sexta-feira, 16 de abril de 2010

Ironias da História

Cem depois da implantação da República – a revolução que em Portugal mais se aproximou daquilo que foi a Revolução Francesa, em termos de ideais, de valores e até de objectivos – e no que à situação das mulheres diz respeito, costuma dizer-se que mudou sobretudo o discurso, tudo o resto se mantém ainda muito igual. De facto, foram poucas as conquistas efectivas das mulheres, sobretudo em termos sociais e políticos.

Mesmo em termos discursivos é curioso verificar como há permanências ou estereótipos que se mantêm inabaláveis. Desde os primórdios da civilização grega que a expressão “homem público” constitui um elogio, um encómio, tem uma clara conotação positiva. No entanto, quando se aplica o mesmo adjectivo às mulheres, a coisa muda radicalmente de figura: a “mulher pública” é desde a noite dos tempos, a prostituta que vende o corpo aos homens em troca de dinheiro.

Os sucessivos escândalos políticos que têm sido divulgados nos últimos tempos no nosso país revelam uma outra face destes “homens públicos” que, para mim, em nada difere das tais mulheres ditas “públicas”, pois também eles se vendem por dinheiro (embora as somas em causa sejam substancialmente diferentes).

Dou por mim a pensar que, de uma forma bastante irónica, o sentido do adjectivo “público” para além de estar contaminado com o que de pior é atribuído à sua variante de género (prostituição), tem agora um outro aspecto mais negativo: pelo menos, as mulheres “públicas” assumem-se como tal e, por isso mesmo, ninguém que as procure pode dizer que foi enganado. Já o mesmo não se pode dizer de alguns destes tais “homens públicos”...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

"para viver até morrer"

Magreza

Tempos
magros.

Não
encher
o corpo
de porcarias:
colesterol,
gorduras,
açúcar,
álcool,
literatura.

Fazer
dieta
para
viver
até
morrer.

João Camilo dos Santos, In Poemas postmodernos

A vida num minuto

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Os passos para dentro e os passos para fora

Quando abrimos a invisível porta que nos separava de uma situação/relação nova, entramos num corredor-túnel desconhecido, escuro e que nada fica a dever à linha recta. A única razão que nos leva a transpor essa porta é acreditarmos na decisão tomada e em nós próprios e no outro. Por isso é como se no fim desse corredor sinuoso estivesse uma luz que, mesmo pequena, chega para nos guiar os passos e os dias. A cada passo que damos acreditamos um pouco mais que será possível chegar ao fundo do corredor: reconhecimento, interesse, atracção/deslumbramento, paixão/amor, dependência/hábito.

E depois, um dia, tropeçamos sem perceber muito bem em quê, no outro dia, damos uma valente cabeçada numa esquina da parede, a seguir apercebemo-nos de que continuamos a andar mas já não saímos do mesmo síto há algum tempo. E as pequenas ondas da frustração começam a crescer por dentro. E vem então o momento em que, quase sem querer, tocamos numa qualquer prateleira e toda a louça nos desaba aos pés. Rodeados de estilhaços ficamos num impasse: tentar avançar ou recuar? Sempre que pensamos em avançar sentimos coisas que rangem e se quebram debaixo das solas. De repente já nada corresponde a coisa alguma - o caminho parece não ter saída e a luz lá ao fundo, afinal, não passava de uma ilusão. Estamos desencontrados de nós e dos outros; dos objectivos, dos valores e dos ideais que nos tinham trazido até ali, desenquadrados até da própria situação.

Finalmente, perguntamo-nos: mas que estou eu a fazer aqui? E só há uma resposta/saída possível: recuar, antes que fiquemos também em estilhaços.

Começamos então a dar exactamente os mesmos passos que tínhamos dado antes, mas agora em sentido inverso e às arrecuas: perda, negação, raiva/frustração, desinserção/depressão, negociação/aceitação.

Passos lentos, penosos, às vezes hesitantes porque dados às escuras, cada vez mais distantes da luz, mesmo ilusória, que nos tinha guiado. E um dia, de repente, os braços estendidos no escuro (re)encontram o puxador da porta que tinhamos transposto no princípio de tudo. Ansiosos e ainda não refeitos do choque, damos connosco cá fora a piscar os olhos à luz natural.

terça-feira, 13 de abril de 2010

A boa e a má solidão

Thomas Merton, o escritor norte-americano que em 1941, aos 26 anos de idade, escolheu viver num mosteiro trapista (ou cisterciense) e é hoje considerado um precursor da chamada “teologia da libertação”, reflectiu muito ao longo da sua vida sobre o papel da solidão, tanto para os indivíduos, como para a própria sociedade. Escreveu um dia que “A solidão é necessária para a sociedade como o silêncio para a linguagem, o ar para os pulmões e a comida para o corpo.” pois é ela que permite “desenvolver a vida interior das pessoas”.

Contudo, Merton distinguiu claramente dois tipos de solidão, com consequências individuais também muito distintas: “A falsa solidão é quando um indivíduo, ao qual foi negado o direito de se tornar uma pessoa, se vinga da sociedade transformando a sua individualidade numa arma destruidora. A verdadeira solidão é encontrada na humildade, que é infinitamente rica. A falsa solidão é o refúgio do orgulho, e infinitamente pobre. (...) A verdadeira solidão não tem um eu no centro. Por isso é rica em silêncio, em caridade e em paz. Encontra em si infindáveis fontes de bem para os outros. A falsa solidão é egocêntrica mas porque nada encontra no seu centro, procura arrastar todas as coisas para ela e assim infecta tudo o que toca com o seu próprio nada, provocando a sua destruição. A verdadeira solidão é a que limpa a alma e se abre completamente aos quatro ventos da generosidade. A falsa solidão fecha a porta a todos os homens.
Ambas as solidões procuram distinguir o indivíduo da multidão. A verdadeira consegue, a falsa falha. A verdadeira solidão separa um homem de outros para que ele possa desenvolver o bem que está nele (...)." (In, Na Liberdade da Solidão)

Aqui pelo Sulidão é dessa «verdadeira solidão» que se anda à procura.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Desenvolvimento sustentável?

O tema da conversa era "desenvolvimento/Terra sustentável?" e o dinamizador apresentou uma série verdadeiramente demolidora de números e gráficos sobre consumos de energia, petróleo, população, consumo vs produtividade... Mas tudo se pode resumir em dois cartoons:
Luís Afonso

A consequência, está bem de ver, não pode ser outra. É só uma questão de tempo: 
            Alexander Wolf

A única conclusão possível é disjuntiva: ou queremos desenvolvimento, ou queremos sustentabilidade. Não podemos é ter os dois em simultâneo, pois o conceito de "desenvolvimento sustentável" é uma impossibilidade e uma utopia que interesses poderosos (e impiedosos) transformaram numa espécie de brinquedo de corda para entreter consciências.
Na prática, estamos já quase no ponto de não-retorno. Depois, quem sabe?

domingo, 11 de abril de 2010

Uma interpretação "não linear" da música clássica...

bem no espírito da tal "década zero" deste novo século...

Sinais do tempo

No passado mês de Janeiro, Vítor Belanciano, Vanessa Rato, Mário Lopes, entre outros, fizeram no Ipsilon (Público, 8/1/2010), uma óptima síntese sobre a primeira década do novo século, para dizerem que estamos “Perdidos. Na imensidão do espaço digital. No excesso de informação. Na proliferação de suportes, de maneiras de ouvir, ver, ler. Em todo o lado, a toda a hora, procurando, com ansiedade, a qualidade na quantidade.

