domingo, 6 de dezembro de 2009

Desenha uma flor!

Ao ver os extraordinários desenhos que esta jovem faz usando a areia como tela e as suas próprias mãos, quase como um bailado, num misto de delicadeza e de segurança, lembrei-me do maravilhoso texto de Almada Negreiros:

Pede-se a uma criança: Desenha uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor
in "O Regresso ou o Homem Sentado - III parte


Sábado à tarde a tentar esmiudar a arte contemporânea

No final de novembro, postei um vídeo realizado durante a ARCO, o qual me pareceu ser muito pertinente para levantar a interrogação sobre o que é arte nos dias que vivemos. Mesmo a propósito, o Público, no seu suplemento P2 de 26 de Novembro, publicou um extenso e excelente artigo de Vanessa Rato, redigido a partir de uma entrevista telefónica ao crítico e historiador de arte Hal Forster, cujo ponto de partida é a seguinte interrogação: O que podemos esperar da arte no século XXI?

O artigo começa por definir o que se entende por arte contemporânea: “… é, em si mesma, na sua estrutura, na sua aparência, instável, insegura. São trabalhos que quase não se sustêm. É uma escultura ou instalação que não se aguenta em pé como imagem ou como objecto. São obras que se recusam a ser integradas. (…), que se recusam a assumir a habitual condição da arte, que é parecer-se com qualquer coisa identificável com pintura ou com fotografia ou com o que quer que seja. São trabalhos que recusam a completude, uma resolução última. Que traduzem, nos próprios termos em que são feitos, uma impossibilidade.”

Mais à frente explica como é que se chegou aqui: “… ao longo dos últimos 20 anos, (…) a arte cresceu exponencialmente, tornou-se internacional e depois global. Hoje há todo o tipo de tradições e histórias da arte a considerar. Não há uma, duas ou três linhas que possamos traçar ao longo do tempo e que funcionem e possam conferir um sentido narrativo ao presente. De novo: fazemos relações horizontais entre as coisas, relações sincrónicas e não diacrónicas.

Hal Forster expõe depois a sua opinião sobre o assunto, declarando que “… uma das coisas que a arte pode fazer por nós é situar o nosso momento no tempo em relação a momentos passados. Quando essa relação é despedaçada, a leitura do presente torna-se difícil. Até à minha geração, os artistas pensavam no seu trabalho em relação aos precedentes. Hoje há uma ênfase muito maior nos universos pessoais, os projectos são muito mais ad hoc. Por exemplo, quando um artista avança de projecto para projecto o suporte já não é uma questão. Muda o projecto, muda o suporte, a forma de o concretizar.” E conclui então, dizendo: “Tento manter-me tão actualizado quanto possível, mas porque a arte contemporânea se tornou um campo tão vasto, tornámo-nos todos um pouco no cego em relação ao elefante: apalpamos pequeníssimas partes do todo e imaginamos que, a partir delas, poderemos entender o que é aquela besta imensa. Acontece que isso é impossível.”

Agora, concluo eu: se o especialista na matéria se sente como “o cego que apalpa o elefante”, como é que nós, simples público sem grandes conhecimentos ou formação, nos havemos de sentir, na ARCO ou em qualquer outro sítio, face a um quadro dito de arte contemporânea pendurado na parede? Que poderemos dizer? O melhor, se calhar, é não dizermos nada!

O tempo que faz

Além da vida alheia, também o tempo que faz é cada vez mais o assunto das conversas no dia-a-dia, embora isso nada tenha que ver com uma maior consciência ou preocupação relativamente às alterações climáticas que afectam o planeta. É antes uma forma de manter conversa amena, até simpática, com alguém sem ter que fazer um grande esforço e, sobretudo, sem ter que dizer nada de muito comprometedor ou revelador sobre nós próprios. Pelo menos, era isso que eu pensava até ler um curioso estudo sobre o assunto. Segundo Bruckner (2000), na transição do séc. XVIII para o XIX, a meteorologia deixou de ser uma ciência da previsão – útil sobretudo para a vida rural e marítima - para se tornar uma ciência da intimidade e do humor. Considera ainda o mesmo autor, que o humor não é mais do que a relação entre um mundo em permanente mutação e nós próprios, seres igualmente volúveis. Por isso, se não nos acontece nada de significativo, pelo menos pode acontecer-nos que chova, que faça vento ou que o sol brilhe: Le charme du temps qu'il fait, c'est son instabilité, c'est donc aussi le charme du temps qui passe, d'un kaléidoscope toujours mobile (p.115).

