A meio da noite insonolenta, certo verso aforístico de uma canção dos The Sounds insiste em ecoar-me na cabeça - Home is where your heart is. Ora eu, que tenho a vida dividida por duas casas e cidades distintas, ainda nunca deixei de ser uma espécie de "sem abrigo": o coração (seja lá isso o que for) não está em nenhuma delas, nunca esteve. Continua à espera de encontrar um sítio para morar, uma casa a que possa chamar sua. Absurdamente, dei por mim a concluir que só encontra quem procura, e não quem se acomoda ao que tem. Veio-me então à ideia um ppt recebido no mail há uns dias: falava de ciclos que deviam ser encerrados para que ciclos novos se pudessem iniciar. Pois, e como é que se encerra um ciclo chamado a vida inteira, assim, de um momento para o outro? E será mesmo possível mudar a/de vida, ou tudo isso não passará de uma ilusão sedutora com que entreter o pensamento em alturas difíceis até que a dor se torne suportável? Depois... depois, acho que adormeci.
sábado, 14 de novembro de 2009
Pequenas alquimias
Quem me conhece bem sabe que cultivo de forma assumida e sem complexos o prazer da mesa. A capacidade que cores, cheiros, sabores, texturas, contrastes e harmonias têm de gerar prazer e bem-estar é, para mim, quase mágica. Não estou a falar da comida enquanto simples acto de manutenção biológica do corpo, mas da que é capaz de alimentar o espírito através do corpo, o que é totalmente distinto. É que, nas sociedades ditas desenvolvidas em que vivemos, e que são também as da abundância, comer é, cada vez mais, um acto socialmente construído para saciar necessidades mais psicológicas do que físicas. Para muitos (os que podem, claro!) comer e beber com/em requinte tornou-se numa forma avançada de fruição dos prazeres que a vida (ainda) proporciona e num ingrediente de felicidade.
A aventura começa desde logo na escolha dos ingredientes: as infinitas possibilidades combinatórias que oferecem desafiam a criatividade e a invenção, podendo chegar mesmo aos limites tentadores da transgressão. Contudo, não se fica por aí, a combinação de ervas aromáticas e especiarias na justa medida, os aromas que se complexificam e aprofundam à medida que a preparação avança no lume, o tempo certo para apuro do tempero - às vezes exasperadamente longo, mas compensador, à mesa, com o vinho adequado e na companhia certa. A boa comida é uma sinestesia capaz de despertar e apurar os sentidos todos (incluindo o tal sexto) e que reconforta por dentro.
Para mim, a grande alquimia da cozinha dá-se quando tudo isto é feito com e para o coração, ou seja, para as pessoas especiais na nossa vida. É curioso como as preparações mais simples, ou apenas improvisadas com os recursos disponíveis na despensa, desde que feitas com o tempero da emoção e do sentimento, dão certo. Mas mais extraordinário ainda é a forma como se consegue fazer isto estando a sofrer, a enfrentar problemas ou às voltas com as angústias do dia-a-dia. Consegue-se, porque é para as pessoas de que gostamos e que nos fazem sentir bem: a comida sabe ainda melhor quando ajuda a tirar amargos de boca. É sobre estes pequenos milagres alquímicos do quotidiano doméstico, não tão insignificantes, nem tão inconsequentes assim, que falam as cenas inesquecíveis do filme “Como água para chocolate”:
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
As palavras: ainda e sempre...
Mote
"Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio."
