“Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este singular estado:
Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente possuem o poder, perdem o poder, reconquistam o poder... O poder não sai de uns certos grupos, como uma péla que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, num rumor de risos.
Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder, esses homens são, segundo a opinião, e os dizeres de todos os outros que lá não estão – os corruptos, os esbanjadores da fazenda, a ruína do País!
Os outros, os que não estão no poder, são, segundo, a sua própria opinião e os seus jornais – os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, e os interesses do País.
Mas, coisa notável! – os cinco que estão no poder fazem tudo o que podem para continuar a ser os esbanjadores da fazenda e a ruína do País, durante o maior tempo possível! E os que não estão no poder movem-se, conspiram, cansam-se, para deixar de ser o mais depressa que puderem – os verdadeiros liberais e os interesses do País!
Até que enfim caem os cinco do poder, e os outros, os verdadeiros liberais, entram triunfantemente na designação herdada de esbanjadores da fazenda e ruína do País; entanto que os que caíram do poder se resignam, cheios de fel e de tédio – a vir a ser os verdadeiros liberais e os interesses do País.”
Há muitos anos, certo bibliotecário com veia poética entregou-me o livro que lhe solicitei com um post-it na capa onde havia escrito, apenas pelo puro prazer de surpreender os leitores habituais que frequentavam a biblioteca e ao correr do que a inspiração lhe ditava no momento, esta frase de carácter aforístico: “A ternura é o primeiro momento do amor”.
Hoje, se tivesse que agradecer este gesto de uma delicadeza pouco habitual, em vez das palavras que disse na altura (e que, de tão banais, já nem recordo, claro), devolver-lhe-ia o livro com um post-it-réplica onde escreveria: “A ternura é o único momento do amor”.
Nos dias que vivemos certas palavras assemelham-se a cabaças secas: por baixo da casca endurecida estão ocas. Apenas cumprem função decorativa. Não são, pois, mais do que aparência.
“É da burocracia que os partidos monarchicos sacam a fantochada espuria que os defende, que os ampara, e os constitue; e esta confraria d’espertos inuteis, que faz os parlamentos e os jornaes, os movimentos da opinião preponderante, a claque dos thronos e o esteio dos ministros devassos, esta confraria bem pressente a necessidade de se unir, como os pecegos do Demi-Monde, para occultar ao público a sua nodoa de podridão originaria. É ella a unica vaca nedia n’este miseravel paiz que tem nos ossos o rachitismo gallico de seis seculos de monarchias deprimentes. Ella a unica que manda e prepondera á nossa custa, e que para ter carruagens e palacios, festins e sedas, sancciona no parlamento os bill vergonhosissimos, consente no accrescimo dos impostos, por ter tudo a ganhar na partilha dos dinheiros do povo – do povo que ainda se não convenceu que os gatunos agora andam fardados!”
Fialho d’Almeida In Vida Ironica – Jornal d’um Vagabundo, 3ª ed. 1919, p.15
Uma noite assim, tão breve, não chega para mitigar a sede da pele já tatuada pelo sol de junho, pois este solstício de verão traz consigo a promessa da plenitude mas não a da saciedade. Além de que, colher os frutos do que ainda não foi plantado, mais do que paradoxal, parece-me improvável.
Porém, se conseguirmos sobreviver à inércia da espera, quando o sol atingir o seu ponto solsticial de dezembro poderemos testemunhar o mágico ritual em que a escuridão nocturna cumpre a estreme promessa da sementeira e da renovação. Aguardemos assim, sem subterfúgios, por esse solstício de inverno para, insones, atravessarmos sem pressa a grande noite até que a manhã límpida irrompa, ansiosa por começar o novo ciclo. Afinal, é de atirar sementes à terra que precisamos, mesmo sem a certeza de que elas consigam entranhar as raízes neste solo agreste.
Três investigadores norte-americanos – Jeffrey Dyer, Clayton Christensen e Hal Gregersen – estudaram alguns dos empresários e executivos mais bem sucedidos do mundo – Steve Jobs da Apple, Pierre Omidyar da eBay, Jeff Bezos da Amazon entre muitos outros – para perceber o que é que os transformou e às suas empresas em líderes de inovação e de mercado.
No final desse estudo, a que deram o título de “O ADN do Inovador” descobriram que todos tinham em comum certos traços de personalidade que se resumem em cinco palavras: associar, questionar, observar, experimentar, estabelecer relações com o outro. Mas a descoberta mais interessante é que essas cinco qualidades de pensamento/acção dos líderes da inovação mundial se assemelham, e muito, à forma de raciocinar e de agir de uma criança de quatro anos. Estes empresários inovadores, ou mesmo excêntricos, observam o mundo colocando-se de fora, são capazes de associar ideias ou temas aparentemente díspares e sem sentido; demonstram uma curiosidade ilimitada e não têm medo de fazer perguntas, mesmo que, para a generalidade dos adultos, às vezes elas pareçam não fazer sentido. Também costumam fazer cursos ou praticar coisas aparentemente desnecessárias ou nos antípodas das funções que exercem. Só que fazem tudo isto com uma intenção, e isso é o que os distingue das verdadeiras crianças de quatro anos.
Em suma, são pessoas capazes de pensar de forma criativa a partir da observação atenta dos outros e dos mundo que os rodeia. São pessoas que detectam novas possibilidades, novas maneiras de fazer e de ver as coisas e que facilmente estabelecem relações sociais muito diversificadas (“networking”) que lhes abrem perspectivas também elas diferentes e diferenciadas. Em muitos destes homens e mulheres a capacidade de inovar é inata, mas muitos deles desenvolveram-na a partir da experiência e da aprendizagem.
Assim, os autores do estudo concluiram que também é possível aprender a ser inovador e criativo. Curiosamente, descobriram até que a maior parte dos grandes empresários americanos frequentaram escolas Montessori, o que não será, certamente, uma coincidência. Concluiram ainda que o estímulo e apoio dos pais foi muito importante também. Hal Gregersen diz mesmo que a boa pergunta a fazer a uma criança quando chega da escola não é “o que é que aprendeste hoje? ou “o que é que fizeste hoje?” e sim “que perguntas fizeste hoje na escola?” ou “que perguntas não tiveste possibilidade de fazer?”. Mas Gregersen sublinha ainda que não adianta pôr as crianças a ter ideias inovadoras se, depois, ao nível político e económico, não forem criadas as oportunidades estruturais e disponibilizados os capitais de risco necessários para as pôr em prática.
Até pode ser que sim, porém entre nós não só não é assim, como não se perspectivam grandes mudanças no horizonte temporal mais próximo. Não apenas porque não há dinheiro para isso, mas também porque, mesmo que o houvesse, mudar as mentalidades é sempre o mais difícil. Alterar os currículos escolares, não. Na verdade, esses até são substituídos com alguma frequência, embora nem sempre se consiga perceber muito bem porquê e, sobretudo, para quê. E, aliás, o cúmulo de permissividade e de indigência mental a que a escola portuguesa chegou bem o demonstram (e isto nada tem a ver com as estatísticas, pois essas fazem parte de uma outra história, bem contada e melhor inventada). E também porque, na actual conjuntura económica global, as oportunidades são cada vez menos e cada vez para um número mais reduzido de indivíduos e de empresas, como também já se percebeu. Portanto, se não mudámos quando o mundo era mais fácil, e talvez até mais maleável, também não me parece que agora, quando esse mesmo mundo vive mergulhado na incerteza e na hostilidade de uma competitividade económica implacável, o consigamos fazer. O mais provável é que continuemos a navegar nas turvas águas da pequenez que nos caracteriza desde há várias décadas, num mundo que, também ele, está cada vez mais selvagem e mais hipócrita.