Foi assim que vivemos a primeira década do séc. XXI. Foram dez anos em que as condições de produção, existência, partilha e distribuição da música, do cinema, da literatura ou das artes, plásticas e performativas, se alteraram profundamente. Foram dez anos esquizofrénicos em que as actividades culturais se confrontaram com uma espécie de esvaziamento, mas em simultâneo foram vistas como veículo de desenvolvimento económico, servindo para imaginar soluções para o crescimento sustentável. (…)

Quem continuou a usar velhas grelhas de leitura para pensar o que se passou na música, no cinema ou nas artes, saiu dessa análise confundido, sugerindo que nada de expressivo aconteceu, não porque nada tivesse sucedido realmente, mas porque o que se passou se manifestou de maneira diversa, a um nível micro, de forma rápida, disseminada, sem que muitas vezes chegasse a formar um todo coerente. (…)

Para “Quem tentou perceber procedimentos em aberto, não receando a desarrumação e as contradições que se apresentam à sua frente (…) Nunca aconteceu tanto em tão pouco tempo.” (sublinhado meu):

Até aqui, quem queria ser artista tinha que ser, primeiro, um criativo e, depois, ter acesso “aos meios de produção, distribuição e legitimação. Agora, o MySpace, o YouTube, os blogues, o Facebook e outras redes sociais transformaram os consumidores em criadores cuja “produção espontânea pode convergir directamente para o espaço virtual. (..) Nunca a fantasia do “faça-você-mesmo” pareceu tão real...” A internet, mas sobretudo a blogosfera tornaram-se também espaços preferenciais para a divulgação de música, filmes, livros e respectivos autores e criadores. Consequentemente: as empresas diminuiram, e muito, o investimento financeiro em publicidade na imprensa e nos meios de comunicação social; as publicações especializadas e os suplementos literários, bem como os “críticos literários encartados” estão em vias de extinção. Também aqui a sobrevivência está online.

Mas “Ao contrário do que muitos esperavam, a net não trouxe verdadeira democratização comunitária, antes uma democracia individualista. Cada um define o seu percurso na rede, recolhendo informação, saltando de meta ligação em meta ligação. Ninguém quer líderes ou pregadores”, embora continuemos “fascinados com figuras da dimensão icónica” de um John Lennon ou de um Joe Strummer. Esta “multiplicidade de escolhas” permitiu “mais diversidade e inovação. Mas as audiências também são mais segmentadas e estilhaçadas. Daqui resulta uma cultura de inúmeros pequenos cultos, que não se intersecta entre si, dispersa por infindáveis pequenos nichos.”

Na década de 60 Andy Warhol afirmou que “No futuro todos serão famosos por 15 minutos”. A máxima mantém-se pertinente e, ao longo desta década, foi mesmo ampliada pela afirmação de Momus em 91: “No futuro todos seremos famosos para 15 pessoas”. “A nova (des)ordem digital” não significou o fim das grandes estrelas planetárias que movimentam “cifras macroeconómicas” mas gerou novos ícones: “Mais humanos. Mais próximos de nós. Verdadeiros criadores e não figuras desenhadas a régua e esquadro (…) comunicando de facto para imensas minorias”.

Os dias que vivemos permitem-nos mergulhar 24/7 em filmes, música ou livros, “passíveis de serem experienciados onde e quando nos apetece – às vezes, mesmo quando não queremos. Essa imersão contínua tanto pode estimular como banalizar a experiência.”. Talvez tenha sido por isso que os grandes espectáculos ao vivo se tornaram tão importantes ao longo da década: eles assumiram-se como forma de reacção a esse “consumo indiferenciado e individual”, constituindo uma “experiência social” irrepetível que reafirma o prazer de ver, ouvir e sentir “em comunidade”.

As grandes metrópoles da criação – Nova Iorque, Paris, Berlim ou Londres – continuam “a servir de farol para perceber o que de mais importante se passou na música, no cinema ou nas artes. Mas da China ao Brasil, da Índia a África, depende-se cada vez menos desses centros de legitimação.”. Grandes mudanças como esta geram insegurança e também nostalgia “dos dias em que parecia existir uma espécie de unidade cultural, produtora de um sentido, em que todos se reflectiam um pouco” - criadores, público, até mesmo a grande indústria cultural. “Mas esses dias, é quase certo, não vão regressar.”

A nossa própria noção de História mudou ao longo destes dez anos: “Até agora o acesso ao passado era parcial, não cumulativo. Com a internet, talvez pela primeira vez na História, temos a sensação de poder aceder a todas as obras, de diferentes épocas, num ápice. Não admira que subsista uma impressão em que passado, presente e futuro se sucedem, não apenas um atrás do outro, mas todos ao mesmo tempo, conectando-se entre si, permeáveis.” Em vez de um “percurso preciso e contínuo, passámos a ter regressos, anacronismos, descontinuidades, recuperações e convivências.”

“É natural que aqueles que não sabem guiar-se na desordem se sintam desnorteados e acabem por regressar ao que sempre conheceram ou aos valores perenes – talvez por isso, esta foi também a década em que a memória foi mais celebrada, seja ela personificada pelos Beatles, por António Variações (Os Humanos) ou por Andy Warhol.”

Que poderemos então concluir?

  • Que vivemos no “contexto (...) de um mundo que se confronta com a circulação infinita de informação, onde há partilha e recriação generalizada do conhecimento.”

  • Que a internet é um “não tempo contínuo, espécie de super-consciência extática, onde o Big Bang está constantemente a criar o universo, hoje.”

  • Que, apesar do seu crescimento quase brutal, a internet “ainda é terreno de ambivalências, celebrada como abertura para novas possibilidades, mas também temida por constituir um sinal do fim da criatividade como a conhecíamos.”

  • Que “independentemente das tecnologias, o que interessa é a maneira como as artes e a cultura asseguram alguma forma de compromisso com a vida, reflectindo, ampliando e até antecipando o que acontece à nossa volta, num período histórico de grande experimentação política, económica e social.”

  • Sobretudo que o mundo agora global, “e com ele o mundo da cultura, está mais estimulante, do que há dez anos” pois fez nascer “uma nova forma de estar e pensar (…) sincrónica, em vez de diacrónica, viral, não-linear – um universo de contemporaneidade absoluta, de facto. Tão absoluta que se tornou categoria, em si.”
Esta foi claramente a década zero do século. Está tudo em aberto. Cá estaremos (ou talvez não, quem sabe?) para vi-ver com espanto o que aí vem.

sábado, 10 de abril de 2010

Proverbiais e aforísticas

Às vezes as aparências não enganam...

Por a, mais b, mais c

Durante algum tempo foi incapaz de perceber o verdadeiro alcance da atitude que tomou naquele noite de um sábado ainda pouco outonal. Passados alguns meses, quando o distanciamento temporal e afectivo lhe permitiram também uma maior objectividade de análise chegou às seguintes conclusões:

a) libertou alguém que há já muito tempo ansiava pela sua partida;

b) apaziguou muitas angústias e inseguranças manifestadas por familiares próximos;

c) pessoas mais ou menos conhecidas, e entretanto reencontradas, disseram-lhe que fez bem, que está melhor assim;

d) os amigos, embora sempre tivessem contado com a sua presença e apoio, manifestaram contentamento com a sua ainda maior disponibilidade.

Por a, mais b, mais c e mais d concluiu que, se tomou a decisão acertada para tanta gente, então, naquela noite de finais de Outubro, também deve ter tomado a melhor decisão possível para si própria. Além disso, ficou até surpreendida por verificar como, de  uma assentada, conseguiu deixar tanta gente contente.

Transacções

A voragem consumista que tomou de assalto o mundo dito desenvolvido tornou possível adquirir toda a espécie de bens materiais. Agora, por saciedade, tédio ou quem sabe apenas para testar os limites da nossa própria condição humana, já estamos também a comprar, a vender ou a trocar coisas imateriais como silêncio, consciências, (des)favores, bom senso, louvores, pudor, amor, notoriedade, ganância, juventude, lealdade, honestidade... Por maior ou menor preço é hoje possível comprar o que, não há muito tempo atrás, era pura e simplesmente intransaccionável. Em alguns casos, parece mesmo que até já estão em saldo de fim de estação ou a preço promocional. Coisas que seriam chocantes para muita gente ficam agora na sombra de um silêncio comprometido ou são, de imediato, desviadas para assuntos menos melindrosos, ou mais consensuais.