Eugénio de Andrade
Glosa
O problema da comunicação não está apenas nas palavras em si, ou na sua falta. Está também nas que, tendo sido ditas, não foram clarificadas e discutidas até se chegar a um mútuo entendimento do seu significado. Dizer as palavras, não é condição bastante para que exista diálogo. É preciso que alguém as ouça e lhes responda. Só assim é que podemos saber se o que dissemos foi o mesmo que o outro ouviu e entendeu. O problema é que temos cada vez menos disponibilidade mental para isso: ouvir implica uma atitude ao mesmo tempo receptiva e de aceitação do outro. Ora os tempos de hoje exigem e valorizam precisamente o contrário: iniciativa e imposição do indivíduo face aos outros. Por isso, vivemos (con)centrados em nós: os outros interessam-nos apenas quando e enquanto nos forem úteis para alguma coisa de que, claro está, seremos sempre beneficiários directos e finais. Fora desse cenário tornam-se incómodos e supérfluos, meros desvios ao que verdadeiramente interessa: eu mesmo e a minha pessoa. Nas relações, a incomunicação instala-se então à medida que o silêncio de um se vai tornando proporcional à indisponibilidade do outro para ouvir. Aliás, é cada vez mais difícil arranjar "audiência" para os nossos pequenos desabafos. (Será também por isso que na rua nos cruzamos com um número crescente de pessoas que falam sózinhas?). Psicólogos, psicoterapeutas, sexólogos, psiquiatras e afins têm claramente o futuro assegurado: afinal, muito embora sejam pagos por/para isso, ouvir os outros é a sua profissão. E há por aí muita gente a precisar de ser ouvida.
Remate
Não são as palavras que estão gastas, são as pessoas, as suas atitudes e modos de ser e de viver.
Nós, nós é que estamos gastos e precocemente envelhecidos. E, por isso, "Não temos já nada para dar".
Nós, nós é que estamos gastos e precocemente envelhecidos. E, por isso, "Não temos já nada para dar".
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Blogues: Messages in bottles
As palavras que diariamente se (des)multiplicam na blogosfera dizem um pouco de tudo, em todos os formatos. Permanecem online de modo mais ou menos anónimo, profundo, personalizado, provocador, divertido ou até pervertido. São o retrato de quem as escreve e o espelho dos dias.
Contam que estamos mais do que vivemos, que escrevemos mais do que falamos. Contam mais o que gostaríamos de ser ou viver do que aquilo que, realmente, somos e vivemos todos os dias. Contam as nossas vidas virtuais, já que as reais, essas, se tornaram demasiado áridas e não têm qualquer interesse. São narrações mais ou menos ficcionadas para entreter a solidão e o desencanto. Mas o fundamental é que, quando assim nos escrevemos, acabamos por nos re-pensar e re-criar também um pouco. Vamos fazendo pequenas re-descobertas dos lados ocultos ou há muito esquecidos e reprimidos dentro de nós.
E quem é que lê estas palavras que enviamos para a blogosfera, como se fossem "mensagens em garrafas" atiradas ao mar? A resposta mais correcta será... (quase) ninguém! É que, paradoxalmente, no mundo da comunicação globalizada, cada vez temos menos interlocutores. De modo irónico, cada avanço da tecnologia parece implicar um recuo da comunicação interpessoal: estamos a viver uma verdadeira era da incomunicação.
Para mim, os blogues assumem-se muito como uma vivência pessoal dessa incomunicação e como um esforço assertivo dos bloggers para se adaptarem aos tempos: é com estes blogomonólogos que vamos iludindo e apaziguando os fantasmas. E claro, também com a força das tuas palavras, Poeta:
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Blogues: Bottles with messages
Descobrir um novo blogue é um pouco como encontrar, à beira-mar, uma garrafa contendo uma mensagem: o autor/emissor é-nos desconhecido, tal como o intuito com que foi lançada ao oceano, ou o local e as circunstâncias em que tudo aconteceu. É quase certo que não somos o destinatário directo da mensagem que transporta consigo, mais certo ainda é que aquela mensagem nem tenha sequer um destinatário concreto. Certamente que ela não fará a diferença nas nossas vidas, mas o acaso trouxe-a até nós... Por isso, deixamo-nos vencer pelo impulso de a abrir e de ler a mensagem que contém.