O húngaro László Moholy-Nagy (1895-1946) cultivou, nas primeiras décadas do séc. XX, o ideal modernista de artista total - por oposição ao ideal de artista genial, atormentado, tão característico do século anterior; trabalhou incansavelmente para criar uma arte nova, de vanguarda, capaz de representar e de exprimir um mundo também ele novo, ainda sob o fascínio poderoso das grandes máquinas da Revolução Industrial, muito à semelhança do ideário de figuras como Almada Negreiros em Portugal. Moholy-Nagy foi cineasta, cenógrafo, escultor e professor, mas sentia um especial fascínio pela fotografia.
E um dia escreveu que “Os analfabetos do futuro não serão apenas aqueles que ignorarem a linguagem escrita, mas também todos os que ignorarem o uso de máquina fotográfica”. E o futuro foi-lhe dando razão à medida que foi acontecendo. As imagens, perpetuadas em película e agora mais recentemente em suporte digital, não representam apenas a história do mundo e dos homens. Muitas delas, só por si, têm feito história e algumas têm sido até capazes de mudar a própria história.
O mundo está cheio de histórias reais de gatos com dons extraordinários que fazem mais felizes os humanos que com eles têm o privilégio de conviver. Assim, de repente, estou a recordar-me de Nora, a gata que gosta de fazer duetos ao piano com os alunos da dona e com a própria dona e, sobretudo, de Óscar, um gato adoptado por um lar de idosos que revelou um extraordinário dom: consegue “adivinhar” quem vai morrer, fazendo questão de acompanhar os moribundos até ao fim. A tal ponto é certeira esta sua capacidade que já foi alvo de um estudo que acabou publicado em livro e objecto de um documentário realizado pelo Discovery Channel. Mas há tantas outras pequenas histórias que, embora menos espectaculares, não deixam de ser também curiosas.
É o caso do Zéquinha, um gato eborense de pelagem amarela e branca, já com uma respeitável idade e que é uma espécie de vedeta local. Partilha a casa com dois ou três gatos de diversa proveniência mas, há já muitos anos, decidiu entrar para a vida activa. Todos os dias, faça chuva ou sol, sai de casa e está pontualmente à porta da loja situada em frente, pronto para iniciar mais um dia de trabalho. Com a cumplicidade da proprietária, também ela fã de gatos, Zéquinha tornou-se animador socio-cultural da loja. A sua função parece simples, mas tem que se lhe diga: consiste em “estar”, acordado ou a dormir, em vários pontos estratégicos da loja, para apanhar de surpresa os clientes com a sua mansidão e bonomia naturais. Hoje, por exemplo, decidiu servir de chamariz para os chinelos (quantos terá conseguido vender?).
Évora, 18/6/2010
E é difícil resistir a tanto charme: os clientes que lá entram pela primeira vez, surpreendidos com a presença do volumoso gato, logo metem conversa com a simpática dona da loja, interessam-se em conhecer a história do bichano, às vezes chegam a perguntar se está ali para ser adoptado, tiram fotografias. Quem já é cliente habitual e conhece a história chega mesmo a entrar de propósito para lhe fazer festas.
A loja de utilidades, bugigangas e afins ganha animação e, provavelmente, factura um pouco mais com tanta gente a entrar. O Zéquinha ganha muitos, muitos mimos e vive feliz e relaxado. Até os clientes ganham, pois saem da loja bem mais divertidos e animados. De facto, todos ganham qualquer coisa nesta história que demonstra bem como, com um pouco de boa vontade, pessoas e animais domésticos podem conviver de forma pacífica.
Este é "o ano da morte de José Saramago". Pelo que foi e pelo que escreveu merece um epigrama, bem mais do que um epitáfio, até porque é sempre melhor celebrar a vida. Proponho uns versos de Ricardo Reis:
"Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive."
Numa entrevista concedida ao jornalista João Bonifácio do Ípsilon/Público (11/6/2010) a propósito do lançamento do seu último livro, com o título de “O Regresso do Hooligan”, o romeno Norman Manea deu aquela que, para mim, é uma das melhores e mais certeiras definições do que é o romance contemporâneo: “Um romance é uma história adiada: atrasa-se a história o mais que se pode. Porque uma história, na verdade, são duas frases. E só com tempo podemos ver como ela é maior do que parece.” E acrescentou: “Um computador não pode escrever um romance, porque não sabe ser vago e uma grande parte do mérito de um romance é saber ser vago, não ser sempre directo.”
Palavras certeiras, estas. Por isso, às vezes encontro divagações e meandros tão bem conseguidos que valem mais do que a própria história e, noutras, o romance cria expectativas iniciais que depois são frustradas porque, justamente, o autor não soube ou não foi capaz de “ser vago” à altura das expectativas que tinha criado. São os livros cuja leitura inicio mas não sou capaz de concluir.
Sobre a técnica narrativa Manea acrescenta: “Não se pode planear tudo num romance, sabe? Porque os detalhes aparecem da própria vida interior do romance. Começa-se de A para B, mas depois vai-se para F e para B e depois para Z.” Isto porque “a própria vida é assim, pelo que a vida dos textos também acaba por ter de ser assim: nada obedece a uma lógica linear.”
Não consegui deixar de pensar nos produtores de best-sellers que inundam todos os anos o mercado com um novo romance nascido de um plano detalhado e seguido à risca, pois numa “receita” que funciona não há espaço para o improviso. Seria curioso ouvir como é que alguns deles refutariam este ponto de vista...
Disse também que o livro (refere-se a “O Regresso do Hooligan”) “não é uma memória cronológica” porque, tal como Proust, também pensa que “a única memória autêntica é involuntária”. Segundo Manea, “Uma memória voluntária é uma memória-pré-estabelecida” e, na vida, “somos atravessados por memórias que não controlamos, em momentos que não controlamos”.
Nas suas aulas de literatura, Manea trabalha a obra de um outro autor judeu que, como ele, viveu o Holocausto – Primo Levi. Esse trabalho tem-lhe permitido sobretudo perceber a dificuldade que os alunos, e os seres humanos em geral, têm “em apreender a ambiguidade da vida”. Concluiu até que “As pessoas procuram simplificar, têm dificuldade em aceitar que é tudo muito mais complexo que isso. O que quero dizer é isto: mesmo numa situação extrema, de vida ou morte, em que as opções são diminutas, eu defendo que a vida é complicada e ambígua.”
Neste passo do texto recordei-me, claro está, do poema de Robert Frost "The road not taken", cujos versos finais também abordam esta questão da complexidade, mesmo perante algo tão aparentemente simples como uma bifurcação no caminho que atravessa o bosque: "Two roads diverged in a wood, and I -/ I took the one less traveled by,/ And that has made all the difference."
