Vamos, pois, com calma...
Além disso, é bom não esquecer que só passaram 6 meses desde a tomada de posse do governo. Ainda há muitos Diários da República a publicar daqui até ao fim do mandato. Vamos, pois, com calma...
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
A poesia
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| Hans-Peter Szameit |
A poesia dá nome
ao que não tem nome
e se umas vezes rima,
como acontece nesta fala,
outras vezes não rima
e escreve como quem cala
por saber que a poesia
deve estar sempre acima
de quaisquer jogos de sala.
A poesia dá nome
ao que no falar comum
raramente nome tem
e deixa sempre em cada um
o desejo sentido
de falar com mais alguém
para que a poesia cresça
e os leitores mereça
porque lhes faz bem.
José Jorge Letria, A Casa da Poesia (excertos),
Lx: Terramar, 2003
domingo, 15 de janeiro de 2012
Este país é para velhos. Desde que paguem, entenda-se
Eis os exemplos mais recentes desta nova faceta do estado que já foi social e agora é cada vez mais liberal, seja lá isso o que for:
1) Se tiver 70 anos e receber uma reforma de 9600 euros, mas o seu nome for Eduardo Catroga, naturalmente pode acumular com um vencimento mensal superior a 45 mil euros. Mas qual é o problema? (ver aqui)
2) Se tiver mais de 70 anos, mas for eleito presidente da República, pode até acumular várias reformas, todas bem generosas, que não faz mal nenhum;
2) Se tiver mais de 70 anos, mas for eleito presidente da República, pode até acumular várias reformas, todas bem generosas, que não faz mal nenhum;
3) Se tiver mais de 70 anos e precisar de fazer hemodiálise, tem direito a fazê-la... se pagar. E esta antevisão do que nos espera só pode ser fidedigna, pois quem a fez é especialista em finanças públicas (ver notícia aqui) e da área da atual governação;
4) Agora, se tiver 70 anos, se receber do Estado a pensão mínima - cujo valor é de 379 euros - e se quiser continuar a ver televisão para quebrar a solidão e/ou o isolamento tem que pagar, claro está. Ou queria ver a TDT e os seus quatro canaizinhos generalistas de graça, não? Ora não querem lá ver o raio dos velhos?! Se, ainda por cima, tiver que instalar antena, o que é bastante frequente e/ou um amplificador de sinal, os valores finais podem ir até bem acima de 200 euros.
Mas não se preocupe, que o Estado comparticipa (é tão bonzinho o Estado!):
a) Cidadãos com grau de
deficiência igual ou superior a 60%;
b) Famílias beneficiárias do rendimento social de inserção (RSI);
c) Reformados e pensionistas com rendimento inferior a 500 euros mensais.
Mas porque a bondade do Estado tem limites, o valor dessa comparticipação é, no máximo, de 22 euros e será atribuído "após a compra do equipamento". Ou seja, pague lá a conta, que depois logo se vê
.
E que têm os velhos - e desgraçados - que fazer para receber tão generosa quantia? Pois apenas isto:
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| Imagem daqui |
Como vê é muito simples. Mas, ainda não está satisfeito, tem dúvidas, o seu cérebro não consegue processar tanta informação? Olhe, meta o meo, a zon ou outro congénere e pronto. Deixe que eles resolvem tudo. Você só tem mesmo é que pagar e deixar de ser um velho rezingão.
Só tenho uma pergunta a fazer:
Será que o ex-secretário de estado da justiça também recebia o pessoal lá no seu gabinete-templo com o aventalinho maçónico posto?
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| Imagem (mais ou menos) daqui |
Sobre tudo isto diz o próprio na sua página do Facebook que "O ridículo não tem limites! A foto da sala em causa está no Facebook e quem tenha algumas luzes culturais percebe a alusão a Ricardo Reis e à herança cultural da antiguidade clássica. Um gabinete que dá para o cais das colunas tinha a emoldurar a janela...colunas. O custo foi minúsculo e para os incrédulos sugiro que comparem despesas de remodelação dos gabinetes dos dois secretários de Estado. Optei sempre pelo low cost, mas nunca pela incultura."