Procuramos lá dentro alguma coisa, ou alguém, nem saberemos definir bem o que é, ou quem é. Mais do que o conteúdo específico de uma qualquer mensagem, no fundo, procuramos o eco dos nossos medos e angústias, procuramos a certeza de que, afinal, ainda não estamos completamente sós. Procuramos a certeza de que ainda resta alguém do lado de fora do muro que rodeia a nossa vida. Imaginamos então que, talvez, esse alguém se importe com as mesmas coisas que nós. Às vezes é só isso que temos e apenas isso nos basta.
As ironias da (in)comunicação de que estamos rodeados são o tema desta curta metragem "The message":
domingo, 8 de novembro de 2009
Rir também é terapêutico
A propósito de terapias, nada como, de vez em quando, ser capaz de rir desta tal de "solidão", ao "sul". Aqui fica uma proposta, verdadeiramente hilariante ou, como alguém dizia, um " verdadeiro tratado de representação":
O sempre actual estado da educação
Projecto pensado e realizado por mim, em 2006, para uma revista-exposição intitulada "A Medida" (que não chegou a ver a luz do dia).
sábado, 7 de novembro de 2009
As Palavras: blogodiálogo com Eugénio de Andrade
(des)compassadas (in)quietas (in)diferentes (mal/bem)educadas (des)poluídas (a)punhaladas (im)próprias (in)sinceras
(des)enganadoras (des)esperadas (af)amadas (im)pacientes
(im)previsíveis des)conhecidas (in)úteis (de/in)cisivas (in)saciáveis (des)centradas (des)encontradas (in)compreendidas ir)relevantes
(im)pensadas (ir)reparáveis des)focadas (re)torcidas (in)distintas
(in)justas (des)encantadas (im)pensáveis (enre/con)geladas
artifici(ais/osas) (in)delicadas (des)enganadas (in/re)definidas
(in)evitáveis (in)decifráveis (des)amparadas (ir)responsáveis
(f)úteis (in)audíveis (con/di)fusas (in)certas (in/des)contáveis
(des)entendidas (in)submissas (des)iludidas (in)decentes
(in)descritíveis (melan/bu)cólicas i(r/c)ónicas (com)prometidas
(im)parciais o(c/d)iosas (im)pensadas (in)decisas (des)confiadas
(ir)racionais (re)lembradas (des)conhecidas (mono/dia)logantes (res/con)sentidas (in)certas (in)desejadas amarg(urad)as
(des)ajustadas (ir)reverentes (des)elegantes soli(t/d)árias
(des/cons)truídas (ir)reflectidas requ(e/i)ntadas (enre)dadas (des/cons)truídas (des)complicadas (des)preocupadas (des)prezadas (des)apropriadas
(in)finitas
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
O "natural" ainda existe?
Ao observar a insólita actividade deste "escultor de árvores", descubro que é técnica já bem antiga. Apesar da beleza de algumas das suas criações, é estranho ver a natureza "forçada" desta maneira. Se pensarmos que as árvores também são seres vivos, não consigo evitar a associação com a velha e terrível tradição chinesa de enfaixar os pés das mulheres para impedir o seu crescimento. Forçadas a crescer de acordo com os caprichos e inspirações do seu "escultor", não sofrerão as árvores, à sua maneira, tanto quanto as raparigas chinesas? Não serão ambas as situações igualmente desumanas?
Começo a achar que a natureza, no seu "natural", está mesmo em risco de extinção.
Começo a achar que a natureza, no seu "natural", está mesmo em risco de extinção.
Proverbiais e aforísticas a duas vozes
- Se não vem até ao blogue, vai o blogue até si... (Pluma Alada)
- Quem semeia gatos, colhe assopradelas e arranhões! (Caneta)
- Vale mais um gato a miar do que um mentiroso a prometer. (Pluma Alada)
- A amizade é sempre que nós quisermos. (Caneta)
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Ainda a arte...