Palavras de um escritor que pensa (como eu, neste caso). Eu até vou mais longe: mais do que dificuldade, as pessoas têm medo da complexidade que se esconde em cada um de nós, como da que se esconde na verdadeira literatura. Preferem visões simplistas, a “preto e branco” que não obrigam a um esforço de análise e de compreensão. A sociedade da informação vive “à superfície” das coisas e das pessoas porque só assim consegue acompanhar o ritmo frenético dessa mesma informação que chega de todos os lados, ainda que seja quase sempre redundante ou acessória. É uma sociedade sem tempo para pensar. Também sem grande vontade de o fazer, pois rege-se sobretudo pela lei do menor esforço.
Muito se tem noticiado, analisado e comentado nestes últimos dias sobre o crescente número de empresas em situação de falência. No entanto, há mais do que empresas a falir. Praticamente todo o interior do país está em processo de falência humana e social. Processo lento, silencioso, porém inexorável.
Quando, há já quase quatro décadas, os vapores da revolução de 74 ainda se cheiravam no ar, a ideia era dotar todas as aldeias, vilas e pequenas cidades do interior com os serviços públicos essenciais: água, luz, saneamento, transportes, estradas, serviços de saúde e escolas. Procedeu-se também à desmultiplicação de um conjunto de serviços que, não sendo indispensáveis, eram relevantes para a chamada “qualidade de vida” das populações: correios, finanças, bancos, farmácias ou postos de medicamentos.
Hoje verifica-se que, nem mesmo os chamados serviços básicos, chegaram a todo o lado: a luz eléctrica está praticamente generalizada (mas ainda há quem não tenha), a água canalizada chegou a muitos sítios, mas o saneamento, por exemplo, já deixou muito a desejar e continua a não existir em numerosas aldeias espalhadas pelo interior, de norte a sul do país. A crescente desertificação – numa população que também nunca foi muito numerosa - é o que explica, em muitos desses sítios, o desinvestimento na criação dessas valências, uma vez que, ao longo de todo este tempo, se verificou um outro fenómeno paralelo, porém, muito relevante para o que está a acontecer agora: o êxodo da população mais jovem para a faixa litoral em busca dos empregos que nunca existiram, ou foram deixando de existir no interior. Esta perda da população mais jovem tem consolidado o crescimento de megacidades no litoral, essas sim, bem dotadas de equipamentos e com serviços de qualidade.
Desde a década de 90 que nos habituámos aos anúncios governamentais que, em nome da racionalização dos recursos humanos e financeiros, vão dando conta do encerramento dos serviços mais diversos (alguns deles só conquistados graças, justamente, à democracia): comboios; postos de correio; finanças e outras repartições públicas; serviços de saúde, nomeadamente urgências e maternidades; postos de polícia/guarda etc. Embora os protestos das populações sejam reconhecidos como justos e os seus contra-argumentos se revelem muitas vezes razoáveis, a verdade é que o processo de encerramento progressivo do interior do país tem sido inexorável.
O fecho das escolas, que vai já na segunda leva, é disso paradigmático. Em muitas aldeias do interior elas representam o único sinal possível de esperança da comunidade. Elas são sobretudo um símbolo de continuidade, assim uma espécie de faz-de-conta para enganar o vazio (tão legítima como outra coisa qualquer). Claro está que, lá no fundo, todos sabem que, sendo a agricultura de subsistência a única possibilidade que estas comunidades oferecem aos jovens para sobreviverem, é só uma questão de tempo até que todos acabem por sair em busca de empregos no litoral ou no estrangeiro. Muito poucos se poderão “dar ao luxo” de ficar pela terra em que nasceram se quiserem ter condições mínimas de vida. Até porque o desinvestimento e o encerramento de serviços as torna ainda menos atractivas, sobretudo para uma população mais jovem com vivências e anseios muitos distintos dos seus avós e pais, por exemplo.
Encerradas as escolas, transportados os alunos para os Centros Escolares (a própria designação já diz quase tudo sobre o que lá se pretende fazer), tem início um processo de socialização, uniformização e aculturação das crianças a uma vivência sobretudo urbana - e agora também global – que rapidamente as fará esquecer as tradições e laços sociais e identitários das suas comunidades de origem. Entretanto, na aldeia, ficam apenas os velhos. Enquanto espaço físico e social a aldeia existirá enquanto os velhos sobreviverem. O único investimento a que obrigam, por força das circunstâncias, é à criação de centros de dia e de lares que darão emprego aos pais e mães dos meninos transportados para os tais centros escolares.
E o que já não falta por aí são aldeias-fantasma, embora haja também alguns epifenómenos: pequenas comunidades que se revitalizaram em torno de uma pequena indústria ou negócio criado por algum emigrante que regressou e investiu na terra onde nasceu, ou de um projecto de turismo criado por alguém que abandonou voluntariamente a grande cidade porque escolheu viver de outra forma. Seja como for, não chega para fazer a diferença, não tem força para travar o fenómeno do despovoamento e da desertificação acelerada que estamos a viver. Seriam necessárias outras opções políticas e económicas, outras medidas e outra antevisão do futuro.
Também não consigo perceber muito bem como é que andamos há já tantos anos a encerrar paulatinamente o interior do país em nome da racionalização e da poupança dos escassos recursos das finanças públicas e nos vemos agora enfiados nesta “crise” que nos obriga a ainda maiores sacrifícios. Cada vez mais acho toda esta história mal contada. Sobretudo acho que andamos muito mal governados, nós e o dinheiro dos nossos impostos. Às vezes interrogo-me: e quando já não houver mais nada para fechar no interior do país? Fechamos o próprio país? (não me admirava muito que já houvesse por aí algum discreto grupo de assessores a ser pago para "estudar" o assunto).
Hoje de tarde, ao observar a montra de uma loja aqui perto de casa descobri este pequeno anúncio que promete "música" com esquentadores e canalizações, como se pode confirmar pela imagem:
(Évora, 13/6/2010)
Lembrei-me de uma notícia recente sobre a vinda do compositor Marcus Lindberg à Casa da Música para executar "Kraft", uma obra inspirada no movimento punk e que recorre aos pedaços de sucata como instrumentos de percussão, devidamente acompanhados por uma orquestra clássica. Mal sabe o compositor e maestro finlandês que, por óbvio desconhecimento ortográfico, alguém anda aqui pela sulidão a "fazer música" com instrumentos pouco convencionais...
Depois do “fogo amigo” que, com alguma frequência, ceifa vidas lá para os lados do Iraque e do Afeganistão, temos agora notícias diárias da progressão da gigantesca mancha de “petróleo amigo” da British Petroleum (BP) que alastra pelo Golfo do México. Ou, como referiu Dean Blanchard, dono da maior lota de camarão dos Estados Unidos e terceira maior do mundo, situada em Grand Isle, no delta do Mississipi: “A vida toda pensei que iam ser os russos ou os chineses que nos iam matar; afinal são os ingleses...”.
Pois é, com amigos destes, quem é que precisa de tantos inimigos aí pelo mundo fora?