O homem que no seu pedestal de antifascista, democrata e poeta ninguém calava, nem o próprio partido de que é militante, acaba de dizer que troca a honra de ter uma cátedra com o seu nome na Universidade de Pádua pela vontade de ser o leme democrático do país. É sem dúvida um excelente negócio este, com contrapartidas asseguradas para as duas partes envolvidas.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Arqueologia das palavras

Nos idos de 1990, Arnaldo Saraiva, então cronista do Público, numa rubrica initulada “Mutatis Mutandis”, escrevia assim:

O que se tem passado, o que está a passar-se com o Acordo Ortográfico não dará para uma telenovela, mas dá certamente para um romance de série negra, e para uma longa história da burrice dos povos “irmãos”.

Irmãos? Talvez, mas frequentemente de pé atrás, e nalguns casos desavindos. E curiosamente a língua, e em particular a ortografia, tem sido, desde há mais de um século, um dos mais fortes motivos de tensão, discórdia e “guerra” entre portugueses e brasileiros. Pelo que se justificaria que disséssemos de Portugal o que Bernard Shaw disse da Inglaterra e dos Estados Unidos: “são dois países separados pela mesma língua”.

E não adianta escamotear a verdade: as “guerras” começaram porque os portugueses não aceitaram como naturais as diferenças que foram surgindo no português do Brasil. E juntando os complexos de colonizadores, quando o Brasil já era um país independente, aos complexos de superioridade falante ou escrevente, condenavam e riam-se de supostos “barbarismos”, sem querer saber das condições de existência do português no Brasil (para mais em contacto com línguas indígenas e africanas e, ainda no séc. XIX, com outras línguas europeias além do castelhano), e sem se preocuparem com uma política da língua para um país em que começavam a escassear jesuítas e missionários que, ao longo de três séculos, tinham sabido preservar a espantosa unidade do português americano.

Levados por um nacionalismo ressentido e primário, como é frequentemente o nacionalismo, até alguns brasileiros cultos passaram a defender a ideia de uma “independência” linguística que garantisse a outra; na década de 20 (...) muitos eram os brasileiros que se reviam na fórmula de Monteiro Lobato: “povos diferentes, língua diferente, literatura diferente”.

Nessa altura já ia alta a polémica ortográfica, e já se multiplicavam os erros culturais e diplomáticos de portugueses e brasileiros, não só na esfera linguística. Perante a anarquia ortográfica que reinava em Portugal e no Brasil nos inícios do século (...) e perante o desinteresse ou a inoperância da Academia de Ciências de Lisboa, a quem competiria oficialmente zelar pela língua (o que nunca fez bem), os brasileiros avançaram unilateralmente em 1907 com uma reforma, a que os portugueses unilateralmente respondeiam em 1911. Quando depois quiseram acertar agulhas, foi o que se viu e está a ver: ou não houve acordo ou houve acordos que não foram postos em prática.

Pelo que se está a passar com o Acordo Ortográfico em 1990, concluiremos que os portugueses e os brasileiros não aprenderam nada com os erros que coeteram em 1907, 1911, 1912, 1915, 1929, 1931, 1945, 1971, 1975, 1986 (mas quem é que se deu ao trabalho de estudar a história desses acordos ou desarcordos?); e parece que toda a gente é competente em matéria de teoria ortográfica, só poque sabe falar e escrever, quando sabe.

A língua é, evidentemente, um problema de todos os que a usam; mas nem todos são competentes para falar dela e para ver com clareza as linhas em que ela se move, ou pode mover. (...)”

Estamos em 2010 e continuamos às voltas com este Novo Acordo Ortográfico de 1990, o qual deveria ter entrado em vigor em 1 de Janeiro de 1994, mas não foi ratificado a tempo pelos países implicados. Em 2004, numa reunião da CPLP realizada em S. Tomé foi aprovado por unanimidade um protocolo modificativo que previa a entrada em vigor do dito Acordo em Janeiro de 2009, desde que ratificação por três países (e já não sete como antes), bem como um período de transição até 2012.

Nesta questão do Acordo Ortográfico, Portugal tem revelado uma incompetência difícil de superar: os critérios de constituição das equipas negociadoras do acordo e a escolha dos especialistas que as integraram são um mistério (ou talvez não); a discussão e divulgação públicas não foram devidamente preparadas e permitiu-se que a imprensa entrasse em “roda livre” sobre uma matéria que já se sabia ser “melindrosa” (até pelo já longo século de episódios e polémicos à volta deste assunto); continuamos sem certezas quanto à aplicação do Acordo em Portugal e, sobretudo, não sabemos como se vai processar a sua entrada no ensino (o que é, no mínimo, surpreendente)...

Mas não se fica por aqui a nossa incompetência, passividade e indiferença pela língua que alguns, pomposamente e quando lhes convém, dizem ser a “sua pátria”. Permitimos que os brasileiros tomassem a dianteira em tudo o que à Língua Portuguesa diz respeito: como recordava Arnaldo Saraiva nesta sua crónica, “são eles os autores das melhores gramáticas, dos melhores dicionários, das melhores histórias da língua; foram eles que se anteciparam na uniformização da nomenclatura gramatical e, recentemente, na proposta do possível acordo” e são eles ainda quem mais traduz para português obras de todas as áreas do conhecimento.

Permitimos ainda que os brasileiros dessem as cartas todas no ensino do português a estrangeiros, sobretudo no que se refere aos países africanos de expressão portuguesa. Eles é que ensinam o português aos chineses, aos americanos, aos russos, aos alemães e a todos os que escolhem ir viver e trabalhar para Angola e Moçambique. Nem é preciso perguntar ao milionário americano Greg Carr - que está a reabilitar o Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique - com quem é que ele aprendeu a falar português, basta ouvi-lo.

Finalmente, permitimos que fossem os brasileiros a criar, em 2004, o primeiro e único Museu da Língua Portuguesa existente no mundo. E onde? Em S. Paulo, claro. Seria de esperar que uma instituição desta natureza estivesse situada no país de origem da língua – Portugal -, mas português que se preze e o queira visitar terá que atravessar o Atlântico para o poder fazer. Por cá, mais ou menos por esta altura, gastavam-se milhões... em dez novos estádios de futebol para acolher o Euro 2004 (nem me dou ao trabalho de comentar). E tudo isto contra a nossa vontade? Não! Perante a nossa passividade!

E agora queremos o quê? Contestar o Acordo? Dizer que, afinal, não era bem assim? Andar à volta desta questão durante mais um século? Não seria já altura para termos mas era juízo e encararmos de frente as consequências das nossas acções e, sobretudo neste caso, das nossas omissões?

Aqui ficam as imagens possíveis do tal Museu da Língua que é "a nossa pátria", mas que se situa no Brasil, claro! (coisas destas, por cá e ao que parece, não fazem falta):

terça-feira, 6 de abril de 2010

A vida tem destes desconcertos e desacertos

Da decadência do debate à decadência das ideias - II

Em 1969, o historiador Jacques Barzun publicou The House of Intelect. Nele defendeu que o debate, a troca de ideias e até praticamente a simples e boa conversa, enquanto formas privilegiadas de exercício das capacidades intelectuais e argumentativas, desapareceram praticamente do mundo ocidental.

Também Paulo Guinote, num artigo publicado em 2003 na revista da Associação de Professores de História , intitulado "Sobre a decadência do debate de ideias", considera que “Em vez de construirmos uma conversa, articulando o nosso raciocínio no dos nossos interlocutores, analisando argumentos, avançando para novas ideias, limitamo-nos a “trocar ideias”, no sentido comercial do termo. Toma lá a minha opinião, dá cá a tua, e pronto, já está, ficamos à mesma na nossa e tudo fica na mesma.”

