sábado, 10 de dezembro de 2011

Os nossos tristes assuntos


Edward Hopper: Automat, 1927 (óleo s/ tela)


















tal como pedes eu trato
dos nossos tristes assuntos
já rasguei o teu retrato
e outro em que estávamos juntos.

e o anel que tu me deste
fui deitá-lo fora ao mar,
o vento soprava agreste
e não havia luar.

há-de ficar-te a lembrança
da nossa vida passada,
eu, perdida a esperança,
fico sem nada, sem nada.

fica tu com as mentiras
que te dizem estou bem
e outras mais que tu prefiras,
que as não digo a mais ninguém.

fico eu com as verdades
tão duras, sem exagero,
e angústias e ansiedades
e agonia e desespero,

fico eu com o vazio
da negra noite sem fim,
nem sei quem sou, tenho frio,
estou comigo e sem mim

não me conheço ao espelho:
serei eu? não serei eu?
já deixou de ser vermelho
um coração que bateu.

e assim eu me despedaço,
sem salvação nem socorro:
se não sou eu, me desgraço,
se sou eu, sinto que morro.

Vasco Graça Moura, In Poesia 2001-2005,
Lx: Quetzal Ed., 2006

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