A frase inicial resume tudo, de facto. Até porque eu já fui espreitar as tais fotografias... O resto e, nomeadamente, a alusão a Ricardo Reis e à "herança cultural da antiguidade clássica" é para esquecer. Agora, a serem verdadeiros os custos da renovação do gabinete do senhor no Terreiro do Paço - segundo o CM, um total de 62 mil euros (ver aqui) - essa do "low cost" tem que se lhe diga dados os sacrifícios que, já na altura, nos estavam a ser exigidos devido ao agravamento da crise financeira. O próprio avô Catroga, por exemplo, entre reforma e ordenado não ganha isso por mês. Mas compreende-se: para quem (ab)usa o dinheiro que os outros pagam ao estado tudo deve parecer/ser low cost, claro.
Mas há ainda pior: refere o mesmo jornal.(ver aqui) que "Após a mudança de Governo, as colunas chegaram a estar arrumadas em zonas de passagem no Ministério da Justiça." Ou seja, lá se foram 62 mil euros para o lixo.
Já agora, podemos saber quanto custou a renovação decorativa levada a cabo pelos atuais inquilinos do dito gabinete? Tenho alguma curiosidade em saber quanto valeu este recente "low cost" decorativo.
sábado, 14 de janeiro de 2012
Quincy Magoo é um sénior distraído...
... devido a uma estrondosa miopia e, por isso, a sua vida é um contínuo desastre, ou não fosse ele um desenho animado. Eduardo Catroga é uma personagem também bastante animada, mas de forma bem distinta: cada vez que abre a boca o desastre acontece, pois é um sénior armado em parvo devido ao facto de ser rico e poderoso. E anda tão distraído, ou se calhar tão ofuscado pelo brilho dos €uros, que ainda não percebeu que o atual governo é constituído por uma coligação PSD/CDS, sendo maioritária a primeira. Daí que haja um único nome no tal conselho de supervisão da EDP ligado ao CDS. Justamente... Celeste Cardona. Todos os outros foram, estiveram ligados ou são do... PSD, incluindo ele próprio. E, pelo tom com que foi dito, certo é que, mesmo sendo só uma representante está a mais. Afinal, sempre era mais um job jeitoso para o lado laranja da coligação governamental.
E a melhor prova desta sua total distração - chamemos-lhe assim - está no momento em que declara que ainda não sabe qual vai ser o montante do seu ordenado mensal. É caso para dizer: ó homem, é só abrir o jornal que está lá tudo!
E a melhor prova desta sua total distração - chamemos-lhe assim - está no momento em que declara que ainda não sabe qual vai ser o montante do seu ordenado mensal. É caso para dizer: ó homem, é só abrir o jornal que está lá tudo!
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| Imagem daqui |
A entrevista hoje publicada pelo Expresso demonstra ainda que o senhor é um dos melhores contadores de histórias que ouvi nestes últimos tempos. Essa da "ligação a Macau, ligação à terra dele" é de mestre. Ou melhor, para boi dormir. E depois o argumento da "lógica da cara conhecida" arruma de vez com a chamada "lógica da batata".
Os netinhos é que devem adorar as incríveis histórias deste avôzinho cheio de imaginação e pedir bis todos os serões. Recomendo vivamente em dias de maior depressão, pois a gargalhada está garantida (ver video aqui).
Mais alguns pequenos subsídios para a questão das "natas"
Esta história das natas mexeu comigo a sério, sobretudo por se tratar de um dos meus bolos favoritos: ainda morno, com um leve polvilho da canela, acompanhado por um café... Insuperável. A simples proposta da sua adulteração, ainda por cima feita com aquela ligeireza, deixa-me francamente irritada. Por isso aqui vai:
1. Alguém devia dizer ao senhor ministro que a ideia não tão inovadora assim, pois isso já está a ser feito em grande escala aí pelo mundo fora por uma cadeia de fast food concorrente da McDonalds: a KFC ou Kentucky Fried Chicken. Em Taiwan, por exemplo vendem-se com grande sucesso as "egg tarts", publicitadas como uma "autêntica receita de Macau, com fabrico diário". Tenho dúvidas de que as "natas" nacionais consigam competir com semelhante engrenagem:
1. Alguém devia dizer ao senhor ministro que a ideia não tão inovadora assim, pois isso já está a ser feito em grande escala aí pelo mundo fora por uma cadeia de fast food concorrente da McDonalds: a KFC ou Kentucky Fried Chicken. Em Taiwan, por exemplo vendem-se com grande sucesso as "egg tarts", publicitadas como uma "autêntica receita de Macau, com fabrico diário". Tenho dúvidas de que as "natas" nacionais consigam competir com semelhante engrenagem:
2. Por muito que os consumidores em Taiwan, e por esse mundo fora, estejam satisfeitos com as "egg tarts" do KFC, elas pouco ou nada terão que ver com estas aqui. Ora tentem lá franchisar este savoir faire, a ver se são capazes.