Numa interessante análise a que deu o título de “Os problemas de Portugal – Mudar de rumo” (Ed. Colibri, Dez. 2009), Vitorino Magalhães Godinho ao questionar a forma como as organizações internacionais – ONU, UNESCO, FMI, Organização Mundial do Comércio – têm reagido às brutais mudanças de paradigma ocorridas neste início do séc. XXI, tanto ao nível económico-financeiro como poítico-estratégico, escreve que: “Não é aceitável que certos países se transformem em fábricas de mão-de-obra barata e sem garantias sociais. Apanhada no vórtice da emigração, essa fôrça de trabalho poderá melhorar certos círculos no seu país de origem graças às remessas dos ganhos, mas a sua ausência reduz as possibilidades de desenvolvimento aí; e nos países de acolhimento a sua presença contribui para baixar o nível de salários; muitas vezes, apegados a radicionais modos de viver, pretendem impô-los às comunidades que os recebem, não enriquecendo assim a cultura, antes gerando conflitos insanáveis. É nos países de origem que devem encontrar os meios de viver e de usufruirem da cultura, bem como disporem da necessária assistência médica. A emigração, se com retorno, pode contribuir para formar trabalhadores especializados. Tem que se pôr termo ao dumping que, utlizando a mão-de-obra barata e sem direitos, asfixia as indústrias dos países onde o operário é bem pago e tem a sua dignidade assegurada. Cada estado tem o direito de defender os seus naturais. Mas os movimentos migratórios põem outro problema grave. O recrutamento de mão-de-obra, o transporte para os países de destino, e depois o desenrolar do viver quotidiano estão em grande parte sob a alçada de poderosas máfias, que não só exploram violentamente os emigrantes comolevam à formação de bolsas de alta criminalidade, associada a tráfico de armas, de prostituição e de drogas. Impõe-se que os governos dos países de origem e os de acolhimento cooperem em acção vigorosa de desmantelamento de tais bandos e protecção dos trabalhadores e suas famílias.” (p. 11-12)
Visão lúcida e certeira do problema para o qual quem de direito – governo, autoridades, instituições, todos nós - ainda não pensou muito a sério. Embora os movimentos imigratórios não passam despercebidos pois a grandeza dos números não o permite - veja-se agora o caso dos imigrantes brasileiros (ouve-se aliás falar português do Brasil em todo o lado), dos países de leste (já bastante menos numerosos do que há meia dúzia de anos atrás) e da China (por via do comércio) -, na verdade esse tema nunca foi discutido, nem estudado ou analisado a fundo. Tendo em conta que precisamos desses imigrantes para trabalhar, sobretudo para fazerem os trabalhos que os portugueses já não querem fazer (cá, porque lá fora fazem-nos), e que estamos com claros problemas de envelhecimento populacional, seria bom que se começasse desde já a pensar como é que vamos lidar com o(s) problema(s) que venham a surgir no futuro.
Entretanto, o mais irónico é que Portugal sempre foi e continua a ser um país de emigração. Veja-se como a actual crise gerou uma nova vaga de emigrantes, sobretudo entre os jovens, mesmo bastante qualificados. Contudo, ainda não vi ninguém preocupado em perceber quais poderão ser as consequências desta sangria permanente de população.Também por causa da sua condição de emigrante, Portugal até poderia dar bons exemplos nesta matéria ao nível da Europa mas, como sempre, remete-se ao silêncio e ao conformismo relativamente aos 'patrões' da UE. Nesta, como em tantas outras situações, à medida que os problemas forem aparecendo, iremos improvisando, até em termos legislativos, como é, aliás, habitual.
Assisti ontem, enquanto tive paciência para isso, às cerimónias de comemoração do 10 de Junho, Dia de Portugal, etc e tal: as grandes figuras do Estado todas com um ar muito sério e compenetrado, alguns até com cara de quem estava a fazer um frete daqueles, aqui se destacando claramente o primeiro-ministro.
Contudo, acho que faz cada vez mais sentido pensar na criação de um novo feriado nacional (ai o PIB!): o Dia da Natalidade. É que, no ano passado, nasceram em Portugal menos de cem mil crianças e a taxa de mortalidade (9,8%) superou a de natalidade (9,4%).
Dado que a taxa de natalidade também se pode analisar como um indicador da situação económica e social dos países, e tendo em conta também a grave crise que estamos a atravessar, não é de prever que o índice de fecundidade possa subir significativamente nos próximos anos. Mesmo que se tomassem já agora grandes medidas políticas de incentivo à natalidade, os seus efeitos, forçosamente, só se fariam sentir a médio e longo prazo. E, em Portugal, na verdade, muito pouco tem sido feito para prevenir ou melhorar a situação demográfica do país, por isso, a situação só se poderá agravar nos próximos anos.
Somos já, verdadeiramente, um “país de velhos” uma vez que, por cada 100 jovens, existem 118 idosos. Segundo os especialistas somos até um país duplamente “velho”, porque nascem menos crianças e porque a esperança de vida à nascença é cada vez maior. E quando pensamos que a taxa de activos foi, também em 2009, de apenas 66,9%, a situação ganha contornos bastante mais graves ainda, com consequências para o futuro desses mesmos activos.Teremos forçosamente que “importar” população em idade activa e fértil, se quisermos manter a sustentabilidade demográfica e social do país.
É que, por este andar, muito em breve não falaremos apenas do número crescente de espécies animais e vegetais em risco de extinção, começaremos também a elaborar a listagem de países que correm idêntico risco. É por isso que celebrar o Dia da Natalidade, de preferência em data anterior ao 10 de Junho – Dia de Portugal –, começa a fazer todo o sentido. É que, sem população, não há nação. E já estou mesmo a imaginar milhares de pessoas num grande espaço aberto, os nossos (des)governantes com sorrisos extáticos a acenar, a dar beijinhos em centenas de crianças, a cumprimentar os babosos pais e mais os felizes avós, a fazer 'cutchi-cutchi' no queixo dos bébés recém-nascidos, a distribuir generosas ofertas patrocinadas por múltiplas empresas - cheques, fraldas, brinquedos, vales de compras para leite em pó, etc. etc. - palhaços, coloridos balões por todo o lado, as televisões todas em directo, frenéticas a fazerem entrevistas e com comentadores em estúdio a opinar sobre o que se está a passar... Enfim, uma festa que faz tanto sentido como qualquer uma dessas que se realizam por esse país fora, parece-me.
E já agora, como se avizinham, também por estes dias, os pirosos “casamentos de Santo António” os quais, na sua grande maioria, devem terminar em divórcio, talvez fosse mais útil transformá-los mas é em “baptizados de Santo António”.
Talvez cansadas da agitação de Lisboa algumas gaivotas sobrevoam agora o Alqueva trazendo a maresia no pio estridente que atravessa o ar da tarde. Cruzam os céus sobre o Grande Lago, certamente intrigadas pela quieta ondulação das águas, pelo adocicado da brisa, pela ausência de areia nas margens. Vêm, movidas talvez pela curiosidade, pelo fascínio do que é novo e diferente e regressam depois ao litoral e ao mar salgado. Um dia, provavelmente, virão para ficar trazendo na memória "o céu de Lisboa" como no poema-canção de Alexandre O'Neill.
Já perdi a conta ao número de vezes que alguém me coloca no pára-brisas do carro um pequeno quadrado de papel impresso a preto e branco, assim com um aspecto de fotocópia estafada, a fazer publicidade a um certo “Professor D.”. Começo logo por não entender muito bem o porquê desta designação de “Professor”. Será que o homem dá aulas em alguma escola? E de que disciplina? Ou estará ele, por desconhecimento, a usar o título pensando que alguém ainda dá algum valor a tal profissão? O mais provável é não saber que a condição de professor anda aí pelas lamas da amargura e que o melhor seria arranjar um outro título. Cá por mim sugeria o de “engenheiro" porque transmite logo a ideia de competência técnica associada à inovação, coisa muito importante nos tempos que correm.