A meteorologia tornou-se, pois, um assunto muito sério. Basta pensar como uma bela manhã de sol nos deixa cheios de energia e optimismo e como um céu cinzento é capaz de nos mergulhar na mais profunda melancolia. Mas, também pode acontecer que um dia de sol nos traga memórias tristes, que a chegada de nuvens negras nos encha de esperança ou que um nevão nos deixe eufóricos. No fundo, e apesar de rodeados por tecnologia avançada, não controlamos mais o clima do que os nossos próprios estados de alma. Daí a nossa perplexidade e curiosidade perante ambos.

Por isso, quando falamos da meteorologia com alguém, mesmo sem termos consciência disso, estamos realmente é a falar de nós, da fragilidade da nossa relação com o mundo, da nossa profunda instabilidade emocional, do constante dilema interior entre a vontade de estar em harmonia com esse mesmo mundo (espécie de dependência que pode até ser humilhante) e a vontade de independência e autonomia (que pode levar-nos ao isolamento irremediável).

Seja como for, certo é que, depois de ter lido isto, não volto a falar - nem a ouvir falar - do “tempo que faz” da mesma forma.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Cicatrizes

Enquanto escrevo, reparo como tenho as mãos enrugadas, cobertas de pequenas manchas. A pele está seca, áspera e envelhecida. Por dentro e por fora. São cicatrizes da luta corpo-a-corpo que travo todos os dias com um adversário implacável: a vida.

Os dedos de uma só das minhas mãos sobram para contar as vezes que, até hoje, consegui ganhar o combate.

A banda sonora dos meus dias

A música de Leonard Cohen é a banda sonora dos meus dias e noites, desde há muitos, muitos anos. Há mesmo alturas em que a ouço quase obsessivamente.

Sempre tenho admirado a forma como Leonard Cohen fala das mulheres na sua música e nas entrevistas que dá.  Quando em 2004, ouvi Because of, no álbum "Dear Heather", senti-me lisonjeada, como se aquelas palavras tivessem sido escritas de propósito para mim.

Obrigada Leonard: a tua música, a tua voz, as tuas palavras, a tua gentileza e a tua fragilidade fazem bem à minha alma. Que possas cantar assim to the end of love...

 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Chuva

Manuel Alegre escreveu um dia que:

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

In O Canto e as Armas

Mas com as mãos se pode, também, fazer chuva, vento e trovões. Não a chuva que, de forma insistente, bate nos vidros da janela, feita de água e de frio, mas chuva feita de som e de imaginação...

 

A vida secreta das canções de amor

Há já muitos anos que me identifico com a música de Nick Cave. Reconheço-me nela, na sua inquietação, na sua instabilidade emocional, nas sensações fortes que percorrem, desde sempre, a sua obra. Na música de Cave what you see, is what you get e é mesmo assim que eu gosto.

Em 1998, Cave aceitou o convite de uma universidade austríaca para leccionar um curso sobre a escrita de canções. Havia apenas uma condição prévia: teria que dar uma aula pública sobre um tema à sua escolha. Nick Cave escreveu, e leu, um belíssimo texto intitulado "The Secret Life of the Love Song". Nele falou da sua infância na Austrália, da influência que o pai, professor de literatura inglesa, teve sobre ele e, sobretudo, da escrita muito peculiar das canções de amor.

Sobre elas Cave diz: Though the love song comes in many guises – songs of exultation and praise, songs of rage and of despair, erotic songs, songs of abandonment and loss – they all address God, for it is the haunted premises of longing that the true love song inhabits. It is a howl in the void, for Love and for comfort and it lives on the lips of the child crying for his mother. It is the song of the lover in need of her loved one, the raving of the lunatic supplicant petitioning his God. It is the cry of one chained to the earth, to the ordinary and to the mundane, craving flight; a flight into inspiration and imagination and divinity. The love song is the sound of our endeavours to become God-like, to rise up and above the earthbound and the mediocre. (...)