Não há dúvida: certos contextos são mais favoráveis do que outros à apreciação e à fruição da arte. Mas, sobretudo aqui, para apreciar é preciso saber. É preciso aprender a apreciar a arte nas suas múltiplas formas, pois afinal ninguém nasce ensinado, em especial numa área em que "criação", "re-criação" e "criatividade" são palavras-chave. Nesta matéria, a falta de conhecimento pode levar-nos a juízos de valor precipitados ou, o que é ainda mais grave, à ignorância contentinha de si mesma.
A experiência realizada em 2008, pelo Washington Post, numa estação de metro em Nova Iorque, prova isso mesmo: quando não temos informação suficiente, não conseguimos sequer identificar o que é arte, menos ainda percebê-la ou gostar dela, mesmo que ela esteja ali, à nossa frente, a entrar-nos pelos olhos e ouvidos.
A experiência realizada em 2008, pelo Washington Post, numa estação de metro em Nova Iorque, prova isso mesmo: quando não temos informação suficiente, não conseguimos sequer identificar o que é arte, menos ainda percebê-la ou gostar dela, mesmo que ela esteja ali, à nossa frente, a entrar-nos pelos olhos e ouvidos.
Ora vejamos:
a) Quem toca assim, anonimamente, na estação do metro é Joshua Bell, um dos mais consagrados violinistas da actualidade;
b) O violino com que ele toca é um Stradivarius genuíno, datado de 1713 e avaliado em mais de três milhões de dólares;
c) Três dias antes Joshua Bell tinha esgotado a lotação do Boston Symphony Hall para um concerto onde cada bilhete custava mil dólares.
a) Quem toca assim, anonimamente, na estação do metro é Joshua Bell, um dos mais consagrados violinistas da actualidade;
b) O violino com que ele toca é um Stradivarius genuíno, datado de 1713 e avaliado em mais de três milhões de dólares;
c) Três dias antes Joshua Bell tinha esgotado a lotação do Boston Symphony Hall para um concerto onde cada bilhete custava mil dólares.
Em Boston era um e único. Como tal, apreciado e devidamente pago.
No metro de Nova Iorque era apenas mais um, igual a tantos outros. Como tal, não foi sequer reconhecido, muito menos apreciado.
Com esta brincadeira (bem séria) o jornal pretendia dinamizar o debate sobre "valor, contexto e arte".
Eu acho que ela também poderia lançar o debate sobre a educação pela arte e para a arte, ou melhor, sobre a sua quase inexistência na nossa sociedade.
A Fortuna das obras de arte
Várias vezes tenho pensado no que fará a "fortuna", seja ela boa ou má, de uma obra de arte. Como explicar de modo racional que criadores e obras geniais passem quase despercebidas, enquanto outros vêem reconhecido o seu trabalho sem muito esforço? (Epi)fenómenos como "O Código da Vinci" de Dan Brown, ou o mais recente e português "Caim" de José Saramago, não têm explicação racional. Simplesmente acontecem, ou melhor, irrompem nos media. Resultam de um conjunto simultâneo de circunstâncias específicas e de contextos favoráveis à criação destas pseudo-tempestades intelectuais, muito bem geridas e exploradas por máquinas publicitárias implacáveis na sua eficácia.
Acabam por ser polémicas vazias de sentido já que não trazem grande valor acrescentado à literatura ou à própria humanidade: quando acalmar a discussão à volta de Caim, por exemplo, estaremos todos a ler mais livros e a discutir mais sobre religião? Ficaremos a conhecer melhor a obra de Saramago ou estaremos sequer mais motivados para o fazer? Não creio.
Na verdade, são momentos que se vivem de modo intenso mas efémero, até mesmo irracional, e que depois se desvanecem para dar lugar a outras "novidades". São, sobretudo, fenómenos ao serviço de interesses empresariais e ressentimentos individuais.
Mesmo assim, temos que reconhecer: não serão muitos os que, ao longo da sua vida, têm a "fortuna" de poder saborear o gozo de terem despoletado tais polémicas.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Ao km 3
Durante muito tempo, ao Km 3 da estrada, e para chegar às coisas da minha vida onde nunca estiveste, era preciso virar à esquerda.