A explicação para este fenómeno deve-se, segundo Barzun à importância das boas maneiras e dos bons modos na nossa sociedade, e à sua incorrecta associação aos ideais democráticos, assim se considerando todos os confrontos, incluindo os verbais, como “atentados à democracia”. Daqui resulta uma incessante busca do ilusório e impossível consenso que a todos agrade e satisfaça todos os pontos de vista. Mas geradora, na verdade, de atitudes de submissão e, pior ainda, de distanciação ou de indiferença, ou então de ataque feroz, porque as opiniões contrárias são quase sempre encaradas como ofensivas e como um ataque pessoal.

Por isso, como sublinha Paulo Guinote, nos dias que vivemos, “Ninguém está para pensar no que os outros dizem. Apenas se aceita ou recusa, ponto final, sem mais elaboração. (...) Agora discutir ideias, analisá-las, aperfeiçoá-las, modificá-las perante os outros, isso é que não porque parece ser sinal de fraqueza das nossas próprias convicções ou crenças.”

Tudo isto explica um pouco o esvaziamento de ideias que verificamos quase todos os dias nos debates em todas as áreas da nossa sociedade, da política - até do próprio Parlamento – às ciências e à própria universidade.

Entre outras consequências, verifica-se que os debates, sobretudo os políticos, tendem cada vez mais para a maledicência e nos próprios meios de comunicação social, sobretudo a imprensa escrita - seja generalista, seja especializada - procura seleccionar (de forma mais ou menos dissimulada) os colaboradores que estão de ao lado de uma determinada facção (em geral, a que está no poder, ou a que domina a corrente de opinião num dado momento): são os «nossos», por oposição aos «outros» os que estão contra nós e nos querem liquidar (intelectualmente, social ou politicamente, claro).

A comprová-lo estão as cada vez mais frequentes polémicas sobre quem ocupa determinados cargos de relevo, em que o debate na comunicação social se faz, não à volta da competência, dos métodos de trabalho ou dos resultados alcançados, mas sim dos eventuais favorecimentos pessoais ou políticos concedidos e/ou recebidos pelas pessoas em causa.

O confronto de ideias, criado pelos gregos antigos como forma superior de estar e de governar, está, pois, em acelerado declínio no mundo ocidental: o confronto de concepções diferentes, através do debate de ideias, como forma de reavaliar e, até, de aprofundar e melhorar as suas próprias ideias é agora visto sobretudo como uma ameaça e já não como um mecanismo de progresso e de democracia. Cada um de nós vive, por isso, cada vez isolado no seu próprio pensamento e convicções. Entretemos cada vez mais o raciocínio com diversões: futebol, mexericos e socialites, redes sociais, casos da vida, ou melhor, crimes e horrores, etc, etc. Atitude perigosa esta, pois enquanto assim anestesiamos o pensamento e a vontade, muitos tiram largamente partido desta nossa passividade amorfa para alcançarem facilmente tudo o que pretendem (à nossa custa, claro está). Qualquer um que saiba argumentar ou, se calhar, até já nem isso, que saiba articular uma frases sonantes pode ter, se assim o quiser, o mundo a seus pés.

De vez em quando é bom rever certas palavras e imagens, é salutar que a memória de certas coisas não se desvaneça para que alguns ideais e utopias permaneçam no nosso espírito. Sobretudo, é muito interessante verificar como se mantêm actuais algumas destas ideias:

"...In this world there's room for everyone and the good earth is rich and can provide for everyone. The way of life can be free and beautiful, but we have lost the way. Greed has poisoned men's souls - has barricaded the world with hate - has goose-stepped us into misery and bloodshed. We have developed speed, but we have shut ourselves in. Machinery that gives abundance has left us in want. Our knowledge has made us cynical; our cleverness, hard and unkind. We think too much and feel too little. More than machinery we need humanity. More than cleverness, we need kindness and gentleness. Without these qualities, life will be violent and all will be lost. The aeroplane and the radio have brought us closer together. The very nature of these inventions cries out for the goodness in man - cries for universal brotherhood - for the unity of us all. Even now my voice is reaching millions throughout the world - millions of despairing men, women, and little children - victims of a system that makes men torture and imprison innocent people. To those who can hear me, I say: 'Do not despair.' The misery that is now upon us is but the passing of greed - the bitterness of men who fear the way of human progress. The hate of men will pass, and dictators die, and the power they took from the people will return to the people. And so long as men die, liberty will never perish. (...)
By the promise of these things, brutes have risen to power. But they lie! They do not fulfil that promise. They never will! Dictators free themselves but they enslave the people. Now let us fight to fulfil that promise! Let us fight to free the world - to do away with national barriers - to do away with greed, with hate and intolerance. Let us fight for a world of reason - a world where science and progress will lead to all men's happiness. Soldiers, in the name of democracy, let us unite!"
(Excerto do discurso final do "Grande Ditador", realizado por Charlie Chaplin em 1940)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Uma viagem imaginária também é uma música assim

Sobrevoar a terra em círculos

Rever estas deslumbrantes imagens do filme Out of Africa, realizado por Sydney Pollack em 1985, é como dizer em voz bem alta os versos de Walt Whitman:

Sorri, ó voluptuosa terra fresca!
Terra das árvores adormecidas e cintilantes!
Terra do sol-posto – terra das montanhas cobertas de névoa!
Terra do fluir vítreo da lua cheia e azul!
Terra de luz e sombra derramadas sobre a maré do rio!
Terra de límpidas nuvens pálidas resplandecendo para mim!
Terra de braços arrebatados ao longe – rica terra de macieiras em flor!
Sorri, que aí vem o teu amante.

Pródiga deste-me amor - e assim te dou amor!
Oh, indizível e apaixonado amor.

In, Canto de mim mesmo

Coisas que se ouvem

Ouvi ontem à noite, no filme 10 000 a.C., uma frase curiosa: o valor humano de uma pessoa pode medir-se pelo maior ou menor diâmetro do círculo metafórico que desenha à sua volta e pelo número menor ou maior de pessoas que se acolhem dentro desse mesmo círculo.

Olhando para mim mesma e para as pessoas que conheço verifico que tais «círculos», a existirem, são cada vez mais pequenos e também é cada vez mais restrito o número de pessoas por eles abrangidas. Há mesmo quem não tenha sequer círculo nenhum à sua volta, quanto mais pessoas lá dentro. E também conheço quem esteja no centro de vastos círculos, rodeado por uma quase multidão, e se sinta absolutamente só. Qual será então o valor humano destas pessoas e das suas circunstâncias individuais? Nenhum?

Enfim, a metáfora dos «círculos de vida» parece-me curiosa, e de um certo ponto de vista poderá até ser comovente, mas é, sobretudo, simplista, não mais do que isso... A realidade consegue sempre ser mais surpreendente e complexa...

Parece-me ainda que estes tais «círculos de vida» se assemelham q.b. aos círculos que aparecem nos campos de cereais: prestam-se a muitas interpretações porque ninguém sabe muito bem nem o que são, nem como são feitos, à semelhança da nossa própria vida e da matéria de que é feito o nosso ser mais profundo, a tal alma.

Imagem Google

Da decadência do debate à decadência das ideias - I

Numa crónica intitulada "Razão", Miguel Esteves Cardoso escreveu que "(…) A ideia de ninguém ter razão (haja ou não haja pão) é portuguesíssima. Sobre qualquer assunto, Portugal garante-nos sempre pelo menos dez milhões de razões, cada uma com a sua diferençazinha, cada uma com a sua insolenciazeca do «eu cá é que sei». (…)

Em Portugal a razão nunca é uma coisa que se dê, pela simples razão que a razão é uma coisa que se tem. Se eu já tenho razão, porque é que hei-de dá-la a outro caramelo qualquer, que já há-de ter, com toda a certeza, a razão dele?

