sábado, 25 de junho de 2011

O memorial que se transformou em epitáfio


Em 1974, quando tudo parecia, de repente, ser possível, o 10 de Junho foi celebrado um pouco por todo o país com a pintura colectiva de grandes murais de celebração da liberdade e dos ideais que, então, quase pareciam reais. Muitos deles foram pintados por grandes artistas plásticos e eram autênticas obras de arte, vibrantes de cor, de alegria e de energia. Os registos fotográficos de muitos desses murais do sonho colectivo estão no livro Murais de Abril 1974, da Biblioteca-Museu República e Resistência. Essas imagens são hoje tudo o que resta de muitas dessas pinturas.
 

 É o caso da pintura mural feita nesse mesmo dia em Évora por um conjunto de artistas. Cada um pintou uma área delineada previamente na parede, criando uma espécie de manta de retalhos pictóricos sobre o 25 de Abril,  no paredão da Casa Cadaval. Da gigantesca e colorida pintura resta hoje uma parede escalavrada de que as trepadeiras se têm apossado lentamente.

Évora, 24/6/2011
Não tem já recuperação possível. Provavelmente nem sequer interessou a ninguém a sua preservação. Sempre que por ali passo olho-o com alguma ironia e não consigo deixar de pensar que as cores agora esbatidas e destroçadas do mural são uma metáfora perfeita dos grandes ideais que animaram a revolução de abril de 74. De memorial esta parede já não tem nada. Agora é, sobretudo, uma espécie de epitáfio.

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