Certo, certo é que, apesar de ser “Professor”, o homem não poupa nos elogios e, de imediato, se auto-qualifica como “Ilustre espiritualista” e “Grande vidente”. Por aqui se vê logo que de falsa modéstia ninguém o poderá acusar!
Mas o mais espantoso vem a seguir e diz respeito à enumeração exaustiva dos problemas que o tal “Professor D.” afirma ser capaz de resolver pois, ainda segundo o tal anúncio, “O mais importante da astrologia é obter bons resultados, rápidos e garantidos a 100%.”. Esta segunda parte da frase assemelha-se muito ao que se costuma escrever nos tratamentos de emagrecimento ‘milagrosos’ que se anunciam e vendem um pouco por toda a parte. Não fiquei, pois, surpreendida quando na última frase do texto ele escreve “Faz emagrecer e engordar.” Só podia!
E afirma-se depois “Dotado de poderes” tais que “ajuda a resolver problemas difíceis ou graves em sete dias” (nem mais um!): amorosos (“Amor”, “Casamento”, “Aproxima e afasta pessoas Amadas com rapidez total”); financeiros e profissionais (“Insucessos”, Negócios”, Sorte nas candidaturas”); psíquicos/psicológicos (“Depressões”); sexuais, mas de um tipo apenas: “Impotência sexual”. O tal “Professor D.” é tão bom que promete resolver um dos grandes flagelos da justiça portuguesa: as “Injustiças”. Tem até poderes para solucionar algo tão vago como “Doenças Espirituais” (só a designação ma dá um arrepio na espinha!) ou coisas tão suspeitas e misteriosas como “Maus olhados” (longe vá o agoiro!). Sobretudo, tem poderes tão grandes que consegue fazer uma coisa e o seu contrário, a pedido do cliente: “faz emagrecer e engordar”; “Aproxima e afasta pessoas”.
Resolve mesmo problemas relacionados com o “Desporto”. Interrogo-me desde já sobre as razões que levaram a selecção de futebol a partir para a África do Sul sem a companhia de tão ilustre personagem mas, pensando melhor, tão grandes poderes devem funcionar mesmo à distância. O texto termina com uma frase a negrito “Facilidades de pagamento”. Ao que parece, a famigerada crise financeira também já chegou aqui, mas há sempre maneiras de contornar a situação.
Agora, havendo a indicação de que tudo é resolvido “em 7 dias” fica-me uma dúvida: e se o cliente não ficar satisfeito? Ou se, no fim do prazo, o problema não estiver resolvido? Como é? Devolve o dinheiro? De qualquer forma o “Ilustre espiritualista” defende-se logo à partida destas pequenas contrariedades afirmando que “ajuda a resolver”, o que é bem diferente de escrever “resolve”, claro está!
Consulta num horário alargado, “das 9 às 21 horas” e, nos tempos que vivemos, não tenho dúvidas de que, clientes, é que não lhe devem faltar. É que o desespero leva muitas vezes as pessoas a fazer coisas como esta e outras ainda.
Agora, o que me incomoda sempre um pouco é pensar que, havendo tanta gente no mundo com tamanhos poderes e capacidades - os jornais trazem dezenas de anúncios semelhantes –, como é possível que o número de pessoas confrontadas diariamente com problemas graves ou de muito difícil resolução, em vez de diminuir, aumente a toda a hora. Vá lá a gente perceber isto!
Não é o Gato de Cheshire com o seu sorriso perturbador, mas tem, como ele, uma habilidade extraordinária. Lembrei-me logo de um poema de Eugénio de Andrade (também ele amava, e muito, os gatos): "Gato dos quintais,/ gato dos portões,/ gato dos quartéis,/ gato das pensões." (excerto de Gatos, In Aquela Nuvem e Outras) e acrescento-lhe este verso: "gato de garrafa".
No ano de 1083, o arcediago alemão São Bruno, que era Reitor dos Estudos Cardinalícios na cidade francesa de Reims, descontente com a igreja do seu tempo, sempre envolvida em eternas querelas de poder e riqueza, decide afastar-se de tudo para se tornar monge. Faz então a sua primeira experiência monástica na abadia de Molesme, então governada por São Roberto, futuro fundador da ordem de Cister. Contudo, aquela vida em comunidade ainda não é o que procura e sai. O que pretende é um sítio ermo, humilde e rústico onde possa dedicar-se por inteiro e sem quaisquer interferências à vida comtemplativa, à oração e à penitência.
Encontra-o em 1084 num vale deserto e selvagem, de difícil acesso, rodeado de montanhas, chamado La Chartreuse, a norte de Grenoble. Aí, juntamente com seis companheiros, funda uma comunidade que se assume como um novo modo de viver no deserto: “unir a uma parte predominante de vida solitária um mínimo suficiente de vida cenobítica ou comunitária que fornecesse ao eremita as vantagens mais prezadas desta última, sem prejudicar aquela” (São Bruno na Cartuxa de Évora, p. 18).
Numa carta dirigida a um amigo do cabido de Reims – Raúl le Verd - e datada de 1096, São Bruno descreve, numa linguagem simbólica e literária, os objectivos da vida e da rigorosa disciplina cartusiana: “O que a solidão e o silêncio do deserto proporcionam de utilidade e gozo divino a quem os ama, só o sabem os que o experimentam.
Aqui, com efeito, podem os varões esforçados recolher-se em si quanto queiram, e morar consigo, cultivar com afã os germes das virtudes, e alimentar-se com alegria dos frutos do Paraíso. Aqui se adquire aquele olhar, cuja visão serena fere de amores o Esposo e cuja pureza e limpidez permite ver a Deus. Aqui se pratica um ócio bem ocupado, se repousa numa sossegada actividade. Aqui, pelo esforço do combate, dá Deus aos seus atletas a desejada recompensa: «a paz que o mundo ignora e a alegria no Espírito Santo» (Rom. 14,17).”
La Chartreuse não era uma Ordem Religiosa e não se regia por nenhuma Regra escrita, sendo o seu método de vida transmitido oralmente, situação que se manteve durante os primeiros quarenta anos da sua existência. Porém, à medida que outros mosteiros foram adoptando idêntica vivência religiosa, tornou-se necessário passar a escrito as orientações espirituais do fundador, São Bruno. É o quinto prior da comunidade – Guigo – quem redige os “Costumes de La Chartreuse”, os quais “serão para sempre a base e fundamento da vida e da legislação cartusiana, subjacentes mesmo à renovação promovida pelo Concílio Vaticano II” (Idem, p. 18). O nome do lugar fundacional - La Chartreuse –, adaptado a cada língua, passou a designar também a Ordem e os próprios monges que a integram. Assim, na língua portuguesa designam-se “monges cartuxos” e “Ordem da Cartuxa”.
A Ordem estabeleceu-se no nosso país graças aos esforços de D. Teotónio (1530-1602) - filho de D. Jaime, Duque de Bragança e de D. Joana Mendonça – que, em 1587, conseguiu que um grupo de monges da Cartuxa espanhola de Scala Dei viesse fundar uma nova Cartuxa em Portugal. O paço real de Évora foi então cedido para a sua hospedagem provisória. Uma missa celebrada na igreja de São Francisco, no dia 8/9/1587, constitui o acto simbólico e fundacinal da Ordem Cartusiana em Portugal, assinalado oficialmente com a redacção e assinatura, dois meses mais tarde, de uma acta pública perante escrivão, onde se registaram todas as concessões e condições para a instalação dos monges. Em 1593 inicia-se a construção extramuros do mosteiro Santa Maria Scala Coeli (Escada do Céu), assim designado em memória da Cartuxa espanhola de onde provinham os monges fundadores. Rodeado de uma extensa propriedade agrícola, na qual os monges trabalhavam, e com os proventos de muitas propriedades entregues à comunidade pelos monges professos, o mosteiro garantiu desde sempre a sua autonomia económica.