Love songs, and therefore, by my definition, sad songs. Out of this considerable mass of material, a handful of them rise above the others as true examples of all I have talked about. Sad Waters, Black Hair, I Let Love In, Deanna, From her to Eternity, Nobody's Baby Now, Into my Arms, Lime Tree Arbour, Lucy, Straight to You; I am proud of these songs. They are my gloomy, violent, dark-eyed children. They sit grimly on their own and do not play with the other songs. Mostly they were the offspring of complicated pregnancies and difficult and painful births. Most of them are rooted in direct personal experience and were conceived for a variety of reasons but this rag-tag group of love songs are, at the death, all the same thing – life lines thrown into the galaxies of the divine by a drowning man.

Into my Arms, do álbum "the boatman's call" é uma das minhas preferidas, pela música e, sobretudo pelo belíssimo poema. Por isso figuraria na lista das "canções da minha vida", seja lá o que isso for:


terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Amanhã

Lá fora, um nevoeiro espesso, quase leitoso, envolve as coisas e os seres, como se os quisesse dissolver. A casa está mergulhada num silêncio frio. Amanhã está a escassas horas de distância. O dia chega ao fim e eu folheio o livro. No poema, há uma expressão que se destaca, quase um refrão:

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que eu vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas, p. 80
(sublinhado meu)

Amanhã é novamente dia de fingir que está tudo bem.

Ai este País, coitado...

Segundo a comunicação social, a campanha de recolha do Banco Alimentar foi a maior de sempre. Acredito, pois somos cada vez mais o País dos Coitados. Em vez de exigirmos competência e eficácia a quem governa os nossos parcos recursos, pactuamos é com quem enche os bolsos à nossa custa. Quando alguém chega a ser acusado de corrupção é sempre a mesma coisa: a montanha só pare ratos. E nem o sistema permite que possa parir outra coisa! Para isso acontecer seria necessário termos coragem e já se percebeu que não a temos. Os poucos casos de corrupção que se tornam estrelas do circo mediático são disso bom exemplo. Somos cada vez mais um país de crápulas, de arrivistas e de chicos-espertos. Coitado de quem não tiver capacidade de surfar estas ondas alterosas e mais coitado ainda será quem não estiver disposto a vender a alma e a dignidade, pois acaba triturado.

Deve ser por isso que, além de pagarmos os nossos impostos até ao último cêntimo (aqueles que os pagam, claro!), estamos sempre disponíveis para, do nosso bolso, ajudar quem precisa. Isto porque, lá bem no fundo, já sabemos que o dinheiro dos nossos impostos nunca chega a quem necessita, de facto, de ajuda. Ele serve é para manter o sistema como está (e não é nada barato!) e para encher os bolsos de quem sabe mexer os cordelinhos e tem amigos bem colocados na vida.

Qualquer dia precisamos de ganhar três salários: um para pagar o sistema, claro está, outro para ajudarmos quem precisa e o terceiro para nós próprios podermos sobreviver. Merecemos bem a sátira de Armindo Mendes de Carvalho. Ai! Ele sabia bem do que falava...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A ternura também é uma voz assim

A ternura também é uma voz que acaricia a pele, serena a escuridão e enche a alma de música, como se fosse uma canção de embalar.


Virtual versus Real

Escrever num blogue é uma estranha e poderosa sensação: de repente, parece ser possível manipular o mundo a partir do cantinho anónimo da nossa casa. Está-se no mundo sem, contudo, estar de facto lá. E este, por sua vez, entra, de forma perfeitamente controlada, e controlável, na nossa vida, ou melhor, no nosso pc. O risco é mínimo, desde que as regras sejam cumpridas. Diz Bruckner (2000) que o virtual é “uma disciplina de filtragem que ergue discretas muralhas e instaura um ambiente asséptico, no qual posso fruir do mundo sem lhe atribuir o direito de me magoar ou de me punir.”.

É tão compensador e libertador que a tentação de ficar lá por períodos de tempo cada vez mais longos, escapando assim aos constrangimentos que nos cercam, é bem concreta. Às vezes, o mundo virtual faz até mais sentido que o real: desde logo, porque se submete aos nossos desígnios e concretiza os nossos desejos mais secretos. Por isso é tão cativante. O problema é que, se não tivermos cuidado, também nos pode fazer perder uma certa visão panorâmica da realidade, ao ponto de esta aparentar não ser mais do que um conjunto de pessoas intrometidas, mal intencionadas e, de um modo geral, apenas suportáveis por períodos de tempo cada vez mais curtos.

