quarta-feira, 8 de abril de 2015

ausência

Alandroal: 14/4/2013

reconheci-te nas desencontradas efabulações
dos alienados que vacilam pela cidade
no silêncio das ruas ermas onde o sol
se encosta às paredes caiadas para descansar
e no  vago olhar dos transeuntes anónimos

na luz espessa de maio
nas sombras esconsas dos caminhos de pé posto
e no luar que acende as noites de janeiro te encontrei

também te encontrei na dor sem remédio
dos cães largados à beira das estradas
na gargalhada solar das giestas floridas
e no canto telúrico das chuvadas de abril

e reconheci-te ainda na raiva
com que a rosa dos ventos
se desfaz contra as paredes da casa
na pristina contemplação das nuvens
que se demoram sobre o espelho apresado das águas
ou na urgência dos corpos entrelaçados
que julgam poder assim mitigar
a sede dos desertos já atravessados

mas só do teu desconhecimento
e da tua ausência
são feitos os meus versos

2 comentários:

Marilisa Crespo disse...

Estou encantada. A Francisca tem andado a esconder a sua escrita, que pecado...

Grato e emocionado abraço

Francisca M disse...

Grata fico eu, Marilisa...