3. A leitura deste texto introdutório ao livro "Fabrico Próprio - O design da pastelaria semi-industrial portuguesa", editado em 2008 pelo projeto Pedrita (Rita João, Pedro Ferreira e Frederico Duarte, também se recomenda a quem (incluindo aqui o próprio "Álvaro") quiser saber mais alguma coisa sobre a autêntica pastelaria portuguesa para além da designação genérica de "natas".
4. Já agora, era capaz de apostar que foi aqui que o "Álvaro" foi buscar a ideia do franchising das "natas":
3. A leitura deste texto introdutório ao livro "Fabrico Próprio - O design da pastelaria semi-industrial portuguesa", editado em 2008 pelo projeto Pedrita (Rita João, Pedro Ferreira e Frederico Duarte, também se recomenda a quem (incluindo aqui o próprio "Álvaro") quiser saber mais alguma coisa sobre a autêntica pastelaria portuguesa para além da designação genérica de "natas".
4. Já agora, era capaz de apostar que foi aqui que o "Álvaro" foi buscar a ideia do franchising das "natas":
5. Certo, certo é que, apesar de por cá a cotação das "natas" ter subido em flecha nestes últimos dias, mas não me parece que seja por esta via que vamos resolver a crise... nem que esta gente seja lá muito séria.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Autodiagnose
Tenho estado hoje um tanto ou quanto indisposta: ainda não percebi se foi do "frango de churrasco", se das "natas" franchisadas à la McDonalds.
Se tivesse comido destas aqui em baixo não me tinha acontecido isto de certeza...
Eureka! E as "natas" já são notícia na BBC?!
São e não são. Duvido até que as tais "natas", franchisadas e de tipo McDonalds, venham a ter direito a semelhante destaque. Ainda assim, está de parabéns o senhor ministro. Que ideia incrível!
Das "natas" como conceito predicável
Ontem o ministro da Economia sugeria a criação de um franchising das "natas", à semelhança do frango de churrasco luso-sul-africano como forma de enfrentar a crise económica nacional. Acho até que o senhor ministro andou a ler os sermões do padre António Vieira para afinar a retórica e deles fez uma "doce" e, tanto quanto me parece, convincente paráfrase (pelo menos não me apercebi de que alguém na plateia tenha desatado a rir). Aqui fica, para memória futura, a síntese desse belo discurso:
Exórdio: «Vós sois o açúcar da terra»
Conceito predicável: "A terra está amarga: será porque o açúcar não adoça ou porque a terra não se deixa adoçar*"
Exposição: as "natas" fazem as delícias dos turistas
Confirmação: o "Nandos" inventou o MacDonalds do frango de churrasco
Peroração: então por que não criarmos um McDonalds das "natas"?
E fechou o sermão com um sentido apelo aos "pregadores" presentes na sala: «pois bem meus amigos, e minhas amigas, ide. Ide espalhar a doutrina das "natas" por esse mundo fora...»
E certamente empolgado pelo "sermão", ainda durante a tarde, na Assembleia da República, o emérito deputado alegava em alto e bom som que, na Expo Xangai, se tinha vendido 1 milhão de "natas" num só dia! Afinal, esclareceu logo depois a deputada da oposição, parece que foram apenas 17 mil.