No fundo, os mundos virtuais são como todo os paraísos artificiais, bons ou maus consoante o uso que deles fazemos. Por isso não fará mal lembrar um princípio do pensamento estóico, que pode bem aplicar-se aqui. Dizia Marco Aurélio que, para tornar a vida suportável, o homem deve reflectir sobre si próprio: “Os que não observam os movimentos da própria alma, esses são fatalmente uns desgraçados.” (Pensamentos, II,8).

Espero bem que a escrita me ajude à concentração da alma sobre si mesma, e transforme este blogue em caminho virtual para uma forma real de ataraxia. Que este blogue seja como diz o Poeta:

Alexandre: faz como eu.
Fecha-te nestas quatro paredes,

mas sonha que andas lá por fora
(na terra sem céu)
a matar as sedes
da gente que chora.

O moleiro mói melhor a farinha para o pão
no isolamento do moinho,
mas com a condição
de ouvir bater no coração
o do vizinho.

Acredita, Alexandre, que a solidão
é boa para não estar sozinho.

José Gomes Ferreira, Poesia VI

Utopia

Um “golpe de vista” pouco habitual em mim, permitiu-me descobrir que a Utopia, afastada do mundo há já muitos anos, se refugiou no Alentejo, bem perto de Estremoz. Abriga-se num modesto muro meio arruinado, camuflada por silvas e rodeada de destroços. Não há como dissimular a degradação a que chegou. Por isso, não admira que o mundo esteja na desordem que sabemos...



sábado, 28 de novembro de 2009

Ukulele

Jake Shimabukuro é um virtuoso. Toca magistralmente um instrumento chamado Ukulele, que tem uma história curiosa. No séc. XIX, foi levado por portugueses - no caso, emigrantes madeirenses - para o Hawai, onde se tornou no instrumento central do folclore havaiano.
Mas o destino fulgurante deste instrumento não se ficou por aqui, entrou depois em força (mais uma vez por via da emigração) na música country americana e fez mesmo parte da história inicial da música rock americana.


sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Cada cabeça, sua sentença

Alguém me enviou por mail este pequeno filme sobre uma experiência muito peculiar que jornalistas da televisão espanhola resolveram fazer durante a Arco:
 

Pegando no desafio final da repórter, várias questões se levantam depois de ver este vídeo:

As pessoas serão mesmo assim tão crédulas ou, naquele contexto específico(ARCO), pôr em causa o valor de uma obra de arte é algo impensável (tipo: se está lá, é bom).

Por vezes, a arte contemporânea impõe ao público coisas tão estranhas, tão inesperadas ou tão corriqueiras, dizendo que são arte que, para um leigo, se tornou difícil discernir.

A chamada democratização da arte, através do design, entrou de tal maneira no nosso quotidiano que quase tudo parece ser arte ou, pelo menos, artístico.

Uma questão curiosa levantada pela repórter foi a do preço: toda  a gente achou que quinze mil euros eram um preço até razoável(!) para um quadro, só pelo facto de estar exposto na ARCO.

Mas o que achei mais curioso foram as opiniões/interpretações dos entrevistados: é cada cabeça, sua sentença, mesmo!

Parece que, actualmente, em arte, vale mesmo tudo!

Conto de Natal

Já começou a febre natalícia, espécie de silly season fora de época que deixa toda a gente num frenesi hipnótico a comprar "prendinhas" para meio mundo e a dizer "bom natal e  feliz ano novo" a (des)propósito de quase tudo. 

As televisões e os cinemas anunciam os “contos de natal” de todos os anos e alguns bloggers começam a postar textos e imagens alusivas à quadra. Decidi também entrar na onda e postar desde já o meu “Conto de Natal”. É uma curta-metragem com milagres q.b., clichés em cascata, imagens virtuais e, sobretudo, muito fun, como convém aos tempos que vivemos.