A lei que governa estas coisas é respeitada: «Eu cá fico na minha e tu fica na tua.» Não há pessoa mais difícil de convencer que o português. Para ele, «convencer» é um acto de maldade, destinado a «tirar» razão ( a roubá-la) a quem tem direito a ela. A frase «Não me estejas a tentar convencer» pronuncia-se, entre nós, como uma ofensa. Noutros países menos pluri-racionais, o exercício da persuasão, praticado através da apresentação de argumentos num clima de diálogo competitivo, é uma das peças fundamentais da civilização. Entre nós, nunca. O português profere «A mim não me convencem eles» com a atitude emproada e triunfal de uma padeira de Aljubarrota a quem um pasteleiro de Salamanca procurasse vender uma dúzia de arrufadas de anteonem.

Tentar convencer alguém não tem mal nenhum, excepto em Portugal. Aqui, ser convencido é ser vencido. (…) Os portugueses, quando se deixam convencer dizem: «Está bem, leva lá a taça!» indicando assim que perderam. Ao ver que alguém procura persudi-los de qualquer coisa, pensam logo: «Olá... este anda a ver se me dá a volta... mas eu já o lixo.» E dizem: «Desculpe lá, mas a mim ninguém me tira esta ideia da cabeça.» (…)
´
Se só em Portugal se «refutam» argumentos com o peso dialéctico do «Olhe que não...» ou do «isso não é bem assim»? Se só em Portugal se diz de quem quer expor as suas opiniões que quer impô-las? Como será possível ultrapassar a situação em que todos sentem que dar razão a alguém é ficar-se sem ela? (Não há provocação mais violenta em Portugal do que dizer perante alguém «Então estás a dar-me razão!»).

A única maneira de ter uma razão que seja dada por outrem e não simplesmente consentida («Pronto, fica lá na tua que eu cá fico na minha») é bastante drástica. É morrendo. Os mortos, em Portugal, têm sempre razão. É por isso que a razão só se dá no pretérito, a alguém que está manifestamente ausente: »Razão tinha o outro, coitado...»."

in A Causa das Coisas

Muita razão tem o cronista. De facto, somos mesmo assim: aborrecemo-nos com o debate de ideias, evitamos mesmo uma simples conversa em que se aprofundem pontos de vista individuais e/ou pessoais sobre certos assuntos ou problemas até, por vezes, com os que estão mais próximos de nós. Talvez por isso haja depois tanta gente ludibriada em situações que nos parecem quase inacreditáveis: «Como é que a pessoa não percebeu logo que aquela história estava mal contada?»

E também tem razão Esteves Cardoso quando diz que reduzimos sempre tudo a uma questão de vencer ou perder. Sempre que há um grande debate político na televisão, logo os vários canais - generosamente - nos proporcionam painéis de analistas e especialistas vários que, durante horas, nos dizem o que devemos pensar sobre tudo o que foi dito durante o debate. É uma forma tão eficaz como qualquer outra de minimizar o próprio debate em si, bem como os seus protagonistas, fazendo depender tudo dos juízos de valor dos «opinion makers». Mas compreende-se: é que nós, portugueses, coitadinhos, somos tão parvinhos que não conseguimos já pensar por nós próprios e, por isso, necessitamos de ter sempre quem nos diga o que devemos pensar...

E depois no fim o/a moderador/a conclui sempre com a mesma pergunta: «Quem é que acham que venceu o debate?». Nunca se preocupam muito em ver quem é que argumentou melhor, quem é que tem melhores e mais sólidas ideias, quem é que tem um discurso mais articulado e claro, quem é que tem conhecimentos mais sólidos... Não, o mais importante de tudo aquilo é sempre declarar um vencedor, como se tivéssemos assistido, não a um debate de ideias, mas a uma luta de galos ou a um combate de boxe.

Se calhar, em muitos aspectos políticos e sociais, temos mesmo aquilo que merecemos.

domingo, 4 de abril de 2010

Desinformação e propaganda

Diz o povo que “uma mentira, muitas vezes repetida, se torna verdade” e os homens da propaganda, ou melhor, da “comunicação” como agora é de bom tom dizer-se, sabem-no ainda melhor e tratam de nos lavar o cérebro com grande eficácia. Os nossos telejornais e a maioria dos programas de debate e entrevista são autênticos manuais de manipulação pela palavra e pela imagem. E nós, cidadãos, que nos cuidemos, porque eles sabem muito bem tratar dos seus interesses e o que têm a fazer para chegar onde querem.

No livro “A palavra manipulada” (1997, trad. em 2002), Philippe Breton diz que a manipulação consiste no uso estratégico e deliberado da dissimulação, ou mesmo da mentira, para esconder, “para iludir, induzir em erro, fazer crer no que é falso” (p.29). Afirma ainda que a manipulação usa a palavra não para argumentar ou dialogar, mas para a impor. Para “entrar por arrombamento no espírito de alguém, para nele implantar uma opinião ou suscitar um comportamento sem que a vítima se aperceba da invasão” (p.30). Em suma, é “uma acção violenta e compulsória que priva de liberdade quem lhe é submetido” (p.27).

O homem partilha com outros animais e com as máquinas, em diferentes graus de profundidade e elaboração, a capacidade de usar a linguagem para informar e ser informado e para exprimir emoções e sentimentos. O que nos distingue claramente é a possibilidade de pôr a palavra ao serviço da convicção e de a usarmos para exprimir opiniões, planos, hipóteses e de, através dela, intervirmos no mundo à nossa volta. Como afirma Philippe Breton “O humano é um ser de convicções animado do desejo de convencer” (p. 34). E é aqui que tudo se complexifica pois “O homem atribui um sentido a tudo. Não pode libertar-se da contínua produção de sentidos que caracteriza a sua palavra” (p.37). Com o tempo, esta tornou-se, pois, “fracamente informativa e fortemente argumentativa” (pp.37/38).

Foram os gregos que introduziram no Ocidente a ideia da democracia (a governação no plural) e nela institucionalizaram a palavra como “arte de convencer”, como um instrumento de poder, ao serviço do poder e, até, como base do próprio “nexo social” (p.40). Tecnicizaram-na e instituíram-na como alternativa à conquista do poder através da violência física, mas estavam bem cientes de que, ao fazê-lo, transferiam simbolicamente essa mesma violência para o âmago da própria palavra e do espaço público onde ela actuava: “Os demagogos, os manipuladores, os magos da palavra” (p. 41) podiam agora invadir o espaço público com os seus discursos. Por isso, desde logo, cuidaram também de se defender contra tais perigos, criando “o processo de ostracismo” (Clístenes, 487 a C). Este constituía um “instrumento de defesa em relação a personagens que se tornassem excessivamente influentes e cuja palavra viesse por isso a pesar mais que a de outros cidadãos, desequilibrando gravemente, desse modo, o funcionamento do espaço público” (p.41). Quem o fizesse via os seus direito cívicos suspensos durante dez anos, mas isso não era visto como uma punição, apenas como uma prevenção, e era até uma homenagem: o orador sabia assim que era o melhor de todos.

Foram depois os romanos que vieram a operar aquilo que Breton aponta como um “formidável retrocesso” ao instituírem regimes ditatoriais (governo de um só), como os de Tibério, Calígula, Nero e Domiciano. Estes “fizeram cair o peso da sua mão de ferro sobre cidadãos habituados ao longo de muitas gerações a discutir em conjunto o seu destino comum” (p. 42). Por causa disso, a eloquência começou então a ser exercida, já não no Fórum, mas num outro domínio: o da palavra escrita. Com o tempo, a escrita viria mesmo a tomar a primazia sobre a oralidade e, com as instituições democráticas (sobretudo o Fórum) esvaziadas de conteúdo a palavra tomou novos rumos: tornou-se ambígua, lisonjeira, calculada, oblíqua, até mesmo delatora. Todavia, esqueceram-se de criar o seu próprio antídoto, como os gregos o haviam feito.