Depois veio um tempo em que, ao Km 3 da estrada, e para chegar à parte da minha vida que eras tu, tinha sempre que seguir em frente.
Agora, ao km 3 da estrada, e para ver se ainda consigo alcançar as partes de mim que andam perdidas e dispersas, recomecei a virar à esquerda.
De vez em quando, ainda me distraio: o carro vira à esquerda e eu sigo em frente. Quando retomo a consciência, interrogo-me: estarei na estrada certa ou terei virado ao quilómetro errado?...
Imagem do blogue http://imagensdivertidas.blogs.sapo.pt/
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Uma imagem, um chavão e três equívocos
Encontrei no blogue Memórias da Lira Velha esta imagem:
Imagem e legenda exemplificam na perfeição um velho chavão e alguns equívocos que povoam por aí muitas cabeças.
Velho chavão: considerar que, ainda hoje, as mulheres pensam que mais vale um homem em casa, mesmo traste e mau carácter, do que morrer "solteira".
Equívoco nº 1 - o de achar que as mulheres continuam a acreditar na existência do "homem perfeito", tipo entidade estática e abstracta, fora do tempo, do espaço e das suas próprias circunstâncias individuais (a inversa - mulheres perfeitas - também é verdadeira);
Equívoco nº 2 - o de considerar que, fora de uma relação a dois, não existe vida, pelo menos significativa, para as mulheres, como se carreira, amigos, interesses pessoais, família, vida própria (a ordem dos factores é irrelevante), não passassem de meras diversões para ocupar o tempo enquanto se espera pelo tal "homem perfeito";
Equívoco nº 3 - o de ficar presa para além do tempo que seria normal a uma relação claramente insatisfatória por se considerar que, não existindo o "homem perfeito" ou não estando ele ao nosso alcance, 'aquele' é o melhor que se pode arranjar ou, pior ainda, que não se merece melhor.
Certo é que, seja qual for o equívoco ou o chavão, nenhum deles reflecte uma imagem muito positiva das mulheres numa sociedade em que elas "dão o litro" ao lado dos homens, todos os dias, e já mereciam mais consideração. Ainda mais certa, porém, é a dificuldade de mudar as mentalidades, até das próprias mulheres. Eu que o diga, que também me deixei equivocar durante algum tempo...
Post-scriptum: Entretanto, encontrei também esta esclarecedora e hilária definição do Jô Soares sobre o que é um "homem perfeito". Em verso e tudo!
Imagem e legenda exemplificam na perfeição um velho chavão e alguns equívocos que povoam por aí muitas cabeças.Velho chavão: considerar que, ainda hoje, as mulheres pensam que mais vale um homem em casa, mesmo traste e mau carácter, do que morrer "solteira".
Equívoco nº 1 - o de achar que as mulheres continuam a acreditar na existência do "homem perfeito", tipo entidade estática e abstracta, fora do tempo, do espaço e das suas próprias circunstâncias individuais (a inversa - mulheres perfeitas - também é verdadeira);
Equívoco nº 2 - o de considerar que, fora de uma relação a dois, não existe vida, pelo menos significativa, para as mulheres, como se carreira, amigos, interesses pessoais, família, vida própria (a ordem dos factores é irrelevante), não passassem de meras diversões para ocupar o tempo enquanto se espera pelo tal "homem perfeito";
Equívoco nº 3 - o de ficar presa para além do tempo que seria normal a uma relação claramente insatisfatória por se considerar que, não existindo o "homem perfeito" ou não estando ele ao nosso alcance, 'aquele' é o melhor que se pode arranjar ou, pior ainda, que não se merece melhor.
Certo é que, seja qual for o equívoco ou o chavão, nenhum deles reflecte uma imagem muito positiva das mulheres numa sociedade em que elas "dão o litro" ao lado dos homens, todos os dias, e já mereciam mais consideração. Ainda mais certa, porém, é a dificuldade de mudar as mentalidades, até das próprias mulheres. Eu que o diga, que também me deixei equivocar durante algum tempo...