Apesar do seu enorme prestígio, após a vitória liberal de 1834, os Cartuxos de Évora conheceram o mesmo destino de todas as outras ordens religiosas do país: a extinção e a apropriação de todos os seus bens pelo Estado.
Depois de longos anos de abandono e incúria – chegou a ser Escola Agrícola -, o edifício, praticamente em ruínas, foi adquirido pelo Conde de Vil’alva e reconstruído pelo seu neto Eugénio de Almeida, que o devolveu à Ordem Cartusiana em 1960 e onde se vieram então instalar sete monges, para viverem de acordo com as estritas regras da sua ordem: clausura, solidão e silêncio. E por aqui continuam.
O mosteiro já não está, contudo, isolado. Vários bairros têm crescido e, com o tempo, alcançaram os limites da sua cerca. Apesar da ganância falar sempre mais alto quando se trata de construção e urbanismo, julgo que, apesar de tudo, tem havido algum pudor e não se tem assistido, nesta zona de Évora, à construção frenética das aberrações arquitectónicas que são já a marca distintiva de quase todo o resto da cidade, inclusivamente na zona circundante às muralhas. Espero que se saiba respeitar (aceitar seria talvez excessivo nos dias que vivemos) a diferença e a dignidade que aquele espaço representa e que tem tanto direito a existir como qualquer outro, embora os rumos que a cidade (e os seus decisores têm tomado nestes últimos anos) me deixem algumas dúvidas.
E vem tudo isto a propósito de ter estado a ver “Die Große Stille” ou "O Grande Silêncio", o extraordinário filme-documentário de Philip Gröning sobre a vida monástica dos monges Cartuxos na Casa-Mãe da Ordem: La Chartreuse. É um filme avassalador, por causa do silêncio apenas quebrado pelos cânticos litúrgicos dos monges, e sobretudo pela força das imagens. Revela-nos uma outra forma de vida, tão humilde, frugal e exigente que só alguns, dos poucos que sentem o apelo da vocação, aguentam a dureza do convento, os sacrifícios e a rígida e exigente disciplina que a Regra impõe para se conseguir a verdadeira depuração espiritual que os monges pretendem alcançar. Contudo, a serenidade estampada no rosto dos que resistem diz quase tudo sobre o que pretendem alcançar nesta espécie de cápsula do tempo tão distanciada das turbulências exteriores como se não estivesse neste mundo que é o nosso. De repente, é como se os rituais faustosos e teatralizados do Vaticano fossem de uma outra religião. É um filme quase doloroso, mas também fascinante.
Dez anos antes de terminar o milénio, Italo Calvino publicou “Seis propostas para o próximo milénio”. Estas propostas correspondem, na verdade, ao ciclo de conferências – as Charles Eliot Norton Poetry Lectures - que o autor foi convidado a fazer na Universidade de Harvard, ao longo do ano lectivo 85-86.
As seis propostas literárias que então apresentou eram: 1. Leveza; 2. Rapidez; 3. Exactidão; 4. Visibilidade; 5. Multiplicidade; 6. Consistência.
Na terceira dessas propostas – Exactidão - Calvino começa por dizer que sofre de uma “hipersensibilidade ou de uma alergia” (p.74) à forma como a linguagem é tantas vezes usada: “parece-me que a linguagem se usa sempre de maneira aproximativa, casual, descuidada, e isso provoca-me um aborrecimento intolerável. Não pensem que esta minha reacção corresponde a uma intolerância para com o próximo: o aborrecimento pior sinto-o ao ouvir-me falar a mim próprio. Por isso tento falar o menos possível, e se prefiro escrever é porque ao escrever posso corrigir as frases quantas vezes forem necessárias para chegar, não digo a ficar satisfeito com as minhas palavras , mas pelo menos a eliminar as razões da insatisfação de que consigo aperceber-me. (p. 74)
Italo Calvino desenvolve depois o seu raciocínio dizendo que: “Às vezes parece-me que uma epidemia pestífera atingiu a humanidade na faculdade que mais a caracteriza, ou seja, o uso da palavra, uma peste da linguagem que se manifesta como perda de força cognitiva e de imediatismo, como um automatismo com a tendência para nivelar a expressão nas fórmulas mais genéricas, anónimas e abstractas, para diluir os significados, para embotar os pontos expressivos, para apagar toda a centelha que crepite do encontro das palavras com novas circunstâncias.(...)
E acrescentarei que não é só a linguagem que me parece atingida por esta peste. Também as imagens, por exemplo. Vivemos debaixo de uma chuva ininterrupta de imagens; os mais poderosos media não fazem senão transformar o mundo em imagens e multiplicá-lo através de uma fantasmagoria de jogos de espelhos: imagens que em grande parte estão privadas da necessidade interna que deveria caracterizar toda a imagem, como forma e como significado, como força de se impor à atenção, como riqueza de significados possíveis. Grande parte desta nuvem de imagens dissolve-se imediatamente, tal como os sonhos que não deixam marcas na memória; mas não se dissolve uma sensação de estranheza e mal-estar.
Mas talvez a inconsistência não esteja só nas imagens ou só na linguagem: está no mundo. A peste também atinge a vida das pessoas e a história das nações, torna todas as histórias informes, casuais, confusas e sem pés nem cabeça. “ (pp. 74-75)
Esclarece ainda Calvino que: “Não me interessa aqui interrogar-me se as origens desta epidemia se devem procurar na política, na ideologia, na uniformidade burocrática, na homogeneização dos mass-media, na difusão académica da cultura média.” (p. 74) O que lhe interessa são “as possibilidades de salvação” (p. 74) da linguagem que, segundo o autor, estão todas na literatura, mas apenas na literatura que corresponde à sua definição de “exactidão”: “um projecto da obra bem definido” (p. 73), “a evocação de imagens visuais nítidas, incisivas, memoráveis” (p.73) e, sobretudo, “uma linguagem o mais precisa possível como léxico e na sua capacidade de traduzir as nuances do pensamento e da imaginação” (p.73). Segundo Calvino, só esta literatura “é a Terra Prometida em que a linguagem se torna o que realmente deveria ser” (p. 74) e talvez só ela possa “criar anticorpos que combatam a expansão da peste da linguagem.” (p.74)
Dez anos após o início do milénio para o qual Calvino redigiu estas suas propostas, podemos dizer que a sua descrição se confirma em pleno: a sociedade da informação à escala global é, afinal, o grande vazio da comunicação. Na verdade, falamos, escrevemos e lemos a um ritmo cada vez mais frenético, mas estamos cada vez mais afastados de uma verdadeira comunicação, consistente e significativa. A comunicação interpessoal está saturada de mal-entendidos, de frases vazias de sentido e, sobretudo, de não-ditos, de coisas que preferimos não dizer porque a verdade, a profundidade, a autenticidade, a tal “consistência” que Calvino tanto prezava, assusta cada vez mais um crescente número de pessoas. É, pois, mais fácil, ou talvez menos doloroso, ficar pelas banalidades, pelos estereótipos e pelos rótulos. Fala-se ou escreve-se só para fazer barulho, só para entrar na corrente ininterrupta da comunicação, no faz-de-conta que estamos a comunicar, a sério, com imensas pessoas. No fundo, não passamos muito além daquilo que, em teoria da comunicação, se designa como função fática, isto é, o ruído que nos permite iniciar a comunicação ou sinalizar que estamos/continuamos a comunicar com alguém, mas que, em si mesmo, não transmite qualquer informação e não tem, por isso, qualquer consistência comunicativa. E o mesmo é válido para os media – basta ver como os telejornais são feitos da repetição sistemática das mesmas imagens e notícias até à saciedade total, para se perceber isso mesmo. E para a própria literatura: os escaparates estão cheios de calhamaços que não são mais do que ruído de fundo, centenas de páginas que não dizem nada, não acrescentam nada, não fazem pensar nem reflectir sobre coisa nenhuma. São apenas mais do mesmo. E talvez seja por isso que se tornam “best sellers”, embora se lhes possa claramente aplicar a mesma máxima das chamadas publicações “cor-de-rosa”: está feita, está morta! O que nos vale é que, no meio desta vaga gigantesca de palavreado inútil, lá vão aparecendo livros e autores que valem, de facto, a pena. E enquanto as editoras não desistirem de os publicar talvez ainda haja esperança para este milénio.