Assim, concluo que:
1º) Desconheço o que sejam "natas". "Natas" mesmo apenas conheço as líquidas, embaladas em tetra pak
2º) O McDonalds das "natas" será o fim garantido da excelência do "pastel de nata" e lá se vai mais um produto nacional para o galheiro. Até porque isto de servir gato por lebre aos consumidores que já saborearam os verdadeiros "pastéis de nata" só resulta uma vez.
E last but not least: a frequência com que os nossos governantes trocam os números e se enganam logo em 3 zeros de uma só vez dá-me razões para temer o pior, no que às finanças públicas diz respeito. Tais lapsus linguae demonstram ainda como estamos, de facto, bem governados até na própria assembleia.
* Paráfrase ao Sermão de António do Padre António Vieira, pregado em S. Luís do Maranhão no ano de 1654.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Como aumentar as exportações portuguesas
Na conferência DN "Made in Portugal" que hoje decorreu em Lisboa, o ministro da Economia falou longamente sobre a necessidade de aumentar as exportações nacionais e analisou "em profundidade" o valor comercial da própria marca "Portugal" (ver aqui).
Assim sendo, e para complementar a recente onda de apelos à emigração dos jovens portugueses, por que não incentivar também a "exportação" da nossa intelligentzia nacional, isto é, dos nossos políticos e administradores de topo, incluindo aqui algumas velhas glórias como por exemplo este, este ou esta.
Certamente que, com os seus currículos meritórios, a sua vasta experiência e competência em gestão e administração - para alguns até, o profundo conhecimento em sociedades secretas (ver aqui) - seriam muitíssimo bem recebidos lá fora. Tudo isto, é claro, complementado com uma apelativa campanha publicitária internacional, cujo slogan poderia ser algo do género: "contrate português". O logotipo até poderia continuar a ser este, e assim se pouparia muito dinheiro em criativos:
Assim sendo, e para complementar a recente onda de apelos à emigração dos jovens portugueses, por que não incentivar também a "exportação" da nossa intelligentzia nacional, isto é, dos nossos políticos e administradores de topo, incluindo aqui algumas velhas glórias como por exemplo este, este ou esta.
Certamente que, com os seus currículos meritórios, a sua vasta experiência e competência em gestão e administração - para alguns até, o profundo conhecimento em sociedades secretas (ver aqui) - seriam muitíssimo bem recebidos lá fora. Tudo isto, é claro, complementado com uma apelativa campanha publicitária internacional, cujo slogan poderia ser algo do género: "contrate português". O logotipo até poderia continuar a ser este, e assim se pouparia muito dinheiro em criativos:
E quem o fizesse teria direito a bónus: meia dúzia de apetitosos pastéis de nata ou um cupão de desconto para o frango de churrasco "à portuguesa", por exemplo. Com a exportação destes "pesos pesados" a nossa balança comercial melhoraria a olhos vistos e talvez assim a famigerada "crise" nos desse umas tréguas...
Dito isto, pergunto: ninguém quererá contratar o nosso criativo "Álvaro"? (ver aqui)
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
A palavra da semana, do mês, talvez até do ano
Depois da Infopédia ter divulgado a habitual "palavra do ano 2011", parece-me que é tempo de começar já a preparar a escolha deste ano que ainda agora começou. Por agora, e a julgar pelas notícias recentes, parece-me que o PS já vai à frente com a palavra "transparência". Nem sei como é que não soa aí pelo país um coro de vuvuzelas em celebração deste facto tão insólito quanto tenebroso.
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| Ver aqui e aqui |
Com tanta "transparência" começo até a achar que, quando Álvaro Cunhal escreveu o livro "O Partido com Paredes de Vidro", estava afinal a referir-se ao PS...
E já agora, "as" palavras de 2011 foram estas.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Notícia de última hora
"Gaspar não prevê mais austeridade"
(ver notícia aqui).
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Quem somos nós para duvidar da solidez destas garantias
dadas hoje no Parlamento pelo senhor ministro das Finanças?
Não dar a bota com a perdigota: provérbio ilustrado
Perante notícias assim é caso para dizer que não dá a bota...