Post-scriptum: Entretanto, encontrei também esta esclarecedora e hilária definição do Jô Soares sobre o que é um "homem perfeito". Em verso e tudo!
Terapia alternativa
As medicinas alternativas estão por todo o lado. As terapias, mais ou menos convencionais, também. O objectivo de todas elas é vencer ou, pelo menos, aprender a conviver mais pacificamente com o stress, a depressão, a insónia e afins, e evitar, tanto quanto possível, cair nos chamados "químicos" que nos roubam a alma e deixam como zombies. A musicoterapia, a dramaterapia e outras formas terapêuticas associadas a manifestações artísticas, começam pois a generalizar-se com resultados bastante animadores. Outros, contudo, preferem integrar oficinas de arte e dedicam-se à pintura, à escultura, à cerâmica ou à dança... Começam até a realizar-se sessões de karaoke terapéutico, durante as quais se espantam os males a cantar.
Serve este intróito apenas para dizer que há já quem esteja até a preparar tese de doutoramento sobre escrita terapêutica. Pensando um pouco naquilo que é a blogosfera não é nada difícil fazer a associação entre ambas: que são muitos blogues - a começar por este -, senão formas mais ou menos terapêuticas de conseguir aguentar o peso dos dias e das noites sem enlouquecer de vez?
Que são um número crescente de blogues, senão uma forma inteligente de arranjar tempo para si mesmo - o tempo da escrita -, para tentar entender o mundo estranho que nos rodeia?
Que são muitos blogues, senão uma forma de diálogo e de reflexão - tantas vezes brilhante, embora desconhecida do grande público - sobre temas banidos das conversas diárias com os outros, por manifesta falta de tempo ou de disponibilidade mental para isso?
Que são muitos blogues, senão uma forma de dizer que estamos aqui, que pensamos, que temos alma e coração, que queremos e sonhamos coisas, mesmo quando (ou sobretudo quando) o mundo parece não se dar conta de que existimos?
Que são muitos blogues, senão formas mais ou menos elaboradas de iludir a solidão?
Que são muitos blogues, senão o repositório da nossa esperança diária em manter a sanidade mental por mais algum tempo?
Que são muitos blogues, senão uma espécie de viagem à roda de si mesmo, uma forma barata, até ecológica (não se gasta papel) de auto-conhecimento e de auto-aprofundamento?
Parece-me mesmo que há já no vasto universo blogosférico abundante matéria para várias teses de doutoramento...

A imaginação também é uma coisa assim: Fun Theory
A Fun Theory é uma criação da agência de publicidade DDB e da Volkswagen e foi implantada numa escada do metro de Estocolmo. O objectivo era chamar a atenção dos suecos para a necessidade de fazer mais exercício físico trocando, por exemplo, as escadas rolantes pelos tradicionais degraus. O resultado é surpreendente e prova que, para tudo, só é preciso um pouco de imaginação.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Outras formas de ser português
Não há muito tempo, no meio das mensagens de inutilidade variável que todos os dias me caem no mail estava aquilo que pode classificar-se como a definição de uma certa forma de ser português. Pelo tom e estilo da linguagem usada diria até que estamos perante uma forma exaltada, ostentatória e literal de ser Tuga.
A julgar pelo número de vezes que já deve ter sido reencaminhada pelos mails do país inteiro, diria que alguém quer mesmo fazer passar a mensagem.
Tratando-se ainda por cima de texto anónimo, (nestas coisas os Tugas não brincam!), temos aqui arroladas atitudes, acções, crenças, valores, hábitos e pré-conceitos que colocam a portugalidade em maus lençóis e que nos fazem pensar que os limites da mediocridade estão cada vez mais esbatidos e os espíritos mais estreitos. Dizia então assim:
SER PORTUGUÊS É:
Levar arroz de frango para a praia.
Guardar as cuecas velhas para polir o carro.
Lavar o carro na rua, ao domingo.