Em suma, a palavra assumiu então um estatuto novo: o de manipuladora. Foram, pois, os romanos que inventaram “as formas da propaganda moderna como sucedâneas daquela palavra democrática que desaparecera nos factos, mas não na memória e no imaginário” (p. 44) e foram também eles que, ao criarem o chamado “culto do imperador”, utilizaram pela primeira vez a informação como meio de propaganda. Isto permitiu-lhes, em muitas ocasiões, substituir a repressão física pela “violência simbólica exercida por via da palavra e das suas manipulações” (p. 45), ou seja, pela pressão psicológica.

Desde a Grécia antiga que a palavra está “inscrita na memória colectiva como referência incontornável” (p. 43) e a identificação do seu exercício com a democracia permaneceu tão fortemente entranhada na nossa cultura que, sempre que a liberdade de expressão é posta em causa, logo se considera que é a própria “democracia que fica ameaçada como sistema político” (p.41). E também a própria vontade de convencer através da palavra, recorrendo até, se necessário, à manipulação (introduzida pelos romanos), não mais nos abandonaria.

O século XX tornou-se no palco onde se de/confrontaram, através da palavra, as grandes ideologias e visões do mundo surgidas no século XIX: fascismo/nazismo vs. democracia; socialismo vs. capitalismo; humanismo vs. racismo; estado social vs. estado liberal, etc. De início, o confronto circunscreveu-se sobretudo ao mundo ocidental mas depois, com a globalização, alcançou um nível planetário. Segundo Breton, o mundo contemporâneo divide-se agora em dois: “o dos que têm uma causa a defender e que tudo movem para convencer e o dos que – sem que, no entanto, deixem de ter opiniões – constituem um público a ganhar.” (p. 47). Para o autor, o “fim da guerra-fria não trouxe, como ainda há quem pretenda, o fim dos confrontos de ideias em grande escala. As paradas mudam de natureza”, mas não deixam por isso de mobilizar de forma dinâmica e eficaz “a palavra de convencimento” (p. 51).

A manipulação da palavra recorre, assim, desde sempre, a duas técnicas essenciais: a desinformação e a propaganda.

A desinformação ou contra-informação é “uma acção que consiste em levar um receptor, que deliberadamente se pretende enganar, a tomar por válida uma certa descrição da realidade, favorável ao emissor, fazendo-a passar por informação segura e verificada. Toda a habilidade técnica da desinformação reside, justamente, no mecanismo pelo qual uma informação falsa é mascarada de informação «verdadeira», perfeitamente crível e capaz de orientar a acção de quem a recebe (...) É, pois, um jogo com as aparências, que exige uma segura compreensão do que é uma informação verdadeira – pelo menos, aos olhos do auditório.” (p. 71). Relembro, a título de exemplo, as imagens das pretensas armas de destruição maciça, apresentadas pelos americanos em 2001, e que justificaram a invasão do Iraque de diversos países, mas que ninguém encontrou.

Já a propaganda é um caso diferente. Começou por ser encarada pelos próprios regimes democráticos como positiva e foi utilizada, por exemplo, para levantar o moral das tropas aliadas durante a II Guerra Mundial ou para difundir junto dos cidadãos as ideias e os ideais de um determinado partido político. Por ter sido muitas vezes usada ao serviço de causas negativas, como o nazismo por exemplo, a palavra foi ganhando gradualmente um sentido pejorativo, sobretudo quando associada à política. E recorre hoje, com frequência, às técnicas agressivas da publicidade para ser ainda mais eficaz. A propaganda é, na sua essência, um método específico de conquista de consenso (p.77), ou seja, “de apresentação e difusão de uma opinião de tal maneira que o seu receptor suponha estar de acordo com ele e se encontre, ao mesmo tempo, incapaz de outra opção acerca desse assunto” (p.78). Mais subtil e, portanto, mais perigosa do que a anterior, já que o seu objectivo é, “na verdade, suprimir a possibilidade de escolha que está na base da democracia.” (p.77).

O curioso é que, ao longo do séc. XX, não só as técnicas de manipulação foram evoluindo, mas também o público: da “idade das massas” (e de uma política mobilizadora de massas), e de uma certa irracionalidade que lhe está forçosamente associada, para um público mais escolarizado, mais informado, com acesso facilitado a vários meios de informação (consequência da globalização), mais individualista e movido por interesses pessoais. Também por causa da publicidade e dos seus excessos, este público se foi tornando menos maleável e ganhou resistência a algumas das técnicas mais habituais – e eficazes – de propaganda. Obrigou, por isso, ao recurso a novas técnicas, sobretudo de persuasão-sedução, que passam muito pela manipulação dos afectos, pela manipulação cognitiva do conteúdo da mensagem, ou até pelas duas em simultâneo.

Alie-se isto à cada vez maior concentração dos vários meios de comunicação social nas mãos de um ou dois grandes e poderosos grupos económicos e temos montado o “estado da arte” da manipulação nos nossos dias.

Sabemos de onde vem a manipulação, e sabemos que os homens, na sua sede de poder estão dispostos a tudo, por isso nunca poderemos ter certezas sobre quais os limites que não serão ultrapassados. Cabe por isso a cada um de nós estar atento para, pelo menos, não cair nas petas todas que nos querem impor, com a consciência de que a desinformação e, sobretudo, a propaganda andarão sempre um passo à nossa frente.

Até porque uma parte muito substancial da comunicação a que estamos sujeitos diariamente só tem um sentido, como relembra António Gedeão, com fina ironia, no seu “Poema dos homens distantes”:

Ligo a televisão e sento-me a comer.
Mastigo.
Mastigo devagar. Sem pressas.
E, enquanto mastigo, vou seguindo
as imagens autênticas dos homens
a duas dimensões.
(Com mais uma tornavam-se palpáveis.
Com mais outra seriam seres humanos).

Aprecio-lhes o rosto, os gestos, os olhares,
e é mesmo como se estivessem vivos,
ali, dentro de casa,
o alcance das mãos.

São autênticos, mas se me apetecer viro-lhes a cara
e eles não reparam.
Baixo-lhes a voz, elevo-a, ou mudo de canal,
mas se volar ao mesmo eles lá estão
na mesma compostura, sem darem p'la mudança.

Falo com as imagens. Em apartes
digo o que penso deles,
e eles, que estão ali, fitando-me, falando-me,
não me vêem, não me ouvem, nem sabem que eu existo.

É assim a vida.
Olhamo-nos sem nos vermos.

Entretanto mastigo.

Há os altos e os baixos, há os gordos e os magros,
há os que têm barbas os que não têm barbas,
há os que têm óculos e os que não têm óculos,
mas o que todos têm de comum
é a segurança, a firmeza, a convicção
e o desejo de contribuirem para a minha felicidade.
Eles não me vêem nem me conhecem
mas tudo se passa como se estivessem a pensar em mim,
porque eles querem tornar-nos a todos felizes,
e eu sou um deles,
e com isso me sobressalto enquanto mastigo.

Recordo-me
(disseram-me em criança)
que é um dever amarmo-nos uns aos outros.
Eles a mim e eu a eles.
E eu estou perfeitamente de acordo.
Porque não?
Se não passam por mim por que não hei-de amá-los?

In Novos Poemas Póstumos

sábado, 3 de abril de 2010

"Alentejo, ai solidão"


Embora uns mais do que outros, todos vamos sentindo na carteira, e não só, as consequências da tão falada crise económica. Umas são mais comentadas e divulgadas do que outras: o desemprego, a pobreza, certas formas de subsídiodependência, por exemplo, são referidos quase todos os dias na comunicação social.