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| Notícia daqui |
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| Notícia daqui |
Pensei então: «será que o professor Gaspar decretou o fim da crise e se esqueceu de nos avisar?» Mas depois de ler esta notícia aqui percebi que, afinal, não é bem assim.
Continuo é sem conseguir perceber como é que, em plena "crise", a palavra "austeridade" vive ausente do mundo do futebol português e sobre isso ninguém fala. Como se houvesse aqui uma espécie de tabu coletivo ou como se a tribo do futebol fosse uma espécie de casta separada e de privilégios intocáveis.
E o povinho que leva o tempo a queixar-se que o Estado lhe leva o couro e o cabelo em impostos, sobre isto, estupidamente, também nada diz. Provavelmente, até acha bem. Haja paciência!
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Que se materialize o sonho...
...de fazer deste "cante" genuíno património da humanidade (cada um virgule à sua vontade). Permitirá pelo menos investigar, coligir, divulgar. Só por isso já valerá a pena a candidatura.
Excerto do filme-documentário Bom Povo Português de Rui Simões,
realizado em 1981
Pedagogia: ao que nós chegámos
Abordagem americana:
Abordagem egípcia:
Abordagem brasileira:
E a abordagem portuguesa:
De salientar que, nas três primeiras, há uma punição clara para o(s) aluno(s) infratores. Pode é questionar-se se essa punição é proporcional e adequada à gravidade da infração cometida, ou não. Também não podemos esquecer que estas são decisões a quente, tomadas em situações-limite, quando os nervos cedem. A quarta - a aula portuguesa - é aqui a exceção claramente reveladora do descrédito e da desautorização a que os docentes têm sido sujeitos nesta última década, por via sobretudo do "eduquês" (veja-se, a título de exemplo, o Estatuto do Aluno e o do Professor) e da funcionarização a todo o custo da profissão docente. A reação da professora portuguesa (ou melhor, a falta dela) -aos desordeiros que infernizam a aula, tanto a ela como aos outros alunos que querem, de facto, aprender alguma coisa, é, nas atuais circunstâncias, a única possível.
Embora confesse que, às vezes, vontade não me falta, nem sequer consigo imaginar o vendaval que se levantaria se algum dia perdesse a paciência e decidisse agarrar num telemóvel e atirá-lo ao chão como faz o professor brasileiro neste vídeo. Basta lembrar o tristemente célebre caso ocorrido na Escola Secundária Carolina Michaelis do Porto em 2008 (ver aqui). A nossa atitude coletiva sobre a "incómoda" questão da indisciplina nas salas de aulas portuguesas tem sido o silêncio, só quebrado pelos "casos" que, de vez em quando, chegam aos media. É que a questão vai muito para além da própria sala de aula e estende-se quer às famílias, quer à própria sociedade. Vamos ver até quando conseguiremos manter este silêncio ensurdecedor.
domingo, 8 de janeiro de 2012
Ainda a "loja"
No mundo globalizado em que vivemos já se sabia que era só uma questão de tempo até Mozart himself saber do caso da sua homónima loja maçon de Lisboa a qual, por estes dias, teima em ser notícia por cá (ver aqui). Eis aqui, em primeira mão, a sua reação ao caso.
Eis "o génio dos génios"
em questões militares, e é por isso que a lâmpada de onde ele sai tem este formato pouco habitual. Isto, claro está, segundo a insuspeita televisão norte-coreana (ver notícia aqui). Não sei se ria, se chore, ou se nem uma coisa nem outra. Sei é que o povo norte-coreano já não deve ter muito mais lágrimas para continuar a chorar...
A austeridade à portuguesa
Em Portugal, três penadas bastam para perceber que a crise em que estamos mergulhados é bem mais grave do que parece à primeira vista e vai muito além da questão dos €uros: 1ª penada aqui; 2ª aqui e 3ª aqui
Em síntese, e numa penada apenas:Os ministros têm "cartão dourado", apesar dela. Por acaso este até é ex-ministro mas quando, aqui há uns meses atrás, estava no governo, a crise já nos "assistia" e bem, por isso conta. Além de que nada se sabe - ainda - sobre os "cartões dourados" dos ministros e secretários de estado do atual governo, mas não será assim tão diferente. E depois há aquelas situações - e são cada vez mais - em que a crise obriga a poupanças no mínimo estranhas.