Ter pelo menos duas camisas traficadas da Lacoste e uma da Tommy (de cor amarelo-canário e azul-cueca).
Passar o domingo no shopping.
Tirar a cera dos ouvidos com a chave do carro ou com a tampa da esferográfica.
Ter bigode.
Viajar pró cu de Judas e encontrar outro Tuga no restaurante.
Receber visitas e ir logo mostrar a casa toda.
Enfeitar as estantes da sala com os presentes do casamento.
Exigir que lhe chamem 'Doutor' ou que o tratem por Sr. Engenheiro.
Axaxinar o Portuguex ao eskrever.
Gastar 50 mil euros no Mercedes C220 cdi, mas não comprar o kit mãos-livres, porque 'é caro'.
Já ter 'ido à bruxa'.
Filhos baptizados e de catecismo na mão, mas nunca pôr os pés na igreja.
Não ser racista, mas abrir uma excepção com os ciganos.
Ir de carro para todo o lado, aconteça o que acontecer, e pelo menos, a 500 metros de casa.
Conduzir sempre pela faixa da esquerda da auto-estrada (a da direita é para os camiões).
Cometer 3 infracções ao código da estrada, por quilómetro percorrido!!!
Ter três telemóveis.
Gastar uma fortuna no telemóvel mas pensar duas vezes antes de ir ao dentista.
Ir à bola, comprar o bilhete 'prá-geral' e saltar 'prá-central'.
Viver em casa dos pais até aos 30 anos ou mais.
Ser mal atendido num serviço, ficar lixado da vida, mas não reclamar por escrito 'porque não se quer aborrecer'.
Falar mal do Governo eleito e esquecer-se que votou nele.
Só para contrariar e completar ainda mais este retrato contentinho (sou mesmo uma desmancha-prazeres!) aqui ficam mais umas quantas. (Ah, quando tiver "pachorra" envio aí para os mails do pessoal todo):
Levar o saco do lixo no carro para poder depositá-lo na beira da estrada, o mais longe possível do contentor mais próximo.
Abandonar cão, gato ou avózinha antes de ir de férias pró Algarve para poupar dinheiro.
Ao telemóvel, durante a chamada, colocar alguém em espera por diversas vezes, para atender outras chamadas.
Usar a mulher e/ou os filhos como saco de pancada, apenas porque pode.
Achar que a Sida é coisa de maricas.
Ter necessidade imperiosa de se assoar para o chão, especialmente quando se cruza com alguém na rua.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Mulher, portuguesa e parva, também
Num tempo em que as questões de género voltam a ser discutidas e são mesmo objecto de formação académica, relembro um texto publicado em 2007, pela socióloga Maria Filomena Mónica, intitulado "As mulheres portuguesas são parvas". Nele se discorre de modo acutilante sobre a situação das mulheres na sociedade actual: De certa forma, o destino das raparigas na casa dos trinta ou quarenta anos corre o risco de ser pior do que o meu. Quando casei, o que de mim se esperava, além da procriação continuada, era que passasse o dia a arrumar a casa, a cozinhar pratos requintados e a vigiar a despensa. Hoje, a estas tarefas vieram juntar-se outras. As mulheres modernas são também supostas ser boas na cama, profissionais competentes e estrelas nos salões. Mas isto é uma utopia. Nem a mais super das supermulheres pode levar as crianças à escola, atender os clientes no escritório, ir à hora do almoço ao cabeleireiro, voltar ao escritório onde a espera sempre um problema urgente, fazer compras num destes modernos supermercados decorados a néon, ler umas páginas de Kant antes de mudar as fraldas do pimpolho, dar um retoque na maquilhagem, telefonar a três "babysitters" antes de arranjar uma, ir ao restaurante jantar com os amigos do marido, discutir a última crise governamental e satisfazer as fantasias sexuais democraticamente difundidas pelos canais de televisão. [claro que a combinação de tarefas varia fortemente em função do estrato social de cada uma, acrescento eu]
Sejamos claras e deixemo-nos de preconceitos feministas, que muito têm sido usados para que tudo continue na mesma, até por nós, mulheres, o que é ainda mais de lamentar: Ah, pois, já estou a perceber, afinal, também és feminista!...(rsrs), és das tais, que não gostam de homens (rsrs)!!!