Contudo há coisas sobre as quais não se fala, ou fala-se pouco, por pudor ou talvez até por vergonha: é o caso por exemplo da taxa de suicídios que tem disparado de forma assustadora nos últimos anos, a tal ponto que, aqui e para variar do que nos é mais habitual, ocupamos já os primeiros lugares do ranking mundial, especialmente no que se refere aos idosos. E quando ficamos a saber que, na linha da frente para tentar prevenir esta situação, existem apenas dois médicos psiquiatras por cada vinte mil doentes, percebemos melhor o porquê de tão estranho silêncio: não é politica e socialmente conveniente abordar um tal problema num país “desenvolvido” onde importa falar só dos milhões e biliões destinados às grandes obras públicas e onde se considera relevante e racional poupar cêntimos nos serviços de saúde básicos e de apoio a uma população cada vez mais envelhecida e frágil, especialmente nas regiões do interior; bem como na formação de médicos especialistas em número suficiente para tratar em condições humanas e condignas a saúde dessa mesma população. Segundo a própria OMS é justamente o Alentejo, logo seguido de bem perto pelo Algarve, que tem uma das taxas de suicídio mais elevadas do mundo, especialmente entre os idosos.

As causas são conhecidas: a personalidade melancólica da maioria dos alentejanos; uma implantação da religião e uma vivência da fé bem distintas de outras zonas do país (como é sabido, a igreja católica preconiza a aceitação do sofrimento e condena o sucídio) e, sobretudo, uma certa banalização deste acontecimento já tão habitual nestas pequenas comunidades (e este, para mim, é o mais chocante por considerar que, de certeza, é um dos que pesa mais). Érico Alves, o responsável pelo serviço de Psiquiatria no Hospital de Portalegre, disse até mais ao Expresso de ontem: “uma sociedade com uma taxa elevada de suicídio é ela própria uma sociedade que está doente”. Doente sobretudo de solidão, de abandono e de exclusão social. E há muito tempo.

A prová-lo está a criação, há já trinta e um anos, da SOS Voz Amiga, linha telefónica de apoio e ajuda a situações de depressão, solidão e risco de suicídio, uma das primeiras do género a ser aberta no país.

Nela trabalham voluntários que recebem formação adequada e que, mesmo assim, têm às vezes dificuldade em lidar com certas situações, pelo que contam ainda com o apoio de dois técnicos de saúde mental. No ano passado receberam uma média de doze chamadas diárias, de pessoas anónimas: sem idade, rosto, nome, profissão ou classe social. São pessoas que falam sobre as coisas que lhes desfizeram a vida e a alma. Umas desabafam e choram, por vezes durante horas. Outras, pelo contrário, quase não falam, ou declaram apenas que queriam só dizer, e ouvir dizer, boa noite. Ou então que queriam apenas ouvir uma voz humana antes de se irem deitar. Estas pessoas são, nas palavras de uma das voluntárias que faz atendimento telefónico, a “expressão mais brutal da solidão” e acrescenta ainda que são, quase sempre, idosos. Mas não só.

Ter que recorrer a uma linha telefónica anónima para ter o reconforto de ouvir uma voz humana antes de adormecer pode até ser o “fim da linha” da solidão, de facto. Mas quantos haverá por aí, nessas aldeias e vilas da grande sulidão alentejana, que nem a esse «reconforto» têm acesso por falta de informação, de meios, ou talvez até por vergonha de admitir que precisam de recorrer a tal expediente para continuar a acreditar que estão no mundo dos vivos e ainda pertencem à espécie humana.

No Alentejo, ao que parece, morre-se mesmo de solidão e muito...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Um "coro de anjos" também é uma música assim

Da banda sonora do filme de Christophe Barratier, "Les choristes" (2004)

A Política (com P grande) e a política (com p pequeno)

Em Setembro passado Mário Soares publicou um livro a que chamou “Elogio da Política”. No Prefácio explica-se dizendo que não escreveu “uma obra de ciência politica”, escreveu “uma reflexão (…) no plano teórico e prático, para que o leitor saiba, desde o início, que a Política não é, na sua essência, aquilo que os seus muitos detractores dizem dela.”. E inicia o livro afirmando que”Está na moda dizer mal da política. E, por extensão, dos políticos e dos partidos.”. Depois, no início de Março de 2010, Mário Soares foi convidado a abrir a série de doze “Entrevistas sobre o futuro” com que o jornal Público comemora o seu vigésimo aniversário. Nela, sintetizou e defendeu perante a jornalista Teresa de Sousa (para mim, uma das melhores jornalístas de política da nossa comunicação social) um raciocínio bastante semelhante ao que apresenta no livro.

Em ambos Soares explica, com a limpidez discursiva de quem conhece a realidade por dentro – e poucos a conhecerão tanto quanto ele – que o mundo enfrenta a sua pior crise desde 1929, com epicentro na América e ondas de contaminação que afectaram depois a Europa e o resto do mundo. É uma das mais graves e perigosas de sempre por ser multifacetada: “uma crise do capitalismo financeiro-especulativo, política, social e de civilização”. Soares considera mesmo que este último aspecto – o civilizacional – é o mais perigoso de todos porque “De repente, dez anos depois do colapso do comunismo, o mundo começou a mudar aceleradamente. George Bush julgava que a América era invulnerável e podia dominar o mundo, por ser a hiperpotência hegemónica, tanto económica, tecnológica como militarmente. Ora verificou-se que não era assim. O 11 de Setembro de 2001 veio demonstrá-lo.” Foi este “primado da economia sobre a política” e o reforço brutal do “capitalismo financeiro-especulativo, chamado «de casino»” (p. 9) que estiveram na origem de toda esta crise global e deixaram marcas profundas até na forma como encaramos hoje tanto a política, como os políticos.

Em consonância com os seus ideais de esquerda, Mário Soares considera que não é possível resolver a “trilogia trágica” das desigualdades sociais, do desemprego e da subsequente pobreza com o recurso aos privados: “É perfeitamente razoável que as instituições privadas queiram lucro e trabalhem para o conseguir. Mas já não é razoável que o Estado se reja pela mesma lógica. É por isso que digo que a política e o mundo dos negócios devem ser completamente separados. Deve ser um ponto de honra para qualquer político. O Estado não tem que fazer negócios. Deve ocupar-se da segurança, da justiça, das questões sociais, dos problemas de cidadania, da posição de Portugal no mundo, da defesa das instituições democráticas, da coesão e unidade dos portugueses. E dar confiança ao país. (…) É indispensável ter uma estratégia clara e a consciência do caminho que devemos percorrer. E mobilizar, nesse sentido, os nossos compatriotas.”

Este caminho é tão bom como qualquer outro para entrar no tema que mais me interessa aqui: a política, os políticos e as suas respectivas funções. Afirma Soares que, hoje, a política “quase está resumida à actividade dos partidos que fazem uma guerrilha artificial entre si. Não se discutem ideias nem se alimentam relações de cordialidade entre os líderes.”. Ou seja, por estes tempos que correm, contemplamos o deserto... de ideias. O próprio Soares afirma que “A política sem ideias e sem causas não tem sentido.”, e que, em Portugal, há gerações boas e outras menos boas. Percebe-se claramente o que pensa sobre a actual geração política que nos governa quando recorre ao seu próprio passado político para dar um exemplo: “Quando veio a Revolução dos Cravos e vivemos a euforia da liberdade, felizmente para nós, a Europa tinha grandes políticos. (…): Willy Brandt, Olof Palme, Callaghan, Mitterrand, Kreisky. (…) Sabiam o que estavam a fazer e para onde queriam ir. Em Portugal havia ideias para o país e queríamos entrar na Europa. A verdade é que passou essa geração e as coisas mudaram. Se olharmos para os dirigentes europeus, também vemos um deserto de ideias...”. Depois regressa ao presente e é ainda mais claro: “A que foi contemporânea dos dois mandatos de Bush foi ensinada a pensar que o importante, na vida, é ganhar dinheiro. O que é importante na política, é o marketing. O que é importante é parecer, mais do que ser... Foi, em parte, esse delírio do lucro fácil que conduziu à crise mundial.”