Ora, poupar assim num país de gente velha - por isso mesmo, doente e com poucos recursos financeiros - e, sobretudo, no interior desertificado, onde os meios são ainda mais limitados dá que pensar, embora todos saibamos que abusos havia e muitos. Só não se entende é porque, na posse dessa informação, nunca a administração tomou quaisquer medidas para os impedir e vem agora cortar desta forma brutal logo do lado mais fraco mas, claro, tão mais fácil: o dos utentes do SNS.
sábado, 7 de janeiro de 2012
Este país é mesmo para velhos
A recente aquisição da EDP pelos chineses abriu agora portas à criação de uma espécie "escola sénior do mundo empresarial" para ocupar ativamente as douradas reformas de certos ex-políticos e administradores de topo, todos bastante alaranjados, claro está.
É também por estas e por outras que se percebe melhor por que raio anda o governo a pressionar os jovens mais qualificados para que emigrem. De preferência para bem longe, claro! (ver aqui)
| Notícia daqui |
Ena, tantos!...
Depois de ter passado a semana a ouvir dizer que a, b, c e d (e agora até este) pertence à maçonaria, é caso para dizer: quem for da maçonaria, ponha a mão no ar, por favor... Ena, tantos!... (ver aqui)
Ora, com tantos assim à solta por aí, é bom saber como é que se identifica um maçon, até porque a "questão maçónica" promete continuar na próxima semana e na outra e na outra...(ver aqui)
Aqui fica então a informação possível pois, como sabemos, na maçonaria, como em tantas outras áreas da "vida política", o segredo é a alma do negócio...
queria mais impiedoso o desdém mais cega a desconfiança mais
feitas as ideias mais vil a insinuação mais rude a grosseria mais convenientes
as ilações mais ágil o desapego
queria mais sibilinas as sílabas que fazem ricochete nos ouvidos mais descartáveis os sentimentos genuínos mais cambiáveis os corpos que me aquecem a cama mais ágeis os escrúpulos em usar os outros como mera carne para saciar a fome passageira
queria ainda mais duro o granito que emerge da terra mais áspera a casca das oliveiras centenárias mais espinhosos os silvados
queria empurrar a vida para baixo com mais um trago de uísque e seguir em frente sem hesitações
com respeito às afeições, em suma, queria ser bem mais como tu
queria mais sibilinas as sílabas que fazem ricochete nos ouvidos mais descartáveis os sentimentos genuínos mais cambiáveis os corpos que me aquecem a cama mais ágeis os escrúpulos em usar os outros como mera carne para saciar a fome passageira
queria ainda mais duro o granito que emerge da terra mais áspera a casca das oliveiras centenárias mais espinhosos os silvados
queria empurrar a vida para baixo com mais um trago de uísque e seguir em frente sem hesitações
com respeito às afeições, em suma, queria ser bem mais como tu
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
É de um Manifesto assim que estamos a precisar
Até que ele apareça, fico-me com este outro Manifesto que tem pelo menos a vantagem catártica de permitir a substituição do Dantas por outro "Dantas" qualquer, desses que todos os dias nos entram em cada via tv para atentar contra a nossa inteligência e paciência, irra! Irra não. Pum!
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Um autêntico "centro comercial"
No meio de tanta "loja" e respetivos "lojistas" (ver aqui) começa a parecer-me que a maior delas todas é esta: a "loja" de S. Bento... Pelas notícias vindas a público nestes últimos dias, diria mesmo um autêntico "centro comercial", bem recheado de "lojas" exclusivas... E visto assim, de cima, até dava um belo logotipo: nem é difícil identificar o habitual compasso bem aberto, justamente ali na bancada onde se costumam sentar os "magníficos" membros do governo.