Vi e ouvi as palavras do candidato presidencial Manuel Alegre na entrevista que deu na passada 4ª feira à RTP1. Pronunciou o candidato algumas frases para mim bastante interessantes e esclarecedoras dos seus verdadeiros intuitos e motivações.
Ora diz ele então que: “Não sou um candidato do PS sou um candidato apoiado pelo PS”. Deve estar esquecido que é um dos militantes históricos do PS e que, mesmo na fase de maior dissonância com o partido, nunca deixou de ser militante, nem de ocupar o seu lugar na respectiva bancada parlamentar. Ou seja, segundo ele, basta substituir a preposição 'do' pela preposição 'pelo' para, na sua perspectiva, mudar tudo. Como se o apoio do PS fosse assim uma coisa de somenos, ou como se ele fosse apenas mais um candidato presidencial apoiado pelo PS nestas próximas eleições. Mais à frente, contudo, acabou por acrescentar que “é muito difícil ganhar uma eleição presidencial sem o apoio do PS”. Ora aí está: ficámos esclarecidos.
Depois, falando da demora do actual presidente em anunciar a sua recandidatura, lá veio com o velho papão de que o PSD continua a alimentar o sonho de ter “um governo, uma maioria e um presidente” e que a sua reeleição poderia ser o primeiro passo para o conseguir, uma vez que, ganha a reeleição, poderia vir a destituir o governo, antecipando a realização de eleições legislativas que poderiam conduzir a uma maioria governativa PSD. E o uso dos verbos no condicional é aqui muito relevante porque tudo isto não passa de conjectura. Isto como se a ambição do PS não fosse exactamente igual à do PSD. Isto como se Manuel Alegre, eleito com o apoio do PS, como ele próprio sublinha com tanta satisfação, não constituísse o terceiro vértice deste tão ambicionado triângulo de poder: presidente, governo e maioria parlamentar. Isto quando ele próprio faz questão de sublinhar que não se candidata “para governar nem para derrotar o governo na primeira oportunidade”, numa clara afirmação, perante os descontentes com o apoio que o PS lhe deu, de que podem ficar tranquilos que ele, Manuel Alegre, não irá pôr em causa o tal triângulo dourado do poder que o PS(D) há tanto tempo ambiciona (se o conseguir alcançar, claro!)
Fiquei também a saber que o candidato presidencial Manuel Alegre, lá do alto pedestal do seu auto-convencimento acha que os seus concidadãos são todos estupidos, coitados!
Já admirei o político Manuel Alegre: pretérito perfeito do indicativo.
Admiro ainda o poeta Manuel Alegre: presente do indicativo. Mas é só.
Neste blogue não houve uma suspensão temporária da democracia opinativa (que, aliás, também foi aqui uma experiência transitória e condicionada), mas sim uma eliminação nada democrática, não apenas dos escassos comentários existentes, como da possibilidade de alguém os vir a fazer. Lamento Statler's e Waldorf's deste mundo mas, nesta sulidão, prego eu e ponto final. Até porque não é por acaso que este blogue se chama sulidão. Até porque isto é um blogue e não uma rede social.
Tenho há vários dias em cima da mesa a “Breve História do Futuro” de Jacques Attali mas não me tem apetecido muito iniciar a sua leitura. Talvez porque, no fundo, espero pouco do futuro. Estou mais concentrada em arranjar forças para atravessar o pequeno deserto de cada um dos dias que se vão sucedendo no presente e acumulando numa espécie de desistória de vida, ou vida sem história. É que com as perspectivas de uma carreira profissional mais interessante arrancadas pela raíz há quatro anos atrás sei que o futuro me reserva apenas mais do mesmo, sobretudo agora que a crise veio para ficar de pedra e cal.
Mas um destes dias lá chegarei – à leitura de Attali –, nem que seja por falta de alternativas.
Agora que tanto se fala da pedofilia na igreja católica e que até já foram pedidas desculpas às vítimas (como se isso bastasse para branquear a memória do mal feito!) é bom lembrar que essa é, infelizmente, apenas a ponta do icebergue. Tem muitas desculpas a pedir a igreja católica, a começar pela brutal desumanidade com que, tantas vezes, tratou seres humanos indefesos à sua guarda. Os exemplos e as histórias - como as infames Magdalene Laundries na Irlanda - aí estão um pouco por toda a parte e nada têm que ver com amar o próximo... o que é o mais lamentável de tudo numa igreja onde se prega que "Deus é amor". Estranho amor este! E a pungente canção de Joni Mitchell só acentua o calafrio.
No livro "Hungry Planet: What the World Eats", Peter Menzel e Faith D'Aluisio fazem um curioso e interessante levantamento fotográfico em diversas zonas do planeta que permite comparar o número de elementos das famílias, a dieta alimentar de cada país, a disponibilidade de alimentos e a despesa com comida, numa semana. Estes são apenas alguns dos muitos exemplos:
Butão: Família Namgay da vila de Shingkhey
Despesa semanal com alimentação: 224.93 ngultrum / $5.03 dólares
Chade: Família Aboubakar do campo de refugiados de Breidjing
Despesa com alimentação por semana: 685 Francos / $1.23 dólares
Estados Unidos da América: Família Revis da Carolina do Norte
Despesa semanal com alimentação: $341.98 dolares
Alemanha: Família Melander de Bargteheide Despesa com alimentação em 1 semana: 375.39 Euros / $500.07 dólares
Dá mesmo que pensar, mas pelos vistos não incomoda muitas consciências...