Exactamente como explica Pascal Bruckner (2000, p. 114) no ensaio “L’Euphorie Perpétuelle – essai sur le devoir de bonheur”: le fun est contemporain du virtuel et témoigne comme lui de la même volonté de dématérialiser le monde, de bousculer les frontières de l’espace et du temps. (...) le fun nous plonge dans l’enchantement du conte de fées: le désir y triomphe de toutes les épreuves et rencontre sans peine sa satisfaction. (...) Avec lui la vie devient un jeu pour lequel nous n’avons aucun prix à payer.

E World Builder de Bruce Branit é tudo isso, portanto é perfeito para a quadra que atravessamos. Aliás, também quero que o meu Natal seja assim: virtual e fun.

Bisbilho(idio)tice


Nos locais habituais do meu dia-a-dia, cruzo-me quase sempre com as mesmas pessoas: colegas, vizinhos, conhecidos ou apenas (re)conhecidos... Verifico diariamente, sem grande surpresa, que os temas de conversa também não variam muito. A chamada coscuvilhice é um dos mais frequentes. Aliás, está em todo o lado, por isso, não admira que esteja muito presente nas conversas.

São dezenas as revistas que, todas as semanas, nos mantêm informados, com abundância de detalhes e provas fotográficas, sobre a vida dos ditos “famosos” da nossa sociedade. Os próprios talk-shows televisivos ocupam grande parte do seu tempo e do dia dos espectadores com o tema, discutido ao pormenor por painéis de especialistas na grande arte (ou será já ciência?) de esmiuçar a vida alheia: quem anda com quem, quem se juntou com quem, quem se divorciou de quem, quem estava a falar com quem, quem se reconciliou com quem, quem foi apanhado na cama com quem, etc, etc. Também nas chamadas redes sociais da net – Facebook e Twitter – as “novidades” circulam fresquinhas e quase ao segundo e o people anda frenético e feliz com tudo isto. Mesmo jornais de âmbito nacional, com algum peso e crédito, como é o caso do Público, não escapam a esta onda e lá está a página diária de pequenas notícias sobre os famosos do mundo. Com esta lavagem cerebral tão intensa, não é de admirar que seja um tema habitual de conversa. Penso é que doses maciças deste elevado assunto só podem conduzir à idiotice total.

Não quer dizer que eu própria esteja imune. De vez em quando, também caio em tentação e procuro saber onde andam e o que fazem o Javier Bardem, o Antonio Banderas ou o Benicio del Toro, por exemplo. Afinal, são colírio para olhos secos e cansados, convém ir verificando se o medicamento ainda está dentro da validade. Mas, de uma forma geral, a vida alheia (seja a dos famosos, seja a dos outros) é assunto que cada vez me interessa menos e irrita mais.

Se fosse na América já alguém teria inventado uma “teoria da conspiração” sobre este fenómeno. Assim género série do AXN: agentes secretos decobriram que está em marcha uma campanha de intoxicação dos espíritos ou, se calhar, apenas de entorpecimento. Entretanto, enquanto estamos todos entretidos com a cusquice mais recente, a personagem sinistra e misteriosa por trás de tudo isto anda a tramar coisas estranhas. Quando passar a hipnose geral e as consequências nos cairem em cima é que vai ser o bonito...


Nota: ilustração de Norman Rockwell -  Gossip

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Comer

Não é por acaso que o verbo comer se usa na mesa e na cama. Também não é por acaso que muitas noites de sexo começam na mesa, transformando-se a comida numa espécie de preliminar para o que virá a seguir. Será porque, num corpo saciado, o espírito está mais tranquilo, mais prediposto e menos à defesa? Veja-se, a título de exemplo, este outdoor publicitário brasileiro, que explora essa ligação na sua plenitude e sem qualquer preconceito:



O sexo não deixa de ser também uma forma de comer o corpo do outro, na medida em que  implica trazer o outro para dentro de si, à semelhança de qualquer alimento. O sexo - tal como a mesa – é, pois, um acto de partilha e de entrega dos corpos, das vontades e dos corações, motivado por um único objectivo: o prazer sensorial. Uma relação física exige, como qualquer prato requintado, a justa medida de cores, odores, sons, sabores, texturas...E se o tempero estiver certo, então, é toda uma experiência... Por isso, a interacção dos dois universos – cama/mesa - só pode ser potenciadora do prazer que, cada um por si, já proporciona.