Afinal, sempre há alguma coisa em que, para além de sermos únicos, vamos bem à frente de todos os outros
(atualização)
Só me falta saber o que pensa o "Álvaro" sobre isto, até porque não há como ele para fazer o "desmito" da coisa...
| Notícia daqui |
Estranho o silêncio governamental sobre esta notícia, sobretudo numa fase em que a nossa autoestima coletiva anda tão abalada pelas severas medidas de austeridade que, justamente, nos colocam cada vez mais no topo deste "top". Parece-me que já algum ministro se devia ter pronunciado, quanto mais não fosse para se congratular pelo enooorme esforço realizado para conseguirmos alcançar este "primeiro lugar". E digo isto porque, conforme as últimas notícias do próprio governo, houve, em 2011, uma muito significativa redução do défice das contas públicas (4,5%?), e ter conseguido isso apenas à custa do esforço financeiro e fiscal daqueles que menos ganham e menos bens possuem, é obra. (ver aqui)
Estranho ainda que, apesar destas notícias - as quais, aliás, se limitam a dar conta do óbvio - os "ricos" andem assim tão ressabiados que tenham começado até a abandonar de mansinho o país para se instalarem, literalmente, na casa do vizinho. Nem é preciso pensar muito para perceber que a verdadeira intenção é pôr os bens a salvo de um eventual desastre e que tudo o resto são argumentos e desculpas, pouco convincentes aliás.
Estranho ainda que, apesar destas notícias - as quais, aliás, se limitam a dar conta do óbvio - os "ricos" andem assim tão ressabiados que tenham começado até a abandonar de mansinho o país para se instalarem, literalmente, na casa do vizinho. Nem é preciso pensar muito para perceber que a verdadeira intenção é pôr os bens a salvo de um eventual desastre e que tudo o resto são argumentos e desculpas, pouco convincentes aliás.
Estranho finalmente que este governo - anunciado como sendo de gente tão capaz e tão empenhada em "salvar o país" e em promover o crescimento económico -, revele tamanha inépcia na gestão disto tudo e venha agora um deputado do CDS sugerir até um boicote dos consumidores aos supermercados Pingo Doce (ver aqui) - assim à laia de retaliação à empresa por ter deixado ficar mal o governo nesta fotografia - para, logo a seguir, se apressar a ir à televisão dar o dito por não dito (ver aqui). Como forma de solução para esta questão da "fuga" fiscal das grandes empresas, não há dúvida que é do melhor que tenho ouvido nestes últimos tempos.
Só me falta saber o que pensa o "Álvaro" sobre isto, até porque não há como ele para fazer o "desmito" da coisa...
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Retrato do poeta enquanto homem e vice-versa
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| Maurits Cornelis Escher: Autorretrato no Espelho Esférico, 1950 |
Toma lá cinco!
Encolhes os ombros, mas o tempo passa...
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!
Um dente que estava são e agora não,
Um cabelo que ainda ontem preto era,
Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração,
E na cara uma ruga que não espera, que não espera...
No andar de cima, uma nova criança
Vai bater no teu crânio os pequeninos pés.
Mas deixa lá, rapaz, tem esperança:
Este ano talvez venhas a ser o que não és...
Talvez sejas de enredos fácil presa,
Eterno marido, amante de um só dia...
Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza!
Mas não rias, rapaz, que o ano só agora principia...
Talvez lances de amor um foguetão sincero
Para algum coração a milhões de anos-dor
Ou desesperado te resolvas por um mero
Tiro na boca, mas de alcance maior...
Grande asneira, rapaz, grande asneira seria
Errar a vida e não errar a pontaria...
Talvez te deixes por uma vez de fitas,
De versos de mau hálito e mau sestro,
E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas
(Como mulheres são mais fiéis, de resto...)
Alexandre O'Neill, In No Reino da Dinamarca,
Lx: Relógio d'Água, 1997
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Retrato impiedoso, mas tão verdadeiro
Trilogia ancestral
I
Somos românticos até à medula
(arranjamos camuflagens)
bem comportados à mesa
visitamos aos domingos os doentes
mandamos as boas festas pelo Natal
elevamos a mal se não retribuem
damos os parabéns quando fazem anos
convidamos os amigos para nossa casa
damos esmola para alívio imediato
ao sairmos do restaurante
damos esmola por alma de quem lá está
temos muita pena dos que morrem em desastres
somos sempre de muito boas famílias
antipatizamos normalmente com polícias
resolvemos de cruz os problemas dos outros
e trazemos a cruz dos nossos às costas.