Começa aqui, para mim, a contradição no que afirma Mário Soares: como é que esta visão lúcida da realidade política actual se compadece com o lamento inicial de que “está na moda dizer mal dos políticos e das suas políticas”? Se estamos, como o próprio explica, perante uma geração esvaziada de ideias consistentes para o futuro, guiada apenas pela ideia do lucro fácil e a qualquer preço, não vejo como podemos então elogiá-los, a eles e às suas políticas mesquinhas que, essas sim, é que subordinam e vergam o Estado aos interesses económicos privados.

Irrita-me até quando o próprio Soares afirma, tanto no livro, como na entrevista, que a actual crise global foi provocada, “não pelos políticos, mas pelos que queriam minimizar a política” e que as “novas gerações” perceberão isso mesmo. Não me parece eticamente muito correcto que assim se branqueiem os erros dos que, em nome dos interesses pessoais e dos amigos mais próximos, venderam a alma ao diabo e “perderam a sensibilidade para os valores morais e para perceber a importância do que é essencial para o futuro dos seres humanos. Só sentem a necessidade de ganhar dinheiro, de qualquer maneira...”, como diz o próprio Mário Soares.

Por fim, acho profundamente injusto que, ao ilibar assim a actual geração que nos (des)governa, Mario Soares faça cair sobre os ombros da que agora despertam para as suas responsabilidades cívicas, a obrigatoriedade de “mudar de paradigma, de modelo financeiro, económico, social, político e ambiental. Carecemos de princípios éticos estritos e obrigatórios para que um capitalismo diferente, com dimensão social e ambiental, possa sobreviver...”. Além de ser um verdadeiro atestado de incompetência passado à actual geração de políticos, é ainda um apelo ao adiamento do que já deveria estar a ser feito para resolver a crise e, sobretudo, uma espécie de amnistia para as negociatas sujas que têm sido realizadas à conta de todos nós, pagadores de impostos e financiadores desta “coisa pública”.

Achei também muito curiosa (ou talvez não) a forma como Soares aproveitou a ocasião para criticar e “mandar recados” àcomunicação social. Segundo ele, a imprensa, sobretudo as televisões, repetem “mil vezes a mesma coisa, alimentando as audiências e as páginas dos jornais. Se for um escândalo, ainda melhor. Os jornalistas de hoje só querem falar disso. É o caminho seguro para o descrédito do jornalismo de qualidade.” Mais à frente volta ao assunto e reforça a ideia dizendo ainda: “E só se fala de quê? Das crises, das nossas fragilidades, do derrotismo nacional, que entrou em moda. E, obviamente das escutas ilegais, dos escândalos, das roubalheiras. Mas não se discute como é possível combater tudo isso...”. Pois, de facto, se as negociatas e roubalheiras ficassem no segredo de quem beneficia com elas e não chegassem ao conhecimento público era bem melhor! Claro que até pode haver algum exagero na forma mas, para mim, o conteúdo é bem mais relevante: é bom e salutar que a actual geração de políticos medíocres, mais ou menos corruptíveis ou já corrompidos, saiba que não está acima do julgamento da opinião pública, já que da justiça dos tribunais não se pode esperar grande coisa (muito por obra e graça dos senhores de quem se fala). Numa outra perspectiva - atrever-me-ia a dizer que optimista -, também podemos pensar que a discussão de “como é possível combater tudo isso”, surgirá depois de assentar a poeira dos escândalos e de percebermos que não queremos ser governados por gente desta.

Por isso, os grandes detractores da política não são os “outros” – os cidadãos a quem os jornalistas envenenam sistemática e deliberadamente o espírito – como afirma Soares e mais uns quantos do seu partido, são os próprios políticos que Soares defende neste seu “Elogio da Política”. Aliás, nestes últimos anos, sempre que Mário Soares decide (por si mesmo ou por pressão de outros) “prestar serviço” ao seu partido de sempre e, sobretudo, sempre que tem tentado vender a ideia de que o seu actual líder (José Sócrates) se pode vir a tornar num segundo Mário Soares, desde que o povo lhe dê a oportunidade que merece, fica mal na fotografia, pois o material de que dispõe não é bom, bem pelo contrário. É apenas fotogénico, mas isso só não chega. E Soares, que já leva mais de 70 anos de uma carreira política única, que conviveu e debateu ideias com todos os grandes líderes do século XX, que viveu por dentro momentos únicos e irrepetíveis da nossa história, que conhece todos os que contam no mundo global deste início de século, tem que saber disso.

Apesar destes deslizes, continuo a sentir uma grande admiração por Mário Soares e acho que o seu “Elogio da política” é uma lição magistral (no sentido literal da palavra) sobre a história da política contemporânea, que o autor conhece como poucos. Só lamento que caia no próprio facilitismo que tanto critica: “Em democracia é fácil e, além disso, gratuito.” dizer “mal da política. E por extensão, dos políticos e dos partidos.”. Viro aqui, de forma deliberada, o feitiço contra o feiticeiro: também é “fácil” e “gratuito”, quando nos convém, criticar os que dizem mal da política e põem a nu as podridões dos políticos.

É, pois, preferível concluir com as palavras que, de facto, fazem o elogio da tal Política (com P grande) que Soares tanto preza e que eu também (ainda) aprecio: “Mas para além das tarefas gigantescas do século XXI – assegurar a paz, pelo controlo completo e universal de todas as espécies de armas -, é indispensável lutar contra a pobreza e a miséria, no plano global, de acordo com os “Objectivos do Milénio”, em relação aos quais praticamente nada se fez. (…).” E acrescenta finalmente que “O fenómeno da cidadania global, que se iniciou nos finais do século passado (...) é um produto positivo da globalização e das novas tecnologias de informação. Confere-nos a esperança de que podemos sair desta crise global, evitando o caos e a barbárie, se formos capazes não só de vencer a crise, através de um corte cerce com as políticas do passado, mas também lutando, coerentemente, em favor da paz, contra a pobreza, em todos os continentes, pela justiça social, contra as pandemias e em defesa do nosso planeta, tão ameaçado. No fundo tudo está inter-relacionado. É preciso que os governos responsáveis o compreendam e procedam em conformidade.” (pp. 146-152).

Todos nós, simples cidadãos, queremos acreditar que será assim.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A Mentira tem hoje o seu dia oficial

Hoje é o dia oficial das Mentiras. E a coisa é tão séria que até a comunicação social, para variar da sua prática habitual, costuma contar uma história estapafúrdia ou tão óbvia, ou tão idiota, que todos, até os mais distraídos, a identificam logo como sendo “a mentira oficial” do dia naquele canal televisivo, ou naquele jornal. E, depois, volta tudo a ser como antes... como se a Verdade imperasse e, do alto da sua generosidade e complacência, concedesse à Mentira a esmola de uma dia no calendário. É com ilusões destas que vamos entretendo os dias, até um dia...

As Mentiras típicas do dia 1 de Abril, as tais óbvias, óbvias:

Advogado – O processo vai andar rapidamente.
Anfitrião – Já te vais embora? Ainda é cedo!
Agente imobiliário – E em seis meses, no máximo, vão colocar as infra-estruturas da luz e do telefone.
Polícia – Vamos tomar as devidas providências.
Devedor – Amanhã, sem falta!
Infiel – Não volto a trair-te!
Orador – Apenas duas palavras.
Toxicodependente – Esta vai ser a última.
Vendedor de sapatos – Depois alarga no pé.
Filha de 18 anos – Dormi em casa de uma colega.
Filho de 18 anos – Volto antes da meia noite.

As Mentiras dos outros dias todos, às vezes tão inesperadas e tão pouco óbvias que nos apanham à socapa, desprevenidos e nos deixam atordoados durante muito tempo, mesmo quando achávamos que já não voltaríamos a cair:

Todas as palavras de Amor.
Quase todas as promessas de Lealdade.
Muitas garantias de Amizade.
Tantas, tantas juras de Honestidade.
Numerosos sermões sobre a Moral e os Bons Costumes.
As declarações solenes de respeito pelos Outros.

Com estas o "poisson d'avril" acontece-nos exactamente assim:















Cartoon do site http://es.toonpool.com/