Somos hoje mulheres mais formadas, mais cultas, com carreiras profissionais muito intensas mas, afinal, lá no fundo no fundo, continuamos a "servir" os nossos homens tal como as nossas avós e mães sempre fizeram no passado. Desgastamo-nos e envelhecemos precocemente a correr de um lado para o outro, para chegar de modo atempado, eficiente e "com ar fresco" a tudo e a todos. O que nos mantém de pé, ao fim de certos dias, é apenas a satisfação do dever cumprido, de termos mesmo conseguido fazer tudo, nada mais! Muitas vezes, nem sequer temos o prazer de ver reconhecido o nosso esforço quase sobre-humano. Mas sejamos francas: ninguém consegue manter este ritmo por longos períodos de tempo sem comprometer seriamente a sua saúde física e mental! E, quando precisamos de ajuda ou de apoio, descobrimos que eles não têm paciência nem tempo para nós. Limitam-se a olhar-nos com um sorrisinho sarcástico e a dizer que "estão cansados" ou, o que é ainda mais conveniente (para eles é claro!), "que não sabem lidar connosco", que somos "muito complicadas" e "exageradas". Claro que, como em tudo na vida, há excepções. Mas, infelizmente, na maior parte dos casos, elas continuam é a confirmar a regra...
A culpa disto, claro está, é exclusivamente das mulheres: não só continuamos a aceitar tácita e pacificamente este estado de coisas como, ainda por cima, continuamos a alimentar o sistema por dentro, ao educarmos os nossos filhos e filhas nestes valores e princípios velhos de séculos. Assim, será muito difícil que as coisas possam vir algum dia a mudar, de facto, na relação homem/mulher.
domingo, 1 de novembro de 2009
Dizer-se nas palavras alheias
Estas palavras não são minhas, mas dizem-me tão bem, dizem com tanta força o que vai dentro de mim, que são minhas, também. Aliás, sempre me arrepiou e fascinou esta sensação de, subitamente, me encontrar comigo dentro de um poema - como se estivesse frente ao espelho, ou como se eu própria o pudesse ter escrito - e perceber até que ponto ele diz mais, e diz melhor, sobre mim mesma do que eu jamais seria capaz, nem que escrevesse mil páginas...
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.
David Mourão Ferreira, Matura Idade, Ed. Arcádia
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.
David Mourão Ferreira, Matura Idade, Ed. Arcádia
Dia dos Fiéis Defuntos
No México, e em outros países da América Central, o dia dos Fiéis Defuntos é de alegria e de festa - classificado até pela Unesco como Património da Humanidade -, dedicado a celebrar exuberantemente a vida, enquanto a há, e a afugentar o medo da morte.
Por cá não é bem assim. Por razões de conveniência prática, começa por ser assinalado (e não festejado) antecipadamente, a 1 de Novembro. É por isso que, um pouco à semelhança do deserto depois da chuva, hoje, os cemitérios povoam-se de gente e enchem-se de flores efémeras. Embora estes tapetes coloridos e vistosos se estendam a perder de vista, o ambiente é pesado, passam rostos fechados que falam baixinho, aqui e ali ouvem-se breves soluços. Não são os finados, esses, ao que tudo indica, descansam indiferentes. São os que se finam um pouco mais a cada dia que passa que assim andam, nesta azáfama matutina.
Desde manhã bem cedo que um certo verso não me sai do pensamento: “...que a morte seja uma aventura que um dia há-de chegar”. Integra um poema intitulado “Um mundo melhor” e foi escrito pela Daniela, de doze anos.
Que assim possa ser, um dia...
Subscrever:
Mensagens (Atom)