II
Somos todos autodidatas
na escola-liceu-faculdade
temos má ou boa memória
conforme as ocasiões
decoramos ou esquecemos
facilmente datas.
Descobrimos novos mundos
- disseram os nossos avós.
Descobrimos amarelos e negros
não nos descobrimos a nós.
III
Somos bastante analfabetos
mas geralmente muito espertos
espertos de trazer por casa
poetas à flor da pele
(de delicada sensibilidade).
Temos intenções cheias de mal
ou um gostinho de hilaridade.
Inventámos uma palavra fatal
que nos faz olhar para trás
e ficámos o povo da saudade.
Fazemos histórias morais
para as criancinhas chorarem
e bordamos versos liriquistas
para os outros nos lastimarem.
Mendes de Carvalho, In Camaleões e Altifalantes,
Lx: Guimarães Ed., 1982, 2ª ed.
![]() |
| Columbano Bordalo Pinheiro: Grupo do Leão; 1885, óleo s/ tela |
Trilogia ancestral
I
Somos românticos até à medula
(arranjamos camuflagens)
bem comportados à mesa
visitamos aos domingos os doentes
mandamos as boas festas pelo Natal
elevamos a mal se não retribuem
damos os parabéns quando fazem anos
convidamos os amigos para nossa casa
damos esmola para alívio imediato
ao sairmos do restaurante
damos esmola por alma de quem lá está
temos muita pena dos que morrem em desastres
somos sempre de muito boas famílias
antipatizamos normalmente com polícias
resolvemos de cruz os problemas dos outros
e trazemos a cruz dos nossos às costas.
II
Somos todos autodidatas
na escola-liceu-faculdade
temos má ou boa memória
conforme as ocasiões
decoramos ou esquecemos
facilmente datas.
Descobrimos novos mundos
- disseram os nossos avós.
Descobrimos amarelos e negros
não nos descobrimos a nós.
III
Somos bastante analfabetos
mas geralmente muito espertos
espertos de trazer por casa
poetas à flor da pele
(de delicada sensibilidade).
Temos intenções cheias de mal
ou um gostinho de hilaridade.
Inventámos uma palavra fatal
que nos faz olhar para trás
e ficámos o povo da saudade.
Fazemos histórias morais
para as criancinhas chorarem
e bordamos versos liriquistas
para os outros nos lastimarem.
Mendes de Carvalho, In Camaleões e Altifalantes,
Lx: Guimarães Ed., 1982, 2ª ed.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Anti-soneto
Ao Mário Saa
O nosso drama de portugueses,
O nosso maior drama entre os maiores
Dos dramas portugueses,
É este apego hereditário à Forma:
Ao modo de dizer, aos pontinhos nos ii,
Às vírgulas certas, às quadras perfeitas,
À estilística, à estética, à bombástica,
À chave de ouro do soneto vazio
- Que põe molezas de escravatura
Por dentro do que pensamos
Do que sentimos
Do que escrevemos
Do que fazemos
Do que mentimos.
Carlos Queirós, In Cadernos de Poesia,
nº 1, 1ª série, 1940
Onde é que eu já ouvi isto?
Após ter promulgado a transferência dos fundos de pensões da banca para o estado, Cavaco Silva escreveu que: "4 – A decisão de promulgação assenta no pressuposto de que os objectivos orçamentais serão alcançados no futuro através de medidas correntes e reformas estruturais, por forma a que a consolidação das contas públicas não fique dependente da adopção de medidas desta natureza, cujo carácter excepcional e irrepetível, salientado na Assembleia da República pelo Ministro de Estado e das Finanças, foi devidamente registado pelo Presidente da República." (Sublinhado meu; Comunicado completo aqui)
Talvez até seja melhor perguntar: Quantas vezes é que eu já ouvi isto?
domingo, 1 de janeiro de 2012
Tal não é o nosso azar...
Ainda o ano não havia terminado e já nós tínhamos mais esta despesa suplementar para pagar em 2012...
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| Imagem daqui |
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