Tudo isto está neste excerto de “9 ½ Weeks” de Adrian Lyne, realizado em 1986, cujo ponto de partida é uma afirmação aparentemente anódina do protagonista: "Estou esfomeado." É o início de um ritual que mistura curiosidade, brincadeira, generosidade, desejo e transgressão. E quem, de olhos fechados, confia, abrindo o espírito (e a boca) ao inesperado, liberta-se e parte à (re)descoberta de si e do outro. É uma metáfora do próprio acto sexual: a voracidade que vai em crescendo até ser surpreendida pelo picante da malagueta e que culmina numa espécie de “cântico dos cânticos”: o rio de leite e mel derramado sobre o corpo. Afinal, a fome de Rourke era fome de pele...




Nota: Se um dia fosse possível, bem gostaria de organizar um ciclo de cinema sobre a relação entre os filmes e a comida. Algo assim para deixar muito boa gente com “água na boca”...

domingo, 22 de novembro de 2009

O sétimo dia

Imagem tirada de http://samarabrandao.wordpress.com/
E, ao sétimo dia, Deus-Criador interrompeu a sua árdua tarefa para descansar e disse às suas humanas criaturas que, dali em diante, fizessem o mesmo... Claro que, naqueles longínquos tempos, o supremo Criador ainda não tinha inventado essa estranha coisa hoje conhecida como Rotina. Exige ela que executemos, com perfeita simetria mecânica, uma coreografia ritmada pelo relógio: as mesmas coisas, nos mesmos dias, às mesmas horas. São pequenos rituais de sufocação que anestesiam o pensar, o sentir, a memória, até mesmo a consciência. Muitas vezes, aí pelo meio da semana, sinto falta de estar a sós comigo. Sinto falta de ter tempo para mim, para as coisas que gosto, para o que dá sentido à pessoa que sou. Penso então no fim-de-semana que virá como uma espécie de óasis redentor.

Contudo, à medida que os anos vão decorrendo, o domingo tem-se tornado para mim um dia ainda mais estranho que todos os outros. Não encaixa. Não bate certo. Tanta coisa sonhada e pensada durante a semana, na expectativa do domingo mais próximo! Porém, uma vez chegado, nada é realizável, pois um único dia é insuficiente para tudo o que imaginei. Dou comigo a fazer pequenas coisas dispersas, meio perdida nas horas longas de um dia, que, afinal, é demasido curto. O “grande dia” acaba por escorrer intranquilo, perseguindo a miragem de uma plenitude nunca alcançada (inalcançável?) até se transformar numa espécie de promessa não cumprida. O sétimo dia da semana não faz mais sentido do que qualquer outro. Falta-lhe, ou melhor, falta-me algo. Ironicamente, concluo: a Rotina! Aquela que enforma e preenche os restantes seis dias de um modo tão esmagador, ao ponto de conseguir esvaziar de sentido o único em que, supostamente, devia ganhar forças para a enfrentar.

A imaginação também é uma coisa assim: 405

Curta-metragem de Bruce Branit e Jeremy Hunt sobre o plausível, o impossível e o incrível ... como só no cinema é possível. O pormenor da intrépida e idosa condutora é mesmo a cereja no topo do bolo.


sábado, 21 de novembro de 2009

Ler poesia

Às vezes abria o livro na pág. 17 e lia o poema, quase a medo, como quem formula um desejo secreto ou uma breve oração:

Que os teus braços saibam sempre encontrar os caminhos do meu corpo...”

Agora, deste lado do muro intransponível que voluntariamente erguemos para cortar os caminhos que nos ligavam, abro o livro um pouco mais à frente, na pág. 26, e, com a minha voz, uma pequena clareira de som alastra no silêncio escuro da casa:

Invoco-te para preencher o vazio das noites em que a solidão morde o meu corpo magoado. E deito-me, inventando-te, no espaço preciso da tua ausência.”

E de novo o silêncio, impassível, se apodera de todo o espaço. Para não o perturbar, a voz dentro de mim prossegue a leitura na pág. 27:

“...Pedaço a pedaço, dedo a dedo, arranco-te de mim como se olhasse um filho abortado e choro-te, as lágrimas escorrendo dos olhos, nunca um pranto, de mansinho, um luto definitivo como quem se despede de um amigo para sempre. Para sempre."
(poemas de) Tito Lívio, Senhor, Partem tão tristes, 2002