No início do séc. XX (1904-5) Max Weber foi à procura das respostas para uma questão curiosa: por que motivo surgiu o modelo económico do capitalismo em países maioritariamente protestantes como a Inglaterra ou a Alemanha? Concluiu depois, num livro intitulado “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, que o modo de vida e as doutrinas propostas pelas igrejas protestantes dos séc. XVI e XVII, em particular o calvinismo, estabeleceram formas de vivência da religiosidade que criaram as condições necessárias ao aparecimento dos ideais capitalistas. É que os protestantes e calvinistas acreditam na predestinação, ou seja, que todos os homens nascem predestinados à salvação ou à condenação. Só que, como não existe forma de se saber qual é o nosso destino, devemos esforçar-nos para pôr as nossas capacidades ao serviço de Deus e orientar a nossa vida terrena no sentido de procurarmos ser bem sucedidos. Por isso, ter sucesso na vida terrena significa que se está protegido por Deus e isso constitui um bom indicador de que se alcançará a salvação eterna*. Esta ânsia de sucesso é, sobretudo, uma ética do trabalho que impõe uma enorme autodisciplina e um acumular de riqueza que, com o tempo, deram origem ao capitalismo tal como o conhecemos hoje, em que a única ética reconhecida e valorizada é a do lucro sempre crescente, baseado na especulação e em taxas de produtividade e de consumo febris.
É um pouco na continuidade desta linha de análise histórica e de procura de respostas que se insere o livro de um dos grandes especialistas em história contemporânea, Tony Judt, “Ill faresthe land”. Claro que, nos dias que vivemos, já há muito que a cultura capitalista moderna deixou para trás os princípios éticos e doutrinários do calvinismo e do protestantismo, tendo evoluído para o puro vazio moral do neoliberalismo. A partir da década de 80 acentuou-se mesmo “a obsessão com a criação de riqueza, o culto da privatização e do sector privado, as crescentes disparidades entre ricos e pobres. E, acima de tudo, a retórica que as acompanha: a admiração acrítica dos mercados livres, o desdém pelo sector público, a ilusão do crescimento eterno”.
“Ill fares the land” é, assumidamente, um manifesto em defesa de um dos grandes ideais políticos da esquerda: uma sociedade diferente e mais justa. O historiador defende a opinião de que, a prazo, este modelo neoliberal em que estamos mergulhados é insustentável por causa das desigualdades que gera e das tensões sociais que provoca: “Do final do séc. XIX até aos anos 70, as sociedades avançadas do Ocidente tornaram-se todas menos desiguais. Graças aos impostos progressivos, aos subsídios do governo aos mais pobres e à provisão de serviços sociais e garantias contra as desgraças imprevistas, as modernas democracias foram apagando os extremos da riqueza e da pobreza”. Porém, “nos últimos trinta anos deitámos tudo isso fora”: em 1968 o salário do CEO da General Motors que, em 1968, levava para casa 66 vezes o valor pago a um operário típico das fábricas da GM; enquanto hoje em dia o CEO da Wal-Mart ganha 900 vezes o salário médio de um dos funcionários desta cadeia de lojas. Ora, estas profundas desigualdades têm contaminado todas as camadas sociais com o vírus da violência e da exclusão. Judt alerta: “Somos muitas vezes cegos a isto, os nossos sentimentos morais foram, de facto, corrompidos. Tornámo-nos insensíveis aos custos humanos de políticas sociais aparentemente racionais.”
Por isso, nesta obra, Judt desenvolve a tese de que a social-democracia e o chamado estado-providência são os melhores modelos de governação política, de sustentação de sociedades mais igualitárias, equlibradas e consensuais, sem prejuízo da tolerância democrática e da liberdade individual. Este verdadeiro manifesto ideológico tem destinatários perfeitamente identificados pelo autor – os cidadãos dos países ocidentais, e em especial os “jovens de ambos os lados do Atlântico”, porque “a divergência e a dissidência são fundamentalmente trabalho dos jovens”, e porque “a última vez que uma geração expressou comparável frustração pelo vazio e a desinspiradora falta de sentido do mundo foi nos anos 20”.
Contudo, não é o muito apontado (nomeadamente pelos nossos desgovernantes) modelo nórdico da social-democracia que Judt defende, por considerar que também ele está crivado de erros graves que ninguém teve a coragem ou a vontade de corrigir e que, ao longo do tempo, se foram agravando: projectos de eugenia impensáveis e inaceitáveis; planeamento urbano desastroso; ausência de resposta do Estado para os socialmente desfavorecidos (bolsas de pobreza, guetos sociais, imigração), direitos que se foram tornando abusos (reformas antecipadas).
Tony Judt considera que a social-democracia não representa o passado nem o futuro ideais “Mas, entre as opções hoje disponíveis para nós, é melhor do que qualquer outra coisa ao nosso alcance”. Assim, face ao perigo dos extremismos à direita e à esquerda, o modelo que nos resta analisar, defender e desenvolver “é o consenso social do pós-guerra que mobilizou a democracia cristã, o conservadorismo britânico e alemão ou a social-democracia nórdica.” pois, apesar de tudo e como lembra Ralph Dahrendorf, “significa o maior progresso a que a História já assistiu. Nunca tantos tinham antes experimentado tantas oportunidades de vida”. Citando Adam Smith - “nenhuma sociedade será florescente e feliz se uma grande parte dos cidadãos for pobre e miserável” -, Judt invectiva os jovens ocidentais a “zangarem-se” e a criticarem quem os governa, erguendo a voz contra a actual degradação social e económica, em nome de uma suposta racionalização dos recursos, e a reclamarem que o Estado “reocupe a posição central da vida colectiva. Não o Estado totalitário dos extremismos do séc. XX, mas o Estado democrático e activista que configurou o “New Deal” e a “Great Society” nos Estados Unidos, ou o mercado social alemão”. As questões sociais continuam a ser fulcrais na agenda política ocidental e, por isso, o autor questiona: “Como devem as massas trabalhadoras ser trazidas para a comunidade – como eleitores, como cidadãos, como participantes – sem sublevação, protesto ou mesmo revolução?”. “As respostas da social-democracia mostraram-se espectacularmente bem sucedidas: não só se evitou a revolução como as massas trabalhadoras foram integradas num admirável grau”.
Judt conclui então com um apelo claro: “Temos agora de nos libertar da noção [de que] o Estado é a pior opção disponível”. Para que isso possa acontecer, os mais jovens têm de aprender com as lições do passado (“os perigos de um Estado activista”), e também aprender “a pensar o Estado de novo”
A tese de Tony Judt é também uma utopia no seu melhor sentido: o sonho de transformar o mundo através da vontade colectiva. É pena que, nestes tempos cinzentos e áridos, seja sobretudo uma voz dissonante que clama no deserto de ideias e de ideais em que estamos megulhados. É pena que tenhamos de bater mesmo no fundo para então, e só então, nos vermos forçados a começar a repensar o rumo das coisas.
*Para os católicos, pelo contrário, o acesso à vida eterna está garantido através da absolvição dos pecados confessados, pois Deus é infinitamente bom e perdoa todos os que demonstrem arrependimento sincero em relação aos seus erros e más acções. Digamos assim: é um bom princípio, mas que leva às más práticas e vidas que todos conhecemos sobejamente, até no seio da própria igreja.
Quem tem medo das palavras compra um dicionário de sinónimos.
Descobri, por acaso, que o medo das palavras também integra a longa lista de possíveis fobias e chama-se verbofobia. E a este propósito Juan de Dios Martínez comentava que o melhor então era ficar calado, ao que Elvira Campos contrapunha: “É um pouco mais complicado do que isso, porque as palavras estão em toda a parte, inclusivamente no silêncio, que nunca é um silêncio total”. (Roberto Bolaño, In 2666)